A trama do longa metragem nacional “Antártida” apresenta como fio condutor a violência de gênero praticada no ambiente da expedição brasileira como: assédio moral, violências física, psicológica e sexual contra as personagens femininas.


claudia patricia correia

Claudia Correia -  é natural de Salvador, Bahia, graduada em Serviço Social e Jornalismo, Mestra em Planejamento Urbano e Regional. Atua como repórter da Agência de Noticias das Favelas (ANF), integra a Rede de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres de Salvador e é secretária da Associação Cultural Beneficente Monsenhor Amílcar Marques.

 

 


Eu assisti sexta-feira (14) o longa metragem nacional “Antártida”, na abertura do 54º Festival Internacional de Cinema de Gramado, Rio Grande do Sul, de 12 a 22 de agosto. A obra de suspense, da Globo Filmes, de autoria e roteiro de Claudia Jouvin é dirigida por Bruno Safadi e traz um elenco de peso com Leandra Leal, Andréa Beltrão, Marina Ruy Barbosa, Lázaro Ramos, Antônio Calloni e outros. Foi o primeiro filme Hors concours exibido nessa edição do renomado festival e utilizou um mega estúu duas pessoas em fevereiro de 2012. O projeto começou a ser desenvolvido entre 2017 e 2019 e em 2023 foi retomado com o investimento da Globo na compra da tecnologia Unreal.

antartida 2

Foi minha primeira experiência na plateia de um festival de cinema desse porte e desde já esclareço que não faço aqui uma crítica cinematográfica, para a qual não me sinto habilitada. Apenas compartilho minhas impressões sobre o tema abordado na obra.

A trama apresenta como fio condutor a violência de gênero praticada no ambiente da expedição brasileira como: assédio moral, violências física, psicológica e sexual contra as personagens femininas. No centro da história a pesquisadora Inês, vivida por Marina Ruy Barbosa, vítima de estupro e de outras situações humilhantes, tão comuns na realidade brasileira, conforme atestam os dados estatísticos.

Um olhar mais tento sobre o filme percebe que todos os personagens estão inseridos em um contexto marcado pela violência, abuso de poder, disputas por cargos de comando e práticas machistas. Para além de uma denúncia sobre as diversas expressões da opressão contra as mulheres na sociedade brasileira, o filme revela a complexidade psicológica de cada personagem, as dores e histórias traumáticas que carregam, seus conflitos subjetivos com a família, o trabalho, a sexualidade e os desafios inerentes ao viver diante da iminência da morte e dos riscos impostos pela operação militar em um ambiente inóspito. É impactante identificar os desencontros humanos, conflitos internos e fugas para lidar com o luto, o medo da morte, a angústia da vulnerabilidade humana diante da doença. Mas, é comovente sentir nas cenas a solidariedade entre as mulheres diante dos estereótipos impostos socialmente, a empatia frente aos desafios profissionais e a imposição de padrões de comportamento e julgamentos morais como a “boa mãe” ou a “mulher fatal, objetificada sexualmente”.

Os temas abordados no filme provocam reflexões necessárias, ainda que diálogos e cenas apresentem falhas técnicas. É preciso utilizar as linguagens artísticas, e em especial a força que o cinema nacional conquistou ao longo de décadas, para ampliar nossa responsabilidade social frente à violência de gênero. Esse é o mérito do filme, causar incômodo, desconforto frente à banalização do desrespeito aos direitos da mulher ao seu corpo, ao trabalho, à autonomia de fazer suas escolhas.

Apesar do avanço na legislação brasileira, com a Lei Maria da Penha 11.340/06, a Lei do Feminicídio 13.104/15, e a Lei 14.994/24, que tornou o feminicídio crime autônomo, sujeito a pena de reclusão de 20 a 40 anos, temos muito o que conquistar. Segundo dados do Ministério da Justiça, com informações dos estados e Distrito Federal, o Brasil registrou mais de 83 mil casos de estupro de vulnerável em 2025, uma média de 227 vítimas por dia ou 9 vítimas por hora. Conforme dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mulheres e meninas negras representam cerca de 52% a 60% dos casos de estupro.

As Políticas Públicas para as mulheres em todas as esferas de governo ainda careconformeestões participativas, controle social eficaz, recursos orçamentários suficientes e uma rede de serviços de proteção às vítimas com qualidade técnica e agilidade. Essas bandeiras de luta pautam o movimento de mulheres no país há décadas e estão presentes em atos públicos, marchas e manifestações no Congresso Nacional e nas ruas.

Se o filme avançou no uso de recursos tecnológicos do mundo virtual, também pode contribuir para incentivar novas posturas cotidianas na perspectiva do combate à misoginia, fruto da herança do sistema patriarcal obsoleto, ainda tão presente entre nós. Ao estrear nas salas de cinema do país dia 17 de setembro certamente Antártida vai gerar polêmicas e debates. Eu espero que seja um convite para ampliarmos nossa consciência sobre as expressões da violência de gênero, no âmbito doméstico, profissional, na Politica e em todos os ambientes.dio virtual para reproduzir o cenário das geleiras da Antártida, onde uma estação da Marinha Brasileira realiza estudos.. Antártida” é uma história de ficção baseada no incêndio real na Estação Antártica Comandante Ferraz, que matou duas pessoas em fevereiro de 2012. O projeto começou a ser desenvolvido entre 2017 e 2019 e em 2023 foi retomado com o investimento da Globo na compra da tecnologia Unreal

Foi minha primeira experiência na plateia de um festival de cinema desse porte e desde já esclareço que não faço aqui uma crítica cinematográfica, para a qual não me sinto habilitada. Apenas compartilho minhas impressões sobre o tema abordado na obra.

A trama apresenta como fio condutor a violência de gênero praticada no ambiente da expedição brasileira como: assédio moral, violências física, psicológica e sexual contra as personagens femininas. No centro da história a pesquisadora Inês, vivida por Marina Ruy Barbosa, vítima de estupro e de outras situações humilhantes, tão comuns na realidade brasileira, conforme atestam os dados estatísticos.

Um olhar mais tento sobre o filme percebe que todos os personagens estão inseridos em um contexto marcado pela violência, abuso de poder, disputas por cargos de comando e práticas machistas. Para além de uma denúncia sobre as diversas expressões da opressão contra as mulheres na sociedade brasileira, o filme revela a complexidade psicológica de cada personagem, as dores e histórias traumáticas que carregam, seus conflitos subjetivos com a família, o trabalho, a sexualidade e os desafios inerentes ao viver diante da iminência da morte e dos riscos impostos pela operação militar em um ambiente inóspito. É impactante identificar os desencontros humanos, conflitos internos e fugas para lidar com o luto, o medo da morte, a angústia da vulnerabilidade humana diante da doença. Mas, é comovente sentir nas cenas a solidariedade entre as mulheres diante dos estereótipos impostos socialmente, a empatia frente aos desafios profissionais e a imposição de padrões de comportamento e julgamentos morais como a “boa mãe” ou a “mulher fatal, objetificada sexualmente”.

Os temas abordados no filme provocam reflexões necessárias, ainda que diálogos e cenas apresentem falhas técnicas. É preciso utilizar as linguagens artísticas, e em especial a força que o cinema nacional conquistou ao longo de décadas, para ampliar nossa responsabilidade social frente à violência de gênero. Esse é o mérito do filme, causar incômodo, desconforto frente à banalização do desrespeito aos direitos da mulher ao seu corpo, ao trabalho, à autonomia de fazer suas escolhas.

Apesar do avanço na legislação brasileira, com a Lei Maria da Penha 11.340/06, a Lei do Feminicídio 13.104/15, e a Lei 14.994/24, que tornou o feminicídio crime autônomo, sujeito a pena de reclusão de 20 a 40 anos, temos muito o que conquistar. Segundo dados do Ministério da Justiça, com informações dos estados e Distrito Federal, o Brasil registrou mais de 83 mil casos de estupro de vulnerável em 2025, uma média de 227 vítimas por dia ou 9 vítimas por hora. Conforme dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mulheres e meninas negras representam cerca de 52% a 60% dos casos de estupro.

As Políticas Públicas para as mulheres em todas as esferas de governo ainda careconformeestões participativas, controle social eficaz, recursos orçamentários suficientes e uma rede de serviços de proteção às vítimas com qualidade técnica e agilidade. Essas bandeiras de luta pautam o movimento de mulheres no país há décadas e estão presentes em atos públicos, marchas e manifestações no Congresso Nacional e nas ruas.

Se o filme avançou no uso de recursos tecnológicos do mundo virtual, também pode contribuir para incentivar novas posturas cotidianas na perspectiva do combate à misoginia, fruto da herança do sistema patriarcal obsoleto, ainda tão presente entre nós. Ao estrear nas salas de cinema do país dia 17 de setembro certamente Antártida vai gerar polêmicas e debates. Eu espero que seja um convite para ampliarmos nossa consciência sobre as expressões da violência de gênero, no âmbito doméstico, profissional, na Politica e em todos os ambientes.

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