Em entrevista à Jacobina, Sara repassa sua trajetória — desde os primeiros passos em 2008, inspirada por nomes como Actitud María Marta, Mala Rodríguez e Ana Tijoux, até a urgência das lutas sociais que moldaram sua escrita transfeminista
Em edição histórica, festa literária conta com editoras e artistas latino-americanos na programação. Conversamos com Sara Hebe, que se apresenta no Sol y Sombra durante o evento, para saber mais sobre sua trajetória musical antifascista, participação no Fórum Social Mundial e a situação dos nossos vizinhos sob a ameaça da extrema direita com Milei.

UMA ENTREVISTA DE
Maruscka GrassanoEfervescência, postura e uma lírica afiada. Com uma caminhada que começou lá em 2008, impulsionada pela dança e pelo rap em espanhol de nomes como Actitud María Marta e Mala Rodríguez, Sara Hebe é hoje uma das vozes mais ativas da cena urbana argentina.
Em entrevista à Jacobina, Sara repassa sua trajetória — desde os primeiros passos em 2008, inspirada por nomes como Actitud María Marta, Mala Rodríguez e Ana Tijoux, até a urgência das lutas sociais que moldaram sua escrita transfeminista. A artista reflete sobre as nuances entre os movimentos no Brasil e na Argentina, a força da arte contra o avanço da extrema direita e a necessidade vital de radicalizar a organização popular por meio da cultura.
Sarah se apresenta em São Paulo, no bar sol y Sombra, no dia 07 de agosto, sexta-feira, integrando a programação musical da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (FLIPEI). Sua presença vem justamente nessa linha, usando o poder das narrativas e experiências sensoriais com sua música e a troca de ideias para aproximar o que a geografia política e suas fronteiras tentam afastar. É mais uma ponte que se abre no festival para fazer circular livros, sons e pessoas no porto construído pela FLIPEI na América Latina, mostrando que as nossas culturas ganham muito mais força quando se conecta de verdade.
MG
Como foi a sua aproximação com o rap? Qual era o contexto da cena na Argentina quando você começou e como você enxerga a evolução desse movimento no país hoje?
SH
Quando eu comecei, em 2008, o contexto da Argentina era esperançoso. A minha aproximação com o rap foi através da dança. Eu fazia aulas de hip-hop, urbano, dancehall, e também por escutar bandas de referência, grandes mulheres do rap em espanhol. Tanto da Argentina, como Actitud María Marta, quanto da Espanha, como Mala Rodríguez e Ana Tijoux. A partir dessas vozes que escutei, me apaixonei pelo rap e comecei a fazer. Também Lauryn Hill e Fugees. Então minha aproximação foi por escutar essas rappers e pela dança, porque eu fazia aulas.
MG
O rap e a cultura hip-hop ainda são ambientes predominantemente masculinos. Seguindo essa trajetória, em que momento o feminismo e o transfeminismo (não deveria ser uma coisa só?) passou a fazer parte de forma consciente da sua compreensão de mundo e da sua escrita?
SH
Não somente o rap e a cultura hip-hop são predominantemente machistas… não masculinos, mas machistas. Todos os mundos estão afetados pelo machismo da civilização. Acho que tomei consciência de que o meu olhar começou a ser mais efetivamente feminista, e depois transfeminista, quando os movimentos sociais começaram a ter mais crescimento e visibilidade na rua. Acho que em 2015, aproximadamente, na Argentina, com a luta pelo aborto livre, legal e gratuito, começou a se manifestar uma quantidade maior de gente. Aí me dei conta de que muitas letras que eu tinha escrito tinham a ver com consignas sobre a justiça pelos direitos das mulheres e dos coletivos LGBTQIA+.
Quando você me sugere se o feminismo e o transfeminismo não deveriam ser a mesma coisa, acho que no Brasil e na Argentina a história é diferente. Não sei se é pela densidade populacional, ou seja, no Brasil tem muito mais gente. Pelo pouco que fui ao Brasil, acho que o coletivo trans e travesti está mais integrado na sociedade e no cotidiano. Aqui na Argentina está mais discriminado.
Na verdade, na Argentina houve um momento na história em que se pôde fazer uma lei muito importante, que é a Lei de Identidade de Gênero, onde as mulheres trans podem mudar de nome no DNI, além da cota de trabalho trans e uma série de políticas públicas de inclusão. Mas, ao mesmo tempo, esses coletivos continuam sendo os mais oprimidos e discriminados por aqui. No Brasil me parece haver outra integração, embora eu tivesse que passar mais tempo aí para conhecer melhor como é.
(Reprodução Mapsound. Foto de Daniel Ghio)
Então não é a mesma coisa. Eu acho importante se identificar, ou pelo menos não desconhecer o transfeminismo, porque a luta das pessoas trans, dos homens trans, das travestis e das mulheres trans foi para mim uma escola muito importante, que me deu uma abertura de consciência.
O transfeminismo inclui as mulheres trans, e acho que há muitas pessoas trans que não se veem incluídas por alguns feminismos. Aqui nos Encontros Plurinacionais de Mulheres acontecem muito esses debates, que às vezes geram fricções e discussões incômodas. Para mim, fazem parte de um argumento crítico que nos permite fazer perguntas e pensar.
Mas sim, não só o hip-hop é majoritariamente masculino e machista, mas todos os âmbitos da música e do mundo. Só que nós abrimos caminho graças à luta e à presença de tantas mulheres e dissidências na cultura, na política e na ciência.
MG
Nomes como Ebony, Brisa Flow, Duquesa e Ajulliacosta têm despontado na cena brasileira, trazendo para suas músicas suas perspectivas enquanto mulheres racializadas, algumas periféricas e, claro, no mesmo contexto predominantemente machista do mundo do rap e suas vertentes. Tem alguma artista do Brasil com quem você se identifica mais, se inspira ou curte mais o som?

SH
Eu gostava muito da Flora Matos. Vou até procurar aqui as que eu estou seguindo, que gostava muito também, para te dizer quais são as que conheço. Mas por enquanto, agora mesmo, me vem só a Flora Matos, que eu escutei e gosto muito.
MG
Em 2010, você esteve no Brasil convidada pelo coletivo Cultura Livre para se apresentar e integrar as atividades do Fórum Social Mundial em Porto Alegre (RS). Como foi essa experiência, a que você atribui esse convite na época e como essa troca com o público brasileiro impactou o seu trabalho?
SH
Foi incrível ter ido em 2010 ao Fórum Social de Porto Alegre, em uma época de efervescência e emancipação latino-americana. Para mim, fazer parte desse movimento — que não era só música como expressão artística, mas um movimento social e político-cultural — foi nos reunirmos com organizações, diferentes artistas e pessoas da cultura e da política. A gente se encontrou em uma parte do território latino-americano que, naquela época, soube ter uma força e uma potência de união que talvez agora esteja um pouco dispersa. Mas foi um grande momento e uma grande experiência. Sempre vou estar agradecida e tomara que possa voltar sempre.
MG
Javier Mileié um expoente da extrema direita latino-americana e trava uma guerra cultural no país. Ao mesmo tempo sofre uma queda na popularidade e resistência do povo, enquanto a esquerda radical está crescendo na Argentina. Como você vê esse fenômeno?
SH
Com respeito, penso que a esquerda radical… não.
Sim, há lideranças e referências da esquerda popular, do MTST, que há muito tempo estão na política, têm cargos e têm as suas convicções, que são as mesmas até o dia de hoje. Há muitos artistas se pronunciando e dando sua mensagem de apoio contra as leis que querem impor agora mesmo contra os nossos recursos naturais e contra a cultura.
Mas acho que está muito forte o avanço e essa característica quase surreal do governo e dos poderes que acompanham esses movimentos, para que possam avançar com ideias e leis de apropriação territorial e cultural. Acho que esses poderes são tão potentes que é difícil se organizar e entender bem como se radicalizar em uma organização que possa avançar com ideias práticas para enfrentar esta realidade.
MG
A Flipei tem se firmado, ano a ano, como um porto brasileiro para a união e circulação dos livros, das ideias e das pessoas latino-americanas. Como você recebeu o convite para se apresentar no festival?
SH
Recebo muito, muito agradecida por poder ir à FLIPEI, uma feira de editoras, de cultura e de expressões antifascistas latino-americanas. Poder fazer parte de um festival com essas características me deixa orgulhosa, acho importante. E, acima de tudo, poder voltar a São Paulo. É a segunda vez que vamos com o nosso projeto musical, e é muito importante porque é uma cidade muito grande. É uma grande honra que me considerem e me convidem a partir de um festival tão importante e desta trajetória. Muito obrigada mesmo! Espero estar à altura da FLIPEI, levar um show muito potente, muito raivoso, muito dançável e, bom, a gente se vê lá no Sol y Sombra. Muito obrigada!
Serviço
Baile Pirata (Flipei) — Sara Hebe + Fabi Caruso + Festa Papaya
- Data: Sexta-feira, 7 de agosto
- Horário: Das 22h às 04h30
- Local: Sol Y Sombra (SyS13)
- Endereço: Rua Treze de Maio, 180 – Bela Vista, São Paulo – SP
Line-up:
- Abertura: DJ Fabi Caruso (Punky Reggae Party)
- Show: Sara Hebe
- Encerramento: DJs Dieguito e Cachuca (Festa Papaya)
Ingressos:
- Valores: A partir de R$ 35,00 (1º Lote)
- Vendas online / Link de compra: Garanta seu ingresso na Shotgun









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