Um convite à leitura. Foi lançado ontem o livro  “O que o Congresso pensa sobre as mulheres?”, de Marina Ganzarolli, que trata de um tema que atravessa diretamente nossas vidas, nossos corpos, nossos afetos e a própria democracia brasileira.

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Hellen Frida - Cfemea - 8/5/2026

 

livro oque o congresso pensa sobre as mulheres

Ontem estive na Universidade de Brasília (UnB), nesse espaço tão simbólico, para compor o lançamento do livro “O que o Congresso pensa sobre as mulheres?”, de Marina Ganzarolli, e dialogar sobre um tema que atravessa diretamente nossas vidas, nossos corpos, nossos afetos e a própria democracia brasileira.

Como feminista ativista, educadora popular, defensora dos direitos humanos e integrante da CFEMEA - Centro Feminista de Estudos e Assessoria, minha fala partiu tanto da análise política quanto da experiência concreta de quem vive e organiza a vida em territórios marcados pela desigualdade, pelo racismo, pela violência, mas também pela potência coletiva, pela construção popular e pela insistência radical na democracia.

E é justamente por isso que quero começar este texto fazendo um convite: adquiram, leiam e debatam coletivamente este livro.

Por que a pergunta lançada por Marina Ganzarolli é simples apenas na aparência. “O que o Congresso pensa sobre as mulheres?” é uma pergunta que abre muitas outras e que nos ajuda a enxergar, com mais nitidez, os conflitos políticos, culturais e democráticos que atravessam o Brasil hoje.

O Congresso não pensa “sobre” as mulheres apenas em discursos. Pensa sobre as mulheres quando legisla sobre nossos corpos. Quando decide quem pode viver com dignidade. Quando define quem terá acesso à saúde, à renda, à proteção. Quando escolhe quais vidas importam e quais podem ser descartadas.

E o que temos visto, especialmente nesta legislatura, é uma reorganização profunda de forças ultraconservadoras, fundamentalistas religiosas e setores da extrema direita que compreendem muito bem o poder estratégico do parlamento. Não é um movimento espontâneo ou desorganizado. É um projeto político.

livro Marina Ganzarolli

Os estudos recentes da CFEMEA mostram exatamente isso: há hoje uma hegemonia conservadora ocupando os principais espaços de decisão do Congresso Nacional - mesas diretoras, colégios de líderes, presidências de comissões e articulações estratégicas. O mapeamento feminista antirracista do legislativo federal demonstra que apenas cerca de 20% dos parlamentares eleitos possuem alinhamento mais consistente com pautas feministas e de diversidade. Enquanto isso, o restante do Congresso está fortemente atravessado por grupos conservadores, armamentistas, religiosos fundamentalistas e defensores da chamada “família tradicional”.

Essas reflexões dialogam diretamente com a publicação da CFEMEA “O papel dos setores fundamentalistas cristãos para a corrosão da democracia brasileira: impactos na vida e nos direitos das mulheres”, construída coletivamente com pesquisadoras, ativistas feministas, e que vamos lançar em breve, que analisa como setores religiosos conservadores vêm estruturando estratégias sofisticadas de ocupação institucional, incidência legislativa e disputa moral sobre os corpos e direitos das mulheres.

E aqui é importante afirmar: não estamos falando simplesmente de pessoas religiosas. Estamos falando da instrumentalização política da religião para corroer a democracia e limitar direitos. Existe uma diferença enorme entre fé e fundamentalismo. Entre espiritualidade e projeto autoritário. Entre religiosidade popular e uso moralista da religião como ferramenta de controle social.

O problema não é alguém ter fé. O problema é transformar uma interpretação religiosa específica em norma universal para toda a sociedade. É quando o Estado deixa de ser laico na prática e passa a operar a partir de uma lógica moral punitivista sobre os corpos das mulheres, das pessoas LGBTQIA+, da população negra, indígena e periférica.

E isso aparece de maneira muito concreta na disputa sobre os direitos sexuais e reprodutivos. O corpo das mulheres virou um campo central de disputa política. A criminalização do aborto, os ataques à educação sexual, o combate às discussões de gênero nas escolas, a perseguição à população trans e o fortalecimento de discursos antifeministas não são temas periféricos. São centrais para a reorganização da extrema direita contemporânea. Controlar corpos é controlar projetos de sociedade.

Talvez, ao longo da leitura do livro e da observação da realidade política brasileira, percebamos algo ainda mais duro: muitas vezes o Congresso não pensa as mulheres como sujeitos políticos plenos. Pensa as mulheres como categoria moral. Como função social. Como instrumento de reprodução da família. Como objeto de tutela. Como corpo a ser controlado. Como território de disputa ideológica.

Isso aparece historicamente na produção legislativa brasileira. As mulheres frequentemente são tratadas a partir de três lugares principais: a vítima, a mãe ou a cuidadora. Raramente aparecem como sujeitos autônomos de desejo, decisão, poder político e autodeterminação.

Quando se debate aborto, por exemplo, quantas vezes o debate realmente parte da vida concreta das mulheres? Das mulheres pobres. Das mulheres negras. Das mulheres periféricas. Das meninas violentadas. Das mulheres indígenas. Das mulheres que morrem em abortos inseguros.

Muitas vezes o debate legislativo transforma nossas vidas em abstração moral. E isso revela muito sobre a estrutura patriarcal do próprio Estado brasileiro.

O Congresso frequentemente legisla sobre as mulheres sem escutar as mulheres. Sem considerar os acúmulos históricos dos movimentos feministas. Sem reconhecer as produções populares e comunitárias construídas há décadas nos territórios.

E aqui é fundamental lembrar: o feminismo brasileiro não começou ontem. As mulheres organizadas neste país vêm produzindo pensamento político sofisticado há décadas. Construíram centros de atendimento, metodologias de educação popular, redes de acolhimento, pesquisas, políticas públicas, campanhas nacionais, leis e tecnologias sociais de proteção coletiva.

A própria Lei Maria da Penha é resultado direto dessa construção histórica coletiva. E muitas vezes ela é reduzida apenas à dimensão penal, quando na verdade a própria lei apresenta uma concepção muito mais ampla de enfrentamento à violência.

A Lei Maria da Penha já reconhece a importância da educação, da cultura, da formação crítica, da comunicação e da transformação social como ferramentas fundamentais de prevenção da violência contra as mulheres.

Ou seja: não basta punir violência. É preciso transformar a cultura que naturaliza essa violência. E isso é revolucionário. Porque desloca a violência do âmbito individual para uma dimensão estrutural e coletiva.

Então, quando feministas falam de cultura, arte, educação popular, formação política, cuidado comunitário e transformação das relações sociais, isso não é algo “menor” ou secundário. Isso é política pública. Isso é prevenção. Isso é democracia. Isso é construção de outra sociedade possível.

Talvez um dos grandes conflitos do nosso tempo seja justamente este: os setores ultraconservadores compreenderam muito bem a importância da disputa cultural. Disputam linguagem, escola, redes sociais, imaginários, afetos e o próprio conceito de família, gênero, liberdade e democracia.

Enquanto isso, nós seguimos fortalecendo nossas próprias narrativas de futuro. Porque não existe disputa política sem disputa simbólica. E é por isso que eventos como esse importam tanto. Porque lançar um livro, produzir pesquisa feminista, ocupar universidade pública, fazer debate crítico e construir memória política também são formas de resistência democrática.

A extrema direita cresce tentando simplificar o mundo por meio do ódio. Os feminismos insistem em complexificar o mundo através da vida.

E isso exige coragem.

Coragem para sustentar diálogos difíceis. Coragem para defender direitos humanos em tempos de brutalização. Coragem para afirmar a laicidade do Estado. Coragem para defender educação crítica. Coragem para continuar acreditando em democracia mesmo quando ela parece sequestrada por interesses econômicos, fundamentalistas e autoritários.

Por isso, deixo aqui meu agradecimento à Marina Ganzarolli, às estudantes, professoras, pesquisadoras, militantes e ativistas que constroem esses debates e seguem fazendo as perguntas necessárias.

E quero finalizar esse convite à leitura retomando a provocação central: talvez seja hora de o Congresso aprender a pensar COM as mulheres. Pensar com as mulheres negras. Com as mulheres quilombolas. Com as mulheres indígenas. Com as mulheres periféricas. Com as trabalhadoras. Com as mães. Com as lésbicas, bissexuais e mulheres trans. Com as defensoras de direitos humanos. Com as educadoras populares. Com as artistas. Com os movimentos feministas organizados.

Precisa respeitar os processos populares. Respeitar os acúmulos políticos produzidos pelos feminismos. Respeitar os conhecimentos construídos nos territórios. Respeitar a própria Constituição democrática. E respeitar aquilo que a Lei Maria da Penha já nos ensinou: que educação, cultura, formação crítica e transformação coletiva são parte fundamental da construção de proteção, dignidade e justiça.

Porque não haverá democracia plena enquanto as mulheres forem tratadas apenas como objeto de legislação e não como sujeitas centrais da construção política do país.

E se você chegou até aqui, fica novamente o convite: adquira o livro, leia, circule, debata coletivamente, faça rodas de conversa, grupos de estudo, encontros feministas, diálogos em universidades, escolas e territórios: https://share.google/rIBzCNdIvh9LmFe1E

Publicações de referência:

1. Mapeamento Feminista Antirracista do Legislativo Federal em relação à Justiça e Direitos Reprodutivos e Direitos Sexuais
2. Grupos Ideológicos no Congresso Nacional 2023-2026

 helen frida1

Hellen Frida é feminista artivista, defensora dos direitos humanos, luta por territórios saudáveis e afetivos, construindo o bem viver. É escritora, doula, educadora popular, produtora cultural, coordena a iniciativa FridaLab e integra o Centro Feminista de Estudos e Assessoria - CFEMEA. Participa também do Levante Feminista Contra o Feminicídio, o Lesbocídio e e Transfeminicídio, e do Colaboratório com Elas pelo Fim do Feminicídio.