Quase lá: Editorial

A eleição de Luís Inácio Lula da Silva trouxe novo alento para uma grande maioria de homens e mulheres brasileir@s, representad@s concretamente nos 52.793.364 ou 61,27% dos votos válidos digitados ou depositados nas urnas. Em 26 Unidades da Federação, o candidato do Partido dos Trabalhadores, pela Coligação Lula Presidente, recebeu a maioria dos votos. A única exceção foi o Estado de Alagoas.

Em diferentes campos, as avaliações dos resultados eleitorais têm sido positivas. Em nosso campo, dos movimentos feministas e de mulheres, observamos um crescimento do número de mulheres, candidatas e eleitas, para todos os cargos em disputa. O número de partidos e as Unidades da Federação pelas quais essas mulheres se candidataram e se elegeram também se ampliou.

E, ainda que esse crescimento tenha sido aquém do desejado, indica uma nova tendência do eleitorado que vem, pouco a pouco, alterando a correlação de forças entre mulheres e homens e esquerdas e direitas, nas direções dos Legislativos e Executivos brasileiros. Pela primeira vez, na história do Brasil, foram eleitas duas mulheres para os governos estaduais. No primeiro turno, Rosinha Garotinho, pelo Rio de Janeiro, no segundo, Wilma de Faria, pelo Rio Grande do Norte. As duas filiadas ao Partido Socialista Brasileiro. Outros seis estados - DF, MG, PA, PB, RO e SE - elegeram mulheres como vice-governadoras. Em 1998, elegemos apenas uma governadora e duas vices.

Passadas as eleições, nossos rostos se voltam para a escolha da equipe de transição, primeira oportunidade para o novo governo implementar ações afirmativas. Neste período, os movimentos feministas e de mulheres têm realizado uma série de ações, coletivas ou isoladas, para estar presentes, influenciando com suas concepções e propostas, as atuais (de transição) e as futuras equipes de governo (ministérios, conselhos). Exemplo disso é a carta enviada ao coordenador do processo de transição, assinada por 13 articulações e fóruns nacionais de mulheres, de trabalhador@s, e de outros setores da sociedade civil, reivindicando que "na condução do processo de transição e na formação do governo sejam considerados como critérios básicos a equidade de gênero e étnico-racial."

Se nos ativermos aos nomes escolhidos para coordenar a equipe de transição e tomarmos como referência o patamar mínimo e máximo das cotas por sexo para as eleições proporcionais, de 30% e 70%, pode-se verificar um resultado positivo, com a constituição de um certo equilíbrio entre mulheres e homens. Dos 28 nomes de coordenador@s até agora confirmados, nove são mulheres, o que representa 32%. Na questão racial, uma rápida olhada nos nomes indicados já evidencia a manutenção do desequilíbrio. Quase a totalidade da equipe é constituída de homens brancos. E, no universo das nove mulheres indicadas, essa discriminação se repete: apenas uma é negra.

Entretanto, ninguém tem a ilusão de que com a eleição de Lula os problemas brasileiros serão equacionados num passe de mágica. O que se espera é vontade política afirmada e efetivada. A expectativa é que as equipes escolhidas - de transição, ministeriais, dos altos escalões, cada vez mais incluam mulheres e homens, com suas diversidades, nos postos de comando e elaborem políticas que acolham, transversalmente, as questões de gênero e raça.

Tecer a teia da convivência, a partir de seres humanos que busquem a construção da igualdade de oportunidades entre mulheres e homens, de diferentes sexos, orientações sexuais, culturas, raças, etnias, gerações e convicções políticas e religiosas é o desafio colocado. É nessa hora que os diferentes movimentos sociais precisam "aproveitar a aragem" - valer-se da oportunidade para que os ventos soprem a favor da igualdade e da liberdade, em todos os seus sentidos.


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