Ciclo de estudos debate o tema analisando as mobilizações de crenças e afetos nas agendas antigênero no Instituto Humanitas Unisinos – IHU nesta quarta-feira, 24-06-2026, às 10h
Por: Luana de Oliveira | 24 Junho 2026 - Publicado no IHU
Na última quinta-feira, a Marcha para Jesus em Paris levou diversas pessoas às ruas, em uma mobilização conservadora pela fé, movida por evangélicos e católicos. Desde 2012, a partir do movimento Manif pour tous, contra o casamento de pessoas do mesmo sexo, houve uma crescente união entre evangélicos e católicos nas ruas da capital francesa. As manifestações, cada vez mais consagradas por jovens, têm se organizado inclusive politicamente em meio a partidos conservadores, sempre movidos pela busca do “sentido da vida” e por uma nova “flor de lis”, que representa, nesse contexto, o nacionalismo francês e a “cristandade medieval”.
O conservadorismo militado por extremistas religiosos também se encontra nas mobilizações de extrema-direita no Brasil. Motivados pela fé, os militantes defendem pautas antigênero. No universo católico do país, o Centro Dom Bosco adere às mesmas frentes ultraconservadoras, contra qualquer tipo de manifestação de igrejas inclusivas e abertas, que abracem a todos.
Segundo a socióloga Tabata Tesser, o “Centro Dom Bosco está longe de ser um caso isolado. Existe uma ampla rede de atores católicos, incluindo influenciadores, juristas, ONGs, think tanks e associações, comprometida com a defesa dá 'neocristandade' nos espaços de poder. Essa rede opera fortemente no campo jurídico e midiático, articulando uma agenda contrária aos direitos sexuais e reprodutivos, à laicidade e à pluralidade religiosa”.
A pesquisadora, que estuda essas movimentações antigênero, explica ainda que “tais atores se valem da estrutura civil para construir legitimidade política e jurídica, investindo em temas como família, sexualidade, bioética, economia e reprodução”.
Gênero, Religião, Política. Mobilização de crenças e afetos nas agendas antigênero da direita cristã
O ciclo de estudos “Gênero, Religião, Política. Mobilização de crenças e afetos nas agendas antigênero da direita cristã”, realizado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, tem como foco o debate sobre a instrumentalização da “ideologia de gênero” em conexão com a religião e a mobilização de afetos como estratégia política praticada pela extrema-direita e seus impactos na defesa de direitos das mulheres e da comunidade LGBTQIA+. A programação parte de discussões que analisam movimentos antigênero, como os propostos na Marcha Para Jesus.
No início do ciclo, o sociólogo Rogério Diniz Junqueira abordou a discussão sobre ideologia de gênero a partir do pressuposto de uma eclosão de ofensivas de movimentos religiosos da ultradireita contra mobilizações feministas e LGBTS. O pesquisador explicou como esses movimentos cresceram no país a partir de 2013 e seguiram fechados em sua própria discriminação.
Hoje, o ciclo encerra com a palestra da pesquisadora Tabata Tesser com a videoconferência Agendas Antigênero na Direita Cristã Brasileira.
Em seu artigo Ecumenismo (neo)conservador: pacto programático-religioso na defesa da agenda anti-gênero, Tesser comenta que a noção de "ideologia de gênero" foi apropriada pela direita religiosa nas redes sociais até tornar-se uma pauta de Estado. "O sintagma inicial da 'ideologia de gênero' inicia-se no campo católico, se espraia para os setores evangélicos e afunila sua agenda nos grupos antidireitos como um todo, sendo religiosos ou não", afirma.
A pesquisadora acrescenta que se trata de “uma agenda antigênero executada pelo ecumenismo (neo)conservador”. O objetivo desse movimento, pontua, é "a propagação de um neoconservadorismo cristão" e a retomada da “moral familista unitária” no que refere à moral sexual cristã”.
O ciclo de estudos Gênero, Religião, Política. Mobilização de crenças e afetos nas agendas antigênero da direita cristã começou em março deste ano. As demais conferências estão disponíveis aqui.
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