Publicado em: 28 de maio de 2026
Por Cauê Campos
Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

Marx em uma carta para Engels — em polêmica com Proudhon e Bakunin — sobre a dominação colonial da Inglaterra sob o povo irlandês afirmou:
“Na Irlanda, o problema não é somente de ordem econômica: a questão nacional coloca-se ao mesmo tempo, pois os latifundiários irlandeses não são, como na Inglaterra, os tradicionais dignitários e representantes, mas os odiados opressores da nação irlandesa.” (MARX, 1869). [1]
Essa e outras passagens dos fundadores do materialismo histórico e dialético desmontam as críticas de um suposto determinismo econômico por parte dos autores — como se apenas essa esfera condicionasse completamente as relações sociais.
No marxismo clássico de Marx, Engels e Lênin [2], as — assim chamadas nos dias atuais — “questões identitárias” são tão importantes quanto as questões econômicas no desenvolvimento das dinâmicas do “movimento social em geral”. Marx é ainda mais evidente: a libertação da classe trabalhadora inglesa — a mais avançada no século XIX — não ocorrerá enquanto não se libertarem os trabalhadores irlandeses do jugo britânico.
“É preciso visar esta meta, não por simpatia à Irlanda, mas como uma reivindicação no próprio interesse do proletariado inglês. Senão, o povo inglês continuará a ser tutelado pelas classes dirigentes, pois ele é obrigado a unir-se a elas para enfrentar a Irlanda”. (MARX, 1869).
Quando Marx recorre à análise do “movimento social em geral”, anuncia a ruptura com uma visão rígida de alguns atores e estudiosos dos movimentos sociais, para os quais estes seriam segmentados em “caixinhas” a partir das relações de dominação, exploração e opressão. Assim, o movimento negro ou o feminista — por exemplo — seriam completamente distintos do movimento sindical ou por reforma agrária.
Sobretudo no Brasil — como um resquício tardio do stalinismo —, desenvolveu-se uma falsa ideia de que as questões “identitárias” dividiriam a classe trabalhadora e apenas as questões econômicas nos unificariam pela luta verdadeiramente emancipatória. Nada mais falso e antimarxista. É óbvio que as dinâmicas das lutas por emancipação racial, sexual, de gênero, nacional, religiosa, etc., influenciam dialeticamente nas dinâmicas das lutas de classes no geral. Ou alguém acredita que uma conquista de direito pelas mulheres pode atrapalhar a luta dos trabalhadores?
Ontem, 27 de maio de 2026, uma bicha de balcão e uma travesti negra foram fundamentais na conquista da maior vitória da classe trabalhadora desde a Constituição de 1988. Rick Azevedo, atualmente vereador do Rio de Janeiro, emergiu como organizador e liderança do movimento VAT. É um jovem negro e gay da periferia carioca que se revoltou com a falta de descanso imposta ao seu trabalho de balconista de farmácia na escala 6×1; fez um vídeo no TikTok que viralizou rapidamente e passou a organizar o movimento de luta pelo fim dessa escala. Já Erika Hilton é uma das deputadas federais de esquerda com maior projeção e logo de início encampou a luta de Rick e do VAT, no 1º de maio de 2024 anunciou em suas redes sociais a elaboração de uma PEC pelo fim da escala 6×1 e propondo a escala de trabalho 4×3[4].
Ainda que a jornada de trabalho seja uma pauta tão cara ao movimento sindical, a luta pela redução das horas semanais de 44h para 40 e 36 horas semanais foi completamente abandonada nas últimas décadas pelas centrais sindicais. Também nunca se movimentaram pelo fim da 6×1, porque esta não é a jornada imposta à maioria dos trabalhadores representados pelos sindicatos mais proeminentes do Brasil (que já trabalham na 5×2). Foi necessário que uma bicha e uma travesti negra colocassem essa questão no centro das disputas políticas para que se mobilizassem.
A bem da verdade, não houve grandes greves, atos de rua e muito menos greves gerais para conquistar o fim da escala 6×1; a disputa se deu nas redes sociais e, através delas, ganhou-se a maioria da opinião pública por essa demanda tão sensível. O papel das redes nos tempos atuais e do enquadramento discursivo utilizado pelo VAT são temas necessários e precisam de um novo artigo.
Para esta pequena contribuição, é fundamental voltarmos a Marx: não há emancipação da classe trabalhadora sem a emancipação da população negra, das mulheres e de LGBTs — afinal, estes são a maior parte da própria classe. Ademais, a idealização do trabalhador/sindicalista médio como o trabalhador branco mistifica a realidade, o que afasta as diversas identidades do movimento sindical. Assim, mulheres, negros e LGBTQIA+ são alijados da participação no sindicalismo brasileiro, sobretudo na cúpula.
Os movimentos sociais, principalmente o sindical, precisam superar a segmentação em “caixinhas”, avançando para uma visão mais holística dos movimentos. A compreensão dos “movimentos sociais em geral” torna a análise mais complexa, afinal, é preciso abranger um conjunto mais amplo de fatores e elementos que influenciam na correlação das lutas de classes — mas assim o é na realidade concreta. Da mesma forma, é mais complexa a atuação nos movimentos sociais quando se tenta unificar as diversas demandas de setores distintos da classe trabalhadora. Mas também é deveras necessária, afinal, unidos somos mais fortes.
NOTAS:
1. Fonte: MARX, K. “A Questão Irlandesa” – 1869 https://marxists.architexturez.net/portugues/marx/1869/11/questao.htm acessado em 28/05/2026
2. A “questão judaica” é premente na Europa do século XIX e início do XX, e esteve presente nas elaborações de Marx e Lênin (“Sobre a questão judaica” de Marx em 1843 e “Sobre os Pogroms Contra os Judeus” de Lênin em 1919.). Marx e Engels também escrevem sobre as “questões nacionais”, como da Irlanda (MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Acerca del colonialism. Moscou: Editorial Progreso, 1979.) e Índia, antigas colônias do Império Britânico (“A Dominação Britânica na Índia” de 1853, em https://www.marxists.org/portugues/marx/1853/06/10.htm Acessado 13/01/2022.). Já Lênin tem diversos escritos sobre a importância da emancipação das mulheres na URSS e nas sociedades comunistas vindouras (As Tarefas do Movimento Operário Feminino na República dos Sovietes” de 1919, em https://www.marxists.org/portugues/lenin/1919/09/25.htm Acessado 13/01/2022.)
3. O protocolo da PEC nº 8/2025 só ocorreu em 25 de fevereiro de 2025, quando atingiu as assinaturas necessárias (Érika, 2025). A PEC nova redação ao inciso XIII, do artigo 7° da Constituição Federal para dispor sobre a redução da jornada de trabalho para quatro dias por semana no Brasil, para mais informações consultar: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=2860664&filename=PEC%208/2025 último acesso em 03/08/2025.
As lições de Erika Hilton e Rick Azevedo
Publicado em: 28 de maio de 2026
Por Sol Costa, do Rio de Janeiro
Esse post foi criado pelo Esquerda Online.
“Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam, não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem”
A classe trabalhadora acordou em festa. Os movimentos sociais em êxtase. Finalmente, neste país de larga História escravocrata, a escala 6×1 pode ser derrotada.
Foi apenas a primeira etapa, mas que batalha! O Facismo tentou por todos os meios impedir nossa alegria: tentaram desacreditar o projeto, falaram de falências e demissões, buscaram retardar a tramitação com manobras parlamentares. Apesar de tudo, vencemos!
Se confirmada no Senado, essa será a maior vitória da classe trabalhadora brasileira desde 1988. Justiça seja feita, a luta pela redução da jornada de trabalho compõe a pauta sindical há décadas. Contudo, há algo novo no ar, e precisamos estar atentos ao vento que traz o cheiro da nova estação.
Se confirmada no Senado, essa será a maior vitória da classe trabalhadora brasileira desde 1988. Justiça seja feita, a luta pela redução da jornada de trabalho compõe a pauta sindical há décadas. Contudo, há algo novo no ar, e precisamos estar atentos ao vento que traz o cheiro da nova estação.
Mais do que uma palavra de ordem a luta contra a escala 6×1 ganhou concretude. A vida foi posta no primeiro plano, não a frieza de cartilhas da Economia. No debate, ao longo de meses, veio à tona: as jornadas simultâneas e sobrepostas de mulheres que são obrigadas a realizar o trabalho doméstico não pago para além das 40 horas pagas; A perversidade a que são submetidas mulheres negras que precisam contar com redes de cuidados informais para criar seus filhos enquanto cumprem jornadas em casas de famílias; A destruição de laços de afeto em famílias que não têm tempo de criar momentos de lazer; As longas horas ociosas e não pagas gastas em transportes públicos nas grandes cidades; Envelhecimento precoce pela exaustão do corpo frente a extensas horas laborais; A humanidade destruída pelo trabalho extenuante para enriquecimento de meia dúzia de empresários.
É fato que não somos todos iguais. Nós somos diferentemente explorados. Alguns de nós realizam trabalhos mais pesados, por menores salários, do que outros. À alguns de nós cabem trabalhos braçais, e a outros intelectuais. Alguns de nós têm constantemente a competência questionada para desempenhar determinadas funções, com seus respectivos salários, prestígios e privilégios. Alguns de nós sequer acessam o trabalho formal, compulsoriamente jogados no trabalho sexual.
Pelo trabalho é fácil notar como somos todos diferenciados e desigualmente marginalizados, prejudicados de formas sobrepostas que expressam formas específicas de desvantagens.
O colonialismo, a escravidão, as imposições de papéis de genero e heterosexualidade compulsória deram origem a formas distintas de vivenciar a classe, que legou aos oprimidos a maldição de reproduzir a sua existência em circunstancias desfavoráveis.
Essa é a razão para uma bicha e uma travesti, ambos negres, serem as porta vozes da mais importante luta do nosso país, até o momento.
Se engana quem resume a luta das LGBTs pelo direito de dar o c*. Se engana quem acredita que a performance da masculinidade tóxica é a única forma de ser aceito na luta institucional. O que seria de nós se Erika Hilton e Rick Azevedo buscassem se adaptar ao meio à sua volta? e por que deveriam fazer isso? Erika Hilton sempre foi aberta sobre sua trajetória até o congresso, e o trabalho sexual que foi obrigada a realizar antes do Parlamento, como tantas travestis e transsexuais no Brasil. Rick Azevedo é orgulhosamente gay, sem nada a esconder. Nenhuma experiência é individual. Tentar esconder quem somos é apenas mais uma forma de violência.
Há anos, certo setor da esquerda exige de nós sacrifícios em nome da “classe”. Deveríamos nos negar a viver num mundo que não aceita o glitter, o leque, e o slan como formas de fazer política. As formas de luta são múltiplas e variadas tal qual é diversa a classe trabalhadora. Organizar os oprimidos e explorados com nossa própria cultura, com nossa própria estética vai nos levar mais além. Para arrancar alegria ao futuro é preciso deixar aflorar nossa própria humanidade. Para o fascimo a existência dos oprimidos é uma ameaça. Façamos do orgulho nossa trincheira, só assim podemos vencer. Nós somos a classe, o mundo nos pertence!
fonte: https://esquerdaonline.com.br/2026/05/28/as-licoes-de-erika-hilton-e-rick-azevedo/







