Dormimos cada vez menos. Isso não é uma questão de estilo de vida: é um sintoma político, explica o etnógrafo Romain Huët. “O capitalismo produz nosso cansaço e depois nos vende soluções. É um ciclo bastante vertiginoso”.

A entrevista é de Alexandre-Reza Kokabi, publicada por Reporterre, 13-03-2026. A tradução é do Cepat.

Em 50 anos, os franceses passaram a ter 1h30 a menos de sono. Agora, dormem em média 6h50 por noite, 14 minutos a menos do que em 2024, segundo o Instituto Nacional do Sono e da Vigilância. Esse dado diz algo sobre nossas noites, mas também sobre nossas vidas, explica o etnógrafo Romain Huët.

Mestre de conferências da Universidade Rennes 2, passou anos ouvindo pessoas que sofriam muito em uma associação de prevenção ao suicídio. Dessa pesquisa surgiu De si violentes fatigues. Les devenirs politiques de l’épuisement quotidien (Presses Universitaires de France, 2021), no qual busca politizar o cansaço cotidiano e deixar claro que não se trata de um problema individual, mas de uma crítica às nossas sociedades. Ele também é cofundador de Cracker l’époque, um podcast sobre imaginários políticos transmitido em parceria com a revista Collateral.

Eis a entrevista.

Os franceses dormem, em média, 6h50 por noite. O que esse número sugere para você?

O que me impressiona, em primeiro lugar, é o efeito que esse número produz: a autoculpabilização. Dizem que o normal é dormir de 7 a 9 horas, e aqui estou eu, ainda abaixo disso. Como resultado, devo estar ainda mais cansado do que pensava. É paradoxal.

Por um lado, um arsenal inteiro de dispositivos – smartwatches, aplicativos – me permite medir meu sono com notável precisão: duração, ciclos, número de vezes que acordo. Por outro lado, essa mesma medição alimenta toda uma indústria que me vende calma. Chás de ervas para “noites tranquilas”, cápsulas de melatonina, programas de sofrologia... Esse marketing do descanso é muito revelador: quem compra o chá de ervas é justamente quem sente falta de calma. O capitalismo produz exaustão e depois a recupera vendendo soluções. É um ciclo bastante vertiginoso.

Em seus trabalhos, você descreve uma exaustão que se tornou uma experiência comum. Qual é a sua causa principal?

O cansaço dominante hoje não é o de quem faz coisas demais. É mais difícil de definir; é uma vida cada vez mais inexpressiva. Ou seja, a sensação de que todo o potencial que poderíamos ter – no trabalho, nos relacionamentos, nas atividades criativas – é essencialmente impedido de se expressar. Essa energia sufocada produz uma saturação existencial. A sensação de “qual é o sentido?”

As redes sociais manifestam isso muito bem. Rolar a tela é exatamente isso: uma energia disponível gasta em um mundo que nunca termina, onde a recompensa está sempre na espera pela próxima imagem. É o que Deleuze chamou de “o último copo do alcoolista” – a espera por uma satisfação que nunca chega. As pessoas que ouvi no centro de prevenção ao suicídio não me disseram que faziam coisas demais. Elas me disseram que não conseguiam mais se encontrar nas vidas que estavam levando.

Isso não é, portanto, uma crítica à tecnologia?

Não, de forma alguma. As redes possibilitam coisas extraordinárias – tomada de consciência, cooperação, solidariedade. O que me preocupa é outra coisa: uma organização que busca colonizar o tempo para transformá-lo em valor. Para se apropriar do tempo livre e torná-lo objeto de valoração econômica. Falo das vulnerabilidades porque é isso que me preocupa, não a tecnologia em si.

Você fala de uma vida “inexpressiva”. Isso está ligado, no caso do trabalho, ao que David Graeber chamou de “empregos de merda”?

Sim, com certeza. E o que é impressionante é que até mesmo ofícios que não eram bullshit jobs se tornam assim por meio da burocratização. Veja o caso dos funcionários de hospitais: ninguém escolhe ser enfermeiro porque gosta de aplicar curativos em estilo linha de montagem. Vamos para lá em busca de cuidado, atenção mútua e conexão humana. A burocracia conseguiu destruir justamente isso – quantificar o tempo necessário para cada tratamento, independentemente do que o paciente realmente precisa.

Eu vivo isso na minha própria profissão: sou professor-pesquisador, sou muito privilegiado, mas passo uma parte considerável dos meus dias respondendo a plataformas como Parcoursup ou Mon Master.

A burocratização de uma profissão a despoja de sua expressividade e, portanto, de todo o seu sabor.

Por que é tão difícil conectar esse cansaço a essas causas coletivas?

Todas as estruturas são projetadas para individualizar o problema. Sempre falamos do cansaço de uma forma muito específica, muito biográfica, como se nada que acontecesse no mundo pudesse afetar concretamente nossa vida interior. Isso é falso, mas lutamos para fazer diferente. E há algo revolucionário, precisamente, em politizar esse cansaço. Porque se o chá de ervas não é mais suficiente, se ir a um terapeuta não é mais suficiente, não estamos mais lidando com formas de acomodação individual, estamos lidando com algo que necessariamente leva à política, a um questionamento dos modos de organização da sociedade que estão na origem do nosso sofrimento.

O que me impressionou na associação de prevenção ao suicídio foi que o software usado para registrar as ligações – para fins estatísticos – não tinha uma categoria “mundo”. Uma ligação podia ser categorizada como “dificuldades amorosas” ou “problemas familiares”, mas não como “sentir-se deslocado na sociedade em que vive”. Como se essa causa não existisse. No entanto, para mim, essa é a principal causa do nosso cansaço: o fato de muitas pessoas terem dificuldade em navegar neste mundo de forma adequada.

O tempo roubado pelo capitalismo é central para o seu pensamento. Como você o vê como uma questão política?

É uma questão política de vasto alcance, que contrasta fortemente com a maneira como os políticos raramente discutem o tempo como um desafio coletivo. O tempo da vida é sobre encontrar a própria companhia. Um momento de revigoramento, de estar desperto, o que Paul Valéry chamou de “lazer interior”. E não podemos mais alcançar isso. Esse tempo é capturado – pelo trabalho, pelo WhatsApp, pelo chefe que espera uma resposta à noite, pelas redes sociais. Até mesmo o tempo vazio, as lacunas entre as obrigações, são sitiados. Esse fenômeno da colonização do tempo sempre existiu no capitalismo, mas hoje assume formas extremamente radicais.

Esse cansaço enfraquece a nossa capacidade de ação política?

Sim e não. Sim, porque é difícil encontrar um ritmo comum – se você organizar uma reunião numa sexta-feira à noite, às 18h, muitos não virão, porque estão exaustos. E também é cansativo construir imaginários que são sistematicamente contraditos pelos acontecimentos atuais.

Ao mesmo tempo, sou muito apegado ao que [o filósofo alemão] Walter Benjamin chamou de “pessimismo ativo”. A ideia de que é precisamente a partir de uma vida que se precipita no vazio que a recuperação se torna possível. Quem está cansado se recusa. Percebe que não aguenta mais. [O filósofo francês] Georges Didi-Huberman tem uma bela expressão: um gesto de desespero que se transforma em um gesto de desejo. Mas essa inversão não acontece individualmente; acontece dentro de nossas comunidades políticas, por meio da interconexão dos indivíduos.

Como podemos, concretamente, “politizar o cansaço”?

Primeiro, precisamos prestar atenção ao que dizemos. Expressar nosso desconforto, nosso cansaço, nossas esperanças frustradas e compartilhá-los é importante. Por enquanto, essas palavras são expressas em contextos muito privados: amizades, consultórios de terapeutas, grupos de apoio. Na associação, todas as pessoas me diziam: “Você não pode entender”, convencidas da singularidade absoluta de suas experiências. No entanto, ouvi as mesmas palavras, as mesmas queixas em outros lugares. Havia um fio condutor em todas essas experiências isoladas. Então, sim: nosso cansaço é político.

Há também a questão do nosso imaginário. Partir de nossas experiências decepcionantes e reconstruir uma ideia do que seria uma vida desejável. Como seria um trabalho no qual eu prosperasse? Como seria um relacionamento no qual eu me sentisse realmente feliz? Essas perguntas podem parecer ingênuas, mas são a matéria-prima para uma política da vida cotidiana.

Que conexão você vê entre esse cansaço e a crise ecológica?

O que observo é que até mesmo esse anseio pela natureza é pensado de forma mercantil. Vendem-nos uma “experiência na natureza” – o parque para recarregar as energias, o fim de semana no campo – sempre com a ideia de retornarmos às nossas vidas anteriores depois. Não somos convidados a abraçar radicalmente esse anseio. Se o fizéssemos de verdade, rejeitaríamos o ritmo urbano, questionaríamos grande parte do nosso cotidiano. A crise ecológica e a exaustão convergem em torno da mesma questão fundamental: o que constitui uma vida verdadeiramente vivida?

O que precisaria mudar para nos libertarmos dessa espiral?

Não vou me esquivar da pergunta: o inimigo político é o capitalismo como modo de organização social. Se o tempo nunca é meu, sempre é decidido de fora, essa força externa opera segundo um princípio geral de direção – desempenho, acumulação, aceleração constante. Reivindicar nosso tempo significa, em algum momento, ser um pouco menos produtivo ou fazer as coisas de maneira diferente. Isso é difícil de pensar dentro da estrutura capitalista. E ainda existem as desigualdades dentro das próprias sociedades capitalistas: um fim de semana tranquilo para recarregar as energias, por exemplo, não é acessível a todos. O cansaço também é distribuído socialmente.

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fonte: https://www.ihu.unisinos.br/663492-em-uma-sociedade-capitalista-nosso-cansaco-e-politico-entrevista-com-romain-huet