amelinha2026

Amelinha foi uma das grandes lutadoras feministas e defensoras dos direitos humanos e da democracia no Brasil.

Militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Amelinha integrou a resistência à ditadura e foi uma das guerreiras na Guerrilha do Araguaia, uma das mais emblemáticas experiências de enfrentamento organizado ao regime militar brasileiro. Sua história se entrelaça à de tantas mulheres que desafiaram a repressão e colocaram suas próprias vidas em risco na luta pela liberdade e pela democracia.

Enfrentou os horrores da ditadura militar. Foi presa, torturada e perseguida pelo Estado brasileiro. Conheceu em seu próprio corpo a violência de um regime que tentou destruir vidas, famílias, organizações e sonhos. Mas não conseguiram fazê-la se curvar.

Amelinha transformou a experiência da violência em compromisso permanente com a luta por Memória, Verdade e Justiça. Fez da própria trajetória uma trincheira contra o esquecimento e contra todas as tentativas de apagar ou relativizar os crimes da ditadura.

amelinha13

Feminista incansável, Amelinha dedicou décadas à construção da autonomia, da liberdade e dos direitos das mulheres. Liderou a construção da União de Mulheres de São Paulo, tornou-se referência das Promotoras Legais Populares e participou das mobilizações feministas que disputaram a redemocratização e a Assembleia Nacional Constituinte, ajudando a abrir caminhos para que os direitos das mulheres fossem inscritos na Constituição de 1988.

Hoje o Orum recebe uma mulher que passou a vida inteira nos lembrando que a democracia precisa ser defendida todos os dias.

Para nós, do CFEMEA, sua partida deixa uma tristeza imensa. Mas deixa também gratidão. Tivemos a honra de caminhar ao lado de Amelinha, de compartilhar lutas, articulações, encontros, aprendizados, afetos e a construção coletiva do feminismo que não separa a liberdade das mulheres da defesa radical da democracia e dos direitos humanos.

Amelinha ensinou gerações de feministas que contar a história é disputar o presente. Que nenhum direito está definitivamente conquistado. E que coragem e ternura podem caminhar juntas.

Seguiremos dizendo Ditadura Nunca Mais.

Seguiremos exigindo Memória, Verdade, Justiça e Reparação.

Seguiremos defendendo a democracia pela qual Amelinha lutou durante toda a vida: uma democracia com mulheres livres, com direitos, com dignidade e com poder popular.

À família, às companheiras da União de Mulheres de São Paulo, às Promotoras Legais Populares, às amigas, aos amigos e a todas as pessoas que tiveram o privilégio de caminhar com ela, nosso abraço e nossa solidariedade.

Amelinha Teles, presente!
Hoje e sempre.

Com amor, admiração e gratidão,
CFEMEA - Centro Feminista de Estudos e Assessoria

 guacira amelinha

Amelinha Teles: uma vida inteira de luta, amor e liberdade

Amelinha Teles durante evento em celebração aos 20 anos da Lei Maria da Penha. Foto: Marcos Sugüio.

Amelinha Teles durante evento em celebração aos 20 anos da Lei Maria da Penha. Foto: Marcos Sugüio.

15 de setembro, 2026 Por Instituto Patrícia Galvão e Associação Mulheres pela Paz

Amelinha Teles foi considerada uma das maiores feministas brasileiras, mobilizando mulheres de todas as camadas sociais e em toda a sua diversidade.

Vale a pena dar um mergulho profundo para conhecer a história dessa guerreira brasileira.

Era outubro de 1996. Na recepção do Superior Tribunal de Justiça (STJ), quarenta promotoras legais populares são barradas pelo guarda: “Aqui é proibido entrar mulher de calça comprida”. Pelo menos 35 delas vestiam calças compridas. Vinham exaustas da viagem de ônibus de São Paulo a Brasília. A visita ao STJ havia sido devidamente agendada.

As promotoras populares protestaram com veemência. Por que não poderiam entrar de calças compridas? Isso era discriminação contra todas as mulheres. Não arredaram pé e armaram o maior fuzuê no coração do Distrito Federal. No final, não só entraram no prédio como foram o pivô de uma portaria, assinada pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), retirando a proibição.

Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida de norte a sul como Amelinha, ficou radiante com a atuação contundente do grupo. Sentiu a grata sensação de que as discípulas estavam superando a mestra. Afinal, essas mulheres oriundas de comunidades pobres, muitas com poucas letras, conseguiram derrubar um baita preconceito.

Amelinha era coordenadora do Curso de Promotoras Legais Populares no estado de São Paulo, projeto que habilita líderes comunitárias para acessar a Justiça. Em uma formação multidisciplinar, com duração de um ano, elas estudam a Constituição Brasileira e a Lei Maria da Penha (a terceira melhor do mundo contra a violência doméstica e familiar), além de documentos nacionais e internacionais referentes aos Direitos Humanos em geral e aos Direitos das Mulheres em particular. “Depois de formadas, muitas partem para a criação de associações de mulheres em suas cidades e bairros”.

Lutar, organizar, multiplicar eram verbos caros na gramática de Amelinha. Na infância, ela aprendeu com o pai sindicalista que “direitos não são dádivas, direitos a gente arranca”. Quando o pai se reunia com os colegas dentro de casa, ela tinha como tarefa vigiar a aproximação da polícia. “A luta é algo que corre no meu sangue”.

Sangue que ela derramou nas dependências da sinistra Operação Bandeirantes (OBAN) – departamento de sequestro e tortura da ditadura militar, em São Paulo. Amelinha foi presa, em 1972, junto com seu companheiro César. Os dois foram muito torturados. As torturas físicas eram tão infames quanto as psicológicas. “Eles ameaçavam prender e seviciar meus filhos pequenos. Chegaram a dizer que minha filha estava morta dentro de um caixão”.

Foi a segunda prisão de Amelinha. A primeira ocorrera em Belo Horizonte, Minas Gerais, logo depois do Golpe Militar de 1964. Solta, para não ser julgada e condenada, ela optou pela clandestinidade. Por oito anos, manteve um nome falso e uma vida verdadeira. Teve dois filhos. Dividia seu dia entre as tarefas para o Partido Comunista e o trabalho pela sobrevivência. “Descobri que a revolução demoraria muito, daí fui tocando minha história pessoal. Para mim, foi sempre tudo junto”.

Da OBAN, quando seus algozes cansaram de torturá-la, ela foi transferida para o Presídio do Hipódromo. Lá, dividiu os choros, a esperança e a cela com um coletivo de mulheres. No meio da violência do confinamento e da solidariedade entre as detentas, ela vislumbrou um novo farol para sua luta: as especificidades das questões femininas.

Em 1981, com o Brasil se redemocratizando, Amelinha e outras companheiras fundaram a ONG União de Mulheres de São Paulo – espaço político dedicado ao enfrentamento da violência doméstica e à promoção dos direitos humanos. A União de Mulheres, bem como a militância de Amelinha, tornaram-se inspirações para vários grupos feministas do país.

Amelinha nasceu em 1944, ano do Armistício mundial. Coincidência ou não, seu grande amor era pela paz. Por isso, ela esteve sempre envolvida em ações contra o racismo, a homofobia e demais intolerâncias. “O mundo só será da paz se incluir as diversidades”.

Ela acreditava que a justiça poderia ser feita até mesmo em relação aos mortos. Essa convicção a levou, em 1990, a participar ativamente da Comissão de Investigação das Ossadas de Perus – procura de restos mortais de vítimas da ditadura enterradas em vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, localizado no bairro de Perus, na periferia de São Paulo.

Ela também integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, cuja luta era pelo direito de enterrar o que restou de suas pessoas queridas. Mas não apenas isso: a Comissão empenhava-se pela abertura dos arquivos políticos da ditadura e pelo direito inalienável de que a história de cada morte fosse recontada com toda a verdade.

Maria Amélia de Almeida Teles, a mulher de tantos caminhos, abriu uma nova trilha. Quando advogada recém-formada, no início dos anos 2000, passou a difundir, na Justiça brasileira, os direitos conquistados pelas mulheres. Potencial ela sempre teve de sobra. Sua folha corrida de lutas alcança vários metros.

Tanta função não impedia que, pelas tardes de sábado, no salão da União de Mulheres, ela e seu companheiro César dançassem samba, salsa, merengue e, de noitinha, tango argentino. Amelinha também juntava a mulherada no Bloco de Carnaval Dona Yayá, dançando e cantando os versos da marchinha de sua autoria:

Tem que valer
Tem que valer nossos direitos
Com amor e com prazer

Se a igualdade de direitos
Só se encontra no papel
Nossa luta é pra valer
Somos metade do céu

Esse corpo que é nosso
Nós quem vamos decidir
Se a gravidez interrompemos
Ou se queremos parir
Nós quem vamos decidir!

Amelinha Teles recebeu o título de doutora honoris causa da Universidade Federal de São Paulo, em 2023. Esse título é concedido a personalidades eminentes, nacionais ou internacionais, que tenham se destacado nas ciências, nas artes, na cultura, na educação e na defesa dos direitos humanos. De acordo com a Universidade, “o título se baseia na contribuição ímpar na luta pela democracia e pelos direitos humanos, e para a construção dos direitos das mulheres e consolidação dos feminismos no país”.

Amelinha Teles é autora dos livros:

  • Breve história do feminismo no Brasil
  • O que é violência contra a mulher?
  • O que são os direitos humanos das mulheres?
  • Contos da cela 3: memórias de uma presa política na ditadura – uma obra de ficção em que ela utiliza a narrativa ficcional para abordar temas como autoritarismo, violência política e resistência.

Ela foi uma das 52 brasileiras indicadas ao Prêmio Nobel da Paz de 2005. A iniciativa da PWAG (Peace Women Across the Globe) nomeou 1.000 mulheres coletivamente, em uma maneira pioneira de dar visibilidade ao trabalho das mulheres ao redor do mundo.

Neste dia 15 de setembro de 2026, aos 81 anos, Amelinha Teles se despede desta vida. Mas uma mulher como ela não cabe em uma despedida.

Obrigada, Amelinha, por nos mostrar que a luta pode ser firme sem perder a ternura, e que uma vida dedicada à liberdade nunca termina em si mesma. Ela se multiplica.

fonte: https://agenciapatriciagalvao.org.br/institucional/amelinha-teles-uma-vida-inteira-de-luta-amor-e-liberdade/

Morre Amelinha Teles, guerrilheira, feminista e símbolo de resistência e luta contra a ditadura militar

Ativista foi referência no combate à tortura e pelos direitos das mulheres; velório ocorre na quarta-feira (16)

 

Amelinha Teles, escritora e ativista | Crédito: Divulgação
 

Morreu, nesta terça-feira (15), a jornalista, escritora e ativista dos direitos humanos Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha Teles. Militante histórica contra a ditadura militar brasileira e referência do movimento feminista no país, Amelinha foi presa e torturada durante o regime autoritário.

O velório será realizado na quarta-feira (16), das 12h às 17h, no Cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo (SP).

Nascida em Contagem (MG), Amelinha iniciou a militância política na juventude e atuou na resistência clandestina contra o regime militar pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Em 28 de dezembro de 1972, foi presa em São Paulo e levada à Operação Bandeirantes (Oban) e ao DOI-Codi, onde sofreu sessões de tortura física e violência sexual praticadas pessoalmente pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Na ocasião, seus filhos, Edson e Janaína, então com quatro e cinco anos de idade, também foram sequestrados e levados ao centro de repressão para ver os pais serem torturados.

Após o período de prisão política, Amelinha dedicou a vida à defesa da democracia, à memória dos mortos e desaparecidos e à organização do movimento feminista. 

Histórico potente

Em 1984, fundou a União de Mulheres de São Paulo e, durante a Assembleia Nacional Constituinte, participou ativamente do chamado “Lobby do Batom”, que garantiu a inclusão da igualdade de direitos entre homens e mulheres na Constituição de 1988.

Em 1994, idealizou o projeto Promotoras Legais Populares (PLPs), iniciativa de formação jurídica para mulheres comunitárias que se expandiu por diversos municípios brasileiros.

Na busca por justiça, a família Teles moveu, em 2005, uma ação declaratória contra Carlos Alberto Brilhante Ustra. Em 2008, Ustra tornou-se o primeiro agente do Estado brasileiro a ser oficialmente reconhecido pela Justiça como torturador da ditadura, decisão posteriormente confirmada pelas instâncias superiores.

Amelinha também atuou como assessora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” e integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.

Lamento coletivo

Nas redes sociais, ministros de Estado, parlamentares e lideranças políticas destacaram o legado de resistência da ex-presa política no combate à ditadura militar e sua atuação pioneira na defesa dos direitos das mulheres.

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência do Brasil, Guilherme Boulos, lamentou a partida da ativista e ressaltou o impacto de sua trajetória no país.

“Amelinha foi dessas pessoas que deixam uma marca profunda na história e na vida de quem teve a oportunidade de conhecer sua trajetória. Sua coragem diante da violência da ditadura, sua luta incansável pelas mulheres, pelos direitos humanos, pela memória, pela verdade e pela justiça são um legado imenso para o nosso país”, escreveu Boulos.

Também integrante do primeiro escalão do governo federal, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, prestou solidariedade e relembrou a violência estatal sofrida por Amelinha durante o regime autoritário.

“Por sua luta em defesa da democracia e dos direitos humanos, Amelinha foi presa e torturada barbaramente por agentes do DOI-Codi durante a ditadura militar. Que Deus conforte familiares e amigos. Descanse em paz, companheira”, publicou o ministro.

Na bancada federal, a deputada Erika Hilton (Psol-SP) definiu a ativista como “uma lutadora imparável pelos direitos das mulheres e uma voz inigualável no combate à ditadura militar e pela condenação de seus perpetradores e torturadores”. A parlamentar acrescentou que Amelinha “é uma inspiração para o nosso país e marcou a história da nossa democracia”.

A deputada federal Sâmia Bomfim (Psol-SP), que escreveu a orelha do livro “Contos da Cela Três: Memórias de uma presa política na ditadura” de Amelinha, enfatizou a dimensão histórica da militante. “Uma mulher histórica, referência para tantas gerações que lutam pela vida das mulheres e pela democracia. Sua história de resistência à tortura e combate à ditadura é uma das mais importantes da história brasileira. Serei sempre grata pelo carinho, afeto e ensinamentos dessa grande mulher”, disse a parlamentar nas redes sociais.

A deputada federal Natália Bonavides (PT-RN) também prestou homenagem, classificando Amelinha como uma “gigante da luta pela democracia”. “Presa e torturada pela ditadura, fez da vida uma luta por memória, verdade e justiça. Que honra ter te conhecido nos caminhos da luta. Seguiremos firmes por eles. Amelinha Teles, presente”, escreveu a parlamentar potiguar.

O deputado federal e ex-ministro Paulo Teixeira (PT-SP) lembrou que a partida da ativista ocorreu no Dia Internacional da Democracia e ressaltou o pioneirismo de sua atuação no movimento feminista.

“Transformou cada segundo de sua vida em luta por direitos, especialmente das mulheres. Fundou a União de Mulheres de São Paulo, integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e, até os últimos dias, seguiu levantando a voz pelo que defendia. Falar da história da democracia no Brasil é falar de Amelinha”, disse Paulo Teixeira.

acervo cfemea2