
Se para todo produtor rural ter um espaço para plantar e morar é fundamental, para as mulheres que vivem em acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), essa demanda é mais urgente. O acesso à terra para ela é um caminho rumo à emancipação. Bárbara Pereira, 57 anos, que o diga. Moradora no Acampamento 8 de Março, em Planaltina, ela coordena a Cooperativa Feminista para a Sustentação da Vida (Coofesus) naquele local. "O projeto vai permitir que tenhamos meios de trabalho e independência pessoal e financeira. É um movimento que valoriza a coletividade", diz.

Laboratório MST e Cfemea no Centro Gabriela Monteiro, fevereiro de 2026
A Coofesus é uma iniciativa construída por mulheres do campo a partir da parceria entre o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea) e o MST no Distrito Federal e no Entorno. "Na prática, a união das trabalhadoras rurais visa permitir que mulheres isoladas pela divisão sexual do trabalho tenham artifícios para gerar a própria renda. Isso contribui para a criação de laços de afeto e pertencimento", explica Guacira Cesar de Oliveira, socióloga e coordenadora do Cfemea. "O objetivo é que o autocuidado caiba no cotidiano delas, porque a vida não se sustenta apenas com ganhos financeiros", acrescenta.

Mônica Barbosa, MST
Como muitas são mães solo e/ou estão na faixa dos 40 e 50 anos — estas cuidando dos netos e de pessoas idosas —, há dificuldades em trabalhar fora e cuidar de si. Daí a importância da coletividade, que se mobiliza para manter a fonte de renda dentro da comunidade e com uma organização adequada, em termos de dias, horários e demandas, à realidade de cada mulher. No momento, a Coofesus está em construção, com a elaboração formal de um estatuto. O projeto conta com cerca de 60 participantes, distribuídas em um assentamento e quatro acampamentos, em Brazlândia, Planaltina e Água Fria de Goiás (GO).
"Pela cooperativa e pelo MST, somos incentivadas a voltar a estudar. Eu mesma estou fazendo a EJA (Educação de Jovens e Adultos), mas temos colegas enfermeiras, professoras, advogadas, agrônomas. Elas aprendem e voltam à comunidade para aplicar esses conhecimentos, beneficiando a todos", afirma Bárbara, que produz conservas de legumes e temperos, além de vender plantas ornamentais. "Sair de madrugada, trabalhar para os outros o dia inteiro e ganhar uma mixaria é muito injusto. Lutamos por nossa terra, que é sustento alimentar e econômico", reforça.
Em breve, a comunidade do 8 de Março vai inaugurar a primeira casa de farinha coordenada por uma cooperativa de mulheres no DF. Além de suprir a própria nutrição, o alimento será fonte de renda. "Seguiremos essa lógica: se, por acaso, tenho filhos e não consigo estar lá todos os dias, são as mulheres do grupo que irão se mobilizar para auxiliar no que sobrar de trabalho. Vamos discutir possibilidades e tomar decisões coletivas, mas pensando no contexto de cada uma. Trabalho e cuidado devem andar de mãos dadas", ressalta a produtora rural.Bárbara Pereira - MST
Feminismo e agroecologia
Para além do impacto social e da organização comunitária, a formalização em modelos cooperativos é um passo decisivo para conferir viabilidade e escala à produção feminina. Segundo a professora da Universidade de Brasília (UnB) Flaviane de Carvalho Canavesi, especialista em agroecologia e desenvolvimento rural sustentável, estar organizada sob uma estrutura jurídica amplia o alcance de políticas públicas e de fomento ao crédito.
"São grupos muitíssimo relevantes para o desenvolvimento econômico e social na agricultura familiar", avalia a docente. Ela lembra que a inserção de mulheres no cooperativismo rural enfrenta gargalos históricos, mas avança impulsionada por pautas como a divisão justa do trabalho e a igualdade de gênero. "No movimento agroecológico brasileiro, há um lema muito forte: sem feminismo, não há agroecologia", diz.
Mônica Barbosa, 43, concorda. A trabalhadora rural vive há 16 anos no Assentamento Oscar Niemeyer, em Brazlândia, onde mantém uma produção de animais e um sistema agroflorestal para a produção de alimentos. Ela descreve a rotina como "produtiva" e destaca o trabalho diário na produção como parte da vivência no campo. Para Mônica, porém, as mulheres rurais enfrentam obstáculos estruturais que dificultam a permanência e a autonomia no meio rural.

Roda de Autocuidado e Cuidado Coletivo no Acampamento Ana Primavesi, Brazlândia - DF
"Além da dupla ou tripla jornada de trabalho, são desafios o acesso restrito à propriedade da terra e às linhas de crédito agrícola, a invisibilidade social de suas atividades produtivas e a maior vulnerabilidade a situações de violência e isolamento geográfico", frisa. Dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (PDAD-A), de 2024, indicam que a população da área rural do DF é de quase 122 mil pessoas, das quais 48,1% são do sexo feminino, sendo a maioria entre 35 a 39 anos (4.952).
Segundo a trabalhadora, organizar-se por meio da cooperativa feminista representa uma experiência de fortalecimento e autonomia para as mulheres do assentamento. "Esse modelo (de produção) une os valores da economia solidária com a luta por direitos, garantindo que as mulheres gerenciem seus próprios negócios de forma justa e democrática", explica.
Competitividade
A abordagem proposta pela Coofesus vai ao encontro do debate proposto por Flaviane de Carvalho, que questiona as métricas tradicionais de mercado. De acordo com a professora, o conceito puramente financeiro de competitividade está sendo revisado diante da necessidade de respostas mais complexas para problemas como a crise climática e a insegurança alimentar.

Reunião de mulheres no Acampamento Keno, Água Fria - GO, jullho 2026
"A análise tradicional sobre rentabilidade e competitividade encontra-se em processo de revisão. Ao observarmos cooperativas lideradas por mulheres, especialmente voltadas a sistemas agroecológicos, percebemos a construção de respostas multidimensionais. Diante da instabilidade climática, essas organizações demonstram maior resiliência", observa Flaviane.
Para a especialista, iniciativas que promovem o alimento agroecológico vão muito além do comércio: tratam-se de estratégias de promoção da saúde coletiva e de aproximação entre o campo e a cidade. Ela cita como exemplo políticas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), além das feiras comunitárias.
Para participar da Coofesus, é importante passar por uma formação de cerca de 70 dias, que trata de instrumentos de gestão coletiva, como planos de trabalho e divisão horizontal de responsabilidades. Nesse contexto, é elaborado um projeto econômico, definindo produtos, estratégias de comercialização, incluindo feiras, Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSAs), plataformas digitais e o mapeamento de recursos necessários para viabilizar a iniciativa.

Formação no Acampamento Pepe Mujica, Brazlândia - DF, julho 2026
Com a formação, Mônica Barbosa espera fortalecer práticas de cuidado e autocuidado coletivo e ampliar a autonomia das participantes. "Espero que possamos combater todas as formas de violência, pois acredito e luto para ser uma mulher empoderada e que assuma meu lugar de fala", declara. A agricultora pretende colocar os conhecimentos em prática na cooperativa e ampliar a produção coletiva. "Seguimos organizadas, pois juntas seremos mais fortes", destaca.
AUTORAS

Letícia Mouhamad
RepórterJornalista graduanda pelo IESB e formada em Letras pela UnB. Teve experiência na Revista do Correio e, desde 2023, atua na editoria de Cidades. Tem interesse por temas ligados à saúde mental e à mobilidade urbana. Venceu os prêmios Sebrae e ABP.

Ana Carolina Alves
RepórterFormada em Jornalismo pela Universidade de Brasília, com interesse na cobertura de pautas de direitos humanos, justiça e questões sociais










Uma coletânea de artigos escritos por parceiras estratégicas da CFEMEA e que construíram conosco nossas principais lutas políticas ao longo dos últimos 30 anos. 


1989-2026 - Todas as publicações do Cfemea podem ser copiadas e publicadas em outros portais, utilizadas em processos formativos e para o fortalecimento do movimento feminista, pedimos somente que a fonte seja citada. As produções de outras entidades podem requer autorização das mesmas. O Portal do Cfemea foi desenvolvido utilizando o CMS Joomla com licença GNU - software livre.