
Foto: Mauro Utida/ Mídia Ninja
- Foram 399 vítimas entre janeiro e março de 2026, ante 371 no mesmo intervalo do ano passado
- Governo federal tem tentado ampliar esforços para conter esse tipo de crime e lançou neste ano um pacto nacional
O Brasil registrou alta de 7,5% no número de vítimas de feminicídios no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025. Foram 399 vítimas entre janeiro e março de 2026, ante 371 no mesmo intervalo do ano passado.
É o maior número para um primeiro trimestre em toda a série histórica dos últimos 11 anos, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Os números representam uma média de quatro mulheres assassinadas por dia em contextos de violência doméstica, familiar ou envolvendo desprezo ou discriminação à condição feminina.
A maior quantidade absoluta de vítimas de feminicídios por estado foi registrada em São Paulo, com 86 vítimas, o que representou um recorde local. Nas cidades paulistas, o aumento foi de 41% na comparação com o mesmo período do ano passado.


Um dos casos foi o da soldado Gisele Alves Santana, 32, morta com um tiro na cabeça em 18 de fevereiro, no apartamento em que vivia com o marido, no Brás, região central da capital paulista. Geraldo Leite Rosa Neto, coronel da PM, foi preso e aguarda julgamento. Ele diz ser inocente e afirma que a mulher cometeu suicídio, tese que é contestada por laudos periciais e outros elementos reunidos pela investigação.
Parte da alta nos indicadores de feminicídio é atribuída por especialistas e membros dos governos a uma melhor qualidade da notificação. Ou seja, mortes antes registradas como homicídios comuns passaram a ser computadas como crimes de gênero, fazendo o dado crescer.
Além disso, pesquisadores destacam o peso do machismo, persistente na sociedade, na motivação dos crimes. Na maioria das ocorrências, conforme dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o agressor tinha relação direta com a vítima: 59,4% das mulheres foram mortas pelo parceiro íntimo e 21,3% pelo ex-parceiro.
A Lei do Feminicídio alterou o Código Penal e passou a tipificar esse crime no Brasil em 9 de março de 2015. A legislação abrange assassinatos de mulheres em contextos de violência doméstica, familiar ou motivados por misoginia. Ou seja, o primeiro ano com dados completos é 2016.
Em 2024, o crime cometido contra mulheres por razões de gênero deixou de ser uma qualificadora do homicídio e passou a ser tipificado como um crime autônomo, com penas que variam de 20 a 40 anos de prisão.
Quando há agravantes, a pena pode chegar a 60 anos, tornando o feminicídio o crime com a maior punição prevista atualmente no Brasil.
A mudança fez parte do chamado pacote antifeminicídio, que aumentou as penas para crimes cometidos em contexto de violência contra a mulher motivado por questões de gênero, promovendo mudanças na Lei Maria da Penha, no Código de Processo Penal e na Lei de Execução Penal.
O governo federal tem ampliado esforços para tentar conter esse tipo de crime e lançou neste ano o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, iniciativa que busca fortalecer a rede de proteção às vítimas e aprimorar a resposta do Estado à violência de gênero.
No Ministério da Justiça, foram desenvolvidas diversas iniciativas em relação ao tema. A pasta irá lançar um projeto-piloto em três estados que conecta a tornozeleira eletrônica de agressores de mulheres a um relógio digital utilizado pela vítima.
Também inaugurou o Centro Integrado Mulher Segura, uma estrutura nacional destinada a integrar e acompanhar a rede de atendimento às mulheres vítimas de violência no país.
Dados dessa estrutura mostram que 30% das mulheres vítimas de feminicídio no país em 2025 já tinham registrado denúncia contra a pessoa que viria a ser o autor do assassinato.
Das 481 (30,8% do total) mulheres que registraram boletim de ocorrência contra o autor, 20% foram mortas em até 24 meses após o primeiro registro. Os dados não mostram quantas tiveram medidas protetivas solicitadas e disponibilizadas.
Em uma das situações analisadas, uma mulher de 32 anos, parda, foi vítima de feminicídio em abril, após um histórico prolongado de violência. Ao longo de quase seis anos, ela registrou 19 boletins de ocorrência, que resultaram em 15 registros formais de violência doméstica.
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Medo de violência política atinge 6 a cada 10 brasileiros, aponta estudo
Relatório mostra que mais da metade da população tem receio de agressões por posicionamento partidário; taxa é maior entre mulheres e população de baixa renda
Por Bianca Muniz, g1 — São Paulo
Medo de violência política atinge 6 a cada 10 brasileiros, aponta estudo
O levantamento “Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança” divulgado no domingo (10) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que 59,6% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam ter medo de sofrer agressão física em razão de suas escolhas políticas ou partidárias. Isso representa 6 a cada 10 brasileiros, ou aproximadamente 99,4 milhões de pessoas.
Segundo o estudo, 2,2% da população, o equivalente a cerca de 3,6 milhões de pessoas, relatou ter sido vítima desse tipo de violência no último ano.
Apesar de elevado, o índice representa queda em relação a 2022, quando 68% dos entrevistados declaravam esse receio.
O relatório atribui o patamar anterior ao ambiente de forte polarização durante a campanha eleitoral daquele ano. Os dados atuais indicam redução da percepção de risco, embora o sentimento de insegurança permaneça disseminado.
A pesquisa aponta diferenças conforme o perfil dos entrevistados:
- Entre as mulheres, 65,5% afirmam temer agressões motivadas por posições políticas, enquanto entre os homens o índice é de 53,1%.
- Já a vitimização efetiva é maior entre o público masculino: 2,9% relataram ter sofrido agressões, ante 1,5% das mulheres.
O recorte econômico também evidencia desigualdade. Nas classes D e E, 64,2% dos entrevistados manifestam medo de violência política, percentual superior ao registrado entre as classes A e B, de 54,9%.
A ocorrência de agressões também é mais elevada entre os grupos de menor renda: 3,5% disseram ter sido vítimas, contra 2,2% entre os mais ricos.
SAIBA MAIS
O relatório destaca ainda a influência do crime organizado sobre a expressão política em determinadas regiões. A presença de facções criminosas ou milícias nos bairros foi reconhecida por 41,2% dos brasileiros entrevistados.
- 59,5% dos moradores evitam falar sobre política por receio de represálias desses grupos;
- 61,4% dos residentes afirmam que o crime organizado exerce influência moderada ou forte sobre as decisões e regras de convivência do bairro;
- A vitimização por agressão política nessas áreas (3,3%) é superior à média nacional (2,2%).
🔎 A pesquisa "Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança" foi realizada pelo Instituto Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre os dias 9 e 10 de março de 2026. A margem de erro geral para o total da amostra é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%. O estudo teve abrangência nacional e contou com uma amostra total de 2.004 entrevistas realizadas em 137 municípios.
Com medo da violência, 41% das mulheres dizem que deixaram de sair à noite, segundo Datafolha

Foto: Freepik
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Elas também citam ter evitado levar o celular por medo de assalto, mostra levantamento
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Pesquisa ouviu 2.004 pessoas em 137 municípios brasileiros em março deste ano
O medo da violência atinge muito mais as mulheres do que os homens e levou 40,9% delas a deixar de sair à noite no último ano —para eles, o percentual é de 29,8%. É o que aponta a pesquisa “Os gatilhos da insegurança”, feita pelo Datafolha e divulgada no último domingo (10).
A pesquisa foi encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O instituto entrevistou presencialmente 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 137 municípios do país.
No geral, 96,2% dos entrevistados disseram ter medo de ao menos 1 das 13 situações apresentadas na pesquisa. Outros 3,8% responderam não ter medo. A margem de erro nesses casos varia entre 0,8 e 4,2 pontos percentuais.
O medo de ser vítima de um golpe ou de perder dinheiro pela internet ou celular foi citado por 83,2%. A menção ao medo de ser roubado à mão armada atingiu 82,3%.
O receio de ser morto durante um assalto acumulou 80,7%, e o de ter o celular furtado ou roubado, 78,8%.
Quando os dados são divididos por gênero, entre as mulheres atingem o maior percentual o medo de ser roubada à mão armada e o de cair em golpes digitais, ambos com 86,6%.
Também superam a faixa dos 80% entre elas as seguintes situações: o de ser morta durante um assalto (86,2%), de ter o celular roubado ou furtado (83,6%), de ser vítima de agressão sexual (82,6%), de ser vítima de bala perdida (82,3%), de ter a residência invadida ou arrombada (82,6%), de ser roubada ou assaltada na rua (83,2%).
No caso dos homens, nenhuma das situações chegou a 80%. As mais próximas foram o medo de ser vítima de golpes digitais (79,6%) e de ser roubado à mão armada (77,7%).
Os entrevistados pelo Datafolha também responderam se alteraram seu comportamento em razão do medo. O maior percentual, de 36,5%, é daqueles que disseram ter mudado de percurso. Além disso, 35,6% afirmaram que deixaram de sair à noite e 33,5% responderam que deixaram o celular em casa por medo de ser assaltado.
O medo da violência tem reflexo direto sobre o cotidiano delas.
Segundo o Datafolha, 40,9% das entrevistadas disseram que deixaram de sair à noite nos últimos 12 meses por medo da violência e 37,8% que não foram às ruas com o celular por medo de assalto. Nos dois casos, os percentuais são menores para as respostas dos homens, 29,8% e 28,9%, respectivamente.
Segundo o Fórum Brasileiro, “o mapa feminino do medo incorpora, no centro da percepção de insegurança, uma ameaça que para os homens não ocupa lugar equivalente”.
“Em termos analíticos”, acrescenta a instituição, “isso significa que a experiência feminina da insegurança é mais totalizante: ela atravessa a rua, a casa, o corpo e a rotina”.
Os números sobre o medo da violência entre as mulheres vêm ao mesmo tempo em que o registro de feminicídios aumenta no Brasil.
Dados disponibilizados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública no início de maio apontam para um aumento de 7,5% no registro de crimes de feminicídio no primeiro trimestre deste ano na comparação com o mesmo período do ano passado.
Foram 399 mulheres mortas entre janeiro e março de 2026, o maior número para um primeiro trimestre nos 11 anos de série histórica. No ano passado, no mesmo período, foram 371 vítimas.
A maior quantidade absoluta de vítimas de feminicídios por estado foi registrada em São Paulo, com 86 vítimas, o que representou um recorde local. Nas demais cidades paulistas, o aumento foi de 41% na comparação com o mesmo período do ano passado.
Parte dos casos ganhou repercussão nacional, a exemplo do episódio envolvendo Tainara Souza Santos, 31. Ela morreu depois de ficar 25 dias internada após ter sido atropelada e arrastada por um quilômetro por um homem apontado como ex-companheiro dela. Durante a internação, teve as duas pernas amputadas.
Foi também em São Paulo que morreu a policial militar Gisele Alves Santana, 32. O coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto está preso sob suspeita de ter cometido o crime.
A escalada de violência contra a mulher em território paulista levou o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) a anunciar no mês passado um pacote de medidas em busca de combater o problema.
As ações incluem a entrega de 69 salas DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) em plantões policiais nos próximos meses e a criação de um plano de metas decenal contra a violência doméstica.
Outra medida é a assinatura de termos de cooperação para ampliar a atuação integrada no enfrentamento à violência.
Um dos acordos viabiliza o Circuito Integrado SP Por Todas, iniciativa que levará atendimento itinerante a mulheres em situação de violência doméstica, reunindo serviços de acolhimento, orientação e encaminhamento.
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