Número triplicou em um ano; equipamentos são utilizados quando a Justiça entende que o homem precisa ser monitorado para garantir que respeitará a determinação de se afastar da mulher.
A reportagem é de Niara Aureliano, publicada por ExtraClasse, 28-08-2026.
De agosto de 2025 a agosto de 2026, triplicou o número de tornozeleiras eletrônicas instaladas em agressores de mulheres no Rio Gande do Sul. O número saltou de 509 para 1.512 equipamentos em uso. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública (SSP).
O kit de monitoramento inclui tornozeleira instalada no agressor e um celular que é entregue para a vítima. Caso o homem se aproxime, a mulher recebe um alerta no aparelho celular. É o Poder Judiciário quem avalia a necessidade de incluir a vítima no programa de monitoramento.
Apesar do crescimento do número de agressores monitorados, o RS possui capacidade de monitorar 2,5 mil homens com tornozeleiras eletrônicas. Também há uma licitação em andamento para ampliar o número para 3 mil equipamentos.
Feminicídios
Balanço de 2025 realizado pelo Observatório de Feminicídios Lupa Feminista no RS considera a ocorrência de 92 feminicídios, 264 tentativas e 116 órfãos em decorrência de feminicídios, sendo 50,9% crianças e adolescentes com menos de 18 anos. Já dados do Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB), da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem-Uel), registrou número ainda mais elevado no RS: 100 feminicídios. O dado oficial apontado pela SSP é de 80 feminicídios em 2025.
Não houve registro de feminicídio envolvendo as mulheres acompanhadas pelo sistema de monitoramento desde o início do programa, em junho de 2023. Atualmente, 1523 mulheres estão incluídas no sistema de monitoramento. O número supera o de agressores pois eles podem representar riscos para mais de uma mulher.
Sobreviventes
Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 1042/2026, que prevê a criação de uma política de atenção integral às sobreviventes e seus filhos. A proposta foi gestada por um grupo de sobreviventes e apresentada à Comissão Externa da Câmara dos Deputados sobre Feminicídio no RS, com organização do Movimento Feminista de Mulheres com Deficiência Inclusivass, liderado por Carol Santos, mulher com deficiência adquirida após feminicídio tentado.
A Comissão Externa percorreu todo o estado para identificar as falhas do Estado e escutar mulheres vítimas de violência e de feminicídios tentados para elaborar as políticas públicas necessárias para prevenir os crimes. O trabalho rendeu um relatório com 96 recomendações às esferas municipal, estadual e federal. Uma das recomendações é a disponibilização de tornozeleiras eletrônicas mediante solicitação judicial e monitoramento dos agressores.
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Dossiê expõe quatro anos de monitoramento de feminicídios no RS e aborda sobreviventes
Impactos dos crimes sobre famílias, orfandade, e consequências concretas da violência sobre o estado social e emocional das gaúchas precisam ser considerados na construção das políticas públicas.
A reportagem é de Niara Aureliano, publicada por ExtraClasse, 28-08-2026.
Um observatório da sociedade civil independente e especializado monitorou por quatro anos feminicídios cometidos no Rio Grande do Sul. O resultado foi organizado no Dossiê Há vida por trás dos dados, lançado nesta terça-feira, 25 de agosto, e questiona como a violência de gênero é registrada e contabilizada no estado gaúcho.
No dossiê, a sistematização realizada pelo Observatório de Feminicídios Lupa Feminista abrange o período de 2021 e 2025 e destaca a estabilidade elevada dos crimes no estado, que conta com média anual de 96 casos por ano. A média oficial é de 91 feminicídios por ano.
No balanço de 2025, por exemplo, o Observatório considera a ocorrência de 92 feminicídios, 264 tentativas e 116 órfãos em decorrência de feminicídios, sendo 50,9% crianças e adolescentes com menos de 18 anos. Dados do Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB), da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem-Uel), registrou número ainda mais elevado no RS: 100 feminicídios. O dado oficial apontado pela Secretaria de Segurança Pública é de 80 feminicídios em 2025.
Para as organizadoras do dossiê, a estabilidade elevada com que classificam a realidade de violência de gênero no RS pode ser explicada por um “duplo apagamento”: a invisibilidade de parte dos feminicídios e a ausência de uma leitura interseccional que considere os marcadores de desigualdade de raça, classe, território, identidade de gênero, orientação sexual, idade e nacionalidade.
“Nem todas as mortes de mulheres recebem o mesmo tratamento, a mesma investigação ou a mesma comoção pública. Algumas vidas são rapidamente reduzidas a notas breves na imprensa, classificadas como ‘acertos de contas’, ‘crimes do tráfico’ ou ‘violência urbana’, sem que a hipótese de feminicídio seja considerada. Outras sequer entram nas estatísticas oficiais”, argumentam no dossiê.
Discrepância de dados
A psicóloga Thaís Pereira Siqueira, coordenadora do Observatório de Feminicídios Lupa Feminista, explica que existem 13 contextos possíveis de feminicídio, segundo documento de diretrizes que sustenta a metodologia utilizada pelo grupo.
“Para mim, produzir os dados é uma forma de combater o apagamento, de dar nome, dimensão, à violência, que na maioria das vezes acontece sim dentro de casa, mas também em outros contextos. E é nesses outros contextos que a violência é invisibilizada: lesbocídios, transfeminicídios, feminicídios nos contextos de facções, tráfico, mesmo assassinatos cometidos por desconhecidos e outros vários contextos”, diz Thaís.
Ela recorda que, em 19 de agosto, por unanimidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) definiu que as medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha podem ser aplicadas para outras formas de violência contra a mulher baseada no gênero.
Criado em 2021, o Observatório Lupa Feminista não tem a pretensão de concorrer com os dados oficiais disponibilizados sobre os crimes contra as mulheres, destacam as organizadoras. A intenção é apontar lacunas, provocar reflexões e contestar narrativas hegemônicas que apagam ou normalizam a violência contra as mulheres, que resulta em seus assassinatos. Ou de seus filhos e parentes, como forma de vingança masculina, o chamado vicaricídio. O presidente Lula (PT) sancionou a Lei 15384/2026, em abril, prevendo a violência vicária entre as formas de violência doméstica e familiar, e classificada como crime hediondo.
O documento propõe considerar as vidas perdidas para além de números – preservando a memória das vítimas, que tinham nome e história. Os impactos dos feminicídios sobre as famílias das vítimas, a orfandade que produz, e as consequências concretas da violência sobre o estado social e emocional das gaúchas precisam ser considerados na formulação das políticas públicas de prevenção aos crimes, apontam as autoras.
Sobreviventes
O dossiê aborda também a repercussão social, física e psicológica dos feminicídios tentados sobre as vidas das mulheres sobreviventes e de suas famílias. Isso porque sobreviver não significa retomar à vida antes do fato.
“Ao contrário, muitas mulheres passam a enfrentar sequelas físicas, transtornos mentais, emocionais, dependência econômica agravada, deslocamento forçado de moradia, ameaça permanente do agressor e dificuldades de inserção social e laboral, entre outros. A violência reorganiza brutalmente suas trajetórias, impondo barreiras sociais, institucionais e laborais que exigem respostas estruturais do Estado”, expõe o dossiê.
Na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 1042/2026 propõe a criação de uma política de atenção integral às sobreviventes e seus filhos. A proposta foi gestada por um grupo de sobreviventes e apresentada à Comissão da Câmara dos Deputados, com organização do Movimento Feminista de Mulheres com Deficiência Inclusivass, liderado por Carol Santos, mulher com deficiência adquirida após feminicídio tentado.
A proposta estabelece diretrizes para atendimento integral em saúde com acolhimento humanizado, acompanhamento psicológico de curto e longo prazo, acesso a cirurgias reparadoras, reabilitação física e atenção à saúde sexual e reprodutiva das vítimas.
Suportes socioassistenciais também estão previstos, bem como apoio à reinserção no mercado de trabalho; acesso prioritário à justiça e garantia de proteção e segurança, com monitoramento do agressor e capacitação das forças de segurança para evitar revitimização.
“A gente não pode achar que a mulher sozinha tem que descobrir como acessa cada serviço, enfrentar todas essas barreiras. No caso da Carol, uma cadeirante. Uma mulher com deficiência tem várias outras barreiras junto com isso. Ainda, quando existem filhos, precisa incluir as crianças e os adolescentes porque também são atingidos pela violência, carregam as consequências da experiência”, reforça sobre o apoio à proposta que tramita no legislativo federal.
A tragédia feminicida da Páscoa de 2025
A tragédia anunciada da Páscoa de 2025, quando seis assassinatos de mulheres produziram enorme comoção pública no RS, mobilizou parte da sociedade e provocou reação nacional.
Foi instalada a Comissão Externa da Câmara dos Deputados sobre Feminicídio no RS, composta por todas as deputadas federais gaúchas, com o objetivo de percorrer o estado para conhecer as realidades femininas, trocar experiências com os movimentos organizados de mulheres – incluindo as sobreviventes dos feminicídios tentados, e acolher propostas contra a violência de gênero.
“Penso que as políticas públicas não conseguem atingir tantas mulheres da maneira como precisa porque a gente precisa ouvir o que as sobreviventes têm a dizer”, defende a coordenadora do Observatório, sobre falhas e obstáculos no atendimento prestado pelo estado, além das realidades particulares dos territórios das vítimas.
O trabalho da Comissão Externa da Câmara gerou um relatório com 96 recomendações aos poderes municipal, estadual e federal, e foi lançado em fevereiro de 2026.
“Ao longo dos 6 meses de escuta, que geraram um Relatório com Recomendações, confirmaram-se as graves denúncias dos efeitos nefastos do abandono das políticas públicas para enfrentamento à violência de gênero, num ambiente de acirramento das manifestações de misoginia no estado. O Relatório revelou um vazio de serviços de acolhimento, atendimento e medidas de proteção, ao lado do descaso com a participação organizada das mulheres”, indica o dossiê.
O crime de feminicídio
Só em 2015, o Brasil nomeou o crime de feminicídio, com a Lei 13.104/2015. A Lei 14.994/2024 passou a considera-lo crime autônomo, e aumentou as penas para um mínimo de 20 a 40 anos de prisão, considerando o cumprimento de ao menos 55% da pena em regime fechado.
“O endurecimento das penas não refletiu em redução de casos, pelo contrário, pois a violência contra as mulheres precisa ser enfrentada nas suas raízes sociais e culturais, somente a punição maior não reduzirá os índices de feminicídio”, reforça o dossiê.
Prevenção se faz com orçamento
“A gente não pode deixar a violência acontecer para agir depois”, reflete Thaís, coordenadora do Observatório. Ela ressalta que o enfrentamento às desigualdades de gênero, a responsabilização de agressores e a integração de políticas públicas de proteção permanente e articuladas são basilares para avançar na prevenção e salvar vidas.
“É necessário um conjunto de políticas públicas permanentes articuladas, mas principalmente que tenha orçamento para essas políticas. Porque sem dinheiro a gente não faz nada. Precisa sim de vontade política para investir, para que tenha orçamento, para que a gente possa de fato trabalhar com dignidade para atender essas mulheres”.
Embora a legislação seja fundamental, o olhar para as escolas e para uma transformação cultural também fazem parte do caminho para a prevenção à violência de gênero. Nas escolas, especialistas defendem a aplicação de conteúdos relativos à prevenção da violência contra a mulher, que não é só física, mas patrimonial, psicológica, sexual e institucional, por exemplo. Além disso, as famílias precisam participar das discussões de gênero, vínculos, cuidados e modelos de masculinidade relacionados à cultura da violência ou superioridade masculina.
O Dossiê Há vida por trás dos dados é uma iniciativa do Observatório de Feminicídios Lupa Feminista, composto pelo Levante Feminista contra o Feminicídio e pelo Coletivo Feminino Plural, com apoio do Ministério das Mulheres.
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‘Há vida por trás dos dados’: Lupa Feminista resgata quatro anos de monitoramento dos feminicídios no RS
Dossiê apresenta trabalho do observatório entre 2021 e 2025 e traz uma metodologia voltada a dar visibilidade às vidas

Por trás das estatísticas de feminicídio estão vidas interrompidas, famílias desamparadas, mulheres sobreviventes e casos que sequer chegam aos registros oficiais. É para evidenciar essas histórias e questionar a forma como a violência de gênero é contabilizada que o Observatório de Feminicídios Lupa Feminista lançou, nesta terça-feira (25), o dossiê “Há vida por trás dos dados”, resultado de quatro anos de monitoramento no Rio Grande do Sul.
O lançamento ocorreu com condução da psicóloga Cris Bruel, uma das coordenadoras do Coletivo Feminino Plural, e contou com apresentação artística de Gabi Nogueira e Deborah Finocchiaro e participação de diversos movimentos sociais.
Quarto dossiê publicado desde a criação da Lupa Feminista, em 2021, a publicação resgata o trabalho desenvolvido pelo observatório entre 2021 e 2025 e sistematiza uma metodologia voltada a dar visibilidade às histórias e às vidas que existem por trás das estatísticas de feminicídio.
Dividido em seis capítulos, o dossiê tem prefácio de Lili de Grammont e apresentação de Fabiane Lara dos Santos. “Esse dossiê traz um pouco do que foi essa vivência desses quatro anos, desse monitoramento com o aumento constante dos feminicídios. É o relato, inclusive, que não tem casos de explosões. Ele vem em uma constante, alarmante e desproporcional da morte de mulheres”, explica Santos.
Para ela, os números não podem ser dissociados das histórias das mulheres assassinadas. “Atrás desses números existe toda uma vivência que, por muitas vezes, acaba esquecida, atrás de uma invisibilidade, e isso quando chega a ser notícia, quando não é descartado ou não são visibilizados os casos.”
Santos destaca que o trabalho da Lupa Feminista busca deslocar a análise dos dados oficiais para uma perspectiva centrada na realidade das mulheres, muitas vezes invisibilizada nesse processo. “Acho que a Lupa traz essa reflexão. O dossiê demonstra, nesses quatro anos, o compromisso de não querer tirar os dados da organização da segurança, mas trazer a perspectiva da realidade das mulheres que é invisibilizada dentro desse processo e, por consequência, esse sentimento de tristeza e de dor que fica o tempo todo.”

‘Para além dos feminicídios íntimos, muitos casos de assassinato de mulheres têm indícios de violência de gênero, mas não são levados em consideração’, pontua Thais Siqueira | Crédito: Jorge Leão
Subnotificação também é resultado da forma como os casos são classificados
Santos chama atenção para a subnotificação dos feminicídios. Segundo ela, parte do problema está na forma como os assassinatos de mulheres são classificados. “Essas subnotificações partem justamente por esse descarte dessa morte por gênero, porque o feminicídio é a morte pela condição da mulher. Então, se não estiver enquadrado dentro do ‘ex-marido matou a mulher’, as outras questões da condição de gênero acabam ficando de lado.”
Para ela, o acesso aos dados produzidos pelo observatório permite que organizações, ativistas e mulheres tenham outra perspectiva sobre o crime. “A importância é sobre isso, é a gente poder fazer com que as organizações, as ativistas, as mulheres possam ter acesso a essas informações e ter uma perspectiva diferente sobre o feminicídio e de como esse crime é evitável e como ele é previsível também. E eu acho que, fazendo uma boa leitura e analisando tudo o que a gente vem trazendo ali, vai ter um olhar mais refinado para o que os números se apresentam.”
Quatro anos de monitoramento
A psicóloga Thais Pereira Siqueira, coordenadora do Observatório de Feminicídios Lupa Feminista, explica que o dossiê marca o fechamento de um ciclo de quatro anos de acompanhamento dos casos no estado.
Conforme Siqueira, a publicação também acompanha mudanças na própria etapa de atuação do observatório. “A gente fez um dossiê que resgata o nosso trabalho ao longo desses quatro anos, daquilo que a gente vem percebendo com o monitoramento dos feminicídios.”
Entre os temas abordados estão a violência doméstica e os feminicídios íntimos, os órfãos do feminicídio e, especialmente, as mulheres que sobrevivem às tentativas de feminicídio.
A coordenadora também destaca a subnotificação como um dos problemas identificados pelo monitoramento. “Para além dos feminicídios íntimos, muitos casos de assassinato de mulheres têm indícios de violência de gênero, mas não são levados em consideração. Então, é por isso também que a gente fala em subnotificação.”
Na avaliação de Siqueira, a violência contra as mulheres no Rio Grande do Sul permanece em níveis elevados. “Ela é intensa, permanente e estável em níveis muito elevados.” Para ela, ainda é necessário avançar na implementação da Lei Maria da Penha. “Ainda estamos caminhando para de fato implementar a Lei Maria da Penha. Está lá no papel, mas as mulheres não conseguem de fato usufruir o tanto que precisam da lei. Um avanço agora, que o Supremo Tribunal Federal (STF) definiu essa semana, de que a Lei Maria da Penha vai ser aplicada em outros contextos que somente o doméstico e o familiar, abarcando outras situações.”
Siqueira também avalia que os 20 anos da legislação, completados neste ano, são motivo de comemoração, mas não encerram a necessidade de avanços, principalmente no que diz respeito à prevenção.
Sobre o dossiê, a psicóloga afirma que a publicação representa uma sistematização de um trabalho que já vinha sendo desenvolvido pelo observatório. “O dossiê está no nosso coração. É um material mais sistematizado que traz um resgate, não tem nada nele do que a gente já não tenha falado em entrevistas, em simpósios, seminários, em debates, na contribuição que demos ao relatório elaborado pela Comissão Externa dos Feminicídios no RS, mas foi a oportunidade de mostrarmos de fato o nosso trabalho.”
‘O olhar que tem nesses monitoramentos são vidas, não são números’
A coordenadora do Coletivo Feminino Plural, Mariza Iracet, ressaltou que a publicação evidencia também os impactos dos feminicídios sobre as famílias e sobre a sociedade. O coletivo completa, neste ano, 30 anos de atuação no combate à violência contra meninas e mulheres e à violação de direitos. “Hoje o lançamento do dossiê do Observatório Lupa Feminista tem grande importância devido ao número de mulheres que são mortas, e nós, como uma questão de política pública, cobramos do Estado providências.”
Para Iracet, os dados precisam ser compreendidos a partir das consequências concretas da violência. “O olhar que tem nesses monitoramentos são vidas, não são números. São famílias, são filhos que ficam à mercê de todas as vulnerabilidades devido à perda da mãe, violência psicológica.”
Ela também defendeu a ampliação das políticas de proteção e atendimento às famílias atingidas. “Os feminicídios merecem muito mais, além de um salário mínimo, e também um atendimento psicológico.”
Iracet destacou ainda que o impacto da morte de uma mulher ultrapassa o núcleo familiar. “Quando uma mulher é morta, a família inteira sofre, e a sociedade também sofre. Porque essa mulher que foi morta, ela é mãe, ela é irmã, ela é filha, ela é cuidadora. Nós, mulheres, somos muitas, e quando uma mulher morre, é morta, porque a gente não pode dizer que ela morreu, ela foi morta, é um prejuízo imenso para a sociedade.”
Dados são fundamentais para formular políticas públicas
A jornalista Télia Negrão, articuladora territorial do Ministério das Mulheres no Rio Grande do Sul, destacou a importância da produção e da qualificação dos dados para o enfrentamento à violência. “A produção de dados hoje para o enfrentamento à violência e ao feminicídio é um elemento indispensável das políticas públicas, porque não é possível elaborar políticas públicas sem que estejam ancoradas em dados fidedignos que tenham uma análise profunda por trás.”
Segundo Negrão, o Ministério das Mulheres está lançando uma área chamada Subsecretaria de Avaliação, Monitoramento e Gestão da Informação (Sagi Mulher), voltada à coleta e sistematização de dados sobre as mulheres brasileiras. “Uma das grandes lacunas que nós temos hoje ainda é a existência de diferentes padrões de busca do dado de violência. Cada um com uma fonte diferente, ou segurança pública, ou saúde, e não se fica com o dado preciso.”
Para ela, é necessário aprimorar os registros dentro dos próprios serviços e garantir a aplicação adequada da legislação e dos protocolos. “É preciso que haja um aprimoramento dentro dos próprios serviços, com a correta aplicação da Lei Maria da Penha, da Lei do Feminicídio, de todos os protocolos. E depois, de metodologia que possam dialogar entre si.”
Negrão pontua que a metodologia desenvolvida pela Lupa Feminista contribui para evidenciar casos que podem não aparecer nas estatísticas oficiais. “A Lupa Feminista vem nessa perspectiva de contribuir para a existência de dados que, inclusive, ao longo dos seus quatro anos, o observatório tem dados discrepantes dos dados oficiais, porque ele vem aplicando uma metodologia de perspectiva de gênero à risca, o que inclui muitos feminicídios, muitos assassinatos que ficam na vala dos crimes comuns e não entram nas estatísticas.”
De acordo com ela, um número maior de registros não significa necessariamente um aumento da violência, mas pode indicar que mais casos estão sendo identificados e denunciados. “Quanto mais registro de violência a gente tem, significa que a violência está sendo denunciada pelas mulheres. Ela está se aproximando cada vez mais da realidade.”
Sobre os registros de feminicídio, Negrão defende que a aplicação adequada da legislação e dos protocolos é fundamental para qualificar os dados. “Quanto mais nós utilizarmos a legislação de forma adequada, os protocolos e as diretrizes, considerando a perspectiva de gênero cruzada com outras interseccionalidades, nós vamos ter o dado mais fidedigno de feminicídio e vamos ter condições de melhor enfrentar esse problema.”

Quarto dossiê publicado desde a criação da Lupa Feminista, em 2021, a publicação resgata o trabalho desenvolvido pelo observatório entre 2021 e 2025 | Crédito: Jorge Leão
Sobreviventes também entram no debate
A necessidade de olhar para as mulheres que sobrevivem às tentativas de feminicídio foi destacada por Carol Santos, do Movimento Feminista Inclusivas. Sobrevivente de uma tentativa de feminicídio, ela participa da construção do dossiê e atua desde 2022 na ampliação do debate sobre o tema.
“Eu, enquanto sobrevivente, participando também da construção do dossiê, mas trazendo um tema tão importante para o nosso país, porque não falo só do nosso estado, mas falo das mais de 4 mil mulheres, quase 5 mil sobreviventes de tentativas de homicídio no nosso país, no qual eu também sou uma sobrevivente.”
Santos ressalta que a discussão sobre a violência contra as mulheres costuma se concentrar nas vítimas fatais, deixando em segundo plano aquelas que sobrevivem. “Nós lutamos incansavelmente pelas mulheres que morrem, mas a gente muitas vezes esquece daquelas que sobrevivem. E quando a gente fala daquelas que sobrevivem, muitas vezes a gente nem sabe quem são essas mulheres, quem são esses corpos, quem são essas vozes e como que essas mulheres seguem.”
A partir da própria experiência, Santos passou a atuar na defesa dos direitos das mulheres com deficiência. “Eu, enquanto sobrevivente, que acabei me tornando uma mulher com deficiência e hoje sou uma militante na luta dos direitos das mulheres com deficiência, porque é desse lugar que eu transito na sociedade.”
Ela chama atenção para as barreiras enfrentadas por essas mulheres. “Eu vejo o quanto a estrutura capacitista é capaz de silenciar, invisibilizar e principalmente causar tantas barreiras, tantas barreiras sociais que nos atravessam, que nos impedem de muitas coisas.”
Para Santos, é necessário reconhecer que a violência não termina com a sobrevivência ao ataque.
“Falar para a sociedade que, além do feminicídio, há os corpos que sobrevivem, que são marcados por danos físicos, psicológicos, traumas, mulheres que muitas vezes não conseguem sequer recomeçar uma vida com dignidade.”
A militante também citou a construção do Projeto de Lei 1042, que propõe uma política nacional de atenção integral às mulheres que sobrevivem à tentativa de homicídio e seus filhos e filhas. “Hoje nós estamos em uma nova etapa de construção de política pública, que é a PL 1042, que é uma política nacional de atenção integral às mulheres que sobrevivem à tentativa de homicídio e seus filhos e suas filhas.”
Ela defende que as sobreviventes tenham condições para reconstruir suas vidas. “Eu tenho lutado incansavelmente, ao lado das companheiras, para dizer que as sobreviventes precisam ter direito de continuar, mas continuar e recomeçar com dignidade.”
A professora Cibele Cheron, do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Mulher e Gênero (Niem) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destacou a importância de olhar para além das estatísticas de feminicídio.
Ela lembrou uma ação realizada durante a final do Campeonato Gaúcho deste ano, quando foi projetado no painel do estádio Beira-Rio o placar “Feminicídios 20 versus zero sociedade”, como parte de uma campanha de enfrentamento à violência contra as mulheres.
Para Cheron, o trabalho da Lupa Feminista contribui justamente para revelar o que os números não mostram. “E isso é o que a Lupa trabalha, mostra e nos oferece: o que está por trás dos nomes. Há muito mais do que só os nomes das mulheres que perderam a vida de maneira desnecessária, evitável e brutal.”
A professora também ressaltou a dimensão política do enfrentamento à violência de gênero. “Feminicídio é um crime de Estado. E é contra isso, contra este crime de Estado que a gente trabalha.”

O dossiê pode ser acessado através deste link.











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