Ao se entregar, Vitor Simonin, investigado por participar do estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos, vestia uma camisa com a frase “regret nothing”, escreve Jacqueline Muniz, professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (DSP/UFF), que é cientista social (UFF), mestra em Antropologia Social (Museu Nacional/UFRJ) e doutora em Ciência Política (IUPERJ/UCAM), em artigo publicado por Brasil 247, 11-03-2026. 

Eis o artigo.

Fiquei um bom tempo olhando para a foto da condução coercitiva de Vitor Hugo Simonin, na 12ª DP, em 09 de março de 2026, deixando-me guiar pelo quebra-cabeça (des)montado pelo olhar da fotógrafa do jornal O Globo, Ana Branco. A lente que enquadra mais um homem acusado de violência sexual vem de um olhar feminino que documenta, para o mundo público, a captura daquele que participou da violação do corpo de uma mulher.

O enquadramento fotojornalístico escolhido parece trazer à superfície do visível, daquilo que foi registrado no clique selecionado pela autora, um emaranhado de significados. Uma mistura de sinais contraditórios e emoções indigestas que nos convoca a confrontar valores e práticas patriarcais. Uma mistura que explicita o recurso à violência de gênero, doméstica e intrafamiliar como pedagogia cotidiana e, em boa medida, socialmente autorizada. Experimentei um desconforto que não se esgota no trazer de novo à memória, pela foto-registro, a barbárie do estupro coletivo que dói em nossas mulheridades e remói em nossas almas, de novo e de novo, a cada nova visada sobre esta imagem.

A fotografia, que recorta uma ação policial em movimento, comunica desencaixes nos papéis de gênero e em suas lógicas em uso. Ela expõe as fissuras de uma moralidade heteronormativa misógina que, mesmo com o teto de vidro e o chão movediço produzidos pelas conquistas feministas, imagina poder impor uma hegemonia nostálgica: a volta a um eldorado masculino mítico, o retorno ao passado idealizado de uma terra de homens somente para homens. A imagem põe sob questionamento relações desiguais e violentas de gênero naturalizadas. Relações assentadas em formas masculinistas de monopólio da verdade e, por conseguinte, de validação do exercício de poder sobre as existências femininas em sua pluralidade.

No primeiro plano da foto tem-se a condução coercitiva de um dos acusados do estupro coletivo de uma jovem ocorrido em Copacabana. Revela-se uma imagem que reconstrói e converte em notícia, sob o recorte das lentes da fotógrafa, mais um ato criminoso que seguia pelo rumo sombrio da invisibilidade. Porém, há bem mais a ser visto, percebido e sentido do que sugere a legenda da foto que nos serve de guia: “Vitor Hugo Simonin sai da 12ª DP (Copacabana)”.

O enquadramento fotojornalístico captura um instante que ultrapassa o fato policial narrado pela legenda. A fotografia rompe o fluxo rotineiro do fato noticiado e transforma a movimentação procedimental de um indiciado sob custódia do Estado em uma pose carregada de tensões simbólicas. Seria só mais um “menino” inconsequente? Seria um “bandido” reincidente? Seria um “herói” que cumpriu a missão para sua bolha de seguidores, indo além da performance no mundo digital?

Na fotografia se confronta, sob o olhar público mediado pelo olhar da fotógrafa, uma masculinidade ostentatória com cálculo, cultivada e celebrada quando se afirma pela violência. Essa masculinidade parece querer sustentar, mesmo que já rendida, seu próprio discurso de força, altivez e supremacia diante de outras autoridades também atravessadas pelo machismo guerreiro e pelo ethos masculinista protetor: a autoridade do Estado e a autoridade moral da sociedade.

São essas mesmas autoridades que, diante da exibição do pior e do mais vil em sua versão excessiva, capturam, enquadram e expõem um masculino que nasceu cheio de regalias. Um masculino que ultrapassou os limites dos abusos tolerados e das ilegalidades privilegiadas aceitas para sujeitos de família que “deram só um mal passo”, “cometeram um deslize”, “estavam de cabeça quente”. Ou melhor, sujeitos que, do alto de sua razão de gênero, “foram provocados” a sentenciar mulheres insurretas por ousarem ser mulheres. E isso para que as demais sobreviventes aceitem que são apenas usuárias, e não proprietárias, de seus próprios corpos e de sua existência.

O estupro coletivo aparece como punição exemplar e publicitária ao feminino. É um ato que se faz acompanhar de homenagem a uma classe e de bonificação simbólica a seus integrantes. É uma tentativa de restauração moral da posse machista percebida como ameaçada ou perdida. Uma reação diante da cidadania feminina considerada ingrata. Ingrata porque supostamente foi inventada e presenteada pelo masculino que agora se sente desacatado pela equivalência em direitos.

Convido você, leitora e leitor, a voltar a olhar para a foto fazendo uso das lentes femininas do meu olhar. E por este rumo tentar perceber outros elementos revelados pelo recorte da fotógrafa Ana Branco. Daqui em diante, este percurso seguirá em fragmentos, como flashes. Fragmentos menos conclusivos e mais próximos de um movimento analítico indignado e crítico.

Uma foto, revelações variadas

Uma fotografia organiza uma hierarquia do que existe e é tomado como real, porque se tornou visível pelo registro visual. Ela explicita um acordo sobre o que deve ser visto e sobre como a ordenação do visível pode ser reconhecida como espelho de uma realidade. Os planos, seres, objetos, focos, cenários, cores e tudo mais que compõem uma imagem, reconstroem a realidade noticiada e a verdade que importa dar a conhecer: a verdade revelada por um modo de enquadrar, isto é, de classificar o mundo em que vivemos.

O enquadramento fotográfico vai além de capturar um acontecimento. Ele estrutura uma interpretação possível da realidade. A fotografia evidencia regimes de visibilidade que definem o estatuto do que pode aparecer como real. Esses regimes de visibilidade são também regimes de poder. Eles distribuem relevância, orientam a atenção e autorizam leituras da vida vivida. Funcionam como molduras que organizam a percepção sobre os eventos. Essa verdade, produzida por uma pose ou um close, é posta em confronto com outros modos culturais, políticos e econômicos de delimitar a realidade que partilhamos.

A fotografia motiva deslocamentos em nossas chaves interpretativas, possibilitando a ruptura ou o reforço de crenças e práticas. Esse deslocamento torna-se apreensível, por exemplo, pela distribuição de importância e de atenção que um certo enquadramento atribui aos elementos de uma determinada imagem. Ele orienta o jogo de olhares que faz a foto existir e circular. Mas, o que conseguimos extrair da foto a partir do registro visual de Ana Branco?

A camisa como manifesto “Regret Nothing"

Na foto, a camiseta com os dizeres Regret Nothing (Não se arrependa de nada) não é um detalhe acidental ou casual de quem saiu as pressas de casa para se entregar à polícia e não teve tempo de se arrumar direito. Trata-se de uma vestimenta-manifesto que afirma quem tem — e quem pode ter — a verdade do gênero e do sexo. Não pode haver arrependimento quando se fez o certo machista pelo lado certo misógino.

No universo ideológico Red Pill e Incel, a corporalidade e a roupa que delineia suas formas aparecem como mais uma arma de protesto e de unidade no ódio às mulheres. Funcionam como bandeira de luta contra aquilo que se percebe como feminilização das relações sociais trazida pela igualdade de gênero. Correspondem a um panfleto de adesão, afirmação e reconhecimento identitário transfronteira. Comunica-se que não se está sozinho. Que são muitos por aí e em todo lugar. E que se carrega uma assinatura visível, a marca de um bloco que se pretende unitário e coeso. Um corpo-slogan que busca liberar o excedente de masculinidade autêntica percebido como um bem injustamente represado pelas interdições sociais, jurídicas e morais. Todas elas lidas como impostas ao machismo pelas agendas feministas, pelo universo woke e pelas lutas identitárias. O que se performa com a camiseta é a promessa de restituição de uma autoridade masculina que esses grupos propagam estar sob risco de deslegitimação pela gramática contemporânea da igualdade.

Vestir essa mensagem para o ingresso ritual numa delegacia de polícia, porta de entrada do sistema de justiça criminal, é estandardizar uma recusa de capitulação moral e de aceitação do pacto sociopolítico vigente. Qual a missão que se pensa possuir? A supremacia masculinista permanece declarada diante da subordinação à lei, com a suspensão da liberdade e sob custódia do Estado.

Encenar publicamente a ausência de arrependimento, diante da prisão midiática, é simular uma convicção inquebrantável — coisa de macho convicto — que a própria detenção policial serviria para confirmar. Uma cena que transforma a prisão em troféu: retiraram a liberdade de ação de um integrante, mas não o poder do coletivo de romper com o tal “sistema” que aviltaria os direitos naturais dos homens que nascem homens e superiores.

A mensagem da camiseta não é dirigida apenas às pessoas presentes: policiais, fotógrafos, operadores do sistema tomados como menos viris que o agressor. Ela é transmitida para uma câmera imaginária dos pares virtuais, para os seguidores on-line que consumirão a imagem como mais um ícone de reforço de uma masculinidade que se imagina bastante de si. Mas que, paradoxalmente, serve de manobra para ocultação de suas fragilidades vividas.

O rosto e o olhar: a encenação da impassibilidade

Noto que o agressor parece olhar mais para a tela imaginada do que para quem está ao seu redor. Há ali uma possível simulação de indiferença diante dos curiosos e dos pobres mortais que ocupam a cena da detenção. O olhar do agressor, neste caso um justiceiro do gênero, parece buscar confirmação e apoio virtuais. Afinal, ele se apresenta como um soldado-herói que cumpriu a missão. Alguém que sai dos jogos virtuais e executa, na prática, o código de conduta performado nas trends (“If she says no”/ “Training if she says no”).

Percebe-se, na foto, uma expressão que soa neutra no rosto do agressor. Sua face, além de não demonstrar arrependimento, também não explicita raiva ou medo. Lê-se uma neutralidade facial, quase uma cara de paisagem, típica de situações aprendidas para suportar uma exposição pública vexatória. Não se busca empatia, antipatia ou simpatia. A tática parece ser suspender qualquer emoção identificável que estabeleça alguma conexão com a plateia: seja de pena, de piedade ou de reprovação.

Mas essa aparente neutralidade também pode indicar uma tentativa de controle narrativo. O agressor transmite que tenta manter a imagem de si mesmo. A fotografia, entretanto, desloca esse controle com o enquadramento apresentado. Ele não olha para ninguém. A cabeça está erguida, o olhar sem foco no presente imediato. Não encara ninguém. Não há olhos nos olhos. Não enfrenta as policiais que o custodiam, não encara a câmera, não intimida o ambiente. Seu olhar está voltado para dentro, ou melhor, voltado para a tela imaginária onde seus iguais o assistem. Esse olhar distante pode ter dupla função. Servir como dissociação defensiva quando o sujeito recusa a sua presença plena num ambiente de humilhação pública. E ainda pode expressar uma postura teatral de quem não foi quebrado, transmitida para quem vai ver a foto circulando.

Há sinais contraditórios emitidos na fotografia: a performance de invulnerabilidade se faz necessária para manobrar com a destituição de soberania de seu corpo e de sua própria vontade explicitada pela tutela e detenção policiais. A rigidez corporal que espera comunicar fortaleza emocional aparece como um sinal visível do sobre esforço para não amolecer e não demonstrar medo. Vê-se na imagem um corpo tenso sendo conduzido já despossado da coragem e da empáfia que tornou possível a violência sexual cometida.

O controle policial feminino do corpo masculino agressor

No plano principal da fotografia aparecem duas policiais conduzindo o agressor. O plano de fundo é a fachada de uma delegacia com seu interior visível. O enquadramento é aparentemente simples. Mas aponta uma inversão de posições. São duas mulheres policiais que conduzem um homem violento. Elas apresentam rostos serenos e solenes. Não há receio perceptível em executar o comando. Não há preocupação transmitida pelo seu gestual registrado na imagem. Tampouco se percebe esforço físico diante da corporalidade de um agressor de maior estatura e peso. O que se vê é uma condução coercitiva de rotina, sem necessidade de aparato repressivo adicional para conter preventivamente o ofensor. Esse registro aponta para o exercício de uma autoridade consolidada e habituada a lidar com agressores de mulheres.

Para as mulheres vítimas, um predador sexual é a expressão do terror. Para as policiais que o conduzem ele aparece como mais um homem violento amansado e detido. Mais um procedimento operacional a ser cumprido. Essa assimetria inscrita nos rostos e nos gestos com naturalidade comunica a fragilidade do grandão cuja valentia cessa diante da autoridade armada. A cena contém uma ironia. Duas mulheres menores em estatura exercem poder coercitivo sobre o sujeito que se imaginava dono do corpo feminino. A serenidade delas não parece ser uma reação de indiferença ou condescendência com um homem submetido a autuação policial. É um sinal do colapso da valentia, ainda que vestida por uma camiseta provocativa. Você não é mais uma ameaça. Perdeu, perdeu!

A assimetria de movimento trazida na foto também é reveladora. Uma das policiais aparece com o braço estendido conduzindo o deslocamento. O gesto é limpo e decisivo. Ela não está apenas acompanhando. Está dirigindo o movimento do corpo do agressor no espaço. O que se vê é a conversão de um corpo masculino em corpo guiado, sob tutela e desprovido de autonomia. A cena ganha um significado particular quando se remete à lógica da violência sexual. Nela, o corpo da vítima é frequentemente capturado, imobilizado e despossado. Na foto observa-se outra coisa. O corpo que dominava torna-se corpo conduzido, destituído de sua vontade e de seu mando. Um corpo apassivado.

Chamou-me atenção a ausência de contato físico enérgico entre o custodiado e as policiais que o conduzem. Nenhuma delas agarra ou pressiona o acusado. Não se observa contenção muscular, nem mesmo qualquer gesto mais firme de imobilização defensiva. Não há registro de instrumentos de contenção nem necessidade de restrição física para comandar seus movimentos. O uso da força aparece no grau mínimo necessário, em convergência com a postura cooperativa e de submissão passiva do custodiado.

Duas mulheres profissionais no uso comedido da força foram suficientes. Como deveriam ser. O que a fotografia registra é um exercício de suficiência e proporcionalidade no uso da força. Não se vê disposição para agressão verbal ou física por parte do custodiado e, por isso, não se observa escalonamento coercitivo nem uso abusivo da força. O contraste é expressivo. No estupro coletivo e nos momentos que antecedem a chegada a polícia, o poder parecia estar nas mãos do agressor. Na foto tem-se uma explícita destituição desse domínio.

Não há força visível. Registra-se o seu uso potencial que se faz presente sem se materializar. A oportunidade aberta para o seu emprego é comunicada por um conjunto de elementos combinados: a postura corporal das policiais, o uniforme, o distintivo, o armamento. Tudo isso envolto pela ambiência institucional carregada de signos de autoridade.

No perímetro da delegacia, essa ambiência funciona como um cerco institucional. A arquitetura, os símbolos do Estado e a presença policial compõem um dispositivo coercitivo de dissuasão. A mensagem silenciosa que emerge da imagem é clara. Ele sequer precisa ser dominado pela força porque já está dominado pelos signos da autoridade estatal.

O controle deixa de ser físico. Torna-se institucional. O corpo não precisa ser imobilizado porque já está contido pelo dispositivo policial que o envolve. A fotografia registra esse momento em que a força coercitiva existe como potência latente, dispensando o espetáculo da violência realizado no estupro coletivo.

A força física e a musculosidade ostentatória funcionam, nos universos masculinistas, como gramática corporal de autoridade. O corpo musculoso comunica superioridade, domínio e capacidade de impor sua vontade sobre outros corpos, incluindo outras masculinidades. No imaginário masculinista, os músculos funcionam como atributo de sociabilidade, credencial de poder e instrumento de intimidação.

Na fotografia, a musculatura do agressor perde sua eficácia. Ela permanece visível, mas dissociada de sua promessa de poder. O corpo forte continua presente em contraste com os corpos das mulheres policiais que o escoltam. Mas o exercício do poder não está mais nele. A musculatura que poderia ser mobilizada como prova de potência viril torna-se uma carcaça simbólica esvaziada diante da autoridade institucional exercida pelas policiais. Essa promessa de domínio vira ornamento estético fútil e inútil diante de um poder institucional que, naquele instante da foto, se expressa pela corporalidade feminina.

A geometria feminina do controle coercitivo

A composição da imagem situa três corpos em primeiro plano. Estes formam uma estrutura triangular obtusa. O ofensor ocupa o vértice central. As policiais formam as duas laterais. O resultado é uma geometria de contenção. Ele está entre elas. Delimitado por elas. Os corpos deles falam, por óbvio. Ele aparece ereto, rígido, contido. Elas se mostram solenes, fluidas, sem esforço visível. Ele está cercado. Elas o enquadram com naturalidade institucional. O espaço projetado da delegacia delimita o seu movimento por todos os lados.

Vê-se ainda mais uma inflexão importante produzida pelo ato fotográfico. O agressor parece tentar sustentar sua própria mensagem. Contudo, o enquadramento o transforma em objeto da imagem. O papel de objeto reservado pela perspectiva masculinista às vítimas de violência de gênero e sexual aparece alterado. É o agressor detido quem passa a ocupar essa posição.

O papel secundário dos homens na cena de controle

Ao fundo tem-se dois homens que parecem policiais de apoio, embora a ausência de signos explícitos não permita afirmá-lo com certeza. A postura deles parece relaxada. O olhar não indica alerta ou controle direto do custodiado. Eles não participam diretamente da condução. Caminham atrás, aparentemente observando a condução coercitiva.

Essa passividade tem sentido. Não foi necessário mobilizar força masculina para comandar um homem agressor que reproduz a lógica hegemônica machista do homem protetor versus o homem agressor. A presença masculina cumpre um protocolo de garantia de superioridade tática. Dois ou três agentes para um custodiado ampliam o efeito dissuasório pela produção de cercos de controle. Paradoxalmente, esse excesso de cautela reforça a percepção de que a ameaça foi considerada nula.

A despreocupação corporal dos homens ao fundo comunica algo importante. O réu que ataca mulheres em situação de vulnerabilidade não representa perigo algum diante do feminino que detém poder coercitivo armado.

A coragem e a satisfação dos covardes

Há possivelmente uma satisfação residual na postura do agressor. Não a satisfação de quem venceu, mas a satisfação difusa de quem participou de um ato grupal no qual a responsabilidade individual se acredita amortecida na ilusão de uma cumplicidade coletiva engajada.

A busca de dissolução de autoria e de responsabilidade individual compõe a satisfação dos covardes. Ela se mostra decisiva em episódios de violência coletiva. Nesse contexto, cada indivíduo, dissolvido no grupo, sequer precisa experimentar uma fração da culpa e, por isso, vivencia uma amplificação da excitação. Experimenta um estado de satisfação com a violência desmedida. Esta é tratada como rito iniciático de certificação da masculinidade e também como recreação predatória, um jogo lúdico disputado entre agressores que os hierarquiza e os condecora. E isso pode envolver a estetização da violência sexual e sua escalada para quem se diverte com a dor, a humilhação e a agonia da vítima.

A coragem exibida na violência é tomada de empréstimo do bando. Ela se alimenta do tamanho do grupo, da sua coesão e da vulnerabilidade imposta à vítima pela superioridade moral e numérica. Trata-se da coragem dos covardes. Aquela que existe apenas quando a vítima não pode reagir e o grupo oferece cobertura. Cobertura que, por vezes, inclui a proteção da parentela ou da rede ampliada de conhecidos.

Diante do poder armado da autoridade institucional, essa coragem desaparece. Resta o teatro da invulnerabilidade encenado para uma plateia virtual que já não pode vê-lo senão pelas contradições que a imagem revela. Um corpo conduzido. Marcado pela exposição. Simbolicamente emasculado. Mas sem arrependimento!

A batalha pela imagem: nada para se arrepender, tudo para se responsabilizar

A fotografia constitui um documento com distintas camadas de significação. Em um único enquadramento a foto aqui apreciada registra a dramatização do projeto de poder masculinista e suas implicações.

O agressor veste a camisa que afirma não se arrepender de nada. Mantém a cabeça erguida e parece dirigir o olhar para telas imaginárias. Lá onde seus pares o assistem à espera da confirmação de que permanece um soldado da causa masculinista. Exibe a musculatura que de nada serve. A valentia dissolve-se diante do poder coercitivo armado feminino. É conduzido por duas mulheres menores que ele, com rostos serenos e gestos seguros. Atrás deles, homens despreocupados indicam que não foi necessário mais esforço do que isso. O espaço da delegacia delimita seu corpo. A imagem circula e o torna público, mais exposto. O papel de objeto reservado às vítimas aparece agora invertido.

Mas a cena não termina na delegacia. O enquadramento que capturou esse instante desloca o episódio do plano procedimental para o espaço público da interpretação. A imagem passa a circular e, com ela, a disputa pelo sentido do que foi registrado. A fotografia torna-se então um campo de disputa pelo significado público do sujeito retratado. O mesmo enquadramento pode descortinar narrativas concorrentes, paradoxos e contradições.

De um lado, a tentativa de sustentar a imagem de si mesmo como arauto de uma causa masculinista. A postura corporal, o olhar deslocado e a inscrição na camiseta procuram comunicar convicção e fidelidade a um código de conduta. A própria prisão poderia ser reinterpretada como prova de coragem. De outro lado, o enquadramento fotojornalístico revela outra leitura. O corpo que pretendia afirmar soberania aparece delimitado, conduzido e exposto sob autoridade institucional feminina. A circulação da imagem amplia essa disputa. Cada nova visada reinscreve o personagem em narrativas distintas. O olhar da fotógrafa transforma a condução policial em documento visual.

A camiseta afirma “Regret Nothing” (Não se arrepender de nada). A expressão tenta antecipar o sentido da cena antes que outros o definam. Mas quem costuma não se arrepender é a punição estatal aplicada em nome da lei e a memória coletiva quando se recusa a deixar cair na invisibilidade aquilo que a violência tentou impor. Sem arrependimento do agressor, sem arrependimento da sentença. O que se faz essencial é a responsabilização civil e criminal que uma democracia precisa garantir diante da violência de gênero.

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fonte: https://www.ihu.unisinos.br/663413-regret-nothing-a-fotografia-de-um-masculinismo-capturado-artigo-de-jacqueline-muniz