Núcleo próximo ao presidente seguiu reunido até perto da meia-noite; estratégia prevê ampliar vantagem no Nordeste e recuperar votos em São Paulo e Minas

Por Cleber Lourenço

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma reorganização para o segundo turno com foco na redução da abstenção, na aproximação com o eleitorado idoso e no reforço da atuação nas redes sociais. O plano também passa por ampliar a vantagem no Nordeste, recuperar votos em São Paulo e Minas Gerais e levar Lula ao Amazonas, estado que não visitou durante o primeiro turno.

Segundo apurou o ICL Notícias, integrantes mais próximos do presidente continuavam reunidos perto da meia-noite desta segunda-feira (5), depois do encontro ampliado com aliados em Brasília, para definir os rumos da campanha contra Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Parte das decisões deve ser apresentada nesta terça-feira (6).

O encontro ampliado começou por volta das 18h e reuniu ministros, dirigentes partidários, governadores, senadores e candidatos que disputaram as eleições de domingo. Depois dessa etapa, as discussões prosseguiram com um grupo mais próximo do presidente.

Um dos principais focos definidos para os próximos 20 dias é a busca pelos eleitores que não compareceram no primeiro turno. A abstenção chegou a 21,08%, o equivalente a 33,4 milhões de pessoas e o maior percentual na primeira etapa de uma eleição presidencial desde 1998.

Durante a reunião, Lula afirmou que a própria campanha precisa entender por que tantos eleitores não se sentiram estimulados a votar e trabalhar para levá-los às urnas no segundo turno.

“Possivelmente tem uma causa: desinteresse. E a responsabilidade é nossa. É devolver o interesse para ele de participar do processo eleitoral”, afirmou.

Outro público que deverá receber atenção específica é o eleitorado idoso. A campanha já discutia uma estratégia para esse segmento no primeiro turno, mas o tema acabou perdendo espaço. Agora, aliados defendem que Lula, aos 80 anos, estabeleça uma comunicação mais direta com eleitores da mesma faixa etária e amplie a presença de assuntos de interesse desse público na campanha.

Nordeste terá meta de ampliar vantagem

A campanha também definiu prioridades diferentes para cada região. No Nordeste, onde Lula concentra sua maior força eleitoral, a meta é ampliar a vantagem e tentar alcançar um patamar próximo de 70% dos votos na região.

Governadores, senadores e outras lideranças deverão intensificar as agendas e a mobilização nos estados. No Ceará, por exemplo, José Guimarães afirmou que a intenção é elevar a votação de Lula de 63% para 70%. No Piauí, o governador Rafael Fonteles (PT) estabeleceu como objetivo passar de cerca de 71% para 80%.

A estratégia será diferente em São Paulo. No maior colégio eleitoral do país, a campanha pretende não apenas buscar quem deixou de comparecer às urnas, mas disputar diretamente eleitores que votaram em outros candidatos para reduzir a vantagem de Flávio.

Minas Gerais será outro foco. A avaliação é que Lula precisa melhorar seu desempenho nos dois principais colégios eleitorais do Sudeste para ter condições de virar a disputa nacional. Durante a reunião, foi discutido um plano específico para elevar a votação do presidente nos dois estados.

O Sudeste preocupa porque Lula perdeu mais de 5 milhões de votos na região na comparação com o primeiro turno de 2022. Para integrantes da campanha, não será suficiente apenas aumentar a vantagem onde o presidente já venceu: será necessário diminuir a diferença nos territórios em que Flávio saiu na frente.

Lula deve ir ao Amazonas

Outra medida discutida é uma viagem de Lula ao Amazonas. A demanda foi apresentada pelo senador Eduardo Braga (MDB-AM), que chamou a atenção para o fato de o presidente não ter visitado o estado durante o primeiro turno.

A ideia é que Lula vá ao Amazonas para reforçar a campanha de Omar Aziz (PSD), que disputa o segundo turno para o governo estadual contra Maria do Carmo (PL).

A viagem faz parte de uma estratégia mais ampla de aproveitar os palanques estaduais que continuam ativos. Lula também pretende visitar outros estados onde aliados disputam o segundo turno e usar essas agendas para reforçar simultaneamente sua própria campanha presidencial.

Redes devem levar eleitor até Lula

A comunicação digital foi outro ponto importante da reunião. Segundo apurou o ICL Notícias, Lula deixou claro que sua preferência continua sendo pelo corpo a corpo e pelo contato direto com o eleitor, mas não descartou as sugestões apresentadas por Rafael Fonteles para ampliar sua presença nas redes.

Fonteles foi reeleito no Piauí com cerca de 70% dos votos válidos e relatou ao presidente que atribui boa parte de seu desempenho ao investimento feito pela campanha na comunicação digital.

Uma das ideias é usar as próprias redes para potencializar o modelo de campanha preferido por Lula. A intenção é deixar o público mais informado sobre onde o presidente estará e compartilhar com maior frequência sua localização e suas próximas agendas, facilitando a aproximação dos eleitores e aumentando a participação nos atos de rua.

A proposta, portanto, não é substituir o corpo a corpo pelas redes, mas fazer com que uma estratégia alimente a outra. A presença digital serviria também para ampliar o alcance das agendas presenciais e avisar o eleitor onde e quando poderá encontrar Lula.

Fonteles sugeriu ainda aumentar a produção de conteúdo durante as viagens e fazer mais selfies com eleitores, identificando os locais onde as imagens foram feitas. Lula respondeu que prefere o contato pessoal, mas não rejeitou a ampliação da presença digital.

O próprio presidente reconheceu que explorou pouco alguns meios durante o primeiro turno. “Vou ter que fazer mais rádio, vou ter que fazer mais selfie, vou ter que conversar mais”, afirmou.

A tendência é que Lula continue concentrado nas agendas presenciais enquanto um grupo da campanha fica mais dedicado à estratégia para as redes sociais.

O funcionamento das plataformas também entrou nas discussões. Participantes relataram uma avaliação de que os algoritmos estariam favorecendo a circulação de conteúdos relacionados a Flávio e dificultando a distribuição das mensagens petistas. A questão foi levantada por Luizianne Lins (Rede-CE), eleita para o Senado.

Além da mobilização territorial e digital, a campanha pretende intensificar o contraste entre os dois candidatos. Participantes defenderam mostrar ao eleitor quais políticas poderiam estar em risco em uma eventual vitória de Flávio. A valorização real do salário mínimo foi um dos exemplos citados. Lula também afirmou que pretende explorar o risco de o Brasil voltar ao mapa da fome.

Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Apesar da diferença, o presidente disse aos aliados que considera a disputa aberta e pretende aumentar as agendas de rua, participar dos debates e intensificar a comunicação com o eleitorado.

A divisão mais detalhada das tarefas e das frentes de atuação deve começar a ficar clara nesta terça-feira, depois de uma segunda-feira em que as discussões sobre os rumos do segundo turno avançaram até perto da meia-noite.

fonte: https://iclnoticias.com.br/campanha-lula-mira-abstencao-nordeste-idosos/

lula primeiro ato campanha vila euclides2026

 

Por onde recomeçar?

Virada eleitoral é possível, ainda que árdua e difícil. Mas a ilusão de que a esquerda pode governar sem projeto de longo prazo, sem disputas com os poderosos e sem mobilização popular – esta precisa ficar para trás

As derrotas são mais profundas e mais prolongadas quando se confundem as causas que as produziram, se evitam as correções de rota e se adotam “saídas” que agravam os erros. O governo Lula e a esquerda viveram um desastre nas eleições brasileiras deste domingo (4/10). Ao contrário do que previam todas as pesquisas, o presidente terminou o primeiro turno 2,2 milhões de votos atrás de Flávio Bolsonaro — e, o que é mais significativo, 3,4 milhões abaixo do que recebeu há quatro anos, quando a máquina do Estado funcionava contra si e a favor de seu adversário. Sua votação decresceu em 98% dos municípios.

O PL, principal partido da ultradireita, elegeu 121 deputados e 28 senadores, tornando-se a maior bancada nas duas casas. As agremiações ligadas ao Centrão, embora ligeiramente reduzidas, terão cerca de 250 representantes na Câmara e 35 no Senado, o que tornará mais fácil a formação de alianças para alterar a Constituição ou decretar o impeachment de ministros do STF. Caso eleito, Flávio poderá indicar quatro integrantes à corte, alterando substancialmente a correlação de forças interna. Que motivos levaram a estes resultados? Como evitar que ele se consolide, convertendo-se em hegemonia política prolongada da ultradireita? Qual o sentido essencial da mudança de rumos necessária à esquerda?

Nas mídias comerciais e na exuberância caótica das plataformas, multiplicam-se as interpretações. Algumas são pontuais. Fala-se, por exemplo, na ausência ao debate da Globo, na relação muito próxima com Alexandre de Moraes, na abordagem de temas que seriam supostamente distantes do cotidiano das maiorias, como as terras raras. Entre as interpretações sistêmicas, três delas parecem especialmente duvidosas: a) A derrota principal não teria sido da esquerda, cujas bancadas caíram pouco. O movimento essencial captado pelas urnas foi um deslocamento dos votos no interior da direita — das correntes mais moderadas e fisiológicas do Centrão para as mais ideológicas e radicalizadas do PL e Novo; b) O resultado seria produto de uma mudança na natureza dos processos eleitorais e políticos. Agora, os interesses e aspirações materiais da sociedade já não desempenhariam papel central, pois teriam cedido espaço à afirmação subjetiva dos eleitores, ainda não compreendida pela esquerda; c) Em função destes dois fatores, seria de se esperar um inverno político — um período prolongado de hegemonia da ultradireita e direita sobre a vida política do país.

Há nestas três interpretações elementos importantes para uma análise mais ampla do pleito. O problema é o que elas negam ou omitem: Lula III foi um governo pequeno, que não ofereceu às maiorias que o elegeram nem uma vida nitidamente melhor, nem motivos para voltar a acreditar na política e em seu papel transformador. Estes fracassos deveram-se a duas acomodações fatais, que serão examinadas adiante. Em consequência delas, o governo sofreu desgaste lento, porém constante. E ofereceu à ultradireita, como tem ocorrido em tantos países do Ocidente, a oportunidade de apresentar-se como antissistema e de se beneficiar do descontentamento e das aflições populares.

* * *

A visão que destaca em primeiro lugar a migração de votos do centro-direita e da direita tradicional para a ultradireita foi expressa, entre outros, pelo bravo Leonardo Sakamoto. Em sua coluna no UOL, nesta segunda-feira (5/10), ele destaca o comportamento miserável dos partidos conservadores tradicionais. Ao longo dos últimos quatro anos, eles atuaram com frequência em frente com os “neo”-fascistas, que acabaram “normalizados” (uma crítica idêntica poderia ser dirigida a quase toda a mídia empresarial…). Julgando usar a ultradireita como “escada”, acabaram em parte “jantados” por ela — em especial no Senado, onde o crescimento do PL (+13 senadores) e do Novo (+2) deu-se às custas do PSD (-9), MDB (-2), PSDB (-2) e PP (-1).

 

Embora precisa e necessária, a observação de Sakamoto deixa de lado questões incômodas. Por que o desgaste do Centrão jogou água no moinho da ultradireita, ao invés de resultar, por exemplo, num crescimento da esquerda — como ocorreu tantas vezes, no Brasil e em outros países?

A resposta não é difícil. Ao longo de seus quatro anos, Lula III esteve quase invariavelmente associado ao Centrão. Aqui reside sua primeira acomodação: conformar-se aos limites da institucionalidade conservadora; evitar ao máximo tensioná-la por meio da pressão popular; acreditar apenas nas acanhadas mudanças que foi possível fazer por meio das brechas no Legislativo. O insucesso da luta pelo fim da escala 6×1 é um emblema desta atitude. Podendo eletrizar a disputa pela Presidência, desencadeando em paralelo a ela uma campanha popular pela aprovação da medida, Lula preferiu depositar suas esperanças nas mãos do presidente do Senado, Rodrigo Alcolumbre. Não produziu mobilização, não obrigou os adversários a uma defensiva incômoda, nem obteve vitória.

Em setembro de 2025, o governo perdeu a maior das muitas oportunidades que teve para sacudir o poder conservador do Congresso. O repúdio popular à PEC da Blindagem, que restringiria, se aprovada, os processos judiciais contra parlamentares, levou multidões às ruas — convocadas principalmente por artistas e movimentos sociais. Abriu-se a possibilidade de uma pedagogia política que começasse a apontar os limites e as disfunções do sistema político e de enquadrar o bolsonarismo, que previsivelmente posicionava-se a favor do privilégio. A PEC foi barrada, mas em seguida o Executivo refluiu da disputa. Manteve-se associado a um mundo institucional visto como corrupto, elitista e insensível aos dramas do povo. Descredenciou-se de disputar o voto de protesto. Colheu os frutos amargos no domingo.

* * *

Em abordagem distinta à de Sakamoto, o filósofo Moysés Pinto Neto e outros autores têm chamado atenção, em suas primeiras análises sobre o 4 de outubro, para a fragmentação do espaço público, produzida pelas plataformas das big techs. Elas oferecem a cada pessoa, por meio dos algoritmos que programam, uma visão distinta da realidade social. Torna-se muito mais difícil, em consequência, identificar problemas e reivindicações materiais comuns — a luta por direitos trabalhistas ou por um SUS dignamente financiado, por exemplo. O eleitor já não as abraça, pensam os autores, porque não se enxerga como parte de um coletivo. Tende a valorizar, em vez disso, os papéis que a subjetividade neoliberal lhe atribui — o de empreendedor, por exemplo. O eventual erro da esquerda, segundo esta interpretação, seria insistir em ilusões passadistas.

A advertência de Moysés é de grande relevância e dialoga com textos como “O fascismo apocalíptico e a aposta dos bilionários”, de Naomi Klein e Astra Taylor. Ao contrário do que ocorria há um século, a ultradireita já não acena com um futuro luminoso. Concentra-se no ressentimento — em especial dos homens jovens. “Eles pertencem a uma geração que teme nunca ter uma casa própria, mas compensa isso com o prazer que sentem ao provocar constantemente progressistas online. Convencidos de que seu futuro foi roubado, eles compartilham memes que romantizam regimes autoritários históricos”, dizem os autores.

Mas Moysés parece confundir este risco com uma inevitabilidade. Ele não percebe que a resposta da esquerda não pode ser adaptar-se, mas, ao contrário, reforçar a possibilidade da política como ação coletiva. E também não se dá conta de que esta reviravolta está sendo possível em alguns dos processos de mobilização mais promissores do século XXI. A eleição, no final de 2025, do jovem muçulmano Zohran Mamdani para a prefeitura de Nova York, com uma pauta baseada na luta materialíssima por uma cidade acessível. A vitória, há duas semanas, do Partido de Esquerda em Berlim, a partir da defesa de expropriação das imobiliárias privadas. A recentíssima onda de manifestações na Espanha (com ocupação da Porta do Sol, em Madri), por dezenas de milhares de jovens mobilizados pelo Sindicato dos Inquilinos, para defender a limitação dos preços dos aluguéis.

Ao vestir em si mesmo a camisa de força do “arcabouço fiscal”, nos primeiros meses de 2022, Lula III adotou a segunda acomodação fatal de seu mandato. Diante de uma institucionalidade conservadora e de um país devastado por quatro anos de bolsonarismo, elevar o investimento público era a arma que lhe restava para oferecer vida mais digna às maiorias e firmar um pacto anticonservador com elas. O mesmo Estado que emite 1 trilhão de reais ao ano para alimentar um punhado de rentistas poderia fazer o mesmo para estender a estratégia de Saúde da Família a todos os brasileiros (R$ 30 bilhões); oferecer escola pública e creche em período integral a todos os adolescentes, crianças e, em especial, suas mães; universalizar o saneamento, acompanhando-o da despoluição dos rios urbanos; multiplicar as redes de metrô; iniciar a transformação urbanística das periferias; e tantos outros projetos necessários.

Em abril de 2023, um artigo em Outras Palavras alertou que o “arcabouço” poderia “apequenar o governo Lula e manter as lógicas que condenam o país à desigualdade e à regressão”. Um ano depois, um novo texto demonstrou que a contenção do gasto público estava estrangulando ações vitais para a população e a popularidade do presidente. Em novembro de 2024, veio o choque de realidade, na forma de uma derrota humilhante do governo nas eleições municipais. Nem assim, a tranca fiscal foi removida ou amenizada. Ao contrário: ao longo de quatro anos, ela foi o elemento central na narrativa política do governo, que se orgulhava de dizer que havia “acertado as contas do Estado”, sem perceber o quanto a frase era falsa (frente ao pagamento de R$ 1 trilhão em juros) e quanto significava um tiro no próprio pé.

Lula despertou em setembro de 2026. O reajuste da Bolsa-Família (depois de quatro anos de congelamento), o anúncio da oferta de canetas anti-obesidade no SUS e a proibição das bets mostraram que o Estado tem poder para agir de modo decidido em favor das maiorias, quando há governantes dispostos a enfrentar barreiras. As grandes marchas que fecharam a campanha em Fortaleza, Salvador, Rio e São Paulo, às vésperas do 4 de outubro, revelaram como estas iniciativas podem convocar a militância e a população. Mas era tarde — e foi pouco demais para alterar o destino do primeiro turno.

* * *

A hipótese de uma virada nas três semanas até 25 de novembro não pode ser descartada. Não é simples, nem fácil. Depende não apenas de reduzir a diferença de 2,2 milhões de votos, mas também de compensar a migração dos eleitores dos demais candidatos da direita, que tende a favorecer majoritariamente Flávio Bolsonaro. Para concretizar-se, o movimento requer ampla mobilização “vira-voto”, que pode ser estimulada por novos acenos de Lula. As próximas horas e dias serão decisivos.

Caso a vitória do bolsonarismo se concretize também no Executivo, ela comporá um cenário de alto risco para a soberania nacional e a democracia. Os enormes desafios para os quais esta hipótese aponta convidarão a reexaminar em profundidade, e com abertura real à autocrítica, os projetos (ou sua ausência) e as práticas da esquerda. Mas significaria, então, que estamos condenados ao longo inverno de hegemonia da ultradireita que começa a se desenhar em algumas análises?

É cedo demais para afirmar, sugere um texto de Alvaro Garcia Linera, o pensador que foi vice-presidente da Bolívia do governo de Evo Morales. Sua hipótese central: esta corrente tem fôlego curto. Num momento em que o mundo todo volta a falar em soberania e proteção das economias nacionais, ela propõe um neoliberalismo mofado e recolonial. Sua submissão aos EUA é tão escancarada e patética quanto os acenos de Flávio e Eduardo Bolsonaro a Donald Trump. Seu projeto é algo como um “salve-se quem puder”. Mais desigualdade, capitalismo sem limites, devastação e supremacismo.

Dará certo? Nos EUA, dois anos apenas após iniciar seu segundo mandato, o próprio Trump amarga recordes de impopularidade e pode estar à beira de perder a maioria na Câmara e no Senado, nas eleições de novembro.

Todo recomeço é difícil. Seja qual for o resultado do segundo turno, as derrotas de 4/10 mostram quão profundamente será preciso, para a esquerda brasileira, repensar e refazer. Mas, assim como subestimar os erros, seria tolo pensar que já não há como reconstruir um projeto. A História não acabou. Os tempos estão mais acelerados que nunca.

Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. e fortaleça o jornalismo crítico.

fonte: https://outraspalavras.net/estadoemdisputa/por-onde-recomecar/

 

Lula mira 30 milhões que não votaram no primeiro turno e cobra campanha para recuperar eleitores

Em reunião de coordenação, presidente pede mais mobilização nos 20 dias até próximo pleito

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião de coordenação, em Brasília | Crédito: Ricardo Stuckert/Divulgação de campanha
 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, na noite de segunda-feira (5), durante reunião da coordenação de sua campanha, que um dos principais desafios para o segundo turno será mobilizar os eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 33,4 milhões de eleitores não votaram no domingo (4), o equivalente a 21,08% do eleitorado.

Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno na liderança da disputa presidencial, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula ficou em segundo, com 45,16%. Os dois se enfrentam no segundo turno, marcado para 25 de outubro.

“São 30 milhões de pessoas que nós temos que trabalhar. O que aconteceu com essas pessoas? Eles perderam o sentido de responsabilidade? Eles não foram convencidos? Eles não gostam dos candidatos?”, questionou Lula durante a reunião.

Para o presidente, a campanha precisa assumir a responsabilidade por reconquistar o interesse desse eleitorado. “O que nós temos é que tentar convencer, porque 30 milhões de seres humanos não foram votar. Possivelmente tem uma causa: desinteresse. E a responsabilidade é nossa. É devolver o interesse de participar do processo eleitoral”, afirmou o petista.

Lula também disse que a campanha não deve concentrar a análise do resultado do primeiro turno em fatores externos ou buscar culpados para o desempenho eleitoral. “A gente não tem que ficar procurando defeito, que os outros podem ter nos prejudicado. Não. Nós temos que procurar o que nós não fizemos corretamente, que a gente agora tem que fazer. Em 20 dias, tem que fazer mais rápido e mais bem-feito”, ressaltou.

O presidente defendeu ainda que não há motivo para considerar a eleição perdida e disse estar convencido de que pode ser reeleito. “Eu estou convencido de que não há nenhuma razão para que a gente não seja eleito presidente da República no segundo turno. Não há nenhuma razão econômica, social, política. Não há nenhuma razão”, declarou.

Comparação com 2006

Durante a reunião, Lula lembrou a eleição presidencial de 2006, quando disputou o segundo turno contra Geraldo Alckmin. Segundo o presidente, ele ampliou sua votação em 12 milhões de votos entre os dois turnos, enquanto o adversário perdeu cerca de 4 milhões.

“Eu já fui para o segundo turno em quase todas as eleições. Em 2006, eu fui para o segundo turno com Alckmin e, no segundo turno, aconteceu um fenômeno: eu cresci 12 milhões de votos e o Alckmin perdeu 4 milhões”, afirmou.

Lula ponderou, no entanto, que o cenário atual é diferente. “Obviamente que nós estamos vivendo um outro momento, uma outra história”, disse.

A abstenção registrada no primeiro turno de 2026 foi a maior em uma eleição geral desde 1998. Dos 158,7 milhões de eleitores aptos, 125,2 milhões compareceram às urnas. Os 33,4 milhões que não votaram continuam aptos a participar do segundo turno, desde que estejam com o título regular.

‘Agora é tête-à-tête’

Ao falar sobre a estratégia de campanha, Lula defendeu uma mudança para a segunda etapa da disputa. Para o presidente, a comparação direta com Flávio Bolsonaro deverá ocupar espaço central nos próximos 20 dias.

“São 20 dias em que a gente vai ter que colocar para fora aquilo que a gente deveria estar colocando o ano inteiro”, afirmou. Lula disse ainda que pretende ampliar sua presença em debates, entrevistas de rádio, redes sociais e atividades de rua.

“Eu quero ganhar as eleições fazendo as mesmas coisas e fazendo mais coisas. Agora sim, agora é importante ter debate na televisão. Porque agora é tête-à-tête. Agora é um contra um”, disse.

O presidente também anunciou a intenção de participar de novos atos em estados onde a campanha teve forte mobilização no primeiro turno. Citou Ceará, Piauí, Bahia e São Paulo e afirmou que pretende ir ao Rio Grande do Norte para participar da campanha de Cadu Xavier (PT), que disputa o segundo turno pelo governo estadual.

Segurança pública e reforma do Judiciário

Na reunião, Lula também apontou segurança pública, economia e reforma do Judiciário como temas que deverão ser explorados na campanha. Sobre segurança, defendeu a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) enviada pelo governo ao Congresso para ampliar a participação da União no combate ao crime organizado.

Segundo Lula, o enfrentamento à criminalidade precisa combinar atuação policial, inteligência e políticas sociais. O presidente também defendeu uma nova reforma do Judiciário e disse que a campanha deverá discutir critérios para a escolha de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), incluindo a possibilidade de mandato para os integrantes da Corte.

Ao final da reunião, Lula pediu mobilização dos aliados e afirmou estar confiante na vitória. “Se preparem porque nós vamos ganhar as eleições, meu filho. Se preparem.”

Löwy: Lula e a corrida pela virada

1º turno derrotou as esquerdas. Pensador ecossocialista adverte: democracia está em risco e mesmo contraditório, Lula é a única opção para deter o “trem suicida” do fascismo. Freá-lo é ganhar tempo para a construção de outros horizontes políticos

OutrasPalavras

Publicado 05/10/2026 às 17:58 - Atualizado 05/10/2026 às 18:07


Foto: Marcelo Elias/Gazeta do Povo

acervo cfemea2

genocidio gaza