Pesquisa identifica três frentes de desafios e mostra como maternidade, racismo e estereótipos de gênero influenciam a trajetória de empreendedoras STEM

 

Publicado: 29/07/2026 às 14:08 - Jornal da USP

Texto: Milena Miyazaki*

Arte: Livia Bortoletto**

Pesquisa ouviu 12 empreendedoras para compreender os desafios enfrentados por mulheres nas áreas de STEM. Foto: pikisuperstar/Magnific

 

Um estudo da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, identificou que mulheres que empreendem nas áreas de STEM, acrônimo em inglês formado pelas palavras Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, enfrentam “barreiras não gerenciais”, que extrapolam a camada de competência técnica, para participar do mercado. Essas barreiras incluem estereótipos sociais de gênero, racismo e questões relacionadas à maternidade, impondo às empreendedoras uma constante performance de competência e legitimidade para serem reconhecidas no mercado.

O estudo foi realizado por Luciene Rodrigues de Andrade, egressa do Mestrado Profissional em Empreendedorismo e Inovação da FEA. O tema da pesquisa surgiu a partir da realidade vivida pela própria pesquisadora, ao perceber que ela e outras colegas que empreendem, especialmente na área de tecnologia, sentiam uma maior dificuldade de acesso ao mercado. Luciene é co-fundadora de duas empresas, uma delas a startup We Rock It, que oferece uma plataforma de ensino.

Para sua dissertação de mestrado, intitulada Desafios e barreiras não gerenciais do empreendedorismo feminino nas áreas STEM no contexto estereotipado de negócios brasileiro, Luciene entrevistou 12 empreendedoras, que responderam a perguntas sobre trajetória profissional, desafios, gestão, mercado, finanças e perspectivas futuras.

A pesquisa utilizou a metodologia Grounded Theory (teoria fundamentada), em que a teoria é construída a partir dos dados coletados. Como resultado, a pesquisadora identificou três frentes de barreiras ao empreendedorismo feminino e três arquétipos de comportamento das empreendedoras.

Luciene do Carmo Rodrigues de Andrade - Foto: LinkedIn

Arquétipos e barreiras

As 12 entrevistadas tinham entre 22 e 60 anos e diferentes tempos de experiência no mercado. A maioria se autodeclarou como branca, enquanto duas eram pardas e duas pretas. Nas perguntas relacionadas à questão financeira, como primeira captação de investimentos e dificuldades para iniciar o negócio, mulheres negras e pardas relataram dificuldades mais acentuadas.

A partir das conversas com as entrevistadas, Luciene identificou três arquétipos, ou padrões de comportamento, para cada grupo de empreendedoras: a estrategista do sistema, a catalisadora do coletivo e a guardiã da autenticidade.

Segundo Luciene a “guardiã da autenticidade” preserva sua identidade diante das pressões do mercado, a “estrategista do sistema” cria formas de contornar as barreiras e as “catalisadoras coletivas” são as que fortalecem redes de apoio entre empreendedoras.

Todas as entrevistadas destacaram a necessidade de provar constantemente sua competência. A teoria que abrange essa necessidade é a “gestão de legitimidade em múltiplas frentes”, que defende que essas empreendedoras constroem e defendem o tempo todo sua legitimidade diante das barreiras impostas pelo mercado.

“Então, eu preciso provar para o mercado que o meu conhecimento é válido. Eu preciso provar dentro da minha casa que eu dou conta de gerir essa casa e ao mesmo tempo conseguir trabalhar, mostrar que meu trabalho tem valor, porque a mulher é colocada nesse papel de cuidado”, explica Luciene.

A pesquisadora observa que quando mulheres são associadas a uma empresa, quase sempre é uma empresa voltada para o cuidado. “‘Ai, você é uma ONG?’ Eu faço reator. Como é que eu sou uma ONG? Ou, ‘então, você vai empreender em beleza?’ Não, estou criando a formulação do cosmético, não vendendo o cosmético”, exemplifica.

As três frentes de barreiras

🏛️ Frente Estrutural/Sistêmica: onde se manifestam barreiras de acesso à capital, desigualdades regionais, “diáspora tecnológica” e racismo estrutural.

💬 Frente Interpessoal/Relacional: nessa frente se manifestam barreiras culturais e sociais, como a desvalorização do trabalho feminino (visto como “fofo” ou filantrópico) e o viés de gênero em interações com o mercado.

🪞 Frente Interna/Pessoal: aqui estão questões como a pressão por conformidade, que gera um conflito constante com a identidade e os valores da empreendedora.

(Retirado da dissertação de mestrado, p. 119-120)

“Se vestir de homem”

O que acontece com as mulheres que empreendem na área de STEM é uma constante performance de identidade. Para serem ouvidas e terem sua competência técnica reconhecida, muitas relataram precisar adotar estratégias de aparência e comportamento, desde vestir-se de forma mais formal e séria até, em alguns casos, delegar a apresentação de propostas a um sócio homem.

Uma das entrevistadas, fundadora de uma startup de mini usinas hidrelétricas, relatou um aumento de quase 70% no fechamento de propostas quando passou a levar o sócio para apresentá-las, mesmo sendo ela a responsável técnica por todo o projeto. “A gente precisa se vestir de homem para ter uma voz ativa”, resumiu uma das entrevistadas.

Na frente interna/pessoal, destacou-se a culpa relacionada à maternidade e às relações familiares. As entrevistadas relataram dificuldades para conciliar carreira e vida pessoal, além do receio de perderem oportunidades profissionais durante a gravidez, ou diante de mudanças na trajetória profissional. Questionamentos como “estou sendo uma boa mãe? Boa esposa? Boa companheira?” vêm à tona.

A maternidade representa um ponto de inflexão, pois afeta tanto as mulheres que são mães quanto as que não são. Para aquelas que não são mães, questões como contratos que restringem a gravidez, ou pensar: “em que momento ser mãe sem comprometer o crescimento da empresa?” surgem.

Quando essas mulheres já são mães, elas precisam performar mais com menos tempo. A maternidade significa muitas vezes um menor acesso a capital e menos tempo para se dedicar ao crescimento da empresa. “Ninguém pergunta para um homem jovem: quem está cuidando dos seus filhos?”, aponta Luciene.

Por outro lado, para algumas mulheres, a maternidade motivou o empreendedorismo, pois perderam o emprego anterior. Outras preferiram sair do mundo corporativo.

Racismo estrutural e a “performance de impecabilidade”

A pesquisa identificou que, para mulheres negras e pardas, essas barreiras se somam a uma exigência ainda maior: a “performance de impecabilidade”. Segundo Luciene, essas empreendedoras sentem que não têm margem para erro. Uma entrega ruim pode significar a perda definitiva de um cliente ou de acesso a um mercado.

“Eu preciso entregar duas vezes mais do que prometi, porque aí sou percebida como uma pessoa capaz”, relatou uma das entrevistadas. A exigência também se estende à aparência: entrevistadas relataram serem mais bem recebidas em reuniões quando usavam tranças em vez de cabelo crespo, e a própria Luciene descreveu episódios em que sua competência técnica foi questionada antes mesmo de ela se apresentar como responsável por um projeto.

Entre as recomendações da dissertação, está a criação de políticas públicas voltadas ao empreendedorismo feminino em tecnologia que vão além do discurso de subsistência e de mudanças na educação básica para estimular meninas a seguir carreiras técnicas desde cedo. Um exemplo seria o lançamento de editais específicos para mulheres na tecnologia.

Luciene defendeu a dissertação de mestrado em 2025, sob a orientação do professor Guilherme de Faria Shiraishi.

*Estagiária sob supervisão de Silvana Salles

**Estagiária sob orientação de Simone Gomes

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