Polêmica em torno da fala de Lula convida a refletir: por que as forças progressistas, que por décadas lideraram lutas contra o racismo e o patriarcado, sentem-se intimidadas diante destes temas? Há novas sinergias possíveis?

OutrasPalavras

Publicado 06/02/2024 às 18:56

Obra do muralista Kobra

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Uma fala recente do presidente Lula em um evento petista para celebrar a “refiliação” de Marta Suplicy, escolhida como vice para a chapa de Guilherme Boulos à prefeitura de São Paulo, foi bastante divulgada ao longo dos últimos dias. Nela, Lula falava da necessidade de “lideranças reais” para candidatos a vereador pela legenda, criticando aqueles que queriam ser candidatos apenas por serem “branco”, “mulher”, “negro”, “indígena”.

Causou espanto em muitos de seus apoiadores, defensores de bandeiras de minorias políticas, assim como curiosas reações indignadas de grande parte de seus adversários, que nunca ligaram ou até abertamente menosprezaram e combateram tais pautas.

Pode-se defender Lula argumentando que sua fala expressava preocupação legítima com a tomada de espaço do partido por candidatos artificiais, sem inserção orgânica em qualquer coletividade, utilizando-se apenas de algum indicador social minoritário (sexo, cor, religião, orientação sexual etc.) para angariar apoio político e almejar posições políticas sem contar com lastro popular para tanto.

Os críticos, por sua vez, apontam que, se não fossem as candidaturas de mulheres, negros, LGBTQIA+ etc., a esquerda não renovaria suas bancadas e se ossificaria, pois são precisamente estes temas que mais mobilizam a opinião pública e o eleitorado progressista nos últimos tempos.

Por trás de todo esse debate, há uma palavra que vem sendo usada com bastante frequência, geralmente de forma pejorativa: o “identitarismo”. Afinal de contas, o que seria isso? Por que paixões tão demarcadas vêm se mobilizando ao redor deste enigmático significante?

A polêmica entre as duas esquerdas

De modo geral, é possível dizer que, entre uma miríade de posições intermediárias e cheias de nuances, há duas reações típicas ao crescimento, visto desde a última década, da importância das temáticas abarcadas genericamente sob o guarda-chuva dos “debates de opressões” ou “minorias”.

A primeira é marcada por um rechaço a essas novidades, vistas como perniciosas por afastar a esquerda dos sentimentos e inclinações mais populares. Segundo esta versão, ao enfocar pautas comportamentais de vanguarda (muitas vezes com apelo em setores mais elitizados), frequentemente em choque contra tabus religiosos ou morais, haveria um distanciamento cada vez maior entre o trabalhador “tipo-ideal” e o campo político progressista. Em suma, enquanto jovens universitários com moral californiana se empolgariam com este tipo de política, o trabalhador religioso, moralmente conservador e com preocupações mais comezinhas (salário, emprego, serviços públicos) tenderia a se afastar.

Há, frequentemente, nesta posição, um tom nostálgico, lamentando o desaparecimento de uma esquerda clássica – pró-mundo do trabalho e anti-imperialista –, cujo ideal deveria ser resgatado. Também acontece de este tipo de posicionamento transformar a complexa heterogeneidade constitutiva da classe trabalhadora brasileira em um fetiche (eis a ironia!) identitário, moldado em um emblema antiquado do operário médio, como se todo habitante das periferias ou trabalhador de chão de fábrica fosse necessariamente conservador e não houvesse, também, demandas feministas, referentes às múltiplas sexualidades dissidentes à hetero e cis-sexualidade ou de identidade negra ou indígena, entre a população mais pobre e explorada.

Como subsídio crítico a reforçar tal nostalgia aparece a denúncia frequente de haver um interesse por parte de fundações de bilionários estrangeiros em financiar ONGs e projetos de pesquisa que servissem para fragmentar o tecido social brasileiro e diluir o potencial político radical da esquerda brasileira através da importação de debates de minorias moldados ao estilo norte-americano, no qual inclusão social e diversidade sexual e racial se coadunam com o capitalismo financeiro mais desbragado e imperialista.

A outra posição é a que não apenas reconhece a validade dessas múltiplas demandas, mas as celebra como algo radicalmente novo, enterrando de vez qualquer perspectiva classista e anti-imperialista (visto, muitas vezes, como um rescaldo dinossáurico da Guerra Fria) ou projeto de transformações econômicas mais estruturais, temáticas identificadas como antiquadas e ligadas a um apego ao passado.

Não raramente esta apologia novidadeira recai em alguma forma de ruptura com o marxismo e projetos políticos socialistas, chegando algumas vezes ao ponto do combate aberto. Neste caso, o entusiasmo com novas lutas sociais encobre a defesa de estruturas muito mais velhas que qualquer esquerda: a propriedade privada e os negócios dela derivados, agora com mais colorido e corretismo político.

Apesar de algo caricaturais, creio que estas duas vertentes delineadas expressam tendências políticas reais. Há, de fato, uma modulação do debate dentro da esquerda em torno desses dois vértices. Como praticamente em todo caso demais codificado por binarismos rígidos e simétricos, é preciso achar um caminho diagonal – que não seja o mero compromisso ou o ecletismo débil – e transversal a estes dois desvios, se me permitem o vocabulário antigo e um tanto suspeito.

De imediato, já podemos excluir a pertinência desta dualidade esquemática ao nos lembrarmos que o vanguardismo feminista (e artístico) caminhava lado a lado com a prioridade à reorganização socioeconômica radical entre os bolcheviques nos primeiros anos de Revolução Russa (simbolizado por nomes como Alexandra Kollontai) ou que o PCB foi não apenas o primeiro partido a ter um presidenciável negro (Minervino de Oliveira) como também pioneiro em legislações para os negros e religiões afro-brasileiras, até então (e ainda hoje) muito perseguidas. Bandeiras como a criminalização do racismo, a importância de creches e lavanderias públicas e o fim de formas arcaicas de subjugação da mulher pela estrutura patriarcal foram prioridades em praticamente todas as revoluções do século XX desde seu início, com a Revolução de Outubro. Sobretudo, é fundamental lembrar o enorme peso que a temática contra a opressão racial desempenhou nas revoluções anticoloniais da periferia, muitas vezes dirigidas por comunistas negros como Amílcar Cabral ou Samora Machel. Reconstruir esta memória é tarefa intelectual da mais importante urgência e importância.

Os dois movimentos das identidades

É preciso começar do começo: afinal, o que é uma identidade? Podemos defini-la como uma estrutura invariante ao longo do desenvolvimento da subjetividade de cada vida humana. Assim, eu não deixarei de ser são paulino, cidadão brasileiro ou homem ao longo da minha vida. Também é certo que vários outros costumes, ritos, crenças etc., apesar das imensas mudanças que uma vida comporta, continuam relativamente estáveis e previsíveis.

A partir disso, podemos considerar dois movimentos subjacentes à estabilização de uma identidade. Um primeiro movimento visando a afirmação da identidade contra tentativas de assimilação ou perseguição, e um segundo movimento envolvendo a dilatação da identidade, incluindo o elemento invariante em uma rede de novas criações e possibilidades. Explico melhor a seguir.

Peguemos o exemplo do imenso contingente de nordestinos que vieram a São Paulo, em viagens extremamente penosas e em condições heroicas, para serem empregados como mão de obra bastante explorada na indústria e construção civil em plena expansão na segunda metade do século passado. Há, entre os habitantes dos vários estados do Nordeste, diferenças culturais significativas, e seria extremamente redutor enquadrá-los num todo homogêneo. No entanto, frente à opressão xenofóbica e agressões variadas contra qualquer “baiano” ou “cabeça chata”, um movimento de defesa de identidade e tradições culturais nasceu em solo paulistano. Para preservar orgulhosamente suas origens e tradições contra tentativas agressivas, criam-se comunidades unidas por este vínculo com o Nordeste na capital paulista. Podemos imaginar centros culturais e instituições diversas voltadas à identidade nordestina ou mesmo bairros inteiros dominados por esta identificação (vejam o caso de São Miguel Paulista).

Evidentemente, este tipo defensivo de identidade, é um mecanismo válido e positivo, exercido por qualquer subconjunto unido por um predicado de exclusão ao longo da História. Desta forma, contra tentativas de assimilação à identidade nacional, judeus europeus frequentemente preservaram seus costumes, ritos e até uma língua própria (o ídiche), o que constantemente alimentou a fúria do antissemitismo. Contra o imaginário racista que exclui qualquer traço de historicidade das civilizações antigas que compõem o continente africano, identificando a História universal à história do continente europeu, é compreensível a busca pelo estudo das origens de impérios (como o etíope, referência na cultura rastafari) e culturas milenares por parte de filhos da diáspora africana, o que, fora deste contexto defensivo, poderia soar como apego reacionário ao passado. Da mesma maneira, as perseguições aos árabes e islâmicos emigrados na Europa atual, ao contrário de enfraquecer, estimulam o apego a traços da identidade originária.

Podemos concluir, portanto, que a perseguição ou tentativas de assimilação e apagamento levam à defesa do sentido “exclusivo” e fechado das identidades, como mecanismo de proteção. Não seria correto ver nisto um particularismo reacionário, já que se trata de evitar o esmagamento cultural imposto por práticas de segregação e opressão.

No entanto, há um outro movimento em jogo na nossa situação tomada para fins ilustrativos. Além da existência de afirmação de uma identidade própria do nordestino em São Paulo, há o movimento de expansão e dilatação da identidade, criando nesta situação algo qualitativamente novo. Assim, sabemos que mesmo a culinária, a música e a religião originais são adaptadas, bebem de outras influências e configuram inovações que não se contentam em repetir o que já foi transmitido, já que o adjunto adverbial de lugar em São Paulo faz toda a diferença. Trata-se não apenas de uma preservação, mas de uma criação originada do contato da identidade original com um novo contexto.

Este jogo dialético dos dois movimentos nos fornece o quadro para encarar o problema visado: como as identidades se relacionam com a política. Podemos, em regra geral, definir que um processo emancipatório visa garantir que o caráter expansivo da identidade subordine o aspecto exclusivista desta. No entanto, isto só se torna possível caso as hostilidades e práticas discriminatórias sejam erradicadas. Sabemos como o menosprezo com estas questões podem gerar efeitos catastróficos na história das organizações de esquerda.

Uma política universalista e igualitária – a única que merece ser levada a sério como matéria pro pensamento e engajamento criativo – não exclui as diferenças (afinal de contas isto é a matéria-prima de tudo que existe) mas também não tem objetivo circunscrito e definido a partir de alguma delas. Mesmo o proletariado do qual falava Marx – e este é um erro comum inclusive entre muitos de seus intérpretes – não tem um significado marcado apenas por uma delimitação socioeconômica: a possibilidade de libertação de todas as classes, seu universalismo definido a partir da negação predicativa (é a classe que não tem nada a perder, por ser não-proprietária) é o substrato filosófico que não deve ser perdido de vista, mesmo por aqueles que destacam mais a ruptura que a continuidade entre Hegel e Marx.

No entanto, um universalismo que não se engaja no atravessamento do maior número de diferenças possíveis – isto é, que não testa sua força a partir da capacidade de lidar com múltiplas identidades – se transforma em pura abstração sem efetividade. Contra o culto às particularidades fechadas devemos sustentar o (hoje tão vilipendiado) universalismo. Com um adendo importante: para este universalismo constituir de fato uma força política viva não podemos considerar pautas contra o racismo, a misoginia etc. como destituídas de importância, sob pena de o processo universalista vir a colapsar. O sucesso do universalismo é o atravessamento local de alguma nova identidade, incorporada ao seu processo.

Vejamos isso, mais concretamente, a partir de uma série de identidades: raça, nação, sexo, classe e aquela mais ignorada, mas mais fundamental, base do nosso celebrado “individualismo moderno” – o Eu.

Exemplos de usos reacionários e usos emancipatórios das identidades

Para demonstrar que a questão “identitária” não se resume apenas aos temas que mais causam polêmica atualmente, mas também envolvem predicamentos “clássicos” como a pertença nacional e a classe social, me utilizarei de exemplos que demonstram como há fundamentalmente dois métodos de encarar as identidades em processos políticos: um subordinando o exclusivismo identitário ao universalismo, portanto considerando principalmente a dimensão criativa e dilatadora das identidades; e outro visando não apenas ignorar o universalismo, mas combatê-lo a partir do uso hipertrofiado e fechado de alguma identidade rígida. Poderíamos até mesmo simplificar grosseira e brutalmente (como às vezes é necessário em política): um caminho comunista ou fascista. Trata-se, portanto, não de uma questão do conteúdo em si de cada identidade, considerado como algo positivo ou negativo a priori, mas do procedimento pelo qual tais identidades são consideradas e articuladas em um processo político composto por organizações e movimentos.

Comecemos com a nacionalidade. Algo curioso por trás das críticas mais estridentes ao “identitarismo” na internet vem do fato de se originarem de grupos abertamente nacionalistas. Ora, a nação nada mais é que uma identidade! Não é à toa que grupos europeus com origem no fascismo chamam a si próprios de “identitários”, não vendo nada de ruim nisto. Na França, grupos vindo de teorias etno-nacionalistas e anti-imigração fazem parte do chamado “mouvance identitaire”, havendo até mesmo uma organização chamada Les Identitaires, da qual saiu a Génération identitaire¹.

No entanto, por acaso alguém recusaria a defesa do povo palestino hoje, com o argumento de que se trata de um nacionalismo identitário? Apesar do internacionalismo ser a base de qualquer projeto emancipatório, não seria razoável supor que um processo de libertação nacional contra ocupação militar seja a mesma coisa que um uso de temas nacionalistas para expansão colonial ou agressão estrangeira, como se dá em guerras de conquista. A divisão é clara: o tema “nacional” mobilizou milhões de pessoas esmagadas pelo nazismo, querendo preservar não apenas suas vidas, mas sua herança cultural e linguística (pensemos na Resistência francesa, na qual mesmo nacionalistas de direita como De Gaulle tiveram papel importante) de um modo não análogo ao uso dos predicados nacionais na retórica nazista ou fascista. Seria um doutrinarismo abstrato considerar que em todo caso se trata de “nacionalismo” e, portanto, de algo negativo.

A diferença reside no seguinte: a identidade nacional indica algum devir no sentido de uma possível não dominação, ou libertação humana, isto é, aponta para a afirmação da igualdade universal da humanidade contra as diversas hierarquias, segregações e exclusões desigualitárias que a afligem? Ou, pelo contrário, ela visa reforçar as tendências desigualitárias que constituem a base de nossa miséria?

Podemos perceber que a consideração concreta do tema nem sempre é clara, por mais que os princípios sejam, pois mesmo o fascismo se utilizou de uma retórica “anti-imperialista” para justificar seu nacionalismo. No entanto, vários fatores podem nos guiar contra o erro: seu apelo “libertador” era apenas uma justificativa para anexar violentamente colônias na África e perseguir não apenas povos distintos como frear o avanço da ameaça internacionalista principal: o movimento operário conquistado por ideias comunistas.

De qualquer forma, a história nos ensina tanto os perigos do nacionalismo contaminar processos de potencial emancipatório (a deriva conservadora de vários movimentos anticoloniais e mesmo socialistas é conhecida) quanto da negação abstrata dessa identidade nas questões políticas gerar apenas reforços das identidades atacadas. Para ilustrar este último caso, lembremos do desprezo obtuso da URSS, em seu período menos glorioso, ao desconsiderar identidades nacionais dos países do “campo socialista”, a ponto de relativizar até mesmo suas soberanias – a doutrina Brejnev teorizava isso pelo nome de “soberania limitada”. O resultado foi só o reforço de sentimentos nacionais arraigados contra as imposições de cima, indicando a ocorrência daquele primeiro movimento protetivo que esbocei acima.

Pode-se pensar também em situações homólogas em outros campos

No caso da raça: o movimento negro norte-americano se dividiu entre tendências que aspiravam a uma unidade com as lutas de libertação e com a classe operária (os bons momentos dos Panteras Negras, por exemplo) e tendências que visavam reforçar a segregação e separatismo, às vezes até em concordância com “nacionalistas brancos”. Ninguém acha que a Libéria é um exemplo de qualquer coisa apenas por ter sido fundada por negros nacionalistas, imagino.

Passemos ao gênero. O movimento feminista se vê confrontado por tendências burguesas, que utilizam a justa pauta da libertação da mulher até mesmo para justificar típicas atividades imperialistas, como a invasão militar e bombardeio aéreo de capitais milenares – é o conhecido exemplo da Hillary Clinton, infame mas bastante contundente, ou das feministas francesas que fizeram campanhas a favor de leis discriminatórias contra o “véu” das meninas islâmicas nas escolas. Graças ao Wikileaks, sabemos também a CIA utilizou o feminismo como arma de guerra na exportação de sua “democracia” para o Oriente Médio². De fato, apesar do feminismo ser um movimento de sentido emancipatório que deve ser defendido contra todas as tradições patriarcais reacionárias, é justo dizer que, juntamente com o tema da “liberdade sexual”, virou um componente propagandístico do senso de auto-engrandecimento e superioridade “ocidental” contra povos tidos como não civilizados.

Nem a temática de “classe social” está blindada à captura por motivos identitários reacionários. Afinal de contas, até mesmo o fascismo tinha seus próprios sindicatos e aparelhos operários. Sabemos muito bem como uma potencial subjetividade “obreirista”, por exemplo, há muito tempo é um dos desvios tidos como mais clássicos entre o movimento comunista – é um balanço oficial e praticamente unânime contra a fase “Terceiro Período” do PCB na segunda metade dos anos 20. A demagogia contra intelectuais, a reivindicação de uma identidade operária “pura” contra outros setores sociais potencialmente aliados, o interesse puramente corporativo e econômico contra temas “políticos”, a recusa à política “de fora”, todo este estreitamento gremial de visão é uma forma de evitar qualquer consequência potencialmente universal à ação do movimento operário, manifesto tanto em versões radicais e anarquistas quanto em versões “pragmáticas” e tradeunionistas (para falar como Lenin) – não à toa na história de uma mesmo organização como a CGT, principal central sindical da França, ambas as inflexões tenham obtido proeminência.

Por fim, o que falar do indivíduo, esta célula elementar básica da subjetividade e liberdade, tão celebrada e fetichizada como uma conquista moderna do Ocidente? Não seria exato dizer que o comunismo é incompatível com o individualismo, já que um dos motivos principais para lutar contra a sociedade atual decorre justamente da ausência de liberdades elementares básicas e das incontáveis possibilidades individuais bloqueadas não só pelos grilhões do capitalismo e das enormes desigualdades decorrentes dele mas pelas estruturas tradicionais, familiares e comunitárias milenares que sobrevivem. Quantos intelectuais, artistas, cientistas, políticos, esportistas, personalidades brilhantes não perdemos por conta do sistema econômico atual? E, mesmo assim, o uso do Eu também pode ser um perigo (e frequentemente o é) na vida política: o egoísmo indiferente às consequências coletivas, o carreirismo selvagem (norma aceita da vida ordinária de praticamente toda ocupação profissional), a auto-adulação, o arrivismo ao estilo personagem de romance de Balzac, o desejo de aparecer e brilhar a qualquer custo etc., não constituem os fenômenos mais basilares da ideologia dominante? Não foram poucas as organizações políticas a serem corrompidas por práticas (na maioria das vezes espontâneas e irrefletidas) do tipo. A defesa enfática da “liberdade” do indivíduo de falar qualquer coisa e fazer o que der na telha, com efeito, é um componente importante do discurso da extrema-direita contemporânea, e vimos as consequências desastrosas e mortíferas disto na pandemia recente.

Então, qual a conclusão? Permita-me repetir: trata-se, sobretudo, de diferenciar dois usos das identidades na vida política.

Há o modo “cada um no seu quadrado”, que pode até defender a coexistência de identidades diferentes, desde que elas estejam estritamente separadas por protocolos bem delimitados, mas que sempre abarca o extermínio da alteridade como potencialidade. É o caso da corrente “etnopluralista” vinda de fascistas mais atualizados e pós-modernos da Europa, como Alain de Benoist. Reconhecem e celebram a validade e o mérito da identidade de negros, por exemplo, ao contrário dos racistas do passado, desde que não imigrem para terras europeias, fazendo até alianças com intelectuais africanos racialistas e anti-miscigenação, como Kémi Seba. Nesse caso, o aspecto “defensivo” e exclusivista subordina o movimento de dilatação da identidade.

O outro modo, não apenas diferente, como antagônico ao primeiro, enxerga a identidade como algo a ser atravessado pelo poder do universal. E este caminho envolve um combate em duas frentes – no fundo, objetivo principal deste texto: nem o desprezo da esquerda “anti-identitária”, nem celebração de identidades fechadas e exclusivas sem projeto global. Ambos caminhos, aliás, geralmente movidos por um mesmo tipo de subjetividade extremamente eleitoreira e de visão curta.

Sobre o vitimismo contemporâneo

Antes de encerrar o texto, adicionarei um toque polêmico suplementar a respeito das consequências que certo uso do tema das identidades de gênero, sexualidade e etnia produz na cultura política da militância de esquerda.

Em primeiro lugar, é preciso sublinhar a importância que o tema da “diversidade” ganhou tanto no ambiente corporativo (só ver o que se designa por trás da sigla ESG, o modelo de “governança corporativa” da maioria das multinacionais e bancos) e midiático, acadêmico e institucional, causando pavor entre reacionários e intensificando seus delírios conspiracionistas contra o “marxismo cultural”, ideologia “woke”, “globalismo” e outros fantasmas.

Basta pensar, por exemplo, na Rede Globo. Se há pouco mais de dez anos atrás Ali Kamel, seu diretor geral de jornalismo por muitos anos, escrevia um livro panfletário para negar que o Brasil era racista (e argumentar contra as cotas raciais), hoje, a emissora promove “empoderamento” de minorias e se preocupa com temáticas de uma classe média mais consciente e sensível às opressões, ao mesmo tempo que continua apoiando violência policial nas favelas, matança de palestinos ou austeridade para os pobres. Uma das consequências algo cômicas deste fenômeno é ver o Luciano Huck, notório símbolo – competindo com Pedro Bial ou Thiago Leifert – do mauricinho pasteurizado, invariavelmente defendendo as opiniões mais óbvias e dominantes, compartilhando conteúdo sobre a comunista negra Angela Davis no ex-Twitter.

Abrem-se, com isto, inúmeras oportunidades de carreira e ascensão fulminante a representantes de minorias em busca de sucesso financeiro e fama, de palestras bem remuneradas a cargos corporativos, passando por educação de burgueses que não querem mostrar ignorância, falta de educação ou de boa consciência. Para muitos ricos, ser politicamente correto nesses temas é uma obrigação de etiqueta, tal como as regras e condutas com os talheres ou na recepção de visitas, gerando nichos de mercados cada vez mais promissores cada vez que novas categorias, segmentações e termos da moda são introduzidos. Trata-se de um problema com o qual organizações terão cada vez mais de lidar: além dos carreirismos e arrivismos parlamentares, já há muito tempo conhecidos, há mecanismos cada vez mais sofisticados e capilarizados de cooptação.

Outro ponto merecedor de atenção diz respeito ao papel que o estatuto de vítima passou a ganhar na cultura militante. Alega-se frequentemente que o mero fato de ter sido vítima de algo autoriza desde privilégios excepcionais (como poder de acusação e julgamento sem direito de defesa) até dádivas epistêmicas automáticas (uma espécie de sabedoria primitiva suprarracional), decorrentes meramente da condição de fazer parte de um subconjunto que é ou já foi vítima de algo.

A matriz universal desse tipo subjetivo é Israel. A memória das vítimas reais do Holocausto é frequentemente invocada para autorizar que o país se arrogue no direito de desrespeitar qualquer direito internacional ou mesmo de ser meramente criticado (sob a chantagem permanente da acusação leviana e pesada de antissemitismo), o que seria um direito basilar e ordinário contra qualquer outro Estado. O estatuto de vítima é brandido (mesmo quando do outro lado, massacrado, há 10 mil crianças mortas em poucos meses) como licença para uma colonização militar de uma brutalidade e morticínio ímpares.

A combinação de vitimismo legitimador de qualquer arbítrio com falta de responsabilização e senso de impunidade está presente, em escala micro, em boa parte do ativismo presente nas redes sociais ou meios universitários. As competições para ver quem é mais oprimido ou sofrido e a legitimação de qualquer barbaridade – como uma crescente cultura da delação digital descontrolada – pelo axioma “a vítima tem sempre razão”, produzem um espaço fértil para charlatões ou oportunistas explorando pânico ou sensacionalismo moral, a fim de acertos de contas mesquinhos ou pura eliminação de concorrentes indesejados via ostracismo moral.

Além da cultura da intriga e da delação, sem qualquer controle pelo ambiente propício à difusão de rumores – quanto mais escandalosos e “quentes”, melhor –, este estilo de militância que arroga privilégios de promotor e juiz universais a quem quer que reivindique o estatuto real ou imaginário de vítima estimula a impotência subjetiva, o que é precisamente o oposto da militância. O marxismo se destacou e se destaca não pelo culto ao sofrimento das vítimas (no que as organizações religiosas e mesmo o meloso telejornalismo humanitário conseguem fazer muito melhor), mas por transformar os fracos em fortes. A força, a potência, a violência revolucionária, se preciso, daqueles que o poder e a sociedade historicamente trataram como fracos e invisíveis faz do marxismo a primeira doutrina histórica a organizar a capacidade de vitória dos explorados e oprimidos.

Proponho, portanto, para além de uma diagonal em relação à disjuntiva esquerda velha/esquerda “identitária”, uma mudança radical de perspectiva no alvo da polêmica ideológica. Deve-se mirar sem tréguas no tripleto de carreirismo pequeno-burguês, defesa de privilégios às vítimas e celebração da impotência que organiza a ideologia do vitimismo contemporâneo, em vez de uma batalha imprecisa e com potencialidades reacionárias contra o “identitarismo”. Obviamente, não se trata de defender o fim da compaixão e empatia destinadas a quem sofre de abusos e danos reais, mas de entender que uma cultura militante baseada em denuncismos persecutórios sem controle e valorização de quem sofre mais não chegará ao lugar que os explorados merecem na História: a vitória total, o comunismo.


1 https://www.liberation.fr/france/2018/04/27/gud-generation-identitaire-action-francaise-leurs-racines-leurs-methodes_1646466/

2 https://wikileaks.org/wiki/CIA_report_into_shoring_up_Afghan_war_support_in_Western_Europe,_11_Mar_2010?fbclid=IwAR1fxHf4SlLRZI_cSlx1X5szNXp4znj0vB1OfJb8LMK5-kdzzJI8RyUb5JQ

 

 

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