Por Natalia Mori e Sônia Malheiros

 

Uma das fundadoras do Cfemea, Iáris Cortes, tinha uma equação muito simples para responder à quem lhe perguntasse “será que posso ser considerada feminista?” Iaris dizia: “Você pensa com sua própria cabeça? Sim? Então é feminista!”

Ou seja, você é capaz de tomar decisões sobre sua própria vida sem depender da opinião do marido, do pastor ou padre, de um familiar, do patrão? Consegue decidir qual a melhor escola para as crianças, como gastar seu salário considerando as responsabilidades familiares, se vestir sem precisar do olhar aprovador de mais ninguém, decidir por conta própria onde ir e com quem?

Num país majoritariamente feminino, ainda assim podemos ver como não somos autorizadas e encorajadas a pensar com nossa própria cabeça.

Em tempos de eleição, essa problemática volta a aparecer. Ainda podemos perceber como o patriarcado – esse poder machista que não considera que as mulheres são seres com capacidade autônoma e com direito às mesmas oportunidades que os homens – segue reprimindo e dominando a autonomia feminina.

Durante todo o século XX, as mulheres que lutaram por igualdade de direitos denunciaram o machismo na vida política. Foi necessário muita luta de mulheres como Alzira Soriano, Celina Guimarães Viana, Maria Ernestina Carneiro Santiago Manso Pereira. Leolinda Daltro, Bertha Lutz, Maria Lopes para que as mulheres conquistassem o voto e também para que este deixasse de ser familiar, leia-se, decidido e comandado pelo homem da família e para que as mulheres também pudessem expressar sua própria opinião na hora de escolher suas/seus representantes.

Tais lutas por igualdade política foram acompanhadas, durante todo o século XX, por outras lutas emancipatórias de centenas e milhares de outras mulheres que pensavam com suas próprias cabeças, como o direito de trabalhar fora de casa sem autorização do marido (pasmem, até o final dos anos 1980 isso ainda não era permitido – o Art. 466 da CLT, que fazia referência a essa autorização só foi expressamente revogado pela Lei 7.855/89, que alterou a Consolidação das Leis do Trabalho); o direito a estudar é outro que foi sendo alcançado aos poucos, em relação ao ensino superior, por exemplo, as mulheres no Brasil só foram autorizadas a frequentar a universidade no ano de 1879; a acessar políticas de planejamento familiar para poderem ter domínio de seus projetos de vida de quant@s filh@s, com quem tê-l@s e em que momento de sua vida ser (ou não) mães (Lei nº 9.263, de 12 de janeiro de 1996); igualdade de direitos para as trabalhadoras domésticas (Lei Complementar 150 de junho de 2015); direito a viver livre da violência de quem deveria nos amar (Lei nº 11.340/2006, lei Maria da Penha).

Para que as mulheres negras conseguissem se libertar da crueldade do escravagismo e criar fissuras também no racismo que segue sendo estruturante de nossas sociedades, a luta também foi e continua grande. Muitos são os exemplos dessas lutadoras, entre elas, Dandara dos Palmares, Teresa de Benguela, Luísa Mahin e Tia Simoa.

Para que sejamos respeitadas como seres pensantes em condições de igualdade com os homens, houve muitos avanços e conquistas dessas lutadoras donas de suas próprias cabeças!

Após séculos de lutas das mulheres contra o patriarcado e o racismo, chegamos nessas eleições em outro patamar e com outras condições. No entanto, para além de pensarmos em como as estruturas de dominação seguem firmes tentando interditar o exercício de nossa autonomia política e dificultando a eleição de mulheres, trazemos outras provocações, uma delas o espanto ao perceber o quanto ainda nessas eleições – que ocorrem sob o manto de um Golpe de estado – o poder patriarcal segue em pleno vigor.

Querem tirar nossa capacidade de pensar com nossas próprias cabeças. Por um lado, no âmbito familiar, as mulheres seguem pressionadas a seguir o voto do marido. Por outro, sendo convencidas de que suas vidas e autonomia não valem de nada – mesmo após séculos de luta de tantas outras mulheres – ao ponto de muitas ainda optarem por uma candidatura que afirma incisivamente que nós mulheres somos seres inferiores, não merecemos os mesmos direitos, temos de receber mesmo menos que os homens pelo mesmo trabalho.

Uma candidatura que banaliza a violência ao ponto de nos culpar pelos estupros que sofremos na rua, em casa, por um ou vários homens. Para conter nossa insistência de pensar com nossas próprias cabeças, a candidatura fascista defende a tortura como método e elogia torturadores - monstros perversos misóginos que, durante a ditadura militar, impunham sofrimentos inomináveis às mulheres, até pelas suas vaginas. Como diz Amelinha Telles, nós repetimos: tortura nunca mais!

Se há algo de positivo no meio dessa lama política que estamos vivendo é perceber como tem crescido a força feminista entre nós mulheres brasileiras, como temos conseguido resistir com nossas próprias cabeças, almas, corpos e vozes!

Toda a movimentação criada contra a expressão violenta e truculenta do não-presidenciável é uma forma diferente, libertária, feminista de intervir na política. Fomos capazes de convocar e reunir milhões de brasileiras (e brasileiros) em torno de uma pauta comum, em defesa da democracia e na luta por direitos nesse país.

Estamos cansadas de ser alvo de manipulação e massa de manobra política. Não aceitamos mais essa forma personalista, patrimonialista, corrupta, usurpadora do bem comum e da cidadania de se fazer política.

Essa força, independente do que acontecer neste domingo, já está no ar, nas ruas, em nossas veias, pulsante e vibrante em nossa sociedade. Não, não vamos retroceder. Não vamos aceitar e ser coniventes com senhores brancos representantes dos fundamentalismos militares, econômicos e religiosos que insistem em governar para si mesmos, que necessitam aniquilar quem pensa e atua de forma diferente, quem vive e trabalha exaustivamente para sobreviver neste país.

Nessas eleições, sejamos mulheres com capacidade de pensar com nossas próprias cabeças sobre que tipo de país queremos para nós mesmas, nossas famílias e noss@s filh@s. Sejamos a mudança que queremos provocar no mundo, a referência incansável de lutadoras para nossas filhas e filhos.

 

#EleNão! #ElesNunca! #BolsonaroNão! #DitaduraNuncaMais!

#HaddadeManuSim! #AgoraÉ13!

   
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