Nota técnica do SindSasc denúncia que a remoção de profissionais para novas unidades compromete atendimento

“Não é apenas um espaço de hospedagem temporária, é um equipamento de proteção à vida. Reduzir seu corpo técnico significa, objetivamente, desamparar a parcela mais vulnerável da população do DF no momento de maior necessidade de intervenção estatal”, destaca a nota.
Impactos no atendimento
A proposta em discussão prevê a remoção de 12 servidores da Casa Abrigo para substituir a falta de pessoal em outras unidades recém-criadas. Segundo o Sindsasc, a redução representa cerca de 30% da força de trabalho permanente responsável pelo atendimento de mulheres sob risco de feminicídio.
As diretrizes nacionais determinam que casas de abrigo operem com atendimento em tempo integral e ininterrupto. De acordo com servidores, o desfalque compromete a capacidade operacional do serviço, reduz o acompanhamento psicossocial e aumenta a sobrecarga dos profissionais.
O acolhimento em uma Casa Abrigo acontece quando outras medidas protetivas já não foram suficientes para interromper o ciclo de violência. Muitas mulheres chegam ao local com quadros graves de sofrimento, como Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), depressão e crises de ansiedade.
“A reestruturação e o manejo terapêutico desses quadros demandam uma intervenção de alta densidade. Desse modo, a destituição da equipe, que atinge diretamente o corpo de psicólogos do equipamento, colide frontalmente com a necessidade assistencial”, denuncia o sindicato.
O documento cita que estudos internacionais apontam uma incidência de estresse pós-traumático superior a 60% entre mulheres abrigadas com risco de feminicídio. A redução da equipe, nesse contexto, especialmente de psicólogos, inviabiliza o acompanhamento terapêutico adequado.
Com menos profissionais especializados, a contenção emocional passa a recair sobre assistentes sociais, educadores e outros trabalhadores sem formação específica para o manejo clínico dessas situações. O resultado, segundo os servidores, é o aumento da sobrecarga emocional e do adoecimento da equipe.

Redução das equipes e sobrecarga no atendimento acendem alerta sobre a capacidade de acolhimento às mulheres em situação de risco extremo. Crédito: Geovana Albuquerque/Agência Brasília
Precarização e risco de colapso
A categoria afirma que a criação de novas unidades sem reforço no quadro de servidores precariza tanto os equipamentos recém-abertos quanto os já existentes. O Sindsasc lembra que, durante a última greve da categoria, foi firmado um acordo prevendo que a expansão da rede ocorreria apenas após concurso público e nomeação de novos profissionais.
Embora o edital do concurso tenha sido publicado, as provas ainda serão realizadas e não há previsão imediata de nomeações.
Os servidores relatam que a diminuição do quadro obriga profissionais a dobrarem plantões e assumirem casos acima do recomendado pelos manuais da assistência social. O cenário tem provocado episódios de burnout, crises de ansiedade e afastamentos por adoecimento mental.
Segundo Clayton Avelar, presidente do Sindsasc, a preocupação da categoria aumentou após a Secretaria da Mulher encaminhar um documento consultando o interesse de servidores em mudar de lotação. “Nosso receio é de que isso se transforme em remoção obrigatória de um total de 12 servidores, o que representa cerca de 30% da unidade”, afirma.
O dirigente afirma ainda que o Sindsasc tem buscado diálogo com o órgão sobre a situação da unidade e outras pautas da categoria, como a regulamentação da jornada de sete horas e da escala de revezamento 24×72. “O sindicato é contrário à remoção de servidores da Casa Abrigo, porque defendemos que esse equipamento público não pode ser enfraquecido. Muito pelo contrário, ele precisa ser fortalecido”, ressalta.
Para ele, a abertura de novas unidades no Distrito Federal deve ocorrer somente após a conclusão do concurso público já previsto para a carreira. “A gente precisa de novas casas abrigo no DF, mas isso só pode acontecer quando tivermos servidores em número suficiente, ou seja, quando o concurso que já está com edital publicado for concluído, homologado e os aprovados forem nomeados”, conclui.
Espaço limitado
Para a categoria, o esvaziamento da equipe pode transformar a Casa Abrigo em um espaço limitado à hospedagem temporária, sem capacidade para desenvolver ações de proteção e reconstrução da autonomia das mulheres atendidas.
O Sindsasc recomenda a suspensão imediata de qualquer ato administrativo que determine a remoção de servidores da Casa Abrigo para outras unidades. O documento também cobra o cumprimento do acordo firmado com a categoria, mantendo congelada a abertura de novos serviços até a nomeação de aprovados em concurso público.
Os servidores defendem ainda a realização de um estudo técnico de dimensionamento da força de trabalho, com participação de órgãos de controle e instâncias de fiscalização social. Procurada pela reportagem para comentar a desestruturação da Casa Abrigo e a transferência de servidores, a Secretaria da Mulher do Distrito Federal e o GDF não responderam até a publicação desta matéria.

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