Um crime brutal assustou a comunidade indígena do Povo Avá-Guarani na região de Guaíra, no oeste do Paraná. No último sábado, um jovem indígena de 21 anos foi assassinato e decapitado, tendo seu corpo abandonado em um milharal na entrada da aldeia onde morava, na Terra Indígena Guasu Guavirá. Ao lado da cabeça, foi encontrada uma carta com ameaças às famílias indígenas que lutam pelo Direito às suas Terras Ancestrais.
A reportagem é publicada por ClimaInfo, 16-07-2025.
Everton Lopes Rodrigues era filho do cacique Bernardo Rodrigues Diegro da aldeia Tekoha Yvyju Awary. As circunstâncias do homicídio estão sendo apuradas pela Polícia Civil do Paraná e pela Polícia Federal. A carta deixada ao lado do corpo traz ameaças não só aos indígenas Avá-Guarani, mas também ao efetivo da Força Nacional de Segurança Pública, que está na região desde o ano passado.
Carta de ameaça encontrada ao lado do corpo do indígena Everton Lopes Rodrigues (Foto: Divulgação)
“Se vocês não desocupar [sic] as terras recém invadidas, nós vamos matar mais de vocês, iremos invadir as aldeias já existentes, atacaremos os ônibus com vossas crianças dentro, queimaremos vivos. Não é uma ameaça vazia, mas, sim, recheada de ódio”, diz o documento assinado pelo Bonde 06 do N.C.S.O.. Segundo o Brasil de Fato, a carta reproduz discursos veiculados pelo agronegócio e pela imprensa regional, referindo-se aos indígenas como “paraguaios” e vinculando-os a facções criminosas.
A carta reivindica a autoria de outro homicídio brutal, o do indígena Marcelo Ortiz, de 33 anos, também decapitado e encontrado em março passado em uma estrada rural de Guaíra. Na época, a PF prendeu três indígenas, suspeitos de terem cometido o crime, que teria sido motivado por “um sério desentendimento” com a vítima. “Tivemos que repetir a cena porque da outra vez não conseguimos deixar o recado. Marcelo foi morto por nós”, diz o texto.
Como o g1 explicou, a região da TI Guasu Guavirá é palco de um conflito de décadas por demarcação de território no oeste paranaense, mas que se intensificou no ano passado. Comunidades indígenas reivindicam a demarcação de novas áreas desde a construção da usina hidrelétrica de Itaipu, quando diversas áreas rurais foram alagadas. Muitas das terras ocupadas atualmente por indígenas não passaram por processo formal de regularização fundiária.
Agência Brasil, Brasil 247 e CBN Curitiba, entre outros, também repercutiram a notícia.
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Órgãos de Direitos Humanos se manifestam sobre assassinato bruta de jovem Avá-Guarani no Oeste do Paraná
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) e o Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos (CBDDH) se manifestam sobre assassinato brutal de jovem Avá-Guarani no município de Guaíra, oeste do Paraná (PR). A vítima é Everton Lopes Rodrigues, filho do cacique Bernardo da Tekoha Yvyju Awary, Terra Indígena (TI) Guasu Guavirá.
A informação é publicada por Cimi, 16-07-2025.
Conforme relatos, o corpo foi encontrado no último sábado (12), decapitado e abandonado em um milharal na entrada do tekoha. “O fato é acrescido de um bilhete encontrado junto ao corpo, onde constam ameaças à toda comunidade indígena da região, violando expressamente os direitos humanos inerentes à pessoa humana, bem como, àqueles reservados constitucionalmente aos povos originários”, destacou o CNDH, em nota de repúdio publicada no domingo (13).
O fato é acrescido de um bilhete encontrado junto ao corpo, onde constam ameaças à toda comunidade indígena da região.
“As comunidades indígenas do Oeste do Paraná enfrentam, diariamente, desafios vinculados à própria sobrevivência, seja por meio de ameaça direta à vida ou por ações que, indiretamente, inviabilizam suas condições de existência humana, decorrente da luta pelo território”, completa o Conselho no documento.
Em maio deste ano, o CNDH e Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos (CBDDH), articulação política composta por 45 organizações da sociedade civil, estiveram em Missão Especial in loco ao território Avá-Guarani e atestaram a condição de vulnerabilidade social, negação de direitos, discurso de ódio e racismo contra indígenas devido à tensão dos conflitos de terra nas áreas de retomada dos municípios de Guaíra e Terra Roxa (PR).
Carta de ameaça encontrada ao lado do corpo do indígena Everton Lopes Rodrigues (Foto: Divulgação)
Em nota publicada no domingo (12), o Comitê revelou que a “a aldeia Tekoha Yvyju Awary está localizada na Terra Indígena Guasu Guavirá que está sobreposta por 165 fazendas”. Para o CBDDH, “a demarcação das terras dos Avá-Guarani é um tema central para a garantia do acesso a todos os demais direitos e esta é uma questão estrutural”.
As comunidades indígenas do Oeste do Paraná enfrentam, diariamente, desafios vinculados à própria sobrevivência
TweetPor sua vez, em nota à imprensa divulgada no sábado (12), o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) manifestou “profunda preocupação com o bárbaro assassinato” e reiterou seu compromisso em “defender a vida, a dignidade e os direitos dos povos indígenas, certos de que nenhuma ameaça silenciará a luta ancestral por justiça e território”.
No documento, o MDHC também informou que acompanha o caso desde as primeiras horas por meio do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH), em articulação com autoridades locais e federais, “a fim de assegurar a proteção das lideranças e das comunidades ameaçadas, bem como acompanhar as investigações para que este crime não permaneça impune”.
A aldeia Tekoha Yvyju Awary está localizada na Terra Indígena Guasu Guavirá que está sobreposta por 165 fazendas
TweetSegundo o Ministério, no Paraná, “o PPDDH acompanha 19 lideranças Avá-Guarani.”
Este não foi o primeiro caso em que um indígena é decapitado e exposto no Oeste do Paraná.
Além das manifestações de solidariedade, os três Órgãos cobram a investigação deste e dos demais crimes perpetrados contra o povo Avá-Guarani e responsabilização dos violadores. Também cobram agilidade na efetivação do acordo firmado entre os Avá-Guarani do Oeste do Paraná e Itaipu Binacional, a Fundação Nacional do Índio (Funai), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e Ministério de Povos Indígenas.
Este não foi o primeiro caso em que um indígena é decapitado e exposto no Oeste do Paraná. No dia 22 de março deste ano, outro indígena Avá-Guarani foi encontrado morto e decapitado em uma estrada rural na cidade de Guaíra. Segundo relatos dos indígenas, que não foram identificados à época do crime, o corpo de Marcelo Ortiz, que atendia pelo apelido de Ku’i e morava no Tekoha Jevy, foi jogado na vegetação e a cabeça foi pendurada em uma estaca feita de galho de mamona.
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