Cem mil trabalhadoras brasileiras tomaram as ruas de Brasília em Marcha para lutar pela democracia e pela soberania popular.

 

Por Fran Ribeiro

Clique aqui para acessar a matéria original no site da Articulação de Mulheres Brasileiras

 

 

 

 

Quando mais de 90 ônibus eram esperados para chegar no Pavilhão da Cidade logo nas primeiras horas da manhã desta quarta-feira, 14 de agosto, a notícia evidenciou ainda mais a potência que a 6ª Marcha das Margaridas representa para o atual momento do país. As caravanas que chegaram hoje se somaram às tantas outras que vieram dos 27 estados do Brasil e de mais 20 países do mundo, nessa que é a maior manifestação organizada pelas mulheres da América Latina e que uniu, pelas ruas de Brasília, cem mil mulheres em defesa da soberania popular, da democracia, da justiça socioambiental e pelo fim da violência.

 

A ação, organizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG) junto às 27 Federações ligadas à ela e mais 16 organizações dos movimentos sociais de mulheres e feministas, teve início no dia 13. Na véspera da Marcha, foi realizado um dia de debates e oficinas que aprofundaram os eixos temáticos da Plataforma Política das Margaridas, performances musicais e teatrais, além dos lançamentos do Encontro Nacional da Juventude Rural e do Encontro Nacional dos Movimentos Feministas, ambos a serem realizados em 2020.

 

A agricultora familiar, trabalhadora rural do município de Batalha, interior do estado do Piauí, Maria José Morais, 36 anos, a Mazé Morais, da Secretaria de Mulheres da CONTAG e coordenadora geral da Marcha das Margaridas, estava emocionada e certa do impacto que a sexta edição da Marcha pode causar no processo de transformação social e na resistência dos movimentos de mulheres frente a um contexto político que desafia a organização da classe trabalhadora e das organizações populares.

 

“Só é possível mudar com essa organização e unidade dos movimentos. Não tenho dúvida que as mulheres vão sair daqui, dessa grande Marcha, muito mais fortalecidas, muito mais empoderadas para continuar na luta pelos direitos da classe trabalhadora, sobretudo das mulheres. O que a gente visualiza num momento desse, dessa conjuntura que a gente está vivendo, depois de tantas atividades, ações de massas que foram feitas, eu tenho certeza que a Marcha das Margaridas é a maior ação de massas latino-americana protagonizada pelas mulheres do campo, das florestas e das águas, e que se somam também as indígenas. O que a gente consegue visualizar é o fortalecimento dessas mulheres, porque somente juntas a gente vai conseguir barrar esse retrocesso que está aí, porque somos nós mulheres que saem mais penalizadas quando se tiram os direitos da classe trabalhadora”, avaliou Mazé.

 

A 6ª Marcha foi realizada dentro de um contexto de total falta de diálogo entre o movimento das trabalhadoras e o governo federal, completamente diferente do que aconteceu nos governos anteriores. Após a eleição de Bolsonaro e o todo o atraso que suas políticas representam para o conjunto da sociedade brasileira, as Margaridas definiram pela mudança no sentido da mensagem. Sem abertura para a participação popular nessa atual conjuntura, a Marcha das Margaridas teceu o tom da contestação e da denúncia do desmonte que o governo federal vem fazendo nas políticas públicas e nos direitos sociais.

 

Em contrapartida, a Marcha firma seu compromisso com a defesa da democracia ao lançar uma Plataforma Política com eixos temáticos que trazem propostas que solucionariam parte dos problemas causados pela desigualdade social promovida pelo modelo neoliberal. O modelo de sociedade da Marcha das Margaridas apresenta proposições em relação à democratização do acesso à terra, à saúde e à educação pública de qualidade, à previdência social, universal e solidária, o combate à violência contra as mulheres e ao feminicídio, em defesa da soberania e autonomia popular.

 

“Em todas as outras marchas a gente trazia uma pauta para dialogar com o governo. Nessa Marcha agora a gente não tem uma pauta, a gente tem uma Plataforma Política que foi construída a partir de vários debates com base em dez eixos temáticos. A partir daí, a gente construiu e hoje tá aqui, pra mostrar para toda sociedade, pro Brasil e pro mundo, qual é esse modelo de sociedade que as Margaridas defendem, que não é esse modelo que tá aí, que esse governo tá querendo empurrar goela adentro à toda classe trabalhadora”, denunciou a sindicalista.

 

Para Eleonora Menicucci, Ministra de Políticas para as Mulheres do governo Dilma, militante feminista e professora da Escola Paulista de Medicina, o caráter político da Marcha das Margaridas é a resistência contra a violência, o genocídio, a tortura e todos os outros crimes de ódio que atingem diretamente as mulheres e a história de milhares de militantes que vieram antes para que hoje tivéssemos os direitos que o fascismo presente na atual gestão do governo federal quer acabar.

 

“Essa Marcha é um momento especial, simbólico, histórico para mostrar que as mulheres estão na frente da resistência contra o fascismo, contra a violência, contra a perda de direitos e contra a ditadura implementada pelo Bolsonaro e pela defesa do Estado Democrático de Direito. E nós temos certeza, eu tenho e as mulheres também, que a democracia só volta ao nosso país com a liberdade do Lula. E nós estamos aqui pra dizer que nossos corpos nos pertencem, a terra é das mulheres e nós por isso defendemos a soberania nacional, que é fundamental. E eu quero ressaltar que as pessoas que estão no poder são coniventes com os crimes da ditadura, com as torturas, com as violências, e eles defendem esse governo. E é por isso que as mulheres estão aqui. Para dizer basta, basta de violência, basta de feminicídio”, declarou Eleonora.

 

Em sua primeira Marcha das Margaridas, Natália Cordeiro, militante feminista do Fórum de Mulheres de Pernambuco ressaltou a diversidade, a potência, o aprendizado que a organização das trabalhadoras rurais traz para o movimento de mulheres brasileiro, o que fortalece o feminismo como ação política de incidência na transformação social.

 

 “A gente que vem de uma região metropolitana para se somar na luta das companheiras, entendendo que essa Marcha é protagonizada pelas trabalhadoras rurais, eu acho que é um aprendizado imenso, fortalece muito e nos conecta com as realidades diferentes das mulheres. Lembra a gente a diversidade que compõe isso de ser mulher. E fortalece, porque, quando a gente tem um evento desse tamanho, que junta tantas mulheres de tantos contextos, de tantas realidades do país inteiro, eu acho que dá a dimensão de como o feminismo é potente, de como as mulheres juntas é uma potência”, avaliou Natália.

 

 

 

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* Fran Ribeiro integra SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia. Este texto faz parte da cobertura colaborativa realizada pela Coletiva de Comunicação da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), em parceria com Universidade Livre Feminista (ULF) e Blogueiras Feministas, organizada especialmente para cobrir a Marcha das Mulheres Indígenas e Marcha das Margaridas. 

 

Expediente: Coordenação Geral: Cris Cavalcanti (PE); Texto: Fran Ribeiro (PE), Gabriela Falcão (PE), Carmen Silva (PE); Laura Molinari (RJ), Carolina Coelho (RJ), Raquel Ribeiro (RJ), Angela Freitas (RJ), Rosa Maria Mattos (RJ), Milena Argenta (DF) e Priscila Britto (DF); Fotos: Carolina Coelho; Vídeo: Débora Guaraná (PE), Milena Argenta (DF) e Cris Cavalcanti (PE); Edição: Coletivo Motim; Diagramação: Débora Guaraná (PE), Bibi Serpa, Cris Cavalcanti (PE); Sites e Redes Sociais: Cristina Lima (PB), Thayz Athayde (CE), Cris Cavalcanti (PE), Analba Brazão (PE), Emanuela Marinho (PE) e Luna Costa de Oliveira (RJ); Produção: Mayra Medeiros (PE) e Masra Abreu (DF).

 

 

 

 

 
 
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