No segundo turno, as ruas deram nova vida a uma campanha antes cinzenta. Tudo muda, agora. Se vencermos, Lula precisará apoiar-se nas maiorias, e fazer as mudanças de rumo necessárias. No pior caso, haverá oposição ferrenha a Flávio. Falta, agora, romper com velhas concepções políticas
Publicado 21/10/2026 às 18:40 - Atualizado 22/10/2026 às 12:53

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Vivemos num tempo onde “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Esta frase escrita no Manifesto Comunista por Marx e Engels pode ser a síntese política perfeita para o momento que estamos vivendo no mundo. Vivemos num tempo da pós-verdade, onde o que importa é o que o cada indivíduo acha, mesmo que isso signifique negar os fatos e a realidade. Esta subjetividade construída principalmente pelo neoliberalismo anula qualquer possibilidade de se ter projetos mais coletivos, mais solidários, mais afetivos e, portanto, democráticos.
A sensação que tudo “desmancha” leva a um sentimento de insegurança e medo. Em momentos assim, temos experiências históricas, que apontam que a opção da maioria não é tentar construir algo novo e sim reconstruir um passado que se entende como “glorioso”. Por isso que a extrema direita mundial apresenta valores conservadores, um modo de vida e uma cosmovisão de mundo que nem ela mais acredita e vive. É a exploração política do sentimento, legítimo, de insegurança e medo.
No Brasil não é diferente. Há décadas, percebemos a construção de um campo político que sabe muito bem explorar esses sentimentos, transformando-os em um movimento político. Isso passa desde os programas policialescos das TVs abertas, pelo fundamentalismo religioso e econômico, pelo desprezo pelo corpo da mulher, pelo racismo, pelas LGBTQIAPN+fobias, pela destruição da noção do que é público, pelo ataque permanente à ideia de igualdade e solidariedade e às políticas públicas de garantia de direitos. Identifica um inimigo, todos que pensam diferente, e partem para a eliminação deste inimigo. Uma sociedade que nunca viveu rupturas com a sua história colonial e escravocrata é um campo fértil para florescer ideias fascistas.
Associado a isso temos uma mudança de eixo fundamental. Enquanto a esquerda institucionalizada assumiu o “poder” via eleições tornando-se uma gestora do sistema, a extrema direita foi se construindo como o antissistema, mesmo sendo a criadora dele e usufruindo até hoje das suas benesses. Enquanto isso, parte da esquerda assumiu o discurso da boa gestão do Estado. Um erro estratégico profundo, que nos tirou a bandeira do antissistema e nos colocou no gueto dos defensores do status quo. Enquanto o sentimento é de “sou contra tudo que está aí”, nos apresentamos como bons gestores do caos “dos empreendedores de si mesmos” que é a vida no capitalismo.
Esta mudança condiciona toda a nossa ação política, inclusive a construção de propostas e estratégias. Ficamos reféns de uma institucionalidade que nunca foi pensada para nós e que nunca será transformada ao ponto de abarcar os nossos sonhos, utopias e desejos. Passamos a ver o mundo através da moldura da válida democracia liberal.
E para nós o que pode significar a sensação que “tudo que é sólido se desmancha no ar”?
Esta sensação surge em momentos profundos de crise. Não só crise política, mas econômica, cultural, ambiental, de costumes, de convivência, de projetos, de subjetividades. Crise que interliga questões que estruturam o sistema com desconfortos da vida concreta. É uma insatisfação generalizada que na maioria das vezes não conseguimos identificar de onde vem.
Se a extrema direita transforma esses sentimentos legítimos em projeto político ultraconservador que identifica em nós, o campo democrático e popular, um inimigo a ser exterminado, nós precisamos construir processos políticos que construam outros futuros. Aqui o debate sobre o futuro é fundamental e deve nos diferenciar, não só no conteúdo, mas no método. Não podemos separar conteúdo, método e os sujeitos políticos dessa construção.
Para fazer isso precisamos romper com as amarras e concepções políticas que nos levam a fazer as coisas sempre da mesma forma e sempre com os mesmos. Precisamos construir espaços, menos de disputas políticas e mais de diálogos, que apontem para e demolição do que parece ser sólido e a construção de projeto coletivo de nação que não aceita as desigualdades, não aceita o racismo, o patriarcado, a discriminação por você amar quem você quer e a divisão da sociedade em classes. É utópico? Sim, é utópico, pois não se constrói futuro sem utopias.
Temos condições para dar concretude a este processo? Temos.
Analisando o que foi o 1º turno e o que está acontecendo no 2º turno podemos afirmar que temos condições, sim. Independente do resultado eleitoral. Lógico que num cenário onde Flávio Bolsonaro ganhe teremos maiores dificuldades, pois estaremos lutando para estar vivos e vivas.
O primeiro turno foi uma campanha morna, basicamente feita nas redes sociais, com pouco envolvimento de rua, não empolgou ninguém, portanto, não acumulou nada para as lutas. Tivemos algumas vitórias importantes para o parlamento, principalmente vindo das juventudes negras periféricas, sobretudo as mulheres.
Após o resultado do primeiro turno, a tristeza bateu fundo e, sabendo o que será um segundo governo da família Bolsonaro, numa versão muito pior, dada a conjuntura da América Latina e mundial, se foi à luta. O clima mudou radicalmente e as pessoas, impulsionadas principalmente pelos estudantes, tomaram as ruas de todo o Brasil em defesa da manutenção da democracia. Num entendimento que para destruir o que é “sólido” precisamos manter a democracia liberal, apesar das nossas críticas e de seus limites. Podia ter sido diferente caso não tivéssemos cometido o erro estratégico de querer ser o bom gestor de uma massa válida. Mas o que se tem de “diferente” nisso?
É impossível não constatar que as ocupações das ruas vieram sem o chamado da campanha do governo, que é altamente centralizada. Enquanto se estava pensando no que fazer, uma vez que se tinha a equivocada ideia de uma vitória no primeiro turno, o povo foi lá e fez. Ocupou as ruas. Enquanto as estruturas partidárias estavam analisando o que tinha acontecido, o povo entendeu e entrou na disputa como sujeito político. Talvez porque lembre muito bem como foi o governo do pai do candidato da extrema direita.
Sim, as organizações históricas também convocaram, mobilizaram, fizeram o card divulgando os locais, mas isso não explica a adesão, pois isso já foi feito outras vezes e não se teve o mesmo resultado.
E, ao mesmo tempo, um exército se formou nas redes. Essas mesmas, dominadas pela extrema direita mundial com suas Big Techs e controle de algoritmos. Não importou se a pessoa tem 10 ou 1 milhão de seguidores, se estão somente nos Whatsapp ou na infinidade de redes sociais que sempre implicaram em barreiras geracionais, todas foram convocadas a contribuir no grande projeto coletivo de defender a democracia, as conquistas alcançadas, ao mesmo tempo que sinalizam a necessidade de avanços estruturais. O sentimento de pertencimento a um projeto maior fez com que mais um campo de batalha tivesse força. Ruas e redes se uniram na missão impossível de tentar produzir uma virada que nunca aconteceu antes na história das eleições brasileiras, que é um candidato que termina o primeiro turno em segundo lugar vencer no segundo turno.
Tem algo de novo neste processo. Ao mesmo tempo que é espontâneo aponta para a construção de um projeto coletivo de país. E isso, precisamos entender.
Precisamos olhar para este processo com lentes diferentes das manifestações de 2013. Assim como lá, as manifestações têm potencial de mudar a chave de leitura do processo político. Lógico que em 2013 não se tinha o componente eleitoral que tem hoje. São processos diferentes. Mas o que queremos chamar a atenção é para o potencial de luta que estamos construindo. O que as ruas parecem exigir, é a construção de processos políticos dialógicos, inclusive com a questão geracional, racial, de gênero e de classe para o futuro.
Um recado está sendo dado pelas multidões: nós vamos fazer com vocês ou sem vocês. Vocês aqui incluímos movimentos, organizações, partidos etc oriundos da luta contra a ditadura e pela redemocratização (já fomos democráticos?).
Um ponto importante é: se Flávio Bolsonaro ganhar, terá uma oposição ferrenha das ruas, e se o Lula ganhar e não fizer as reformas estruturais que tanto precisamos, terá uma massa crítica o lembrando do porque foi para as ruas para reelegê-lo.
Estamos no quadrante da história brasileira em que está em disputa o que vai se desmanchar no ar, o que vai ser colocado no lugar e principalmente quem serão os sujeitos políticos que destruirão o que parece ser sólido.
Podemos sim esperançar.
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Domingo e depois
Quem promove Flávio deseja um nada no comando do país. Uma peça vazia a ponto de oferecer moeda, títulos, empresas públicas, serviços sociais, biomas e territórios. Mas as torrentes de manifestantes abriram fissuras imprevistas no projeto. Bora, Lula! Bora, frente antifascista e antissistêmica para tudo o que virá!
Publicado 23/10/2026 às 18:17 - Atualizado 23/10/2026 às 18:57
Não é apenas por Flávio, é sobretudo pelo que não é. Quanto pode valer um nada na cadeira presidencial? A candidatura-tampão do bolsonarismo nasceu com a marca de ter um preço. A soltura de Bolsonaro pai era apenas o valor de face do entreguismo. Na verdade, o que se oferece em troca é um valor sem face na forma de transações futuras com moeda, títulos, empresas públicas, serviços sociais, biomas e territórios. Uma desconstituinte que desamarre o Estado de obrigações sociais e ambientais e a subordinação econômico-militar do país como área anexa do Império
Como o Brasil detém autonomia real e potencial para travar o projeto super-imperialista norte-americano, nada melhor para Trump que a fulguração de um holograma programável na Presidência da República do maior país da América Latina. A guerra híbrida promovida por agências do Império e por plataformas digitais busca fazer com que as eleições consagrem no segundo turno uma peça oca e insubstancial no centro das cadeias de comando do país.
Assim como houve o “dia do fogo”, em 10 de agosto 2019, para sinalizar o vale-tudo nas incorporações de Unidades de Conservação e Terras Indígenas do país, o “Flávio Day”, no dia 05 de outubro de 2026, sinalizou por parte dos mercados um vale-tudo mais amplo, apresentado eufemisticamente como um registro auspicioso de “melhora da percepção do risco fiscal em 2027”.
Trata-se de um golpe que não cabe em si e que transborda para um processo de esvaziamento a vácuo da combalida democracia brasileira. O candidato oferece botões de comando neurais postos nele ao dizer: “O maior ajuste fiscal que o Brasil pode fazer é tirar o Lula.” Basta clicar e tirar, retirar, socavar, queimar, enterrar. Reparem que nulidade em pessoa no poder, significa a possibilidade de anular tudo que impeça o poder totalitário dos designers e controladores desse vão infinito.
Depois de ser ungido pela banca como fiel depositário de divinas indulgências, o candidato posa de vidente e descreve o futuro precificado: “Quando eu for presidente, os juros vão cair. Os juros vão cair de uma forma muito rápida…”. Diminuir a intensidade da sabotagem dos mercados sobre as finanças públicas é essência da “mudança” prometida.
O retorno programado desse esquema foi batizado como “bônus Flávio”. Nos mercados essa mixórdia é tecnificada como cobrança e faturamento do “prêmio de risco”. Primeiro artificializam os riscos inflacionários e fiscais, impondo um viés altista das taxas de juros por meio do mandato “independente” do Banco Central. Após o 1º Turno, foi acionado o efeito da reversão das expectativas antes infladas e os ativos financeiros brasileiros a serem privatizados e internacionalizados foram postos na mesa para o almejado botim.
Os apostadores desse e nesse banquete são os mesmos que promovem a alavancagem de fluxos financeiros para condicionar o resultado eleitoral. Esse escuso “rali eleitoral” logo precisou de um esteio programático que conferisse tons institucionais à operação.
Logo brota uma “Carta ao Brasil pela Liberdade e pela Prosperidade” pelas mãos de serviçais operadores dos grandes fundos de investimento dobrando a aposta em colheitas rentistas extraordinárias nos próximos anos.
A missiva tratou de converter palavras de ordem da Faria Lima em princípios de interesse geral a partir da mitologia da prosperidade. O blefe parte da premissa de que todos humilhados pelas condições objetivas da assimetria de renda e pelas condições subjetivas de incapacidade de pareamento de consumo, ou de ostentação dele, não podem ser outra coisa senão aspirantes ao enriquecimento incondicional.
Na verdade, seus lemas são ultimatos: 1) com o alvo na mira e com as armas engatilhadas, entoa-se: “Liberdade econômica exige segurança jurídica”. Consumada a execução, profere-se a razão: “A propriedade privada, os contratos e o direito de defesa devem ser respeitados”.
A burguesia ancorada no Brasil mostra sua cara leviana e despatriada ao clamar pela oficialização do direito absoluto de propriedade, mandando às favas funções sociais, contrapartidas e condicionalidades acopladas. Estamos diante de uma pornográfica normalização e disseminação de um vorcarismo sem Vorcaro, inerente aos grandes grupos financeiros que devem sua grandeza mais à captura de agências públicas e máquinas partidárias do que a inovações tecnológicas e gerenciais.
As torrentes de manifestantes nas ruas e nas redes enfrentam não apenas Flávio mas uma burguesia financeirizada e desaforada incrustrada nos setores dinâmicos do país. Enfrentam Big Techs, BETs e máfias associadas, desafiam Trump e seus cães adestrados no continente e alhures.
O que está em jogo é perspectiva de uma nação construída pela base ou uma pátria decaída em zona de livre acumulação.
Mobilizações massivas no Brasil e no mundo abrem imprevistas fissuras no bloco transnacional de poder capitalista. Os momentos viram acontecimentos quando atravessam acordos e contradições intra-capitalistas. Bora Lula, bora frente antifascista e antissistêmica, no domingo e adiante.
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