Frente a uma “economia da catástrofe”, socióloga Sabrina Fernandes defende outro desenvolvimento: ecológico, popular e antiimperialista. Aponta: não bastará tomar os meios de produção; o socialismo deve reformulá-los e, em alguns setores, até adotar o decrescimento

 

 

Publicado 11/05/2026 às 17:50 - OutrasPalavras

Foto: Reprodução/Mídia Ninja

 

Editora de novas gerações de Marx e Engels no Brasil — O Manifesto Comunista (2021) e O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (2022) —, Sabrina não trata os clássicos como relíquias. Os devolve ao presente como ferramentas vivas, capazes de cortar o que precisa ser cortado. É esse gesto — o de recusar a fossilização do pensamento crítico — que atravessa toda a sua obra e que a distingue numa geração de intelectuais que por vezes confunde erudição com embalsamamento.

Hoje, como cientista residente do prestigioso Programa César Lattes do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp, consultora sênior de pesquisa do Centro de Tecnologia e Industrialização para Desenvolvimento da Universidade de Oxford (TIDE) e Fellow Sênior de Liderança do Instituto Alameda, Sabrina circula entre o Sul Global e o Norte sem perder o sul. Suas pesquisas nas fronteiras entre economia política das transições, justiça climática, internacionalismo, decrescimento e ecossocialismo não são territórios paralelos — são faces de um mesmo projeto intelectual: demonstrar que outro fim é possível, e que esse fim começa pela honestidade brutal sobre os limites do presente.

Mas o que talvez defina Sabrina Fernandes de forma mais precisa do que qualquer credencial é o que acontece quando alguém a encontra fora dos circuitos acadêmicos. Ela trata o interlocutor — qualquer interlocutor — como par. Não por modéstia calculada, não por pedagogia condescendente, mas porque acredita, com consistência rara, que o pensamento só se faz no encontro real entre pessoas reais. Esta entrevista nasceu dessa crença. E o leitor que chegar até o fim entenderá que a generosidade intelectual, quando é genuína, não é virtude pessoal — é também postura política.

Sabrina Fernandes é uma das vozes mais necessárias e corajosas do pensamento crítico brasileiro contemporâneo. Leia a entrevista concedida por e-mail.

Em sua palestra de abertura na Unicamp (março de 2026) e em debates recentes, você tem defendido o conceito de “policrise planetária” para caracterizar crises que se retroalimentam, e se referiu ao genocídio em Gaza como um exemplo brutal da “economia da catástrofe”. Em 2026, em meio à COP30 e seus desdobramentos, como esses dois conceitos se articulam? A “economia da catástrofe” seria a forma mais aguda de manifestação da policrise sob o capitalismo contemporâneo, e que alternativas concretas o ecossocialismo pode oferecer para romper essa lógica?

O conceito de policrise ressurge com força a partir da pandemia da covid-19 e da invasão da Ucrânia, para explicar como os dois eventos geraram efeitos múltiplos por todo o mundo, somando-se aos impactos da emergência climática. É também um importante conceito para elucidar que as crises pioram umas às outras e como soluções compartimentalizadas a uma crise podem gerar impactos ainda piores em outros lugares, povos e escalas. Daí a relevância de discutir o que vivemos em termos de uma “policrise planetária”, termo empregado por Michael J. Albert e que abracei com o intuito de destacar as relações de interdependência socio-metabólica nas crises, eventos e fenômenos que vivenciamos. Essa visão é estratégica no Sul Global, na periferia do sistema, já que revela como Estados e agentes poderosos tratam a maior parte do mundo como zona de sacrifício para o seu próprio enriquecimento e a expansão de seu campo hegemônico.

No caso do genocídio em Gaza, vemos as interconexões nefastas entre o colonialismo, o capital e a tecnologia em meio ao colapso da crença em uma ordem mundial liberal. Trata-se de uma crença e não necessariamente da realidade material, porque essa ordem sempre se constituiu em cima de um pacto de subordinação dos Estados pós-coloniais e a ilusão de que, caso todo o mundo se comportasse dentro das regras do capitalismo, o tão sonhado desenvolvimento seria alcançado e a soberania de todos seria respeitada. Em nenhum momento da história do século passado e do atual essa ilusão se sustentou na prática. Mesmo quando instituições multilaterais aparentavam maior funcionalidade, os Estados Unidos estavam invadindo múltiplos países ao mesmo tempo, financiando atividades paramilitares em outros, bloqueando Cuba e Venezuela, enquanto outros Estados dominantes garantiam contratos de exploração mineral e usavam de ferramentas diplomáticas para acessar recursos e empresas no Sul Global, reforçando a privatização como regra no mundo.

Essa suposta ordem sempre serviu a uns em detrimento de outros, reforçando o modo de vida imperial no Norte Global e os padrões de troca econômica e ecológica desigual. Então a policrise aparece como um momento histórico de alta complexidade em que as negociações para a ordem não mais seguem regras pré-acordadas entre os países dominantes. O pacto entre eles foi quebrado, de modo que até as Nações Unidas, uma das grandes responsáveis, ao lado da Grã-Bretanha, pelo estabelecimento do Estado colonial de Israel e pela formalização da sina dos palestinos, se revela cada vez mais uma entidade oca, cujos mandatos de direitos humanos e multilateralismo soberanos não são páreos para o poder colonial que essas instituições legitimaram.

É assim que entendemos que o genocídio em Gaza é tanto sobre o avanço colonial de Israel — da mesma forma que o Estado age para cima do Líbano, da Síria e de toda a região — como sobre a negociação de espólios e novas comodificações que o capital busca para seguir seu caminho de crescimento supostamente infinito. O genocídio interessa às grandes corporações de tecnologia do Vale do Silício, às instituições financeiras, à indústria de construção civil e à especulação imobiliária. E é onde entendemos que a oposição a ele é mais que moral. Ao combater o sofrimento palestino, buscamos também nos desvencilhar da perversidade da economia da policrise, que quando mata crianças e jornalistas em uma parte do mundo, também empodera corporações e governantes que nos oprimem de outras formas em outros lugares, além de emitir gases de efeito estufa que agravam a emergência climática para cada um de nós.

O avanço da economia da catástrofe é o reconhecimento dos capitalistas de que sua sede por crescimento é infinita, mas como os limites planetários são reais, este crescimento enfrenta o risco iminente de colapso. Daí, ao olharem para o abismo, percebem que seu papel é gerenciar os espólios da policrise, garantindo que o que resta do planeta seja alocado para as elites e os países imperialistas. Essa contradição é central para a leitura ecossocialista do mundo, porque aprendemos que, ao combater o capitalismo, devemos criar uma alternativa mais completa, que não seja apenas sobre a propriedade dos meios de produção, mas signifique também uma ruptura civilizatória que regule a relação entre a sociedade humana e a natureza. Não basta adquirir ferramentas para navegar melhor as crises, pois eventualmente a normalização de seus efeitos em algum canto também nos atingirá. A tarefa passa por reformular radicalmente como produzimos, o que produzimos e para que finalidade. Essa nova formulação é capaz de agitar o imaginário de quem luta, mostrando que vale a pena construir alternativas que combinem os vários desejos de uma boa vida. É sobre garantir que as lutas do século XXI ecoem “paz, pão e Terra” no reconhecimento de nossas relações ecológicas, ousando romper com confortos temporários das falsas soluções e realmente ir além do capital.

Em “Sintomas Mórbidos”, você analisou a crise de práxis da esquerda brasileira e sua relação com o avanço do “fascismo social”. Mais recentemente, em 2025, você afirmou que o bolsonarismo é um “laboratório de sucesso” para a extrema direita mundial. Diante do cenário político de 2026, quais sintomas dessa crise persistem ou se agravaram? Como reconstruir uma práxis que não seja apenas reativa ao fascismo, mas que antecipe a construção de hegemonia, superando a “política da conciliação de classes” que você criticou no governo Lula?

Dizem que temos uma crise de imaginário nas esquerdas. Eu diria que o problema é mais profundo: há um desprezo pelo imaginário alternativo. Enquanto a extrema direita briga entre si, mas com uma visão bem mais concreta do tipo de sociedade ultraconservadora e ultracapitalista que pretende estabelecer, as esquerdas sofrem de um problema de temporalidade em nossa imaginação alternativa, especialmente quanto aos partidos e às discussões centradas no Estado. Os povos indígenas falam de um futuro ancestral e de um modo de vida radicalmente diferente do modo de vida branco e capitalista, mas as organizações de esquerda mais focadas na disputa da estatal muitas vezes perdem a oportunidade de aprendizado e limitam seu olhar para 100 anos atrás na Europa e apenas quatro anos para frente aqui no Brasil. Ainda há muito que aprender com nossa própria história e inclusive com as ilusões que a esquerda comprou a respeito do que é progresso e desenvolvimento e sobre o desejo de juntar-nos ao tipo de economia dos Estados imperiais modernos, mesmo quando alegamos nossas posturas anti-imperialistas.

No Sintomas Mórbidos, eu trato disso dentro de uma análise da melancolia de esquerda, mas a título de atualização, percebo como esse desprezo pelo imaginário que contesta as formas atuais do fazer político também passa por um certo negacionismo da realidade. Isso é mais evidente no caso das crises ecológica e climática, pois nem mesmo nosso anti-imperialismo e nosso olhar para a indústria e a infraestrutura se atualizou sobre os limites planetários. Falamos de investimentos verdes e descarbonização, mas salvo as correntes mais radicais, seguimos justificando a conciliação com o agronegócio como essencial para a estabilidade do país e o crescimento do PIB. E mesmo nas correntes mais radicais, há tons bastante pobres de anti-imperialismo, que apostam numa visão antiquada e falha de soberania, que chamo de “soberania com prazo de validade”, já que defendem a visão da soberania estatal através do controle para a exploração dos recursos da natureza, sem ao menos cogitar reformular o controle como tutela, cuidado e outro paradigma produtivo.

Para piorar, alertas sobre os negacionismos dos limites planetários dentro da própria esquerda são tratados como afrontas aos interesses nacionais, quando deveriam ser um grande convite para construir um caminho mais radical, que pudesse aumentar a qualidade de vida média da população ao mesmo tempo em que tornamos os traços mais cruéis do capitalismo obsoletos.

É onde mora uma grande dificuldade da esquerda de formar laboratórios em múltiplas escalas. Vejamos, por exemplo, o potencial que é o MST e sua produção orgânica e agroecológica. O MST é estudado no mundo todo, como movimento e como intervenção no modo produtivo agrário. Mas aqui no Brasil a esquerda parabeniza os esforços, enquanto denúncia o agronegócio, mas não se esforça o suficiente para criar os caminhos de decrescimento do agro e reformulação nacional da política de plantio. Vivemos de tapar buraco em vez de colocar em ação planos que alterem a propriedade da terra e fomentem outra lógica produtiva ao mesmo tempo. São passos muito lentos que revelam o enorme déficit de compreensão dos desafios ecológicos.

Em outros casos, há autoenganação sobre a incorporação desses desafios. Enquanto denunciamos os planos estrangeiros para os minerais de terras raras no Brasil, parece que a única solução viável passa pelo estabelecimento de uma grande estatal (sugerida como Terrabrás). Acredito que essa estatal é estratégica, pois caminhos públicos reforçam nossa autonomia. Isso quer dizer que é preciso pensar a Terrabrás além do direito de exploração e mineração nas mãos do Estado, mas também como ferramenta para determinarmos socialmente o que não minerar, o que proteger e o que fazer com o que foi minerado. Infelizmente, o desprezo pelo imaginário longevo nos oferece boas ideias para combater a troca econômica desigual através de ferramentas estatais e de industrialização, mas ainda somos majoritariamente incapazes de nos perguntar que outras coisas importantes poderíamos fazer com uma estatal. Da forma como andam as propostas de industrialização verde no Brasil e nos países vizinhos, o “verde” não passa de uma grande integração na cadeia produtiva de mercadorias especializadas de eletrificação de descarbonização, sem nenhum interesse em realmente combater a troca ecológica desigual, a lógica das zonas de sacrifício e a normalização de indústrias nocivas, desde que parte delas facilite alguns objetivos de crescimento e melhoria de vida.

Devemos nos atentar para as perguntas que fazemos na estratégia política. Se imaginamos uma estatal simplesmente porque antes havia capital privado, estamos contentes em apenas reagir. Não mudará o que é explorado e não mudará o destino dessas mercadorias — no máximo, refinaremos e processaremos em mercadorias mais bem posicionadas na cadeia de valor, o que, de fato, pode piorar o impacto ambiental local e ainda aumentar o perfil de emissões, como é o caso dos limites da política industrial verde da Indonésia. Para pautar coisas novas, coisas que podem encantar o povo novamente, devemos ir além das nossas fórmulas tradicionais de soluções. Nosso laboratório não deve se reduzir a replicar testes e parâmetros já conhecidos, o que demanda novas perguntas. Poderíamos propor a submissão dos nossos minerais a critérios ecológicos maiores? Poderíamos vincular extração à finalidade de uso? Poderíamos, por exemplo, estabelecer em código de lei ou articular um acordo entre produtores para impedir que tais minérios cheguem a usos nefastos, como para armamento do imperialismo?

Poderíamos. Porém, infelizmente, nosso debate é radical na propriedade dos recursos e no direito de exploração, mas para enaltecer a exploração para todos esses fins possíveis, pois garantirão mais ingressos de capital. É um desenvolvimentismo tosco, deslocado da concretude da policrise, e não consegue encantar as classes exploradas, especialmente diante de tanta alienação e da infiltração do capitalismo em todos os aspectos de nossa vida.

Seu artigo “Descarbonizar não é suficiente” (2025) critica a despolitização da transição energética e a armadilha do “capitalismo verde”. Já em “As crescentes zonas de sacrifício na América Latina” (2025), você mostra como o extrativismo verde cria territórios descartáveis. Como evitar que a transição energética brasileira aprofunde nossa dependência e crie zonas de sacrifício, especialmente na Amazônia e no Cerrado? Uma “soberania ecológica” efetiva exigiria o fim do extrativismo ou sua subordinação a um plano democrático de transição justa?

Primeiro, é preciso reconhecer que o discurso de transição energética no Brasil não tem nada a ver com transição de fato. Temos uma expansão de capacidade energética que incentiva mais renováveis, mas segue mista e promove alguns dos piores tipos de produção energética, como o caso do uso de carvão prolongado até 2040.

Nosso contexto é de diversificação de portfólio de investimento e da matriz, e até isso é prejudicado pela forte presença do setor privado. É absurdo supor que uma transição energética possa ocorrer de fato, e principalmente ser justa, num contexto de privatização da produção, gestão e distribuição de nossa energia. Isso permite situações bizarras, em que gestores e o setor privado se preocupam com picos de geração de energia, mas não querem investir adequadamente em sistemas de baterias para uso municipal. Assim, seguimos expandindo a oferta e depois tentamos atrair data centers variados para consumir da sobreoferta que nós mesmos criamos. Aumentando o consumo, alegamos que devemos produzir mais novamente e que isso só pode ser feito mantendo o carvão e o gás fóssil em nossa matriz; ou seja, cavamos nossas próprias armadilhas.

Além disso, no caso principalmente na energia eólica no Brasil, predomina um modelo latifundiário, voltado a megaprojetos e benefícios bastante desiguais, onde os donos dos parques lucram com contratos de longo prazo, mas a população que vive rodeada por turbinas sofre os danos de saúde e nem ao menos é consultada sobre salvaguardas mínimas necessárias para evitar a formação de zonas de sacrifício verdes. Isso opera dentro de uma visão colonial, em que os lugares nos quais as turbinas são construídas operam como espaços “vazios” ou “disponíveis”, ignorando os modos de existência na região e fortalecendo modelos danosos de concentração fundiária que se expandem nos nossos biomas.

Enquanto isso, fazemos projetos de proteção dos biomas com o que sobra e ainda normalizamos tipos de intervenção que sabemos que piorarão a situação, como a abertura de estradas e ferrovias para o agronegócio e a grande mineração. Isso mostra que o capitalismo verde não chega nem mesmo como alternativa ao capitalismo fóssil e desenvolvimentista. O que existe é uma repactuação de zonas de exploração e processos de acumulação. Todos eles são pautados nessa visão limitada da soberania nacional e dos interesses nacionais, muito bem-negociados com a elite brasileira e internacional, garantindo os fluxos comerciais e o abastecimento de cadeias que eles consideram estratégicas para a manutenção do capital. Por isso, eu desenvolvo em minha pesquisa, já há alguns anos, formulações para outra visão de soberania que, por ser ecológica e popular, tem maior potencial anti-imperialista e verdadeiramente anticapitalista. Mas, para que tenhamos êxito, será necessário rever e renunciar a várias noções pacificadas sobre modelo de sociedade, inclusive sobre como construímos infraestrutura e como organizamos o espaço geográfico entre o urbano, o rural e o bioma nativo.

Você é coautora do manifesto “Por um decrescimento ecossocialista” (2025). Como articular a demanda por decrescimento nos países centrais com as legítimas aspirações de desenvolvimento, soberania e bem-estar material no Sul Global, sem recair no desenvolvimentismo predatório que você critica? O decrescimento seria uma plataforma anticolonial e de reparação, ou corre o risco de ser apropriado como novo imperialismo verde?

Não existe risco de o decrescimento parecer um imperialismo verde, porque o imperialismo não almeja o decrescimento no Sul, apenas a maior apropriação do que é desenvolvido no Sul também para os interesses do Norte, inclusive garantindo a compra de recursos, seja com exploração direta, seja com acordos com estatais no Sul. O decrescimento nada tem a ver com isso, pois é um movimento de autonomia e tem que ser construído pelo povo nas áreas a decrescer, visando abrir espaço para outros crescimentos sadios.

O medo do decrescimento só se sustenta quando confundimos decrescimento com austeridade, com imposição e com exclusão. O decrescimento verdadeiro e justo pode ser uma importante ferramenta de desenvolvimento compatível com os limites planetários, porque exige nomear o tipo de produção desnecessária, dispendiosa e altamente destrutiva para construir caminhos para a sua obsolescência. Muito do que é desnecessário já é obsoleto, mas é impulsionado por um consumismo que aumenta nossa pegada de uso de recursos finitos e é questionado apenas como problema do indivíduo. Uma perspectiva de decrescimento seletivo e justo, como defendo, faz parte do horizonte ecossocialista e é informado por critérios que devem ser construídos nos países do Sul em relação aos países do Norte.

Isso permite conectar o decrescimento a estratégias de desconexão, como discutido por Samir Amin para aliar o anti-imperialismo ao combate à troca econômica desigual. Aqui, entendemos que a perspectiva justa do decrescimento desenvolve critérios sobre que setores precisam decrescer, especialmente para eliminar o consumo supérfluo e excessivo de recursos, corrigindo desigualdades e abrindo caminhos para áreas que precisam crescer. Para citar um exemplo simples, podemos ver como uma reforma urbana popular que expropria edificações da especulação imobiliária a favor de corrigir o déficit habitacional é uma medida do decrescimento popular e justo. Recursos que estavam ociosos são apropriados para necessidades concretas, sem a necessidade de construir bairros novos inteiros. Isso abre espaço econômico e material para que, quando seja realmente necessário construir, também avaliemos as métricas, materiais, tecnologias e objetivos mais compatíveis com a sustentabilidade radical e com ganhos sociais. No eixo nacional, isso significa que aprendemos, então, que as políticas do Estado devem incentivar uma indústria de construção civil bastante modificada, além de reorientar benefícios fiscais e investimentos diretos na direção de bens e serviços comuns. Vemos assim que o decrescimento seletivo e justo ajuda a oxigenar as práticas alternativas ao capitalismo, mostrando as ligações entre fluxos e ferramentas econômicas, para que o reconhecimento dos limites ecológicos não seja mais visto como um entrave ao desenvolvimento, mas como critério que nos ajuda a dar melhor sentido e conectar as lutas — que de fato já são profundamente conectadas, mas sofrem da tendência fragmentadora das estratégias predominantes de esquerda.

O decrescimento permite também tratar da troca ecológica desigual, porque aí percebemos que uma reforma agrária radical e ecológica será o fim do agronegócio como conhecemos e também o decrescimento da indústria da carne global, pois a retomada de biomas e territórios protegidos no Brasil impactará matematicamente a capacidade para explorar animais, diminuindo também nossa demanda por antibióticos na pecuária, e pode permitir remanejar empregos dos frigoríficos para a produção agroecológica e o beneficiamento multiescalar de alimentos saudáveis. Nesse exemplo, fica claro que um decrescimento setorial abre espaço metabólico e econômico para as áreas que precisamos desenvolver com qualidade, atuando como uma tática útil tanto do ponto de vista do planejamento econômico, como para reorganizar nossas demandas de reparação e de cooperação com o restante do mundo.

Por isso mesmo, o decrescimento não pode ser aplicado como tática isolada, mas como parte de uma estratégia de transições múltiplas, como defendo em meu próximo livro, Outro fim é possível, que será publicado pela Editora Planeta. Isso implica também um esforço de imaginação coletiva para o futuro. Uma vez que entendemos, via materialismo histórico e evidências científicas gerais, que os limites planetários devem ser respeitados, cabe a nós a tarefa — complexa e gigantesca — de reorganizar não somente o modo de propriedade, como foi o foco da esquerda no passado, mas fazê-lo com o intuito de redistribuir também o usufruto dos recursos da natureza de modo a favorecer a regeneração e o equilíbrio do metabolismo e ciclos planetários. Temos o dever de avançar em radicalidade, o que passa pelo fortalecimento das ferramentas de organização de classe e pelo direcionamento delas rumo a outra lógica de produção, consumo e desenvolvimento que realmente pactue os impactos mínimos e necessários com as proteções que possam garantir uma sociedade pós-capitalista emancipada e longeva. Uma visão de soberania realmente ecológica e popular será essencial para nos lembrarmos de que não basta mais apenas almejar tomar os meios de produção. Nosso horizonte exige também reformulá-los e, em alguns casos, até mesmo encerrar alguns meios para criar espaço para outros. Afinal, pouco adiantaria estabelecermos finalmente os fundamentos de uma economia socialista, mas em terra tão arrasada que uma sociedade socialista a longo prazo se tornaria materialmente impossível. Se entendermos bem os pilares disso e como comunicar isso às pessoas, é provável que se torne um atrativo para a luta, mostrando que somos capazes de articular um futuro alternativo utópico e desejável, para o qual o capitalismo não seria páreo.

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fonte: https://outraspalavras.net/descolonizacoes/em-qual-soberania-o-brasil-deveria-apostar/