Amelinha Teles foi considerada uma das maiores feministas brasileiras, mobilizando mulheres de todas as camadas sociais e em toda a sua diversidade.
Vale a pena dar um mergulho profundo para conhecer a história dessa guerreira brasileira.
Era outubro de 1996. Na recepção do Superior Tribunal de Justiça (STJ), quarenta promotoras legais populares são barradas pelo guarda: “Aqui é proibido entrar mulher de calça comprida”. Pelo menos 35 delas vestiam calças compridas. Vinham exaustas da viagem de ônibus de São Paulo a Brasília. A visita ao STJ havia sido devidamente agendada.
As promotoras populares protestaram com veemência. Por que não poderiam entrar de calças compridas? Isso era discriminação contra todas as mulheres. Não arredaram pé e armaram o maior fuzuê no coração do Distrito Federal. No final, não só entraram no prédio como foram o pivô de uma portaria, assinada pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), retirando a proibição.
Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida de norte a sul como Amelinha, ficou radiante com a atuação contundente do grupo. Sentiu a grata sensação de que as discípulas estavam superando a mestra. Afinal, essas mulheres oriundas de comunidades pobres, muitas com poucas letras, conseguiram derrubar um baita preconceito.
Amelinha era coordenadora do Curso de Promotoras Legais Populares no estado de São Paulo, projeto que habilita líderes comunitárias para acessar a Justiça. Em uma formação multidisciplinar, com duração de um ano, elas estudam a Constituição Brasileira e a Lei Maria da Penha (a terceira melhor do mundo contra a violência doméstica e familiar), além de documentos nacionais e internacionais referentes aos Direitos Humanos em geral e aos Direitos das Mulheres em particular. “Depois de formadas, muitas partem para a criação de associações de mulheres em suas cidades e bairros”.
Lutar, organizar, multiplicar eram verbos caros na gramática de Amelinha. Na infância, ela aprendeu com o pai sindicalista que “direitos não são dádivas, direitos a gente arranca”. Quando o pai se reunia com os colegas dentro de casa, ela tinha como tarefa vigiar a aproximação da polícia. “A luta é algo que corre no meu sangue”.
Sangue que ela derramou nas dependências da sinistra Operação Bandeirantes (OBAN) – departamento de sequestro e tortura da ditadura militar, em São Paulo. Amelinha foi presa, em 1972, junto com seu companheiro César. Os dois foram muito torturados. As torturas físicas eram tão infames quanto as psicológicas. “Eles ameaçavam prender e seviciar meus filhos pequenos. Chegaram a dizer que minha filha estava morta dentro de um caixão”.
Foi a segunda prisão de Amelinha. A primeira ocorrera em Belo Horizonte, Minas Gerais, logo depois do Golpe Militar de 1964. Solta, para não ser julgada e condenada, ela optou pela clandestinidade. Por oito anos, manteve um nome falso e uma vida verdadeira. Teve dois filhos. Dividia seu dia entre as tarefas para o Partido Comunista e o trabalho pela sobrevivência. “Descobri que a revolução demoraria muito, daí fui tocando minha história pessoal. Para mim, foi sempre tudo junto”.
Da OBAN, quando seus algozes cansaram de torturá-la, ela foi transferida para o Presídio do Hipódromo. Lá, dividiu os choros, a esperança e a cela com um coletivo de mulheres. No meio da violência do confinamento e da solidariedade entre as detentas, ela vislumbrou um novo farol para sua luta: as especificidades das questões femininas.
Em 1981, com o Brasil se redemocratizando, Amelinha e outras companheiras fundaram a ONG União de Mulheres de São Paulo – espaço político dedicado ao enfrentamento da violência doméstica e à promoção dos direitos humanos. A União de Mulheres, bem como a militância de Amelinha, tornaram-se inspirações para vários grupos feministas do país.
Amelinha nasceu em 1944, ano do Armistício mundial. Coincidência ou não, seu grande amor era pela paz. Por isso, ela esteve sempre envolvida em ações contra o racismo, a homofobia e demais intolerâncias. “O mundo só será da paz se incluir as diversidades”.
Ela acreditava que a justiça poderia ser feita até mesmo em relação aos mortos. Essa convicção a levou, em 1990, a participar ativamente da Comissão de Investigação das Ossadas de Perus – procura de restos mortais de vítimas da ditadura enterradas em vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, localizado no bairro de Perus, na periferia de São Paulo.
Ela também integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, cuja luta era pelo direito de enterrar o que restou de suas pessoas queridas. Mas não apenas isso: a Comissão empenhava-se pela abertura dos arquivos políticos da ditadura e pelo direito inalienável de que a história de cada morte fosse recontada com toda a verdade.
Maria Amélia de Almeida Teles, a mulher de tantos caminhos, abriu uma nova trilha. Quando advogada recém-formada, no início dos anos 2000, passou a difundir, na Justiça brasileira, os direitos conquistados pelas mulheres. Potencial ela sempre teve de sobra. Sua folha corrida de lutas alcança vários metros.
Tanta função não impedia que, pelas tardes de sábado, no salão da União de Mulheres, ela e seu companheiro César dançassem samba, salsa, merengue e, de noitinha, tango argentino. Amelinha também juntava a mulherada no Bloco de Carnaval Dona Yayá, dançando e cantando os versos da marchinha de sua autoria:
Tem que valer
Tem que valer nossos direitos
Com amor e com prazer
Se a igualdade de direitos
Só se encontra no papel
Nossa luta é pra valer
Somos metade do céu
Esse corpo que é nosso
Nós quem vamos decidir
Se a gravidez interrompemos
Ou se queremos parir
Nós quem vamos decidir!
Amelinha Teles recebeu o título de doutora honoris causa da Universidade Federal de São Paulo, em 2023. Esse título é concedido a personalidades eminentes, nacionais ou internacionais, que tenham se destacado nas ciências, nas artes, na cultura, na educação e na defesa dos direitos humanos. De acordo com a Universidade, “o título se baseia na contribuição ímpar na luta pela democracia e pelos direitos humanos, e para a construção dos direitos das mulheres e consolidação dos feminismos no país”.
Amelinha Teles é autora dos livros:
- Breve história do feminismo no Brasil
- O que é violência contra a mulher?
- O que são os direitos humanos das mulheres?
- Contos da cela 3: memórias de uma presa política na ditadura – uma obra de ficção em que ela utiliza a narrativa ficcional para abordar temas como autoritarismo, violência política e resistência.
Ela foi uma das 52 brasileiras indicadas ao Prêmio Nobel da Paz de 2005. A iniciativa da PWAG (Peace Women Across the Globe) nomeou 1.000 mulheres coletivamente, em uma maneira pioneira de dar visibilidade ao trabalho das mulheres ao redor do mundo.
Neste dia 15 de setembro de 2026, aos 81 anos, Amelinha Teles se despede desta vida. Mas uma mulher como ela não cabe em uma despedida.
Obrigada, Amelinha, por nos mostrar que a luta pode ser firme sem perder a ternura, e que uma vida dedicada à liberdade nunca termina em si mesma. Ela se multiplica.
fonte: https://agenciapatriciagalvao.org.br/institucional/amelinha-teles-uma-vida-inteira-de-luta-amor-e-liberdade/