helen frida1

Hellen Frida - Cfemea

 

Há palavras que acolhem, convocam e fazem brotar coragem.

Foi assim que, em cada uma das Rodas de Cuidado e Autocuidado realizadas pela CFEMEA em Julho, junto às mulheres de três acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no âmbito dos Laboratórios Organizacionais Feministas para Sustentação da Vida, os encontros começaram: com a voz, a poesia e a mística de Adriana Fernandes, assentada da Reforma Agrária, militante do MST e companheira que vem conduzindo conosco, com sensibilidade e compromisso, esse processo coletivo.

Mais do que uma abertura, seus textos tornaram-se um convite para que cada mulher pudesse reconhecer sua própria história, sua força e seu lugar na construção de um futuro compartilhado, olhando para si, olhando para todas, criando as conexões necessárias para o fortalecimento da busca de saídas coletivas para os desafios do viver num mundo capitalista.

autocuidado anaprimavesi julho2026

As Rodas de Cuidado e Autocuidado nasceram da compreensão de que a transformação ecosocial também passa pelo fortalecimento dos vínculos, pela escuta, pelo reconhecimento dos saberes e pela criação de espaços onde as mulheres possam cuidar de si, umas das outras e do projeto coletivo que constroem diariamente.

Ao longo dos encontros, mulheres agricultoras, militantes, filhas, mães e avós, trabalhadoras, guardiãs dos territórios, compartilharam experiências, desafios, sonhos e estratégias para fortalecer sua autonomia, sua organização e a sustentação da vida em seus territórios.

Foi nesse contexto que Adriana ofereceu duas poesias que traduzem, com beleza e potência, a experiência vivida pelas mulheres da Reforma Agrária.

Na primeira, ela celebra aquelas que "transformam o chão bruto em solo fértil e a luta por um pedaço de terra em um ato de amor e dignidade". Reconhece as mulheres como guardiãs das sementes, da biodiversidade, da soberania alimentar e da memória ancestral, lembrando que cada horta cultivada, cada quintal produtivo e cada experiência coletiva representam uma vitória cotidiana contra as desigualdades.

Na segunda, "Chegou a Nossa Hora, Companheiras", Adriana lança um chamado à autoestima, ao protagonismo e à prosperidade construída coletivamente. É um convite para que as mulheres deixem de ocupar o lugar da invisibilidade e passem a reconhecer sua própria potência. A poesia aponta para um horizonte concreto: uma cooperativa feminista onde o trabalho, os saberes e a riqueza sejam partilhados, reafirmando que, quando muitas mulheres caminham juntas, elas transformam o mundo.

Essas palavras dialogam profundamente com a proposta dos Laboratórios Organizacionais Feministas para Sustentação da Vida, que compreendem que organizar uma cooperativa, fortalecer processos produtivos ou construir autonomia econômica não são apenas tarefas técnicas. São processos profundamente humanos, políticos e afetivos, que exigem confiança, pertencimento, solidariedade e cuidado.

Ao abrir cada roda com poesia, Adriana nos lembra que nenhuma transformação coletiva acontece apenas por meio de planilhas, reuniões ou planejamento. Ela também nasce da capacidade de sonhar juntas, de fortalecer a autoestima, de reconhecer a beleza da caminhada coletiva e de cultivar esperança mesmo diante das dificuldades.

Na CFEMEA, acreditamos que arte, cultura e cuidado são tecnologias políticas fundamentais para a construção dos nossos Territórios de Cuidado, Luta e Sustentação da Vida. São elas que alimentam a coragem necessária para seguir organizando mulheres, fortalecendo comunidades e construindo alternativas feministas, antirracistas e populares para o Bem Viver.

Com alegria, compartilhamos as palavras de Adriana Fernandes, como registro vivo de uma experiência construída por muitas mãos e muitos corações. Que sua poesia siga semeando coragem, cooperação e liberdade por todos os territórios onde mulheres insistem em fazer florescer o futuro.

"Mulheres da Reforma Agrária!!!" 

"Chegou a Nossa Hora, Companheiras"

de Adriana Fernandes

 

adriana fernandes

Quando uma mulher da Reforma Agrária avança, toda a história das mulheres na luta pela terra e comunidade avançam junto. Introdução de Adriana Fernandes nos encontros de autocuidado e cuidado coletivo promovido pela Cfemea nos territórios (acampamentos e assentamentos) de mulheres agricultoras familiares em jornadas do mês de julho no Distrito Federal e Goiás

 

Adriana Fernandes - Coletivo Panteras Negras

 

Semear força, colher futuro e dignidade. Companheiras, olhar para cada uma de vocês hoje é enxergar a própria força da terra. Ser mulher da Reforma Agrária é carregar nas mãos a dupla responsabilidade de produzir alimentos saudáveis e com coragem de gerar a sustentação da vida. Vocês, nós transformamos o chão bruto em solo fértil, o silêncio em voz coletiva e a luta por um pedaço de terra em um ato de amor e dignidade.

A força da semeadura, mãos que alimentam: mulheres, somos a base da soberania alimentar, garantindo que o fruto do trabalho chegue à mesa de quem precisa. Guardiãs das sementes: o cuidado de protegermos as sementes e a biodiversidade, os saberes das nossas ancestrais e tradicionais. Resistência nossa é diária!

Cada horta cultivada, a cada quintal produtivo e cada cooperativa organizada é uma vitória contra a desigualdade social e de gênero. Colhendo o futuro, nenhuma barreira apaga o protagonismo que conquistamos. Gerando autonomia econômica.

Quando uma mulher da Reforma Agrária avança, toda a história das mulheres na luta pela terra e comunidade avançam junto. Que continuemos firmes, plantando resistência para colher liberdade.

Viva a força das mulheres camponesas!

Chegou a Nossa Hora Companheiras

Chegou a minha, a sua, a nossa hora!

A hora de colher a prosperidade,

que mesmo sem ter consciência, que por tanto tempo semeamos com 

com a nossa coragem, nossos corpos e com os nossos corações.

Cansamos de nos diminuir, de aceitar a invisibilidade como nossa identidade!

Cansamos de esconder a força

que mora em nós.

Cansamos de ser sombra

quando nascemos para ser sol.

Sei quem sou.

Sei do meu valor.

Sei que posso assumir

o protagonismo da minha própria história.

Chega de uma vida sem cor.

Chega de acreditar

que nossos sonhos são pequenos.

Nós, mulheres da Reforma Agrária,

plantamos alimento,

plantamos afeto,

plantamos o futuro.

Agora é tempo

de acreditarmos em nós, cooperar umas com as outras, ver as nossas mãos produzir para nós a prosperidade que merecemos ter.

Vamos pintar as nossas vidas

com todas as cores do amanhecer!

Dançar comigo mesma

ao som das mais belas canções,

celebrando cada passo,

cada conquista,

cada semente que floresceu.

E não caminharemos sozinhas!

De mãos dadas, construiremos

uma cooperativa feminista,

onde nenhuma mulher diminui a outra,

onde o saber é partilhado,

o trabalho é valorizado

e a riqueza nasce da sororidade.

Porque quando uma mulher se levanta,

ela inspira outras a se levantarem!

E quando muitas mulheres caminham juntas,

transformam o mundo.

Hoje escolho acreditar em mim!

Hoje escolho acreditar em nós!

A prosperidade já conhece o nosso nome.

E o futuro que queremos começa agora em nós mesmas!

keno4julho2026