O silêncio que se espalha pelas ruas do Alemão e da Penha depois da maior chacina da história do país não é apenas luto — é trauma

Por: 

Camila Ibiapina

 Agência de Notícias da Favela
 

Imagem: Divulgação

O silêncio que se espalha pelas ruas do Alemão e da Penha depois da maior chacina da história do país não é apenas luto — é trauma. Entre as vielas marcadas por balas, moradores evitam sair de casa. Os comércios seguem fechados, e os olhares dizem o que as palavras não dão conta: ninguém saiu ileso, nem quem ficou vivo.

A megaoperação, que deixou mais de 120 mortos, transformou as favelas em um cenário de medo. Foram dois dias de rajadas de tiros atravessando a madrugada e corpos sendo retirados da mata pelos próprios moradores — imagens que ficarão gravadas na memória coletiva.

Psicólogos alertam que o impacto de operações como essa vai muito além do físico. O corpo sobrevive, mas a mente adoece.

“A violência constante rompe a sensação de segurança necessária para o equilíbrio psíquico”, explica a psicanalista Marta Maria Andrade Lima, que realiza atendimentos clínicos online. “Do ponto de vista psicanalítico, poder confiar minimamente no ambiente é essencial para o sujeito se constituir e se manter em estabilidade emocional. Quando o território se torna imprevisível, o morador passa a viver em estado de alerta, com medo, insônia e dificuldade de relaxar. Mesmo quando o tiroteio termina, o corpo e a mente continuam tensos, porque o inconsciente não reconhece que o perigo acabou. É um trauma coletivo que se reatualiza a cada nova operação.”

Nos dias seguintes à operação, o que fica é a dor. Não houve atendimento emergencial de saúde mental para os moradores. O Estado que entra atirando sai sem deixar assistência.

“Após episódios de violência intensa, é comum surgirem sintomas como ansiedade, irritabilidade, insônia, pesadelos e hipervigilância”, acrescenta a psicanalista. “O corpo permanece em prontidão, como se o perigo ainda estivesse à espreita. Alguns moradores se isolam por medo, outros aparentam frieza ou indiferença — o que, na perspectiva psicanalítica, é uma forma de defesa do ego. Essa anestesia emocional não significa falta de sensibilidade, mas um recurso do psiquismo para suportar o excesso de dor e de medo.”

No Complexo da Penha e no Alemão, o confronto termina quando os blindados vão embora. Mas o barulho dos tiros segue dentro da cabeça, ecoando nas noites de insônia de quem sobreviveu.

Entre os mais afetados estão as crianças. Mesmo quando os adultos tentam poupá-las, elas sentem o medo.

“As crianças captam a tensão e o desamparo no olhar dos pais e internalizam a ideia de que o mundo é perigoso”, explica Marta. “Isso interfere diretamente na construção da confiança e na relação com o outro. Quando essa base é abalada pela violência, o corpo cresce em alerta e o afeto se fecha em defesa.”

A psicanalista também aponta que o acolhimento emocional é fundamental para amenizar o impacto.

“O mais importante é não negar o medo da criança. Dizer ‘não foi nada’ ou ‘não precisa ter medo’ invalida o sentimento dela. É melhor reconhecer o que aconteceu e oferecer uma presença firme: ‘foi assustador, mas estamos juntos e seguros agora’. Contar histórias, manter pequenas rotinas e permitir que ela fale ou brinque sobre o que viveu ajudam o psiquismo a simbolizar o trauma, transformando o medo em algo que pode ser nomeado e, portanto, elaborado.”

Nos territórios onde o Estado se faz presente apenas com fuzis, o acolhimento vem das redes comunitárias.

“Quando o sofrimento não encontra espaço de escuta, ele tende a se cristalizar”, observa Marta. “Nas comunidades, muitas vezes, o Estado aparece armado, mas não aparece para cuidar. Essa ausência de reconhecimento reforça o sentimento de desamparo. Mesmo assim, há uma força simbólica importante nos laços entre vizinhos, nas redes afetivas e comunitárias. Esses vínculos funcionam como sustentação psíquica, impedindo que o trauma se transforme apenas em destruição.”

No fim, Marta destaca que a escuta é um dos caminhos mais potentes para lidar com os efeitos da violência.

“Quando o sofrimento encontra lugar na palavra e no vínculo, ele deixa de ser um peso solitário. Mesmo em meio ao caos, é possível reconstruir algo da segurança psíquica por meio da escuta, do afeto e da presença do outro.”