OutrasPalavras

Publicado 10/12/2025 às 17:04


Gaza. Conflito Oriente Médio. Bombardeio e fila para comida — Foto: MOHAMMED ABED

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A recente publicação do relatório “Situação Mundial das Crianças – 2025”, realizada pelo Unicef[1], colocou em evidência uma questão fundamental para a nossa época: “a pobreza envenena a infância e, portanto, nosso futuro comum”. Distanciando-se da possibilidade de pensar a questão somente em termos de escassez de recursos materiais, o relatório atribui visibilidade a questões de saúde, de desenvolvimento humano e de aprendizagem. Em países mais pobres, são 417 milhões de crianças que encontram severas privações em suas existências, situação que adquire maior complexidade com as mudanças demográficas, a crise climática ou mesmo o uso das novas tecnologias. De forma objetiva, o relatório informa que 4 de cada 5 crianças enfrenta os desafios da crise climática, por exemplo.

O documento parte do princípio de que precisamos mobilizar nossos esforços para construir um “futuro melhor”, engendrando iniciativas para compreender e intervir em cenários de pobreza multidimensional. A pobreza torna vulnerável a garantia dos direitos da infância e leva-nos a refletir sobre que vida digna é possível de ser construída com menos de 3 dólares por dia. De acordo com o informe da Unicef, as crianças e os adolescentes têm “o dobro de probabilidades que os adultos de viverem na pobreza extrema”, acrescentando-se também uma repercussão em seu bem-estar, em suas oportunidades de desenvolvimento e nas variadas privações graves.

Com relação às privações graves, o documento permite-nos elencar diversos componentes da pobreza, como a nutrição, a moradia, a água, o saneamento, a educação e a saúde. Pensar a pobreza em sua multidimensionalidade permite ainda um olhar atento às diferenças de faixa etária, de contexto socioeconômico, de raça e gênero, de pessoas com deficiência e também migrações e populações em deslocamento. O documento da Unicef desafia os Estados a posicionar o enfrentamento da pobreza na infância e na adolescência como um imperativo fundamental, seja pela via das políticas econômicas e fiscais, seja pelo caminho das garantias de proteção social e serviços públicos de qualidade.

Entretanto, para a continuidade argumentativa deste texto, precisamos deslocar o olhar para um conceito fundamental no âmbito das políticas de infância e adolescência: a dignidade. Com Marta Nussbaum, compreendemos que existem muitas modalidades de expressão da dignidade e que cada uma delas, de modo distinto, merece nossa consideração e reclama um tratamento justo. Porém, vale a pena destacar um argumento ampliado que emerge da tessitura do texto da filósofa: para garantir o respeito dos outros não precisamos ser produtivos, nem mesmo manifestar nossa racionalidade para que a dignidade seja garantida.

Não somos obrigados a ser produtivos para ganharmos o respeito dos outros. Temos o direito ao respeito em função da dignidade mesma de nossas necessidades humanas. A sociedade se une em função de um amplo campo de afetos e compromissos, somente alguns dos quais dizem respeito à produtividade. A produtividade é necessária, e mesmo boa, mas não é um fim principal da vida social (Nussbaum, 2014, p. 197).

Construir políticas destinadas a crianças e adolescentes, com foco em sua dignidade, ultrapassa lógicas racionalistas e produtivistas. Queremos afirmar que a garantia da proteção social e o atendimento das necessidades humanas é uma questão de dignidade. Essa questão leva-nos a considerar o recente diálogo entre o filósofo Michael Sandel e o economista Thomas Piketty (2025) em que propõem uma retomada da dignidade enquanto um conceito fundamental para o pensamento progressista. Ainda que pareça uma solução universalista, o futuro da esquerda – na percepção dos autores – passaria por uma reconsideração da possibilidade política da igualdade, entendida não somente no âmbito da redistribuição de renda, mas também na reelaboração subjetiva da dignidade.

Quando escolhemos iniciar este texto recuperando aspectos do relatório “Situação Mundial das Crianças – 2025”, publicado pela Unicef, nossa intenção estava em resgatar no debate progressista uma agenda fundamental: a questão da dignidade. Notadamente no âmbito das políticas de infância e adolescência, o contemporâneo demanda novos conceitos ou mesmo uma releitura de elaborações clássicas, como a dignidade. A possibilidade de redescrever a sociedade em função de afetos e compromissos compartilhados, tal como aprendemos com Nussbaum, instaura o compromisso com novos agenciamentos políticos. Caso a esquerda contemporânea ainda aposte na igualdade como fundamento, precisamos defender políticas orientadas, simultaneamente, para a redistribuição econômica e a reelaboração subjetiva da dignidade. Este parece ser um caminho promissor e incontornável para as políticas com foco em crianças e adolescentes!

Referências:


NUSSBAUM, Martha. Fronteiras da justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

PIKETTY, Thomas; SANDEL, Michael. Igualdade: significado e importância. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2025.

Nota


[1] Disponível em: https://www.unicef.org/reports/state-of-worlds-children/2025

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A desigualdade mundial está aumentando: 10% da população detém 75% da riqueza

IHU - Instituto Humanitas Unisinos

O relatório mais recente do Laboratório Mundial da Desigualdade revela uma disparidade crescente, agravada pelas mudanças climáticas e com uma “persistente desigualdade de gênero”.

A reportagem é de Raquel Villaécija, publicada por El País, 10-12-2025.

Os 10% mais ricos da população mundial detêm 75% da riqueza global e recebem 53% da renda total. Essa é apenas uma das conclusões do relatório do Laboratório Mundial da Desigualdade sobre a desigualdade global, que revela um crescente abismo na distribuição de riqueza em todo o mundo.

O estudo, que envolveu 200 pesquisadores e foi liderado pelos economistas Ricardo Gómez CarreraThomas PikettyLucas Chancel e Rowaida Moshrif, oferece uma visão abrangente das desigualdades globais, levando em consideração não apenas as disparidades de renda e riqueza, mas também outros fatores de influência, como clima e gênero. Esta é a terceira edição do relatório, após as de 2018 e 2022.

“As desigualdades afetam todas as áreas da vida econômica e social. Os dados revelam uma concentração extrema de riqueza em uma pequena parcela da população”, resumiu o economista mexicano Ricardo Gómez Carrera durante a apresentação do estudo.

Os ricos estão ficando mais ricos e os pobres, mais pobres. Hoje, os 0,001% mais ricos da população mundial — menos de 60 mil bilionários — controlam três vezes mais riqueza do que metade da humanidade. A riqueza dessa minoria cresceu, em média, 8% ao ano desde a década de 1990. Essa tendência "continuou a aumentar, evidenciando a persistência da desigualdade", indica a pesquisa.

Ele destaca dois elementos que contribuem para o aumento dessa disparidade: as mudanças climáticas e a desigualdade de gênero. “Tentamos ressaltar que existem outras formas de desigualdade, como as entre homens e mulheres ou as ligadas ao clima, que são problemas persistentes que as sociedades não têm enfrentado de frente”, aponta Lucas Chancel.

Em relação às mudanças climáticas, o documento revela que as contribuições para combater seus efeitos são extremamente desiguais, especialmente considerando que os 10% mais ricos do mundo são responsáveis ​​por 77% das emissões globais. "São eles que melhor conseguem se proteger de desastres naturais", afirmam os economistas. Apenas 3% das emissões provêm dos pobres, "justamente aqueles mais expostos às catástrofes climáticas" e menos preparados para enfrentá-las. "A desigualdade social global e a questão climática não podem ser separadas. Esses níveis de análise devem ser integrados para encontrarmos soluções", declara Thomas Piketty.

disparidade salarial entre gêneros é outra questão crucial, visto que as mulheres realizam a maior parte do trabalho não remunerado. Essas horas extras não valorizadas foram levadas em consideração na elaboração das conclusões. As mulheres recebem um quarto da renda total gerada pelo trabalho, "um número que não mudou desde 1990", observa o estudo.

Se o trabalho não remunerado for levado em consideração, as mulheres ganham 32% do salário por hora dos homens. Se o trabalho doméstico for excluído, seus rendimentos chegariam a 61% dos salários dos homens. Esses números "revelam não apenas a persistente discriminação, mas também ineficiências na forma como as sociedades valorizam e distribuem o trabalho", observam os autores.

“Isso limita as oportunidades de emprego para as mulheres, restringindo sua participação na vida política”, por exemplo. “Não se trata apenas de igualdade, mas de ineficiência estrutural. Economias que desvalorizam o trabalho de metade da população comprometem sua própria capacidade de crescimento e resiliência”, indica o estudo.

Segundo Ricardo Gómez Carrera, “embora alguns progressos tenham sido feitos na Europa e nas Américas, muitas regiões ainda estão longe de alcançar a igualdade”. Regionalmente, os países mais ricos — como a Europa, o Japão, a China e os Estados Unidos — apresentam menor desigualdade nesse aspecto. A disparidade aumenta na África, no Oriente Médio e na América Latina.

“O que precisamos são ações políticas para reduzir essas desigualdades. Se focarmos nos governos e nas políticas de redistribuição, elas podem ser reduzidas”, afirma Carrera. O economista francês Thomas Piketty insiste que “investimentos mais inclusivos em educação e saúde” podem reduzir essa disparidade.

O acesso ao capital humano continua extremamente desigual, como demonstra o fato de que o gasto médio com educação por criança na África Subsaariana é de € 200, em comparação com € 7.400 na Europa ou € 9.000 na América do Norte. Essa disparidade “condiciona as chances de sucesso das futuras gerações”.

Diante dessa situação, a organização apela à cooperação global para alcançar uma tributação progressiva. “Essas desigualdades atingirão níveis que exigem atenção urgente até 2025. Apenas uma minoria se beneficia das vantagens da globalização e do crescimento econômico, enquanto o restante luta para ter acesso a itens de primeira necessidade. As desigualdades são extremas e persistentes.”

Eles acreditam que os governos podem corrigir a situação com medidas concretas e apoiam propostas como um imposto mínimo sobre a riqueza dos bilionários, o que demonstra a quantidade de receita que poderia ser mobilizada para financiar a educação ou combater as mudanças climáticas. Como Lucas Chancel destaca, "é uma questão de escolhas políticas".

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fonte: https://ihu.unisinos.br/661112-a-desigualdade-mundial-esta-aumentando-10-da-populacao-detem-75-da-riqueza

 

Juventudes periféricas do DF vivem com até R$ 17 por habitante, mostra nota técnica do Inesc

10/12/2025, às 13:17 | INESC - Instituto de Estudos Sócioeconomicos
Regiões com maior concentração de jovens recebem os menores investimentos públicos no DF

Foto: Junior Bazek

Uma nova nota técnica do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) revela um cenário alarmante: as Administrações Regionais do Distrito Federal com mais crianças, adolescentes e jovens são justamente as que menos recebem orçamento público per capita.

O caso mais crítico é o Sol Nascente/Pôr do Sol, terceira região com maior proporção de população jovem. Em 2025, a área recebeu apenas R$ 17,75 por habitante, o menor valor de todo o Distrito Federal. A falta de infraestrutura básica — como creches, ruas asfaltadas e áreas arborizadas — é uma consequência direta desse cenário. Itapoã e Estrutural, por exemplo, não possuem nenhuma creche pública em funcionamento.

>>> Baixe a Nota Técnica: À margem do orçamento: juventudes periféricas e a distribuição desigual de recursos no DF

Desigualdade orçamentária penaliza juventudes periféricas

A comparação entre as regiões evidencia uma disparidade estrutural. Alguns dados chamam a atenção:

  • Recurso autorizado em 2025 para o Plano Piloto foi 7,5 vezes maior que o autorizado para o Sol Nascente/Pôr do Sol.
  • Investimento por morador no Lago Sul é 13 vezes maior que na região periférica de Sol Nascente/Pôr do Sol e 3 vezes maior que a do Itapoã.
  • A Administração Regional de Ceilândia tem R$ 15,6 milhões em orçamento, mas investimento por morador é de apenas R$ 54.
  • Com menos de 40% das vias arborizadas, Estrutural registra uma das  piores taxas de arborização do DF.
  • Itapoã e Estrutural não têm nenhuma creche pública em funcionamento no DF.
  • Com menos de R$ 30 por habitante, Administração Regional de Arapoanga enfrenta forte escassez de investimentos públicos no DF.

Obras prometidas não saíram do papel

Apesar de constarem no orçamento de 2025, nenhuma das obras essenciais previstas para Itapoã e Estrutural foi executada, incluindo o Centro de Educação da Primeira Infância (CEPI) no Itapoã, com R$ 445 mil autorizados; o CEPI na Estrutural, com R$ 99 mil autorizados, e a Escola de ensino médio na Estrutural, com R$ 2,9 milhões autorizados

Na prática, as duas regiões seguem sem creches públicas e com estrutura educacional insuficiente.

Já nas regiões centrais, os recursos estão voltados para a melhoria da infraestrutura existente. Na Asa Sul, por exemplo, há R$ 398 mil autorizados para a construção de uma quadra coberta no Centro de Ensino Médio (Cem) Setor Leste. No Cruzeiro, R$ 263 mil foram destinados para a construção de uma quadra de badminton no Centro de Ensino Médio Integrado (Cemi).

Para a assessora política do Inesc, Thallita Oliveira, os dados mostram que “o dinheiro dos tributos arrecadados pelo Governo do Distrito Federal não retorna prioritariamente para quem mais precisa”. A falta de investimentos, afirma, “resulta em violações de direitos e compromete o desenvolvimento das juventudes periféricas”.

Infraestrutura urbana: onde há menos orçamento, há piores condições de vida

A análise do Inesc cruzou dados orçamentários com informações da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (PDAD 2024). Os resultados mostram que regiões com menos recursos de manutenção têm os piores indicadores urbanos.

Entre as seis áreas analisadas — Itapoã, Estrutural, Ceilândia, Cruzeiro, Lago Sul e Plano Piloto — Itapoã e Estrutural registram os piores índices:

  • Apenas 41,6% dos moradores do Itapoã vivem em ruas arborizadas

  • Na Estrutural, o número cai para 37,7%

Enquanto isso, o Plano Piloto, única região com recursos autorizados para reforma de calçadas em 2025, reúne os melhores indicadores de infraestrutura.

“Os dados evidenciam como a desigualdade orçamentária impacta diretamente o acesso de crianças e jovens a ambientes urbanos mais seguros e adequados”, reforça Thallita Oliveira.

O Inesc defende a ampliação urgente de recursos para políticas públicas voltadas à juventude, com prioridade para regiões periféricas do DF — onde vivem milhares de jovens que enfrentam as maiores barreiras para acessar seus direitos.

fonte: https://inesc.org.br/juventudes-perifericas-do-df-vivem-com-ate-r-17-por-habitante-mostra-nota-tecnica-do-inesc/