Iniciativa reúne mulheres do campo e da cidade em processo de formação, organização coletiva e construção de alternativa econômica baseada na sustentação da vida.

Cfemea 24 de abril de 2026
Fotografias de Maria Galdino

 

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Um ato político-cultural potente marcou a formatura das mulheres acampadas e assentadas do Distrito Federal e Entorno que participaram do Laboratório Organizacional Feminista para Sustentação da Vida e o início da construção da COOFESUS - Cooperativa Feminista para a Sustentabilidade voltada à economia solidária, ao fortalecimento do feminismo no campo, à autonomia das mulheres, a estratégias de autocuidado e ao fortalecimento de redes de cuidado. O evento, realizado em 14 de abril no Armazém do Campo em Brasília, reuniu mulheres do campo e da cidade em um momento simbólico de celebração, articulação e compromisso com a construção de novas formas de viver e produzir coletivamente. 

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Realizado pelo CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria), em parceria com o MST (Movimento das Trabalhadoras e dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) da região RIDE/DF, GO e MG, o Laboratório teve como objetivo fortalecer a organização de base das mulheres, articulando formação política feminista, práticas de cooperação, cuidado coletivo e estratégias concretas de sustentação da vida.

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Mais do que um processo formativo, o laboratório se consolidou como um espaço de transformação pessoal e coletiva. Ao longo da jornada, as participantes construíram conhecimentos a partir de suas próprias realidades, fortalecendo vínculos, redes de apoio e a compreensão de si mesmas como sujeitas políticas capazes de intervir e transformar seus territórios.

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A formatura representou um rito de passagem, não apenas de conclusão de um ciclo, mas de afirmação de um projeto coletivo. Em meio a falas emocionadas, rituais simbólicos e momentos de partilha, as mulheres celebraram suas trajetórias e reafirmaram o compromisso com a continuidade da organização.

É nesse contexto que se consolida a criação da COOFESUS, uma cooperativa feminista que vem surgindo como desdobramento direto do processo formativo. A iniciativa busca criar alternativas concretas de geração de renda, autonomia econômica, luta contra as violências e fortalecimento de redes solidárias, colocando no centro a lógica da economia feminista e da sustentação da vida em contraposição aos modelos tradicionais baseados na exploração, na hierarquia e na desigualdade.

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O ato político-cultural que marcou esse momento reuniu expressões artísticas, performances, manifestações simbólicas e falas políticas, reafirmando a cultura como ferramenta fundamental de resistência e construção de sentidos. Corpos, vozes e territórios se encontraram em uma experiência que integrou arte e luta, emoção e estratégia.

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O ato contou com a presença de diversas autoridades e representantes de organizações sociais e institucionais, evidenciando a amplitude e a relevância política da iniciativa. Estiveram presentes Sueli Oliveira, do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS); Ceres Hadich e Iracilda Rodrigues, da direção nacional do MST; Romi Bencke, da Comissão Brasileira Justiça e Paz e da Plataforma dos Movimentos Sociais por Outro Sistema Político; Rosilene Corrêa, da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE); representantes de Conselhos Tutelares e de assentamentos e acampamentos do MST do Distrito Federal, Comuna Panteras Negras; Associação Brasileira de Enfermagem Seção Distrito Federal (Aben-DF); representantes dos partidos PT, PCdoB e PSOL; Cosette Castro, do coletivo Filhas da Mãe; Isabel Silva, da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (ANATER); ex-deputada Maninha (PSOL), representantes de deputados distritais; a deputada federal Erika Kokay; representantes da Assessoria de Participação Social e Diversidade (ASPAD) do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC); do Ministério das Mulheres, de representantes da AGSUS, a direção colegiada do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), inegrantes da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC); da União de Negras e Negros pela Igualdade (UNEGRO); do Levante Feminista contra o Lesbo-Transfeminicídio; a comunicadora Mara Régia Di Perna, criadora do Programa Viva Maria na Rádio Nacional (EBC); além da equipe de pesquisa do Colaboratório com Elas contra o Feminicídio coordenado pela Fiocruz Brasília. O evento foi encerrado em clima de celebração e ancestralidade com a presença da Mestra Martinha do Coco, reafirmando a força da cultura popular como expressão viva da luta e da resistência das mulheres. 

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Para Hellen Frida, educadora popular e integrante do CFEMEA, o processo revela a potência das pedagogias feministas de base. 

“Estamos falando de mulheres que se reconhecem como sujeitas políticas e constroem, coletivamente, caminhos concretos de transformação. A COOFESUS nasce desse chão: da organização, da confiança e da decisão de sustentar a vida juntas.”

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Participantes do laboratório também destacaram os impactos da experiência em suas vidas. Entre os relatos, emergem transformações profundas relacionadas à autoestima, à autonomia e à força coletiva. “A gente não sai daqui a mesma. A gente sai mais forte, mais consciente e com outras mulheres ao nosso lado”, relatou uma das formandas.

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Esse foi o compromisso coletivo que as mulheres do laboratório escreveram para compor a mística do ato:

"Comprometo-me a atuar
com base na cooperação feminista,
valorizando a força
da coletividade,
a partilha do saber
e a construção
de relações justas
e igualitárias.

Utilizarei o conhecimento
com responsabilidade técnica e humana,
sob a ótica
da Pedagogia Feminista.

Prometo zelar
pela sustentação da vida,
entendo meu aprendizado
como uma ferramenta de cuidado,
promovendo transformação ecosocial.

Agirei com integridade,
solidariedadev e justiça ecosocial,
honrando os princípios
que nos guiamv e contribuindo
para um mundo 
de bem viver,
agroecológico e sustentável,
seguro e humano,
prezando pela horizontalidade,
o autocuidado
e o cuidado coletivo."

A iniciativa ganha ainda mais relevância diante do atual contexto de crise social e econômica, no qual mulheres, especialmente das periferias e do campo, são diretamente impactadas pelas desigualdades e pela violência. Nesse cenário, a organização coletiva e a construção de alternativas econômicas solidárias se colocam como caminhos fundamentais. 

Como próximos passos, o grupo pretende avançar na consolidação da COOFESUS, ampliar as redes de cooperação e dar continuidade aos processos formativos, fortalecendo a autonomia das mulheres e a incidência política nos territórios.

Entre cantos, abraços e palavras de luta, o que se inaugurou no ato foi um projeto de futuro - construído pelas mãos de mulheres que decidiram, juntas, sustentar a vida. 

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O Laboratório Organizacional Feminista para a Sustentação da Vida começou a ser organizado em maio de 2025, quando o Cfemea e o MST realizaram sua primeira reunião plenária de articulação. A parceria já existia há anos e a proposta do Laboratório foi apresentada e discutida no MST no mês de abril. A partir dessa reunião coletiva, organizou-se uma coordenação do Laboratório, que contou inicialmente com três representantes da direção do MST e parte da equipe autogestionária do Cfemea. No decorrer do processo, o MST passou a ser representado por duas companheiras, dirigentes de setores do DF. Esse processo foi longo, pois não foi simplesmente um processo de organização de um evento. Desde o início o Cfemea batia na tecla de que “o Laboratório não é um curso”, que virou um mantra sempre repetido. E não é mesmo. O ano de 2025 foi um período de muito aprendizado coletivo e entrosamento entre MST e Cfemea. O Laboratório estava previsto para iniciar em outubro, mas acabou sendo adiado, para que pudesse ser realizada uma jornada de autocuidado e cuidado coletivo e uma série de encontros nos assentamentos do DF e no Acampamento Keno, em Água Fria, Goiás.

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No dia 2 de fevereiro, sob o simbolismo forte de Iemanjá, teve início a primeira etapa presencial. Durante o mês de março foi realizada a etapa comunitária, em cada território, com atividades presenciais e coletivas nos acampamentos e assentamentos. E, em abril, mais 10 dias de atividades presenciais, realizadas no Centro de Educação Popular e Agroecologia Gabriela Monteiro, em Brazlândia-DF.

Agora, entre maio e novembro, será realizada a etapa “pós-laboratório”, quando as mulheres realizarão várias atividades formativas voltadas à construção da Cooperativa Feminista para a Sustentabilidade (Coofesus) e ações para o fortalecimento de seus laços comuns. E, com isso, todas vamos entendendo que não se trata de um curso, mas sim de um processo formativo que transforma as consciências, a cultura e a compreensão de mundo, visando a transformação, a libertação das violências e a autonomia das mulheres, em um caminhar comum, conjunto, solidário e feminista.

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