O serviço era prestado pelo Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, mas foi interrompido por mais de dois anos

10.out.2025 às 17h35
 São Paulo (SP)
 Caroline Oliveira - Brasil de Fato

Nunes disse que a paralisação da oferta do serviço era temporária, mas ocorre desde 2023 - Caroline Oliveira/Brasil de Fato

 

O Tribunal de Justiça de São Paulo condenou o município da capital paulista a pagar uma multa no valor de R$ 24,8 milhões por não oferecer o acesso ao aborto legal para mulheres vítimas de estupros em gestações acima de 22 semanas.

serviço era prestado pelo Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte da capital, considerado referência na área e um dos poucos no estado de São Paulo a atender casos complexos. Em dezembro de 2023, no entanto, o serviço foi interrompido pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB). 

Mara Lucia da Silva, articuladora da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, classificou a condenação como uma “vitória para as mulheres”.

“O aborto seguro é uma obrigação do Estado, já que falha na proteção dessas mulheres. É uma forma de resgate da dignidade da vítima, que fatalmente terá traumas físicos e psicológicos devido à violência sofrida que necessita de um atendimento adequado e humanizado”, diz Silva ao ressaltar a violência contra as mulheres negras, que “historicamente tem menos acesso à proteção e aos cuidados com a saúde”.

“O acesso ao aborto seguro é um direito à saúde, à autonomia corporal, reduz complicações de saúde física e mental e reduz a mortalidade das mulheres que num momento de desespero recorrem a qualquer método abortivo”, diz. “Esse é um serviço que deveria inclusive ser ampliado em respeito aos direitos humanos.”

Para a coordenadora estadual da Marcha Mundial das Mulheres, Maria Fernanda Marcelino, a condenação é “importante, ainda que tardia”. “Já se passaram dois anos desde que esse serviço tão essencial foi fechado com desculpas falaciosas. O prefeito de São Paulo desrespeita as mulheres, as meninas, o poder judiciário, os direitos humanos, o ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente]. Num momento de agravamento da violência contra as mulheres e meninas e aumento de estupros no estado e cidade de São Paulo”, afirmou.

“O município deveria ser obrigado a abrir serviços de aborto legal em todos os hospitais públicos e conveniados com o SUS”, completou.

Dados do da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo mostram que o registro de estupros aumentou em 28% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2024, saindo de 641 para 822, sendo 815 somente na capital. O número representa cerca de nove estupros por dia na Região Metropolitana de São Paulo. 

A condenação

Quando o serviço passou a não mais ser oferecido pelo Hospital Vila Nova Cachoeirinha, a gestão de Ricardo Nunes argumentou que a interrupção seria temporária e para viabilizar a realização de cirurgias eletivas e procedimentos voltados à saúde da mulher. Porém, o acesso aborto legal na unidade nunca foi retomado, mesmo após determinação judicial, bem como não houve o encaminhamento das vítimas para outros hospitais.

A multa estabelecida pela Justiça equivale a R$ 50 mil por dia sobre o período em que Nunes descumpriu a decisão judicial, 497 dias, entre 22 de janeiro de 2024 e 2 de junho de 2025. “O valor da multa diária é compatível com a gravidade da situação, tem como finalidade garantir a efetividade da jurisdição e a proteção dos direitos fundamentais”, afirma a juíza Simone Gomes Rodrigues Casoretti, da 9ª Vara da Fazenda Pública.

O montante deve ser destinado ao Fundo Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente “para desenvolver projetos específicos voltados a crianças e adolescentes vítimas de estupro e à garantia do acesso ao aborto legal”.

Para Casoretti, a prefeitura teve uma “conduta omissiva” e de “desobediência institucional reiterada com nítido desprezo pelos direitos fundamentais como a saúde e a dignidade das mulheres vítimas de violência sexual”. A decisão é decorrente de uma ação apresentada pela deputada federal Luciene Cavalcante, pelo deputado estadual Carlos Giannazi e pelo vereador Celso Giannazi, todos do Psol.

Antes da decisão, a Prefeitura de São Paulo alegou nos autos do processo que a multa era excessiva e que não teve direito à ampla defesa, por falta de identificação completa das pacientes que tiveram atendimento negado. A juíza rejeitou os argumentos, afirmando que os documentos apresentados por parlamentares e pela Defensoria Pública continham informações suficientes para apurar as denúncias.

“Deveria o município, que detém o monopólio dos registros de atendimento, ter feito uma verificação em seus próprios registros com base nas datas e unidades informadas e comprovado, com dados concretos, que os procedimentos foram efetivamente realizados ou reagendados”, afirma a juíza na decisão. “Sua insistência em descumprir a ordem judicial não pode ser justificada pela falta de dados que ele próprio tem o dever legal e constitucional de proteger.”

De acordo com o Ministério Público, que foi favorável à condenação, oito vítimas de violência sexual que procuraram o hospital tiveram o acesso ao aborto legal negado. “Restou comprovado nos autos principais que, diante da recusa de atendimento, as pacientes foram atendidas pelo Hospital São Paulo, conveniado à Unifesp, ou Hospital das Clínicas, que é estadual, ou tiveram que se deslocar para outros estados da federação para terem exercido seu direito ao serviço aborto legal”, afirmou o promotor de Justiça Arthur Pinto Filho no parecer favorável.

Outro lado

Em nota, a Prefeitura afirmou que irá recorrer da decisão e que “entende que as decisões técnicas feitas por médicos e profissionais da saúde devem prevalecer sobre questões ideológicas”.

“A Secretaria Municipal da Saúde reitera que o atendimento para aborto legal é realizado na cidade em quatro hospitais municipais: Cármino Caricchio (Tatuapé), Fernando Mauro Pires da Rocha (Campo Limpo), Tide Setúbal (São Miguel Paulista) e Mário Degni (Jardim Sarah)”, informou o comunicado.

fonte: https://www.brasildefato.com.br/2025/10/10/feministas-celebram-condenacao-de-gestao-nunes-sp-por-nao-oferecer-acesso-ao-aborto-legal/