A informação é de Dacia Maraini, publicada por Corriere della Sera, 07-07-2026. Publicado no portal do IHU em 13/7/2026
Relatos do exterior são alarmantes. A ONU informa que 85 mil mulheres foram mortas em todo o mundo neste ano, uma a cada dez minutos. Essas mulheres são espancadas e assassinadas não no meio da rua, não por um estranho, mas por seus próprios maridos ou companheiros. Não deveríamos nos questionar mais profundamente por que esse fenómeno é tão disseminado e crescente?
Como interpretar essa onda de agressividade entre homens que antes amavam uma mulher, mas depois, quando ela demonstra um sinal de independência, transformam-se em assassinos, chegando por vezes a matar os próprios filhos? Não se trata de casos isolados ou surtos de loucura desencadeados por crises familiares fortuitas; trata-se, antes, de algo que tem uma base cultural específica. Poderíamos chamá-la de uma revolta da mais arcaica "vontade de poder", um impulso que, em certos homens, aqueles que identificam a sua virilidade com a posse e o comando, leva a uma perda total de controlo.
Os homens sábios e, felizmente, há muitos deles, adaptam-se às mudanças, mesmo quando isso significa aceitar a perda de antigos privilégios. Outros, porém, ao verem questionada sua concepção interior de virilidade, preferem acabar na prisão a aceitar a liberdade da mulher que consideram sua propriedade. Desse estado de terror nasce o desejo de vingança, como se quisessem provar a si mesmos que ainda são homens capazes de reacção e de autonomia. Para uma alma rígida arcaica, a vingança é a única maneira de o homem lembrar a si mesmo de que é um senhor, um guerreiro capaz de afirmar sua própria superioridade.
Trata-se de uma verdadeira tragédia de identidade, e fica claro que algemas e proibições não resolvem nada. A única solução é uma educação fundamental voltada para o respeito ao outro e para o conceito da sacralidade do corpo humano. O facto de que, mesmo quase um século após a Unificação da Itália e a proclamação da República, ainda não se consiga incluir nas escolas uma educação ao respeito do outro tanto no campo erótico sentimental como naquele social e político, explica por que o fenómeno do feminicídio possa ser mostrado como apenas mais um crime, rotulado simplesmente como "homicídio".
Leia mais
- Feminicídio: o preço de ser mulher em um mundo machista. Artigo de Vania Aguiar Pinheiro
- Feminicídio, lesbocídio e transfeminicídio: a face obscura da extrema-direita que viabiliza a agressão. Entrevista especial com Analba Brazão Teixeira
- "A violência? Das cinzas do patriarcado, um monstro de duas cabeças: narcisismo e depressão". Entrevista com Massimo Recalcati
- Violência de gênero: o que precisa ser feito. Artigo de Alberto Corsani
- Por respostas efetivas à violência de gênero. Artigo de Marcos Rolim
- Feminicídio não é crime passional. É crime de ódio
fonte: https://www.ihu.unisinos.br/668291-por-que-os-feminicidios-estao-aumentando










1989-2026 - Todas as publicações do Cfemea podem ser copiadas e publicadas em outros portais, utilizadas em processos formativos e para o fortalecimento do movimento feminista, pedimos somente que a fonte seja citada. As produções de outras entidades podem requer autorização das mesmas. O Portal do Cfemea foi desenvolvido utilizando o CMS Joomla com licença GNU - software livre.