Jornal da USP - 12/01/2026 às 6:53
Texto: Ivanir Ferreira
Arte: Gustavo Radaelli*

Em 1966, Mirthes Bernardes venceu o concurso público municipal que definiu o desenho do calçamento paulista, inicialmente executado em pedra portuguesa durante a gestão do prefeito Faria Lima. Em 1969, já na administração de Paulo Maluf, o material foi substituído por ladrilho hidráulico, como mostra a foto acima. Foto:Cadnero/Wikimedia Commons
Às vésperas de completar 60 anos, volta ao debate o calçamento paulista — desenho estilizado do Estado de São Paulo que se tornou marca urbana da capital e, a partir dos anos 1960, passou a ser padrão nas vias públicas. Um artigo publicado na revista Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material revela o apagamento de sua autora, Mirthes Bernardes, criadora de um projeto vencedor de concurso municipal de 1965 e 1966. O trabalho foi baseado em documentos oficiais, recortes de jornais das décadas de 1960 e 1970 e entrevista com o sobrinho de Mirthes, que faleceu em 2020, aos 86 anos, sem receber reconhecimento público adequado nem compensação financeira por usos indevidos de sua criação.
A pesquisa também revela os bastidores que envolveram o calçamento paulista, como detalhes sobre as etapas do concurso, críticas feitas à iniciativa do prefeito, imagens dos desenhos finalistas e informações sobre seus autores. De acordo com o estudo, o então prefeito Faria Lima (1965 a 1969) buscava criar uma identidade visual para São Paulo que estivesse no mesmo nível de elementos urbanos já consolidados, como a calçada de Copacabana, no Rio de Janeiro, e as colunas de Niemeyer, em Brasília.
“Um dos dias marcantes na trajetória de Mirthes foi quando ela viu estampado no Jornal Folha de S.Paulo o resultado do concurso, em que seu projeto tinha sido escolhido como proposta vencedora, embora a publicação não tenha mencionado o seu nome em nenhuma linha”, relata o sobrinho da artista, Cid Freitas ao designer Pablo Figueiredo, um dos autores do artigo e mestre pela Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design (FAU) da USP, sob a orientação do professor Leandro Manuel Reis Velloso e segundo autor do artigo.
Mirthes era funcionária pública da Prefeitura e só enviou seu trabalho para concorrer após ser incentivada por seu chefe — o desenho tinha sido feito de forma despretensiosa e guardado em uma gaveta. Segundo o designer, “a omissão da autoria do projeto se repetiu em um memorando da Prefeitura, no qual Faria Lima descreveu o projeto vencedor referindo-se à autora apenas como “funcionária” da Prefeitura, sem citá-la nominalmente”.
O pesquisador evitou julgar os motivos que levaram à falta de reconhecimento de Mirthes Bernardes, mas admitiu que a baixa visibilidade pode estar relacionada ao fato de ela ser mulher e não ocupar um cargo de carreira na Prefeitura. Em entrevistas recuperadas na imprensa, Mirthes lamentou nunca ter recebido compensação financeira pelas reproduções do desenho.
Segundo informações do sobrinho Cid Freitas, Mirthes Bernardes nasceu em Barretos (SP) em 1934, formou-se em Pedagogia e Serviço Social e tornou-se servidora da Prefeitura de São Paulo, onde atuou como desenhista e produziu algumas obras em cobre esmaltado. O sobrinho relatou que entre 1966 e 1967, sua tia foi incentivada pelos colegas da Prefeitura a fazer o pedido de patente de desenho industrial e de direitos autorais.
Na imprensa, o padrão de calçamento recebeu diferentes nomes: calçada com o mapa estilizado do Estado de São Paulo; calçada mapa de São Paulo e piso paulista.
Entre as propostas finalistas, expostas na Rua da Consolação, a dela foi escolhida por um júri popular. O prefeito convidou jornalistas de diferentes periódicos para avaliar os modelos expostos. Os outros trabalhos que concorreram com o seu foram desenhos com referências a grãos de café, do arquiteto Raul Fagundes; outro com setas, do arquiteto Gilberto Caldas – representando sentido de direção – e uma quarta proposta anônima, que buscava representar o panorama urbano da capital composto de vales, pontes e viadutos. Segundo Freitas, Mirthes soube do resultado pelos jornais — inclusive pela reportagem da Folha de S.Paulo que, apesar de ter sido o único jornal que se posicionou a favor apenas de sua proposta, não mencionou seu nome.
Tecnicamente, o professor Velloso explica que “a proposta de Mirthes era clara, funcional e simbolicamente forte. Considerando os concorrentes, ela apresentou o trabalho mais coerente e mereceu vencer”.