Reprodução esta que, por meio do cuidado político, escapa ao (neo)liberal e subverte a lógica do interesse pessoal individualista ou da construção de um eu autônomo, fechado sobre si mesmo. Reconhecemos o cuidado como parte estruturante do pacto do Bem Viver. O cuidado é uma estratégia que ginga passos pela micropolítica e pela macropolítica do poder, contrapondo-se à dominação por meio da construção de espaços seguros para se ter voz, escuta e ação conjunta das mulheres por liberdade.

Gabriela Fidelis – CFEMEA

 

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Nosso corpo-território dança por liberdade!

 

A dança das mulheres trama pelas relações interpessoais, políticas, sociais, econômicas e culturais, aguçando nossa atenção umas pelas outras e por toda a nossa comunidade. Geramos relações de proteção, autopreservação, acolhimento, reconhecimento, diálogo e escuta ativa com afeto. Nossos espaços seguros e de auto-organização se renovam e se fortalecem por meio do cuidado, nutrindo a luta e a resistência das mulheres.

Lutamos coletivamente pela revalorização do cuidado na tentativa de criar relações mais horizontais, mais éticas e amorosas de vida, de liberdade e não de dominação. Semeamos a força motriz de uma nova ética de amor e cuidado, com reconhecimento mútuo, reivindicando um mundo melhor para coabitar com seres vivos e não vivos, com acesso livre às memórias e lembranças das relações e dos encontros, com sensibilidade à instauração de uma atitude ética.

 

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O cuidado é mais que uma disposição pontual, de urgência ou emergência; são exercícios contínuos que acontecem no cotidiano da vida e que se contrapõem à morte, ao adoecimento, ao estresse e à sobrecarga por meio da atitude de atenção consigo e com as outras pessoas.

Não é verdade que as mulheres têm mais prazer e afeição por relações pacíficas, pois nos rebelamos para defender nossa autonomia, nossos direitos. As mulheres são domesticadas nesse engajamento de passividade e submissão. E, o que experienciamos é uma vida inteira submetida a situações e relações de extrema vulnerabilidade, violência, agressividade e frieza. Naturalização, banalização e objetificação dos nossos desejos.

“Um tal modelo de cuidado se presta facilmente à caricatura, pois traz em si mesmo seus próprios limites. De um lado, torna visível o devir das mulheres em todo mundo: o cuidado com os próximos, a harmonização da família, a convocação para o cuidado com os outros, levando-as até o sacrifício de si.” (Brugère, 2023).

 

A voz das mulheres e a luta pelo direito à escolha e ao cuidado

 

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A maternidade não é o destino de todas as mulheres!

 

O poder de decidir, como as mulheres constroem a decisão sobre a experiência de ser e de não ser mãe, é um ponto de apoio à própria reflexão das mulheres no que diz respeito ao conflito entre a autonomia e a atenção às necessidades dos outros.

Quando eu me escolho para o autocuidado e não prevalece a preocupação com o outro, parece que as práticas do poder e do saber masculinos ficam em perigo. Como afirma Brugère (2023): “No caso da interrupção voluntária da gravidez, as mulheres devem poder tomar a decisão por si mesmas, com a consciência de sua própria condição, deixando de lado tudo o que as impeça de decidir”.

Deixando de lado “a bondade das mulheres” sob a forma do sacrifício de si mesmas, para romper com a feminilidade fundada na moral convencional, que funciona como um imperativo referente à preocupação com os outros. E, portanto, segundo Brugère (2023), “altera o próprio gênero que é a feminilidade, construída historicamente por uma separação entre o doméstico e o público, associada à atenção com o outro, ao que normalmente nomeamos como um ‘sentido de proteção’, expressão que apaga toda a construção social do papel de protetora”.

O direito à escolha e ao cuidado durante o processo, da decisão à efetivação legítima, legitima sua voz, sua história de vida e uma possível avaliação da situação de vulnerabilidade da própria mulher, que sai do lugar da feminilidade imposta e situa sua decisão no âmbito do questionamento ético que deve se tornar feminista: “Como vou levar minha vida?”

 

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A vida num corpo de mulher, demarcado violentamente pelo cystema racista e heteropatriarcal, entendido como uma experiência biológica e psicológica de cooperação social ao consumo de cuidado subserviente, que é manipulado pela necessidade do outro e alheio de si.

Quando, em que tempo deste mundo velho, vamos superar o bem e o mal? Quando o corpo das mulheres não estará atravessado, dilacerado por esse fio de navalha?

ATITUDE para lutar pelo direito de decidir, pela autopreservação da vida, por nossas relações, afetos, sentimentos e corpos vivos, sem violações, sem mutilações, sem silenciamentos.

É outro tempo!

Tanta informação.

Tanta desinformação.

Lei velha.

Lei nova.

O corte da Lei de profundidades naturais.

É outro tempo!

 

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Cuidado é um acontecimento, um conhecimento. Temos aprendido a cuidar de nós para além de cuidar de outras pessoas. Como nos ensina bell hooks, “temos aprendido a praticar uma ética amorosa consigo mesma”, ancorada na escuta, na relacionalidade entre mulheres e em um senso de atenção plena às nossas próprias necessidades e limites.

Ruína.

Que venha RUIR!

O ideal ético da racionalidade masculina, que traz, na preocupação com os outros, as raízes da experiência moral das mulheres.

Que venha (RE)Existir.

O direito ao amor. O direito ao cuidado é uma tomada de poder que favorece a vida das mulheres, a vida com mais autonomia, mais liberdade, mais escolha e consciência de si e do mundo para transformar o mundo e todas as relações sociais, políticas, econômicas, culturais e ambientais.

Trazemos a pungência da estratégia histórica do feminismo: o pessoal é político. Temos o direito à vida pública, à vida política. Ocupação da rua e da política na luta pela libertação e emancipação das mulheres. Reparação para as teorias de justiça para as mulheres. Justiça reprodutiva, direitos reprodutivos, a luta para romper a esfera pública e privada, assim como o atravessamento da construção da unidade social, a família, que prima pela verticalização do poder familiar e pela subalternização das mulheres em relações desiguais entre pais e filhes, pai e mãe, estruturadas pelo patriarcado.

Pelo poder das mulheres, o poder do cuidado, o poder da decisão, o poder de escolher a si mesma, exercido como atividade de justiça e reconhecimento, autoproteção e igualdade entre pessoas, nos tira de diversas vulnerabilidades e fortalece novas relações.

“Que a voz diferente das mulheres não fique sufocada; torne-se a voz diferente da ética do cuidado quando faz realmente surgir uma ética da responsabilidade que se distingue do sacrifício de si.” (Brugère, 2023).

Recompor o direito à justiça para além da lei e da letra jurídica. Afirmar, pelo feminismo, a concepção da responsabilidade do cuidado, alimentar a justiça, revigorar a compreensão da luta por direitos e liberdade para as mulheres.

“Uma ética feminista do cuidado é uma voz diferente porque é uma voz que não veicula as normas e os valores do patriarcado; é uma voz que não é governada pela dualidade e a hierarquia do gênero, mas que articula as normas e os valores democráticos.” (Brugère, 2023).

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