Hellen Frida e Gabriela Fidelis - CFEMEA

"É preciso irmos além, é preciso gestar o impossível."
Manifesto das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver (2025)
Memória, luta e futuro para que todas as mulheres possam viver
Julho é um mês em que o feminismo negro nos convida a olhar para a história como uma força viva que continua moldando o presente e apontando caminhos para o futuro. O Julho das Pretas é um tempo de mobilização, denúncia, celebração das ancestrais e fortalecimento das lutas das mulheres negras em toda a América Latina e no Caribe.
Seu ponto culminante acontece em 25 de julho, quando celebramos o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e, no Brasil, também o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Trata-se de um marco político construído pelos movimentos de mulheres negras para afirmar que não haverá democracia, justiça ecosocial nem igualdade enquanto persistirem o racismo estrutural, o patriarcado, o colonialismo e todas as formas de exploração que atravessam seus corpos e territórios.
A continuidade dos passos insurgentes marca a trajetória histórica de organização e resistência das mulheres negras em África, na América Latina e no Caribe, e por todo o mundo. São séculos de construção coletiva de estratégias de sobrevivência, cuidado, liberdade e transformação social que seguem inspirando novas gerações. Em 2025, essa potência ganhou expressão histórica com a Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que levou às ruas de Brasília cerca de 300 mil mulheres negras de todas as regiões do Brasil, em diálogo com organizações e movimentos de países africanos, latino-americanos e caribenhos. Como sujeitas políticas e protagonistas de sua própria história, as mulheres negras apresentaram ao Estado e à sociedade um projeto coletivo de futuro, sintetizado nos manifestos, cartas e propostas construídos ao longo desse amplo processo de mobilização internacional.
Em 2026, essa marcha continua. As mulheres negras mantêm viva e acesa o cultivo das memórias ancestrais para gestar um novo mundo e as transformadas relações com a natureza e todos os seres como horizonte para construir novas formas de existir, produzir, cuidar e viver em coletividades, colocando a dignidade, a reciprocidade, a justiça ecosocial e o cuidado no centro da organização da sociedade. Seguem reafirmando sua luta por reparação histórica e pelo Bem Viver, que constitui um novo pacto civilizatório.
A CFEMEA caminhou ao lado da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver em 2025 e reafirma, em sua trajetória, o feminismo antirracista como pertencimento, compromisso ético e ação política permanente. Nos últimos anos, temos consolidado como eixo estratégico institucional a construção dos Territórios de Cuidado, Luta e Sustentação da Vida, compreendendo a sustentação da vida como horizonte político capaz de dialogar profundamente com os princípios do Bem Viver.
É nesse caminho que seguimos cultivando práticas de sustentação da vida nos territórios urbanos, periféricos, rurais e tradicionais, fortalecendo processos coletivos que articulam cuidado, organização popular, democracia e justiça ecosocial. Para nós, sustentação da vida e Bem Viver caminham juntos e se retroalimentam. Nos Laboratórios Organizacionais Feministas, temos experimentado formas concretas de construir novas relações econômicas, sociais e políticas, desafiando a ideia de que o crescimento econômico, por si só, produz emancipação. Em seu lugar, afirmamos a cooperação feminista, a economia solidária, o autocuidado, o cuidado coletivo e a construção compartilhada de alternativas capazes de superar as violências produzidas pelo capitalismo, pelo racismo e pelo patriarcado.
Cultivar modos de vida subversivos, solidários e despatriarcalizadores é parte dessa caminhada. Aprendemos continuamente com as mulheres negras, inspiramo-nos em suas estratégias de resistência e seguimos fortalecendo alianças feministas e antirracistas para transformar a nós mesmas e o mundo.
É nesse espírito que celebramos este 25 de Julho, saudando todas as mulheres negras, suas lutas, resistências, memórias e conquistas. Reverenciamos os passos das que vieram antes, caminhamos ao lado das que hoje seguem sustentando a vida e renovamos nosso compromisso com as gerações que continuarão abrindo novos caminhos rumo à reparação, à justiça e ao Bem Viver.









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