
Hellen Frida e Gabriela Fidelis - CFEMEA
Tereza de Benguela tornou-se símbolo dessa resistência ao liderar, no século XVIII, durante décadas, o Quilombo do Quariterê, na região do atual Mato Grosso, organizando formas coletivas de produção, proteção e autogoverno em plena sociedade escravista. Sob sua liderança, a comunidade resistiu durante décadas à escravidão colonial, onde o quilombo desenvolveu formas próprias de organização política, econômica e militar. Sua trajetória demonstra que mulheres negras sempre estiveram na linha de frente da construção de alternativas políticas, econômicas e comunitárias para sustentar a vida.
Em entrevista recente ao programa Terceiras Intenções, do Coletivo Filhas da Mãe, a ativista do Movimento Negro Unificado Lenny Blue chama atenção para um detalhe revelador: pouco se fala que Tereza de Benguela era uma mulher negra idosa quando liderou o Quilombo do Quariterê. Grande parte das ilustrações contemporâneas insiste em representá-la como uma mulher mais jovem e evidencia o quanto ainda existe dificuldade em reconhecer a potência política, intelectual e estratégica das mulheres negras idosas. Ao rejuvenescer Tereza, apaga-se não apenas sua idade, mas também tudo o que ela simboliza: a experiência acumulada, a sabedoria construída nas lutas, a liderança forjada ao longo da vida e o papel fundamental das mais velhas na sustentação das comunidades.
Resgatar essa dimensão de sua história significa também enfrentar o etarismo e afirmar que envelhecer é, para muitas mulheres negras, continuar produzindo conhecimento, articulando resistências e abrindo caminhos para as novas gerações.
Cada geração recebe das anteriores um conjunto de saberes, experiências e conquistas que permitem seguir avançando. Ao mesmo tempo, cada nova geração também amplia esses legados, produzindo novas linguagens, novas formas de organização e novas respostas aos desafios do presente.
É por isso que a transmissão e a transição geracional são tão importantes.
Construir o Bem Viver exige que meninas, jovens, adultas e idosas caminhem juntas, reconhecendo que cada tempo da vida produz conhecimentos indispensáveis para a transformação social. As mais velhas preservam memórias, metodologias e experiências que impedem que precisemos recomeçar do zero a cada geração. As mais jovens renovam a criatividade política, ampliam horizontes e desafiam antigas limitações. É preciso fortalecer os encontros entre elas.

Racismo e misoginia caminham juntos
As desigualdades enfrentadas pelas mulheres negras não podem ser compreendidas apenas como questões de gênero ou apenas como questões raciais. São produzidas pela combinação entre racismo, sexismo, classes e as desigualdade econômica, violência institucional e colonialidade.
Não por acaso, são contra elas que concentram os maiores índices de pobreza, informalidade, insegurança alimentar, mortalidade materna, violência obstétrica, feminicídios, violência política, sobrecarga do trabalho de cuidado e menor acesso a direitos fundamentais. Quando políticas públicas são desmontadas ou recursos destinados à saúde, educação, assistência social e proteção social são reduzidos, são também as mulheres negras as primeiras a sentir seus impactos.
Ao mesmo tempo, é justamente delas que emergem muitas das respostas coletivas que sustentam a vida: cozinhas solidárias, redes de cuidado, cooperativas, movimentos culturais, experiências de economia solidária, organizações feministas e iniciativas comunitárias que resistem diariamente à lógica da exclusão.

Marielle Franco: uma memória que organiza o futuro
Neste Julho das Pretas também lembramos outra data profundamente simbólica:
27 de julho, dia do nascimento de Marielle Franco.
Celebrar sua memória significa muito mais do que recordar uma parlamentar brutalmente assassinada por defender direitos humanos, significa reconhecer um projeto político construído a partir das periferias, do feminismo negro, da luta antirracista, da defesa da população LGBTQIA+, das mulheres, das juventudes e das pessoas atingidas pela violência de Estado.
Marielle compreendia que democracia não se fortalece apenas nas instituições, mas sobretudo quando as pessoas historicamente excluídas ocupam os espaços de decisão e constroem o poder popular. Sua atuação política demonstrou que é possível fazer do mandato um instrumento coletivo, conectado aos territórios e comprometido com a transformação das desigualdades estruturais.
Mesmo após seu assassinato, sua presença continua inspirando milhares de mulheres negras que decidiram disputar eleições, fortalecer movimentos sociais, ocupar universidades, produzir conhecimento, criar políticas públicas e construir novas formas de fazer política.
Marielle tornou-se semente. E sementes nunca morrem quando encontram solo fértil na luta coletiva.

Construir futuros é uma tarefa coletiva
O Julho das Pretas também nos lembra que memória não existe apenas para preservar o passado. Ela serve para construir futuros.
As mulheres negras sempre imaginaram outros mundos possíveis mesmo diante da violência da escravidão, do racismo e das desigualdades. Inventaram tecnologias de cuidado, solidariedade, resistência, espiritualidade e organização comunitária que continuam ensinando caminhos para enfrentar as crises contemporâneas.
Celebrar o Julho das Pretas é reconhecer a contribuição histórica das mulheres negras e, sobretudo, garantir condições para que vivam plenamente seus direitos, ocupem espaços de poder, tenham autonomia econômica, acesso à terra, educação, saúde, cultura, segurança, participação política e uma vida livre de todas as formas de violência.
O Julho das Pretas é um chamado permanente à organização coletiva.
Honrar Tereza de Benguela, Marielle Franco e tantas outras mulheres negras é, sobretudo, assumir o compromisso de seguir construindo um Brasil em que todas possam viver com dignidade, liberdade e Bem Viver.









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