Priscilla Brito

Assessora do Cfemea

 

Não foi fácil entrar no Congresso Nacional no dia 3 de Julho de 2019, para entregar o resultado do debate feito poucas horas antes, no Tribunal das Mulheres sobre a ContraReforma da Previdência. Brasília é uma cidade de grandes distâncias. A casa do povo – o apelido anda caindo em desuso –, tem entradas por vários lados da Esplanada, embora não sejam visíveis e nem estejam preparadas para pessoas com restrições de locomoção. Mas em semana de votação da Reforma da Previdência, elas estavam ainda menos acessíveis.

Mulheres de diferentes regiões do país vieram apresentar suas análises e experiências sobre a piora das condições de vida no Tribunal das Mulheres sobre a ContraReforma da Previdência, que teve um público aproximado de 200 pessoas. Apesar das nossas lutas por condições mais dignas de existência, nossos direitos conquistados na Constituição nunca foram plenamente cumpridos, mas agora o seu sentido original também está sendo destruído.

A metodologia escolhida pelos movimentos que organizaram o Tribunal privilegiava relatos sobre a vida concreta. Neles, as mulheres viam a Reforma da Previdência como uma prova do interesse dos poderes em melhorar a vida das pessoas. Salvem os bancos, e o restante da população que morra numa fila de emprego ou de hospital. Chamar de Tribunal das Mulheres foi uma forma corajosa dos movimentos disputarem a ideia de Justiça. Afinal, ela não deveria ser uma instância de escuta? Os conflitos não deveriam ser mediados pensando no bem comum? E os direitos, não teriam que ser defendidos? Chega a ser estranho fazer essas perguntas com o Judiciário que temos, moldado pelos seus interesses de classe.

A sentença final condenou a Reforma da Previdência. Um manifesto simbólico em defesa da vida digna, dos direitos, da nossa liberdade – ideias que também parecem estar caindo em desuso no estado atual da democracia brasileira. Com essas ideias em mãos, as mulheres saíram da Tenda dos Trabalhadores em direção ao Congresso.

Em todo o caminho até lá, cerca dupla. As cerca de 70 mulheres deram voltas e voltas, até se concentrarem na entrada do Anexo 3, um dos acessos. Mesmo com agenda marcada na Subcomissão Especial de Seguridade da Mulher, a única solução foi negociar aos poucos com a segurança, com diferentes parlamentares mediando. Foram quase duas horas de espera. Entraram. Com suas cores, cartazes, gritos de revolta. Encenaram de forma humorada a política machista, que luta para conservar uma falsa moral sobre as mulheres, mas não conserva os direitos básicos conquistados. Do nosso lado, as deputadas de esquerda que lutaram bravamente para denunciar o absurdo da Reforma. Mas são os homens brancos e privilegiados pelas suas aposentadorias que dizem como devemos envelhecer e morrer: sem direitos, sem seguridade.

Não vencemos, porque a Casa do Povo não está disposta a nos ouvir. Não há um debate sobre viver com direitos e dignidade. Há uma agenda de interesses do grande capital internacional. A Reforma deve ser aprovada em segundo turno na volta do Recesso, nos próximos dias, e de lá seguir para o Senado. A divergência maior deve ser a inclusão de estados e municípios, porque todo mundo está de olho na reeleição, e a reforma “atrapalha” o apoio. Voltamos aos nossos estados, aos nossos movimentos, com o desafio de continuar lutando. Nós, mulheres, não vamos desistir.

 
 
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