Iara Balduino - Repórter da Agência Brasil
Publicado em 29/10/2026 - 15:47
Brasília

Guaranis-kaiowás - Marcello Casal/Arquivo Agência Brasil© Arquivo/Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Após o resultado das eleições presidenciais no domingo, indígenas da etnia Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul fizeram diversas denúncias de casos de violência que envolvem tentativas de assassinatos e até ameaça de envenenamento da água da comunidade. 

Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ao menos cinco casos de assassinatos de indígenas na região desde sábado (24) estão sendo investigados. 

O coordenador do Cimi em Mato Grosso do Sul, Matias Benno Rempel, diz que os indígenas relataram diversos casos de intimidações durante a eleição. “Caminhonetes que rodavam pelo território e algumas agressões aos indígenas para tentar causar pânico na comunidade e evitar que eles fossem votar”. 

Mas ele ressalta que a violência no estado é constante.

“Agora temos holofotes para a região. Mas o que aconteceu essa semana, as tentativas de assassinatos, elas ocorrem o tempo todo com a população indígena Guarani Kaiowá. Essa violência que está sendo chamada de violência pós eleitoral, ela é um componente permanente de milícias do campo”, disse. 

A Fundação Nacional do Índio (Funai), o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) encaminharam pedidos ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal para investigar os casos. Um deles envolve um atropelamento de indígena de forma proposital na cidade de Coronel Sapucaia, no sudoeste do estado, na fronteira com o Paraguai. 

Segundo dados da Apib, entre 2022 e 2026, seis indígenas da etnia Guarani Kaiowá foram assassinados no estado de Mato Grosso do Sul.  

Envenenamento da água

Outra denúncia investigada pelo MPF é a de uma ameaça de envenenar a água usada pela comunidade em retaliação ao resultado da eleição presidencial.

Em um áudio que foi atribuído a um funcionário da prefeitura de Tacuru, no extremo sul do estado, o homem diz ao interlocutor que os indígenas deveriam ser mortos por terem votado no candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT): Na gravação ele fala: “ponha (sic) veneno na água, (vamos) matar essas praga na água”. 

Segundo o coordenador do departamento jurídico da Apib, Ricardo Terena, a água na região é difícil e as comunidades indígenas dependem de caminhões pipa. E após a divulgação dos áudios, muitos passaram a não consumir mais essa água. O MPF de Mato Grosso do Sul deu um prazo de 24 horas para que a prefeitura de Tacuru esclareça se os áudios são verdadeiros, quem é o autor das ameaças e quais medidas estão sendo tomadas. 

 

Polícia Federal investiga onda de violência contra indígenas no Mato Grosso do Sul após as eleições

Casos envolvem incêndio criminoso de casa reza, ameaça de contaminação de água e até assassinato de uma família inteira

Casa de reza indígena foi incendiada. | Crédito: Apib

A Polícia Federal (PF) foi acionada pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI), nesta quinta-feira (29), para investigar os casos de violência contra indígenas Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul, após o resultado das eleições.

A Fundação dos Povos Indígenas (Funai) classificou os relatos como “extremamente preocupantes” e cita ameaças à vida, à segurança e à integridade física dos indígenas, manifestações de discriminação e incitação ao ódio.

“Diante da gravidade dos relatos, o MPI acionou a Polícia Federal para que os fatos sejam apurados com celeridade e rigor. O Ministério também mantém diálogo com as comunidades indígenas, por meio do Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Fundiários Indígenas (Demed), e segue atuando, no âmbito de suas competências, para assegurar a proteção e os direitos das comunidades”, informa a nota do governo federal. As denúncias têm sido reunidas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e Associação Aty Guasu.

Nesta quinta (29), por volta das 6h, a casa da Ñandesy Roberta, de 90 anos, taxada como feiticeira e sofrendo racismo, foi incendiada de forma criminosa, na aldeia Jaguapiré, município de Tacuru (MS). Foram queimados todos os instrumentos sagrados usados nos rituais do povo, como takua, xiru, mbaraka, mimby e outros.

Na quarta (28), um servidor da Prefeitura de Tacuru (MS) foi afastado das funções após sugerir o envenenamento da água consumida por indígenas da Aldeia Sassoró em mensagem de WhatsApp.

No domingo (25), à noite, uma família inteira foi assassinada em Naviraí. No mesmo dia, houve atropelamentos em Coronel Sapucaia. Um homem morreu.

A Anistia Internacional Brasil e o Greenpeace também cobraram resposta urgente das autoridades diante das denúncias no Mato Grosso do Sul.

Além do MPI, os ministérios dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e da Igualdade Racial (MIR) atuam para reunir denúncias de violência relacionadas aos povos indígenas, comunidades quilombolas e povos de terreiro. Os órgãos estão em diálogo permanente, por meio de uma força-tarefa, para que os casos sejam investigados “de forma célere, e os responsáveis identificados e responsabilizados por possíveis crimes”.

São Paulo e Minas Gerais

A escalada da violência também foi denunciada pela deputada federal Célia Xakriabá (Psol-MG) na Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial, que apontou um incêndio no território do povo Tikm’n, conhecido como Maxakali, em Minas Gerais. “São povos indígenas que enfrentam ameaças à vida, à água e aos seus territórios. Essas denúncias precisam ser investigadas, e o poder público deve agir para garantir proteção às comunidades”, disse Célia.

A Apib também denunciou casos de ameaças a indígenas em Avaí (SP), próxima à região de Bauru.

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