O Lab – Mulheres, Arquitetura e Territórios da Universidade de Brasília está agora dando conta de um novo e urgente desafio: o entendimento cultural aprofundado das mulheres indígenas e suas questões.
UnB - 31/03/2026
Maribel Del Carmen Aliaga Fuentes e Luiza Rego Dias Coelho
O Lab – Mulheres, Arquitetura e Territórios, tem uma trajetória de mais de 10 anos trabalhando com mulheres e suas vulnerabilidades. A questão da violência de gênero, da invisibilidade e do apagamento já foi largamente estudada por nós ao longo da última década. No entanto, enfrentamos agora um novo e urgente desafio: o entendimento cultural aprofundado das mulheres indígenas e suas questões.
A sociedade brasileira que conhecemos hoje foi construída a partir das mais diversas formas de violência de gênero. Historicamente, a construção do Estado Brasileiro teve, entre os seus alicerces, a violência naturalizada contra as mulheres indígenas. A expressão "pegas no laço", eufemismo corriqueiro nas histórias de diversas familias brasileiras, revela como casamentos forçados e a violência sexual foram normalizados e naturalizados em relação às mulheres indígenas.
É a partir da compreensão dessa dívida secular que o Lab Mulheres assume o desafio para a construção das Diretrizes Arquitetônicas para a Casa Mulher Indígena (CAMI): um equipamento público de reparação, acolhimento e enfrentamento à violência praticada contra as mulheres indígenas. A pesquisa, viabilizada a partir do Termo de Execução Descentralizada (TED) firmado entre a Ministério das Mulheres e a UnB, se propõe a identificar as lacunas de conhecimento no campo da Arquitetura e Urbanismo acerca do universo dessas mulheres, a partir de uma perspectiva horizontal, de escuta ativa e respeito pelas diversas cosmovisões presentes no Brasil.
Para isso, nossa forma de trabalho se estrutura em um processo de pesquisa participativa, que aplica os compromissos internacionais assumidos pelo país em relação aos povos indígenas, garantido o direito à consulta prévia, ao envolvimento nos processos e a manutenção de culturas e instituições próprias. Este projeto nasce como uma resposta contundente a um cenário de grave invisibilidade e negligência institucional, e da compreensão, como ensinado pela nossa pesquisadora Amanda Pankararu, de que nem sempre a interseccionalidade dá conta de estudar as mulheres indígenas. O lapso existente nas pesquisas sobre mulheres indígenas se manifesta na escassez de dados sobre violência, na ausência de serviços específicos e no uso indevido da noção de “cultura” para justificar a violação de direitos.
Desde o início da pesquisa, lançamos um edital para seleção de pesquisadora indígena com atuação relacionada ao combate da violência de gênero, bem como a realização de letramento sobre os direitos das mulheres indígenas e suas diversidades. Ações fundamentais para fomentar o processo de construção das diretrizes para a CAMI e, posteriormente, das bases do concurso arquitetônico para o equipamento público.
Ao longo do primeiro ano de pesquisa, os produtos das pesquisas foram se consolidando e aprimorando. O letramento, inicialmente destinado a uma cartilha, se transformou no livro “Mulheres indígenas e a diversidade cultural brasileira: história, violência e resiliência”. Os mapas orientativos evoluíram para uma pesquisa inédita em desenvolvimento sobre terras e povos indígenas nos biomas do Brasil. Já as oficinas participativas, realizadas com a metodologia desenvolvida pelo Lab, ancorada na escuta ativa, na garantia de direitos e do protagonismo e respeito à interculturalidade das mulheres indígenas, possibilitaram organizar reivindicações, denúncias e demandas. Esse processo não apenas gerou o programa de necessidades arquitetônico para o espaço físico, mas também permitiu desenvolver e validar as especificações técnicas para a CAMI, desde a concepção dos ambientes até a definição dos fluxos de atendimento.
Ao promover o Concurso Público Nacional de Ideias de Arquitetura, com inscrições abertas até o dia 15 de abril, a Universidade de Brasília, através do Lab Mulheres, busca selecionar a proposta arquitetônica que melhor materialize os princípios da dignidade, do cuidado e da ancestralidade. Estabelecendo a CAMI como um equipamento de empoderamento voltado ao acolhimento, proteção e cuidado das mulheres indígenas em situação de violência, respeitando suas culturas, territórios, línguas e saberes tradicionais.
Acreditamos que a CAMI será uma resposta concreta à violência de gênero e um marco fundamental no processo histórico de reconhecimento dos direitos dessas mulheres. Sua proposta se alicerça em uma perspectiva reparatória, interseccional e territorializada, enfrentando não apenas a violência de gênero, mas o racismo institucional, as barreiras linguísticas e os múltiplos silenciamentos.
Que este equipamento seja apenas o primeiro de passos contínuos para garantir a dignidade, a segurança e os direitos das mulheres indígenas em todo o Brasil.

Maribel Del Carmen Aliaga Fuentes é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo na UnB. Coordena a Editora da FAU e a Revista Arqui. Integra o grupo LAB – Mulheres, Arquitetura e Territórios, da FAU/UnB e o Observatório Amar.é.linha.

Luiza Rego Dias Coelho é pesquisadora no grupo LAB - Mulheres, Arquitetura e Territórios da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB. Arquiteta e Urbanista pela UnB, com intercâmbio no IIT (EUA).






