Com a ampliação dos ataques virtuais, cresce também a busca por mecanismos que garantam a responsabilização de quem comete crimes de ódio

 

Transformar ofensas e discriminações em provas jurídicas tem se tornado uma estratégia de resistência e proteção para a população negra no Brasil. Em um cenário em que o racismo persiste — tanto nas ruas quanto nas redes —, garantir que a Justiça tenha acesso às evidências certas é essencial para responsabilizar agressores e romper o ciclo de impunidade. É nesse contexto que o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, ganha ainda mais relevância.

A data, que homenageia Zumbi dos Palmares e simboliza a luta contra o racismo e a valorização da identidade negra, também chama atenção para os desafios contemporâneos. Segundo o Atlas da Violência (Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública), pessoas negras representam cerca de 77% das vítimas de homicídios no país, e os registros de crimes de injúria racial e racismo têm crescido significativamente nos últimos anos — especialmente nas redes sociais.

Com a ampliação dos ataques virtuais, cresce também a busca por mecanismos que garantam a responsabilização de quem comete crimes de ódio. Uma dessas ferramentas é a Ata Notarial, documento lavrado em cartório que registra formalmente o conteúdo apresentado pela vítima — como mensagens, comentários, publicações ou e-mails ofensivos.

“Tem sido cada vez mais comum recebermos pessoas negras que procuram o cartório para registrar situações de racismo sofridas na internet ou em grupos de mensagens. Elas chegam abaladas, mas conscientes da importância de transformar o que viveram em uma prova concreta. A partir dos links e prints apresentados, acessamos o conteúdo em tempo real e lavramos a Ata Notarial, que passa a ter fé pública e valor legal”, explica Gilton Mello, Escrevente Substituto do 15º Ofício de Notas do Rio de Janeiro.

O documento é reconhecido oficialmente pelo Estado, o que garante que o conteúdo registrado possa ser utilizado em processos judiciais, mesmo que o agressor apague as mensagens posteriormente.

“Quando uma vítima de racismo age rapidamente e lavra uma Ata Notarial, ela não apenas se protege juridicamente, reafirma sua dignidade. É uma forma de dizer: ‘o que aconteceu comigo é grave, é crime, e precisa ser punido’. Usar a lei é também um ato de resistência e de consciência cidadã”, completa Gilton.

O procedimento é simples: a vítima deve procurar um cartório de notas com os links, perfis ou mensagens ofensivas. O escrevente acessa o conteúdo diretamente, faz a verificação e redige o documento. Os valores do serviço são tabelados pelo Tribunal de Justiça de cada estado
Nos casos de racismo presencial, o cartório também pode atuar, ainda que de forma diferente. Quando não é possível presenciar os fatos, o tabelião pode lavrar uma Escritura Pública Declaratória, baseada no relato da vítima e de testemunhas — reforçando o conjunto probatório para ações judiciais.

“A luta contra o racismo também passa pelo acesso à informação e ao uso das ferramentas jurídicas disponíveis. Cada registro, cada denúncia, cada prova validada é um passo a mais na construção de uma sociedade verdadeiramente antirracista”, ressalta Gilton.