
Hellen Frida - CFEMEA
5h da manhã, céu ainda escuro. Sair de casa para trabalhar. Pegar o metrô. Atravessar uma estação, caminhar até uma parada. Esperar um ônibus. Se tudo der certo, chegar no trabalho e trabalhar. Depois da labuta, ir para a faculdade. Voltar da faculdade. Chamar um carro por aplicativo porque já está tarde e o transporte público não oferece uma alternativa segura. Depois de tudo, se Deus quiser e os homens deixarem, chegar em casa.
Para as mulheres, esses gestos cotidianos nunca são apenas deslocamentos.
Nas últimas semanas, diferentes episódios de violência ocorridos no Distrito Federal voltaram a demonstrar que o direito das mulheres de circular pela cidade continua sendo atravessado pelo medo, pelo assédio e pela necessidade permanente de calcular riscos.
Em 14 de setembro, um homem entrou em um vagão exclusivo para mulheres do Metrô-DF, assediou passageiras e agrediu mulheres que reagiram à sua presença e às importunações. Uma delas sofreu uma fratura no joelho e precisou de cirurgia. Segundo relatos publicados pela imprensa, outra passageira foi enforcada e agredida. O homem foi conduzido à delegacia e liberado após prestar depoimento. Passageiras relataram que, pouco depois, ele teria sido novamente visto na Estação Praça do Relógio, em Taguatinga, e em outro vagão destinado às mulheres.
Em 27 de setembro, três mulheres denunciaram terem sido agredidas após uma corrida com um motorista de transporte por aplicativo no Distrito Federal. Entre elas estava uma mulher trans. Segundo o relato das vítimas e de sua defesa, houve ofensas de conteúdo transfóbico antes das agressões. Uma das mulheres sofreu graves lesões no maxilar, precisou ser internada e submetida a cirurgia. O caso está sob investigação, e o motorista apresentou versão distinta dos acontecimentos, alegando legítima defesa.
Em 28 de setembro, um homem entrou e atacou novamente dentro de um vagão exclusivo para mulheres, atacou uma estudante, desta vez entre as estações Centro Metropolitano e Ceilândia Sul. Após o episódio, passageiras entrevistadas por diversos veículos de comunicação relataram medo e insegurança para utilizar o sistema.
Em 29 de setembro, um homem de 60 anos foi preso por importunação sexual dentro de um ônibus que saía de Brasília em direção a Águas Lindas (GO). Segundo os relatos registrados pelas autoridades, ele se masturbava próximo a uma passageira de 21 anos. Foi necessário que o motorista alterasse o percurso e conduzisse o ônibus até a sede da Secretaria de Administração Penitenciária para que o homem fosse detido.
Esses casos possuem circunstâncias diferentes e estão em diferentes estágios de apuração. Mas colocados lado a lado revelam uma pergunta incontornável: que direito à cidade existe quando mulheres precisam organizar seus deslocamentos a partir do medo da violência?
Mobilidade também deveria ser uma política de cuidado
Falar de mobilidade urbana a partir de uma perspectiva feminista exige ir além de ônibus, metrô, carros e vias. Mobilidade é sobre quem consegue acessar a cidade.
É conseguir chegar ao trabalho, à escola, à universidade, ao posto de saúde, aos equipamentos públicos, à cultura, ao lazer e aos espaços de participação política. É também poder voltar para casa depois de uma jornada de trabalho sem transformar cada trecho do caminho em uma operação de segurança.
Quando o transporte é insuficiente, demora, não alcança adequadamente os territórios, possui horários incompatíveis com a vida cotidiana e não oferece condições efetivas de segurança, seus impactos não são distribuídos igualmente entre homens e mulheres.
As mulheres acumulam jornadas de trabalho remunerado e não remunerado e continuam assumindo parcela desproporcional das responsabilidades de cuidado. Seus deslocamentos frequentemente envolvem levar crianças à escola, acompanhar familiares aos serviços de saúde, comprar alimentos, trabalhar, estudar e resolver inúmeras necessidades da reprodução cotidiana da vida.
Por isso, uma política de mobilidade que não considera o cuidado também reproduz desigualdades.
E, no Distrito Federal, falar de direito à cidade significa necessariamente olhar para a profunda desigualdade entre o centro político e administrativo de Brasília e os territórios onde vive grande parte da população trabalhadora.
Para muitas mulheres das periferias e do Entorno, a jornada começa muito antes do trabalho e termina muito depois dele: começa nos cuidados dentro de casa antes de sair, na caminhada até a parada, na espera pelo ônibus, nas integrações, nas estações e nos longos percursos até os lugares onde estão concentrados empregos e serviços.
Quanto maior o tempo de deslocamento, maior também o tempo de exposição.
O medo também estabelece fronteiras
Há uma dimensão da violência contra as mulheres que raramente aparece nos mapas oficiais das cidades: os lugares aos quais deixamos de ir.
A parada onde uma mulher evita ficar sozinha. O ônibus que ela prefere não pegar depois de determinado horário. A roupa que pensa duas vezes antes de vestir. O caminho mais longo escolhido porque o mais curto é escuro. A atividade cultural que não tem facilidade de ônibus pra chegar, ou que é longe demais, ou que termina tarde demais. O emprego que fica distante, no meio de um fluxo desumano de tantos carros e engarrafamento. A aula noturna abandonada. O dinheiro que não poderia gastar, mas gasta em uma corrida por aplicativo para não voltar sozinha e o próprio perigo que corre dentro desse carro.
Essa também é uma forma de expulsão da cidade. De negar o direito à cidade.
Quando o medo reorganiza os nossos trajetos, limita nossos horários e determina onde podemos ou não estar, fica escancarado que a violência não é um conjunto de ocorrências individuais, a violência interfere diretamente no exercício do direito à cidade.
E nem mesmo as estratégias criadas para reduzir essa vulnerabilidade são suficientes quando não existem fiscalização, prevenção e respostas institucionais adequadas.
O vagão exclusivo para mulheres existe, a princípio, como medida de proteção. Mas um vagão pintado ou identificado como exclusivo não produz segurança sozinho. O episódio ocorrido em setembro demonstra que é preciso garantir que essa política seja efetivamente respeitada e acompanhada de protocolos de prevenção e resposta. Além disso, é preciso dialogar com as pessoas, reeducar a sociedade, falar com os homens sobre o que muitos deles impõem às mulheres.
Da mesma forma, recorrer a um transporte por aplicativo não pode significar trocar a insegurança da parada de ônibus pela insegurança dentro de um automóvel conduzido por alguém desconhecido. As plataformas e empresas também precisam se responsabilizar pela vida das mulheres.
Não são casos isolados
Também seria um erro analisar esses episódios desconectados do quadro mais amplo da violência contra as mulheres no Distrito Federal.
Dados oficiais do Observatório da Mulher do DF registraram 11.206 ocorrências de crimes de violência doméstica ou familiar apenas entre janeiro e junho de 2026. Em 43,1% dessas ocorrências houve incidência de violência física. No mesmo período, foram registrados 2.578 casos de prisão em flagrante por descumprimento de medidas protetivas, com aumento de 13,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Os registros de saúde também dimensionam essa realidade. Entre janeiro e junho de 2026, o Distrito Federal contabilizou 6.550 notificações de violência interpessoal e autoprovocada. As pessoas do sexo feminino representaram 71,4% das notificações no primeiro trimestre e 72% no segundo.
Esses indicadores, que abrangem diferentes tipos e contextos de violência, que são dados inicialmente diferentes dos episódios ocorridos especificamente no transporte público, revelam o contexto social mais amplo no qual mulheres circulam pela cidade: uma realidade em que a violência de gênero permanece cotidiana e disseminada.
A violência não começa dentro do ônibus nem termina quando uma mulher atravessa a catraca do metrô. Ela acompanha as mulheres em casa, nas ruas, nos locais de trabalho, nos serviços públicos, nas redes sociais e nos espaços de circulação.
Para mulheres negras, periféricas do campo e da cidade, trans, lésbicas, bissexuais, mulheres com deficiência, trabalhadoras domésticas, jovens e aquelas que dependem diariamente do transporte coletivo, essas desigualdades podem se combinar e produzir formas ainda mais intensas de vulnerabilização.
Segurança para as mulheres não pode significar confinamento
Existe uma resposta profundamente conservadora para a violência contra as mulheres: dizer às próprias mulheres que não saiam. Não ande sozinha. Não volte tarde. Não pegue aquele ônibus. Não use determinada roupa. Não responda. Não circule. Não ocupe a cidade.
A consequência dessa lógica é perversa: diante da violência dos homens, restringe-se a liberdade das mulheres.
Uma política feminista de segurança precisa inverter essa equação.
Não são as mulheres que precisam desaparecer das ruas para estarem seguras. São as cidades que precisam garantir condições para que as mulheres ocupem todos os seus espaços.
Isso exige transporte público de qualidade e acessível; iluminação adequada; planejamento urbano comprometido com os territórios periféricos; redução dos tempos de deslocamento; equipes capacitadas para enfrentar assédio e violência de gênero; canais acessíveis de denúncia; protocolos rápidos de acolhimento e resposta; educação comunitária permanente e fiscalização efetiva; produção e transparência de dados; responsabilização dos agressores; formação permanente dos agentes públicos e mecanismos de proteção também nos serviços privados de transporte por aplicativo, mais capacitação para as mulheres atuarem e trabalharem nesses serviços, etc.
Exige ainda reconhecer a transfobia, o racismo, o capacitismo e outras formas de discriminação que atravessam de maneira desigual a experiência de circular pela cidade. E exige sobretudo prevenção. Porque não podemos aceitar uma política pública que só apareça depois da agressão, depois do assédio, depois do trauma.
Queremos uma cidade onde possamos viver
O direito à cidade não pode existir apenas para quem pode pagar por segurança privada, morar perto do trabalho, deslocar-se de carro ou escolher os horários em que saí de casa.
Uma cidade democrática precisa ser vivível também para quem pega ônibus às cinco da manhã, para quem atravessa o DF para trabalhar, para quem volta da universidade à noite, para quem cuida de outras pessoas durante todo o dia e para quem simplesmente deseja ocupar uma praça, um bar, um cinema, uma escola, uma manifestação ou qualquer outro espaço público.
A liberdade das mulheres também se mede pela distância que podemos percorrer sem medo. Pelo direito de embarcar e desembarcar. Pelo direito de sair, chegar e voltar. Pelo direito de existir no espaço público sem transformar nosso corpo em território permanentemente vigiado, assediado ou ameaçado.
O Distrito Federal precisa enfrentar a violência contra as mulheres também como questão de mobilidade, planejamento urbano, segurança pública e política de cuidado. Nenhuma cidade pode se dizer democrática quando metade da população precisa aprender, desde cedo, estratégias para sobreviver ao simples ato de atravessá-la.
Queremos uma cidade onde as mulheres possam circular. Queremos uma cidade onde possamos permanecer. Queremos uma cidade onde todas as mulheres tenham o direito de chegar, partir, ocupar e viver.
O direito à cidade também é nosso.









Uma coletânea de artigos escritos por parceiras estratégicas da CFEMEA e que construíram conosco nossas principais lutas políticas ao longo dos últimos 30 anos. 


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