Mesmo com autonomia financeira, muitas mulheres ainda são capturadas por armadilhas emocionais.

Atenta aos discursos de gênero nas redes sociais, alguns vídeos me chamaram a atenção. É sobre eles que quero escrever e aprofundar alguns discursos, descortinando estratégias milenares do Patriarcado, que joga com as emoções das mulheres.
No primeiro vídeo que circula no Instagram, um homem está sendo levado à delegacia após agredir a companheira. Quem chamou a polícia foram as amigas, não a vítima, que aparece chorando. Ele, então, vira para a mulher em prantos e diz: “Você vai me deixar ir sozinho? Você vai me abandonar? É isso?”.
Repeti esta parte várias vezes. E respondi para mim mesma: “É isso”. O homem agride, é denunciado, deixa a mulher em pedaços e ainda tenta ativar nela sentimentos de culpa e de compaixão, revertendo a situação a seu favor.
Quem a impediu de dar um passo à frente para dar as mãos ao seu agressor e “protegê-lo” de si mesmo foram as amigas, que responderam por ela, naquele momento, e serviram de escudo e voz da sensatez. Ele estava lhe dizendo: “Você, mulher má, tem a coragem de me denunciar ao invés de proteger, cuidar, amar, servir e, neste caso, me acompanhar?”.
No segundo vídeo, a mãe de uma criança, vítima de abuso sexual pelo próprio pai, expõe um áudio em que o homem chora, diz que sua vida foi destruída, que não sabe o que fazer e pensa até em dar fim ao próprio sofrimento. Novamente, a estratégia de mobilizar afeto e de tocar a “sensibilidade feminina” é ativada. Ainda bem que a mulher não cedeu, como muitas ainda fazem ao se deixarem tocar e inundar pelo sentimento de culpa.
E, o terceiro vídeo, mostra exatamente como mulheres são induzidas, diariamente, a este afeto para manter intacto o Patriarcado.
Um médico filma o momento do ultrassom da sua paciente e diz que ela está passando por um momento difícil, pois descobriu a traição do marido em meio à gestação. A mulher, que não aparece, conta que ficou despedaçada, mas a criança, uma menina, é o motivo de seguir adiante. O homem, numa posição de poder, diz o seguinte: “Agora tem que buscar paz, perdoar, manter a família unida”.
Voltei novamente a esta fala e a raiva tomou conta de mim. Como uma mulher, que está ali com o coração partido, ainda recebe a tarefa de ser responsável pela união da família, pela paz no lar? Um filho no ventre para carregar e uma tonelada de culpa nas costas caso ela não perdoe a traição, a quebra de confiança, a deslealdade do companheiro.
Homens, homens, homens. Em todos os lugares onde estamos, tentam nos devolver ao lugar da aceitação, da resignação, em nome de Deus, da família, dos filhos ou do próprio bem-estar. “Por minha culpa, minha tão grande culpa”, diz o credo da Igreja Católica.
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Há alguns anos escrevi um texto chamado Pela memória de minha mãe Alice para o portal Geledés – Instituto da Mulher Negra, relatando a curta trajetória de vida da minha mãe, que morreu aos 35 anos, e como o Patriarcado a feriu, a difamou, a despedaçou e continuou espalhando os seus pedaços para que as gerações sucessivas vissem o seu poder.
Então, um primo, o mais machista da família, que sempre controlou a virgindade das mulheres, difamou as que a “perdiam”, as que se divorciavam, que controlou a esposa como um animal domesticado, que a traiu e se coloca como guardião da moral e dos bons costumes, escreveu-me para dizer que eu não deveria ter escrito o texto, que cabia a Deus julgar as coisas.
Respondi-lhe que não faço julgamento, afinal, não sou credente, o que faço é análise, é reflexão. Não satisfeito com a minha resposta, vendo que o discurso religioso não colaria, ele foi mais “sofisticado”. A sua frase seguinte foi: “Eu estou muito triste com você”. Esta fala tem alguns problemas que gostaria de analisar.
O primeiro é que ele estava convencido de que a sua suposta “tristeza” era um problema meu, que eu me responsabilizaria por ela. Mas, de novo, a estratégia caiu quando lhe respondi que não era algo para eu resolver, que ele procurasse ajuda. Devolvi-lhe o afeto que ele tentou jogar nos meus braços para que eu cuidasse dele.
Nós, mulheres, fazemos isso o tempo todo: nos responsabilizamos pelo cuidado e bem-estar dos homens, e eles sabem que podem jogar com isso.
Bem, a terceira estratégia, então, foi tentar tocar-me no ego. A frase foi: “Você é uma mulher muito inteligente, culta…”. Nesse momento, ele queria aproximar-se mais, se fazer de aliado, para depois conseguir o que queria: dissuadir-me a expor os homens da família, o que o incluía. Agradeci pelo elogio dizendo: “Sim, sou mesmo”. Quando ele percebeu que nada, nenhuma chantagem funcionava, bloqueou-me.
Tenho levantado o debate entre as pessoas antirracistas sobre a violência de gênero, implicando os homens negros. Minha nossa senhora protetora do Falo! As mulheres negras me atacam com tudo. Uma delas, usando a culpa, respondeu: “Nós temos filhos negros”. Essa foi pesada! Usar os filhos para dizer que não podemos falar que os homens negros também são machistas, agressores de mulheres e feminicidas é golpe baixo.
A maternidade é a zona que mais mobiliza culpa e usar este argumento é pegar a mulher negra no ponto mais baixo. Matar no peito, literalmente!
Respondi-lhe que homens, sejam eles brancos ou negros, jamais usam o argumento, “temos filhas” para inibir, censurar ou impedir uma fala misógina, um comportamento machista de outro homem. Não, não, porque a paternidade não mobiliza culpa, a maternidade, sim.
Assim, os homens (e as mulheres) continuam usando o que o Patriarcado criou: a mulher emocional, a mulher sensível, a mulher que se sacrifica pela família, a mulher boa, para continuar dominando.
Feministas são unânimes em dizer que a emancipação da mulher passa pelo trabalho, pela independência econômica dos homens. O que ainda falta muito para entender é que, mesmo trabalhando, mesmo independentes, as mulheres são pegas em teias mais profundas: aquelas das emoções, criadas por um sistema, o mesmo que dividiu o trabalho com base no sexo e que, para além da base material, domina as emoções das mulheres.
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fonte: https://catarinas.info/como-homens-mobilizam-a-culpa-a-compaixao-e-a-sensibilidade-feminina/









