Já se contam mais de 121 pessoas mortas pela polícia do Rio de Janeiro, além de quatro policiais. Governo do Estado do Rio de Janeiro não esconde sua face cruel, racista, autoritária e genocida

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28/10/25

 

Hoje, dia 28 de outubro de 2025, as forças de segurança pública do estado do Rio de Janeiro promoveram o massacre de 64 pessoas nos Complexos do Alemão e da Penha, em uma demonstração inquestionável da interdição da cidadania de populações negras e periféricas no Brasil. Estamos diante da expressão de um terror racial que inviabiliza a própria ideia de democracia neste país.

Mais uma vez, o Estado brasileiro revela sua face mais cruel: transforma territórios negros em campos de extermínio e a vida de sua população em alvo. Não se trata de uma operação contra o crime, mas de uma guerra contra o povo negro, legitimada pela lógica que confunde pobreza com perigo, negritude com inimigo.

Essas mortes não são acidentes. São parte de um projeto histórico de controle e destruição de uma parcela específica da sociedade brasileira, que se renova sob diferentes governos e discursos. Quando um governador legitima quem mata, ele reafirma o pacto colonial/racial que funda a nossa nação: o de que a vida negra é descartável.

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O presente massacre, que se configura como o mais letal do estado fluminense, é o retrato mais recente da permanência do racismo estrutural que rege o Estado e molda as instituições. O que se perpetua é uma política de morte que retira da população negra o direito à existência, ao luto, à dignidade e ao seu próprio país.

Há 37 anos, Geledés — Instituto da Mulher Negra se une à denúncia que o movimento negro brasileiro faz há décadas: sem a vida negra com dignidade, não há democracia possível.

Nossa luta é, e sempre será, pela construção de uma Nação em que o direito à vida não seja privilégio, mas condição humana inegociável.

fonte: https://www.geledes.org.br/geledes-massacre-no-rio-de-janeiro-e-expressao-de-um-terror-racial/

 

No dia seguinte à operação, moradores afirmam ter encontrado mais de 70 corpos, que foram levados para uma praça na Penha. Secretário da Polícia Civil fala em 63 corpos. Leia mais

 moradores levam dezenas de corpos para praca na penha

Ministro afirmou que comitiva de ministros vai viajar para o Rio ainda nesta quarta-feira (29). Operação que mirou a facção Comando Vermelho foi considerada a mais letal da história do estado. Leia mais

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NOTA PÚBLICA: Segurança pública não se faz com sangue

A operação mais letal da história do Rio de Janeiro, a Operação Contenção, nesta terça (28), expõe o fracasso e a violência estrutural da política de segurança no estado e coloca a cidade em estado de terror

Anistia Internacional 28/10/2025


FERNANDO FRAZÃO/AGÊNCIA BRASIL

A chacina que se desenrola desde as primeiras horas desta terça-feira (28), nos complexos de favelas do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, inscreve-se em um longo e trágico histórico de matanças cometidas por forças policiais no estado — apresentadas, equivocadamente, como política pública. Até o momento, já são 64 pessoas mortas em uma única operação — a mais letal da história do Rio de Janeiro.

A perda massiva de vidas reitera o padrão de letalidade que caracteriza a gestão de Cláudio Castro, governador que detém o título de responsável por quatro das cinco operações mais letais da história do Rio de Janeiro, superando seus próprios recordes anteriores registrados no Jacarezinho (2021) e na Vila Cruzeiro (2022). O que o governador Cláudio Castro classificou hoje como a maior operação da história do Rio de Janeiro é, na verdade, uma matança produzida pelo Estado brasileiro.

Ao longo dos quase 40 anos de vigência da Constituição Federal, o que se viu nas favelas fluminenses foi a consolidação de uma política de segurança baseada no uso da força e da morte, travestida de “guerra” ou “resistência à criminalidade”. Trata-se de uma atuação seletiva, dirigida contra populações negras e empobrecidas, que tem no sangue seu instrumento de controle e dominação.

Não há nela elementos que efetivamente reduzam o poderio das facções criminosas nos territórios. Pelo contrário: essas ações aprofundam a insegurança e o medo, instalam o pânico, interrompem o cotidiano de milhares de famílias, impedem crianças de ir à escola e impõem o terror como expressão de poder estatal. A morte não pode ser tratada como política pública.

Esse ciclo de violência não é acidental: ele decorre de uma estratégia deliberada que privilegia o confronto armado em detrimento de qualquer compromisso com a vida e com a legalidade. Durante seu pronunciamento, o governador ainda tentou responsabilizar a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n.º 635 — a ADPF das Favelas — e as organizações da sociedade civil que atuaram por sua implementação, pela letalidade da operação. Ao fazer isso, ataca o controle das polícias, papel constitucionalmente atribuído ao Ministério Público, e busca deslegitimar o trabalho das entidades que lutam pelo direito à vida nas favelas.

Castro ainda atuou politicamente para esvaziar a ADPF 976 no Supremo Tribunal Federal, com o objetivo de liberar as forças de segurança de obrigações legais como planejamento prévio e preservação de vidas.

O Manual sobre o Uso da Força e Armas de Fogo por Agentes da Segurança Pública, publicado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), estabelece princípios fundamentais que devem orientar toda ação policial: legalidade, necessidade, proporcionalidade, precaução e responsabilidade. As operações conduzidas pelo Estado do Rio de Janeiro violam frontalmente todos esses parâmetros, configurando uma prática sistemática de uso ilegítimo da força letal.

O Brasil e o Estado do Rio de Janeiro já foram reiteradamente advertidos pela Organização das Nações Unidas e pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos sobre o caráter racista e discriminatório da política de “guerra às drogas”, que define quem morre e quem vive nas favelas e periferias. O Estado fluminense acumula duas condenações na Corte Interamericana de Direitos Humanos — pelas chacinas de Acari (1990) e Nova Brasília (1994 e 1995) — e segue reproduzindo o mesmo padrão de violência. Nos últimos dez anos (2014–2024), 5.421 jovens de até 29 anos foram mortos em intervenções policiais, segundo o Instituto de Segurança Pública.

Desde os anos 1990, sucessivos governos ignoram propostas de segurança pública orientadas pela prevenção, pela redução da violência e pelo fortalecimento de direitos. O investimento segue voltado ao confronto, com resultados trágicos e repetidos: mais mortes, mais dor e nenhuma segurança. O que se testemunha hoje é o colapso de qualquer compromisso com a legalidade e os direitos humanos: o Estado substitui a segurança pública baseada em direitos por ações militares de grande escala. Sob o pretexto da “guerra às drogas”, instala-se um estado de insegurança permanente, voltado contra a população negra e pobre das favelas.

Não há justificativa para que uma política estatal, supostamente voltada à proteção da sociedade, continue a ser conduzida a partir do derramamento de sangue. A segurança pública deve garantir direitos, não violá-los. As moradoras e os moradores das favelas têm direito à vida, à integridade física e à paz — e isso não é negociável.

Rio de Janeiro (RJ), 28 de outubro de 2025.

Anistia Internacional Brasil
Justiça Global
Centro de Estudos de Segurança e Cidadania — CESeC
Conectas Direitos Humanos
Centro pela Justiça e o Direito Internacional — CEJIL
Instituto Papo Reto do Complexo do Alemão
Movimentos
Redes da Maré
Instituto de Estudos da Religião — ISER
Observatório de Favelas
Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular (NAJUP) Luiza Mahin
Movimento Unidos dos Camelôs
Grupo Tortura Nunca Mais — RJ
Fórum Popular de Segurança Pública do Rio de Janeiro
CIDADES – Núcleo de Pesquisa Urbana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Instituto de Defensores de Direitos Humanos — DDH
Iniciativa Direito Memória e Justiça Racial
Frente Estadual pelo Desencarceramento — RJ
Instituto Terra Trabalho e Cidadania — ITTC
Associação de Amigos/as e Familiares de Pessoas Presas e Internos/as da Fundação Casa
— Amparar
Gabinete Assessoria Jurídica Organizações Populares — GAJOP
Instituto Sou da Paz
Rede Justiça Criminal
Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional — FASE RJ
Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares — RENAP RJ
Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência
Casa Fluminense
Plataforma Justa

 

fonte: https://anistia.org.br/informe/nota-publica-seguranca-publica-nao-se-faz-com-sangue/

 

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Operação Contenção: organizações de direitos humanos repudiam operação mais letal da história do Rio e denunciam política de guerra nas favelas

Carta pública assinada por 27 organizações denuncia uso ilegítimo da força pelo Estado, racismo estrutural na política de segurança e responsabiliza o governador Cláudio Castro por adotar uma doutrina de guerra como modelo de gestão. A Operação Contenção, realizada nesta terça-feira (29), nos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte da cidade do Rio, deixou mais de 100 mortos.

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Uma carta pública assinada por 27 organizações de direitos humanos, entre elas a Justiça Global, repudia a operação policial realizada nesta terça-feira (28) nos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, que já deixou mais de 100 mortos — configurando a ação mais letal da história do estado. O documento denuncia o uso ilegítimo da força letal e o avanço de uma política de segurança baseada na guerra e no extermínio da população negra e pobre das favelas.

Conforme o documento, o governador Cláudio Castro repete e aprofunda o padrão de violência que caracteriza sua gestão, responsável por quatro das cinco operações mais letais da história do Rio de Janeiro — superando recordes anteriores registrados na Vila Cruzeiro (2021) e no Jacarezinho (2022).

“O que o governador classifica como a maior operação da história do Rio é, na verdade, uma matança produzida pelo Estado brasileiro”, afirmam as organizações. Segundo o texto, Castro chegou a solicitar blindados do Exército e tratou a operação como um “estado de defesa”, confirmando a adoção de uma doutrina de guerra como política de Estado.

Acesse a carta na íntegra. 

As entidades destacam que essa lógica não reduz o poder das facções criminosas, mas aprofunda a insegurança e o medo, paralisa o cotidiano das comunidades e impõe o terror como expressão do poder estatal. “A morte não pode ser tratada como política pública”, diz a carta.

O texto também critica o ataque do governador à Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n.º 635, conhecida como ADPF das Favelas, e às organizações que atuaram por sua implementação. Ao culpar a decisão judicial pela letalidade das operações, o governo tenta deslegitimar o controle das polícias e a atuação da sociedade civil na defesa do direito à vida.

A carta aponta ainda que Cláudio Castro atuou para enfraquecer a ADPF 976, no Supremo Tribunal Federal, com o objetivo de liberar as forças de segurança de obrigações legais como o planejamento prévio e a preservação de vidas. Paralelamente, manteve a lógica de premiação pela morte ao sancionar a gratificação por “bravura” na nova Lei Orgânica da Polícia Civil, substituindo a antiga “gratificação faroeste”, amplamente rejeitada pela sociedade.

“Premiar o confronto e a morte estimula a mentalidade de guerra e transforma comunidades em campos de batalha, onde moradores são tratados como inimigos internos”, afirmam as organizações.

Violação dos parâmetros internacionais sobre uso da força

O documento cita o Manual sobre o Uso da Força e Armas de Fogo por Agentes da Segurança Pública, do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), que estabelece os princípios de legalidade, necessidade, proporcionalidade, precaução e responsabilidade. As organizações afirmam que as operações do Estado do Rio de Janeiro violam todos esses parâmetros e configuram uso ilegítimo e sistemático da força letal.

“O que o governador chama de segurança é, na verdade, um projeto político de extermínio travestido de combate ao crime”, destaca a carta. “Essas ações aprofundam a insegurança e o medo, interrompem o cotidiano de milhares de famílias e impõem o terror como expressão de poder estatal.”

O posicionamento relembra que o Rio de Janeiro já foi condenado duas vezes pela Corte Interamericana de Direitos Humanos — pelas chacinas de Acari (1990) e Nova Brasília (1994 e 1995) — e continua a reproduzir o mesmo padrão de violência. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que, entre 2014 e 2024, 5.421 jovens de até 29 anos foram mortos em intervenções policiais no estado.

As organizações apontam que o cenário atual é o ápice da necropolítica, em que o Estado substitui a segurança pública baseada em direitos por ações militares de grande escala, voltadas ao terror e à autopromoção política. Sob o pretexto da “guerra às drogas”, instalam-se estados de exceção permanentes voltados contra a população negra e pobre das favelas.

Diante da gravidade da situação, as entidades exigem que o governo abandone imediatamente a mentalidade de guerra e a lógica de ocupação militar nas comunidades, e que o Ministério Público e o Judiciário investiguem e responsabilizem os envolvidos — inclusive o governador — pela promoção de políticas que violam a legalidade e os direitos humanos.

O documento também reivindica a revogação das gratificações que premiam a letalidade policial e o cumprimento integral da decisão do STF que determina a elaboração e implementação do Plano Estadual de Redução da Letalidade Policial.

“A segurança pública deve garantir direitos, não violá-los. As moradoras e os moradores das favelas têm direito à vida, à integridade física e à paz — e isso não é negociável.”

Assinam a carta

Associação de Amigos/as e Familiares de Pessoas Presas e Internos/as da Fundação Casa — Amparar, Anistia Internacional Brasil, Casa Fluminense, Centro de Estudos de Segurança e Cidadania — CESeC, Centro pela Justiça e o Direito Internacional — CEJIL, CIDADES – Núcleo de Pesquisa Urbana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Conectas Direitos Humanos, Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional — FASE RJ, Fórum Popular de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Frente Estadual pelo Desencarceramento — RJ, Gabinete Assessoria Jurídica Organizações Populares — GAJOP, Grupo Tortura Nunca Mais — RJ, Iniciativa Direito Memória e Justiça Racial, Instituto de Defensores de Direitos Humanos — DDH, Instituto de Estudos da Religião — ISER, Instituto Papo Reto do Complexo do Alemão, Instituto Sou da Paz, Instituto Terra Trabalho e Cidadania — ITTC, Justiça Global, Movimento Unidos dos Camelôs, Movimentos, Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular (NAJUP) Luiza Mahin, Núcleo de Estudos e Pesquisa Guerreiro Ramos – Negra-UFF, Observatório de Favelas, Plataforma Justa, Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, Rede Justiça Criminal, Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares — RENAP RJ, Redes da Maré.

fonte: https://www.global.org.br/blog/operacao-contencao-organizacoes-de-direitos-humanos-repudiam-operacao-mais-letal-da-historia-do-rio-e-denunciam-politica-de-guerra-nas-favelas/

Ativistas denunciam "massacre" em ação policial no Rio

Número de mortos deixa população chocada

Tâmara Freire - Repórter da Agência Brasil
Publicado em 29/10/2025 - 12:24
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção.Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil
© Tomaz Silva/Agência Brasil

Ativistas que acompanharam a retirada de mais de 60 corpos de uma área de mata no Complexo do Penha, um dia após a maior operação policial realizada no Rio de Janeiro nos últimos 15 anos, classificam o evento como uma “chacina” e um “massacre” promovidos por forças de segurança. 

O empreendedor Raull Santiago, nascido no Morro do Alemão, foi um dos primeiros a noticiar o encontro dos corpos. Ele usou transmissões ao vivo pelas suas redes sociais.

“Essa é a face da cidade maravilhosa, que é capital na América Latina quando a gente pensa em turismo. E eu amo a minha cidade, o meu estado, a minha favela, mas há esses momentos em que a desigualdade grita, o poder direciona o seu ódio e traz na prática mais brutal possível o seu recado para quem vive em comunidades como a nossa”, lamentou.

Contagem

“Infelizmente, pela minha realidade, eu já estou acostumado a ver corpos, baleados, estraçalhados. Mas, [com] isso aqui, eu nunca vou me acostumar”, disse Raull Santiago sobre o choro das mães diante dos corpos de seus filhos.


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Nessa terça-feira (28), dia da operação, 64 mortos foram confirmados, incluindo quatro policiais. No entanto, pelo menos outros 70 corpos foram retirados por moradores de áreas de mata. Seis foram localizados no Complexo do Alemão e deixados no Hospital Estadual Getúlio Vargas durante a noite, e outros 64 foram encontrados no Complexo da Penha e reunidos em uma praça da comunidade, de onde foram recolhidos posteriormente pelo Corpo de Bombeiros. 

Se não houver duplicidade nos números e se todos os corpos encontrados realmente tiverem sido vítimas da operação, o número de mortos pode passar de 130

“Tanto essas execuções, quanto os policiais que morreram, tudo isso [são] marcos históricos que gritam a ineficiência da política de segurança pública do Rio de Janeiro. Ou, pior que isso, a eficiência dela, a forma como ela é desenhada, estruturada, pensada e aplicada para lidar com algumas vidas", afirmou Santiago.

"Da favela para dentro, tiro, porrada, bomba, invasão, desrespeito, chacina, massacre. Em outros endereços, o tratamento é quase vip”, criticou. 

Responsabilização
 

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Antônio Carlos Costa, fundador da ONG Rio de Paz. Foto: antoniocarloscosta/Instagram
Antônio Carlos Costa, presidente da ONG Rio de Paz, pediu a responsabilização do governador Cláudio Castro pela tragédia. Foto: antoniocarloscosta/Instagram

O presidente da organização não governamental Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, também acompanhou a retirada dos corpos nesta manhã e pediu responsabilização do governador do estado, Cláudio Castro, pela tragédia. Ele lembrou, entretanto, que esse episódio se assemelha a muitos outros já ocorridos no estado. 

“O que há de novo nesse massacre? Apenas a sua extensão, a quantidade de mortos… O que não há de novo é essa política de segurança pública, a destruição da vida do morador de comunidade. Quando ouvimos as respostas sobre a operação, ouvimos o que foi falado há 40, 50 anos atrás", lamentou.

"As causas desse gravíssimo problema social já foram elucidadas, mas por que medidas tão óbvias não são implementadas? Porque falta vontade política. Porque quem morre são os moradores de comunidades e porque são eleitos homens que conseguem chegar aos mais altos postos com o discurso do “bandido bom é bandido morto”, completou o presidente da ONG Rio de Paz. 

O governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro, tem defendido a megaoperação. Segundo ele, a ação foi planejada ao longo de seis meses, como resultado de mais de um ano de investigações, contou com o aval do Poder Judiciário e foi acompanhada pelo Ministério Público do estado. 

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil criticaram a ação que gerou um grande impacto na capital fluminense e não atingiu o objetivo de conter o crime organizado. Para a professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF) Jacqueline Muniz, a operação foi amadora e uma “lambança político-operacional”.

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção.
Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil
Dezenas de corpos foram levados por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Federação das favelas

Movimentos populares e de favelas também condenaram as ações policiais e afirmaram que "segurança não se faz com sangue".  A Federação das Associações de Favelas do Rio de Janeiro (Faferj) divulgou nesta quarta-feira (29) uma carta pública de repúdio contra o que foi chamado de “massacre dos Complexos da Penha e do Alemão”. 

“Os relatos de horror que emergiram dessas comunidades – com cenas de guerra, execuções sumárias, violação de domicílios, impedimento de socorro a feridos e a total suspensão dos direitos mais básicos – não são incidentes isolados. São a face mais crua de uma política de segurança pública falida e genocida, que há décadas trata as favelas e seus moradores como territórios inimigos e cidadãos de segunda categoria”, diz o documento. 

A Faferj também manifestou indignação por acreditar que a vida dos moradores das favelas está sendo tratada como “dano colateral em operações que, sob o pretexto de combater o crime, semeiam terror, luto e trauma coletivo.” Diz assim que a política de segurança atual apenas “aprofundou o abismo social, naturalizou a violência de Estado e perpetuou um ciclo de morte que só interessa ao projeto de extermínio da população pobre e negra deste país.”

Além das palavras de repúdio, o documento traz também reivindicações da organização, como a “desmilitarização das abordagens policiais nas favelas” e a construção de uma nova política de segurança pública pautada pelo cuidado e pela garantia de direitos. 

Para a Federação, um “sistema que funcione” precisa contemplar também políticas de educação, com escolas em tempo integral, lazer, com a criação e manutenção de espaços de convivência e cultura. A Faferj reivindica ainda medidas de emprego e renda, como capacitação e criação de vagas formais, e de habitação, como saneamento básico, urbanização e regularização fundiária.

“Segurança se faz com presença do Estado, não com invasão. Com políticas sociais, não com políticas de morte. Com vida digna, não com luto permanente”, conclui o documento.

*Reportagem ampliada às 13h17 para acrescentar nota de repúdio da Faferj.

fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-10/ativistas-denunciam-massacre-no-rio-0

 

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A pior operação policial no Rio de Janeiro será sempre a próxima

Só um esforço nacional resolverá o caos deste RJ de corrupção permanente, sem política de segurança e com um governador fraco como Cláudio Castro, do PL.

Cecília Olliveira

Moradores enfileiraram dezenas de corpos encontrados após operação da polícia no Rio de Janeiro (Foto Ricardo Moraes/Reuters/Folhapress)
Moradores enfileiraram dezenas de corpos encontrados após operação da polícia no Rio de Janeiro (Foto Ricardo Moraes/Reuters/Folhapress)

Nessa disputa entre CV e o Terceiro Comando Puro, o TCP, a dona Marli Macedo dos Santos, de 60 anos, foi morta a tiros dentro da própria casa. Já Elisson Nascimento Vasconcelos, 33 anos, foi atingido no peito quando saía de um pagode. 

A UPA que ficou fechada por sete dias, após ter sido invadida por criminosos, reabriu na segunda-feira, 27. Mas funcionou por poucas horas e foi fechada de novo por conta do tiroteio.

Eis que, na terça-feira, 28, o dia amanheceu com uma megaoperação da polícia contra o Comando Vermelho. O objetivo seria cumprir 100 mandados. O saldo até esta quarta-feira é mais de 130 pessoas mortas, sendo quatro delas policiais, 81 presos e 93 fuzis apreendidos.

A tragédia da segurança pública no Rio de Janeiro não é isolada nem ocorre só de vez em quando. A operação que resultou em mais de 130 mortes – até o começo da tarde desta quarta-feira, 29 – é só mais um capítulo. Mas por que isso ainda se repete e nada muda?.

Primeiro, é importante dizer que a gente já vem de dias muito violentos. Só no fim de semana passado, houve muitos tiroteios na região da Tijuca, no Morro do Borel, com o Comando Vermelho, CV, invadindo um lugar chamado Casa Branca. Também houve muito tiroteio em Costa Barros.

Para fazer a apreensão dessas armas e cumprir os mandados, centenas de milhares de pessoas passaram o dia na linha de tiro. A polícia estima que há 500 fuzis na área onde ocorreu a operação – ou seja, a ofensiva não mexe com o problema. Mais de 100 linhas de ônibus não rodaram. Escolas e postos de saúde foram fechados. 

Ainda não contabilizamos todas as vítimas de balas perdidas. Uma moça foi baleada na academia e um rapaz em situação de rua, também. Quer dizer, o custo de verdade da operação jamais será medido. E vai ficar por isso mesmo. Quer apostar quanto?

Talvez você esteja pensando: ora, não tem como cumprir mandado de prisão se os criminosos atiram contra a polícia. É verdade. Também fiquei impressionada com os drones do CV jogando bombas na polícia. Agora, pensa bem: como chegamos até aqui? Como esses drones chegaram lá? E os fuzis? E a imensa quantidade de munição? O problema é muito maior.

O estado do Rio de Janeiro não tem política de segurança. Tem um governador fraco – Cláudio Castro, do PL. Tem polícias que não conversam entre si. Convive com um permanente estado de corrupção. E aí, na hora de cumprir mandados, sobra para quem? Para quem sai todo dia pra trabalhar, porque fica na linha de tiro. Para as crianças que não foram pra aula.

O governador Castro disse que foi tudo planejado: que merda de planejamento é esse que parou uma cidade do tamanho do Rio de Janeiro? Demitam logo quem fez esse planejamento porco. 

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Vou te lembrar de uma coisa: as três maiores chacinas policiais da história do estado foram no governo Castro – esse “gênio”. Foram 28 pessoas mortas no Jacarezinho, em 2021, 24 na Vila Cruzeiro, em 2022, e agora mais de 130. O que mudou com essas mortes todas?

Para acabar, preciso lembrar que o CV, assim como o PCC, é uma organização que há décadas vemos crescer . Os muitos governos federais não fizeram nada. Os muitos governadores também.

Não é culpa do PT ou do Jair Bolsonaro. O CV e o PCC são resultados de um país que decidiu empurrar o problema da segurança para debaixo do tapete por mais de 30 anos. 

E aí é muito triste, mas muito triste mesmo, ver uma operação como essa de terça-feira. São mais de 130 mortos – até agora – e não vai adiantar nada. Se matar resolvesse – e a gente mata muito –, o Brasil seria a Suíça!

‘Esse é um problema que precisa de um esforço nacional para ser resolvido’.

E não é porque a gente não sabe como resolver, não. Ou vocês já esqueceram a operação da Polícia Federal contra o PCC que deu um prejuízo enorme à facção sem dar um tiro?

Hoje, tudo está na mesma: o tráfico, a polícia, o arrego, os tiroteios, tudo estará funcionando como se nada tivesse acontecido. Por quê? Porque esse é um problema que precisa de um esforço nacional para ser resolvido. Precisa de governo federal, de governador, judiciário, parlamento e sociedade atuando juntos. 

Todos os países que deram respostas a esse problema, atuaram assim. No Brasil, isso parece impossível. E, enquanto for impossível, tenha certeza: a pior operação policial será sempre a próxima.

Você pode me perguntar: então, o que deve ser feito? Combater o crime exige outra lógica: atacar fluxos financeiros e patrimoniais, fortalecer corregedorias independentes e atacar a corrupção dentro do Estado. Sem isso, as ações apenas deslocam a violência e alimentam o ciclo de poder entre crime, política e polícia.

Pensa nisso! E se você ficou na linha de tiro ou teve que se esconder com seus filhos por conta do tiroteio, saiba que eu lamento demais. Não deveria ser assim com ninguém.

 

fonte: https://www.intercept.com.br/2025/10/29/pior-operacao-policial-rio-de-janeiro-sera-sempre-a-proxima/

 

 

candido grzybowski3

Massacre como o ocorrido no Rio de Janeiro pode ser considerado parte de política de segurança pública?

Cândico Grzybowski - 29/10/2025

 

O que aconteceu no Rio na terça-feira, dia 28 de outubro, é inaceitável em uma democracia que vale a pena ser vivida. Empreender uma “verdadeira guerra” em território bem comum de cidadania é um ato que só produz morte e nunca poderá ser considerado uma política para garantir o direito fundamental de segurança pública.

O que passa na cabeça do governador Castro? Bem, para quem até propôs um adicional para os policiais eliminar “criminoso” é revelador da afronta ao sentido mesmo de segurança pública numa democracia. Queremos direitos garantidos, mas não uma política que, sob justificativa de combate ao crime organizado, nega o devido processo legal na condenação e prefere o enfrentamento que acaba dando no que deu: muitos inocentes mortos por viver em periferia pobre, junto com criminosos que nunca poderão ser julgados por que eliminados. Aliás, se presos fossem, nossa política, que prefere o confronto, não garante a vida para quem é considerado criminoso, preso e julgado. Ao governo do Estado do Rio parece que só conta eliminar os considerados bandidos, sem se importar com os muitos inocentes que podem ser fuzilados, só por ter que sobreviver em território “de risco”.  Sr. Governador, para onde eles podem ir senão aguentar a falta de tudo que são as favelas e os tais “complexos?”. Basta e basta! Impeachment no Castro e mais oito anos de inelegibilidade!

A primeira razão de ser de uma política de segurança pública é para garantir iguais direitos a toda cidadania. Aliás, criminalizar o consumo de drogas só pode levar a situações assim. Não só matanças, mas crimes. Basta ver o que o Trump e o poderoso exército sob seu comando estão fazendo no Caribe e Pacífico. Abater simplesmente pode ser aceitável? Por que não prende e averigua? Isto vale para nós aqui, para nossas cidades. Quantos mortos ainda precisamos chorar e contar com esta política de “guerra” inútil? Até quando vamos aceitar tal agressão a um direito fundamental de segurança, individual e coletivo?

Bem, podemos divergir como cidadãos sobre a melhor política. Mas estamos realmente buscando uma verdadeira política de segurança pública em todos os níveis de governo? Concordando com muitos, considero a política de criminalização de drogas um erro e a pior forma de combater uma questão de vício e saúde, que sempre existiu e que a criminalização de seu consumo só aumento mortes e em qualquer lugar do mundo vem se mostrando ineficaz. Não seria melhor considerar o consumo de drogas como uma grave questão de saúde ao invés de usar arsenais de repressão que só estimulam mais e mais o próprio tráfico e seu investimento em armamento com armas letais e até bombas jogadas por drones, como noticiado e visto no caso de terça-feira, no Rio? A Suíça, centro financeiro mundial e até de lavagem de dinheiro do crime organizado – pouco criminalizado neste mundo globalizado – na questão das drogas tem uma política de saúde antes e acima da repressão. Vamos só imitar a lavagem de dinheiro e não os bons exemplos de políticas de cuidado com drogados da Suiça? É uma contradição, eu sei, mas vale a pena lembrar que boas políticas públicas sempre ficam atrás de mercados. Aliás, os traficantes são antes de tudo uma questão de mercado, de bom negócio e sua “ditadura”.

Bem, temos o imediato a tratar e encontrar formas de evitar que volte amanhã a acontecer: uma “guerra interna”, bem ao gosto de ditaduras repressivas e assassinas. Na verdade, simplesmente nada dá para esperar do Governo Estadual que temos, com grande conivência da própria Assembleia Estadual e um Judiciário... que deve muito, fazendo pouco para o que pode fazer. Afinal, é a institucionalidade do Estado do Rio que está em questão.

O que agrava tudo é constatar que os Governos Estadual e os Municipais não criam prioritariamente “virtudes” com suas políticas pois “deixam ao léu” as áreas periféricas e faveladas. Como lembrou-me minha filha, que trabalha na Barra mas mora em Santa Tereza,  sobre o verdadeiro terror e paralização da cidade do Rio: “A Zona Sul é outra cidade e outro Estado, não o Rio”. Precisamos de muito mais cidadãs e cidadãos do Rio que vejam assim os contrastes de um território comum com muralhas, cuidando a cidadania de “ricos” e promovendo a repressão/guerra aos pobres”. Isto não pode ser considerado como democracia efetiva.

A política de Segurança Pública que a democracia e a diversidade para ser cidadania necessitam nunca poderá ter como base a possibilidade de usar prioritariamente a repressão e a violência armada, ao invés de ser uma ação assentada na prevenção da violência.  O que aconteceu na terça-feira no Rio foi uma guerra interna do Estado contra a cidadania. Os inocentes assassinados não são simplesmente “mortes colaterais” em zona de crime. Se é “zona do crime”, foi o Estado negligente que permitiu se formar aí, exatamente nas periferias pobres e excluídas, longe do olhar do Estado e, no caso do Rio, da glamorosa “Zona Sul”. Temos uma cidade partida e políticas públicas partidas. O ocorrido mostra ação estatal desastrosa e até criminosa. “Balas perdidas” não existem, pois sempre são intencionais e dirigidas. Estamos diante de ação estatal que é um desastre, tanto na concepção como na execução. Inadmissível em democracia, que, aliás, só floresce desde o chão da sociedade, desde os territórios que habitamos e onde buscamos viver tendo por princípio o cuidado, cuidado com todas e todos e cuidado com a própria integridade dos territórios. “Favelas são cidades” e não zonas de crime!

Sei que esperar no imediato algo virtuoso em termos de políticas públicas no Rio é quase perder tempo e mergulhar no desespero. Mas culpar o Governo Federal é ignorar que a Política de Segurança, como vem sendo pensada e proposta,  precisa passar pela institucionalidade existe. Ou seja, depende de aprovação do Congresso, dominado pelo execrável “Centrão” – uma espécie de câncer implantado em nossa democracia institucionalizada, com suas virtudes e limites. No Congresso não predomina a busca do bem público possível. Antes disto, predominam os interesses paroquiais de “lobbies” e do tal “Centrão”, mais preocupado em emendas parlamentares para seus redutos eleitorais do que com a democracia e a busca do bem comum e de direitos iguais na nossa diversidade.

Finalizo afirmando que não teremos saída se a Segurança Pública não for pensada e formulada como base em direitos iguais. Mais, não avançaremos se nós, a diversidade de cidadanias ativas neste nosso imenso país, não tivermos um foco especial em tal política pública. Este nosso Brasil de múltiplas exclusões  e até “guerras internas” depende da nossa ação, como cidadanias ativas na praça pública e apontando caminhos para mudanças profundas, entre elas na Segurança Pública.  Não podemos esperar por milagres em políticas! Ou nós agimos, pois somos a base de políticas, ou nada acontecerá.

Rio de Janeiro, 29.10.2025

Cândido Grzybowski

fonte: https://sentidoserumos.blogspot.com/