Publicado 13/03/2026 às 19:40

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Este texto, que abre uma série que irá discutir alternativas comunitária ao colapso multifacetário em curso no planeta Terra, é fruto de um trabalho de pesquisa sobre ecovilas, mas também de um profundo engajamento pessoal. Para além de muitos textos publicados e de longas estadias na maior ecovila do mundo, Auroville, na Índia, vimos há duas décadas, meu marido e eu, visitando comunidades alternativas à sociedade que fabrica o colapso. Para além das ecovilas, também visitamos outros tipos de “ecolugares”: comunidades intencionais, tribos indígenas, fazendas regenerativas, acampamentos do MST. São lugares onde se pratica a regeneração ambiental, a vida comunitária, a autogestão, um modo de vida simples e de desconsumo, e que têm uma afinidade especial com o aspecto sagrado da Natureza.

Nos últimos três anos o projeto “Visitando o Novo Mundo” entrou na estrada e percorreu mais de 50 mil quilômetros, em cerca de 20 países, documentando com imagens quase cinquenta comunidades que são verdadeiros laboratórios da nova humanidade. É gente que vive na contracorrente do consumismo, da competição, da concentração de poder, da alienação… Você pode encontrar pequenos vídeos que mostram estas comunidades no YouTube da Escola de Sustentabilidade Integral, com atualização constante. Neste primeiro texto da série propomos um passeio em uma comunidade síntese do muito que vimos, mostrando as constantes culturais, a Natureza regenerada, as formas edificadas, os modos de convívio, a arte por toda parte…citando quase 40 lugares nos cinco continentes. Nos textos seguintes vamos detalhar aspectos do que foi visualizado, como se fôssemos bater papo após vermos um filme. Topa?

Antes de fazer o passeio juntes, vamos falar rapidamente das ecovilas. São pequenas e grandes comunidades – de cerca de 10 até 3 mil habitantes – vivendo de modo sustentável e autogerido, principalmente em áreas rurais. Elas estão se espalhando pelo mundo e tiveram um boom no pós-Covid, quando as pessoas buscaram se inspirar para viver de outra forma e colocaram a mão na massa, fundando espaços novos. É difícil estimar a quantidade de ecovilas no mundo pois a fonte mais legitimada, a GEN, Global Network Ecovillage (Rede Global de Ecovilas) estima hoje cerca de seis mil. A mesma GEN divulgava antes cerca de 10 mil, e provavelmente está hoje citando apenas comunidades consolidadas. É possível que existam o dobro ou o triplo de experiências que não se vinculam a redes. O fenômeno ecovilas começou a se disseminar mais nos anos 60 e já em 1998 foi reconhecido pela ONU como uma das cem melhores práticas para o desenvolvimento sustentável. Algumas ecovilas de destaque no mundo que visitamos são: a citada Auroville, na India, a maior; Findhorn, na Escócia, a mais antiga; a artística Damanhur, na Itália; a pequena Sainte Camelle, na França; a rica Piracanga, no Brasil; a permacultural Cristal Waters, na Austrália.

Síntese do que se vê no “Novo Mundo”

Ao se aproximar de uma comunidade alternativa, a primeira coisa que se vê é a exuberância da Natureza. Em muitos casos as e os pioneiros, após décadas de trabalho, transformaram um deserto em floresta, como na experiência de Auroville (Índia). O que se vê em todo canto é que a biodiversidade prospera, as áreas de floresta aumentam, áreas naturais intocadas são estabelecidas, a água se multiplica e o ar é puro, até mesmo em comunidades urbanas, como na Ecovila Maria (Brasil) ou Christiania (Dinamarca). Isto é resultado de uma cultura da regeneração, constante em todas os ecolugares que visitamos. A reconexão com a Mãe Terra, chave para superação do grande desafio humano de proteger a Vida na atualidade, é abraçada com afinco, no dia a dia, sem hesitação. São as simples escolhas cotidianas de alimentação, consumo e gestão de resíduos das comunidades que sustentam os resultados.

Vimos que cada ecolugar encontrou seu caminho de expulsar a química que mata o solo e recolocar os resíduos da vida cotidiana a serviço da nutrição deste. A permacultura, ou cultura da permanência, tão presente em Crystal Waters (Austrália) que restabelece ciclos e vê o todo, é muito utilizada e incentivada, por exemplo através da gestão dos recursos naturais, da bioconstrução, da instalação de sanitários secos, diversas formas de compostagem e reciclagem, e mesmo na reinterpretação dos modos indígenas amazônicos de produzir a fértil Terra Preta, como no Sítio do Futuro (Brasil). A produção de alimentos, que em menor ou maior escala é presente em todas as comunidades, se faz de forma orgânica e na Chacra Rizoma (Argentina) é a fonte de renda principal dos participantes, ou a cola principal da comunidade como no Chant des Cailles (Bélgica). As agroflorestas com variada produção de legumes, frutas e ervas são muito presentes, como na encantadora Ferme du Bec Helloin (França) ou na Ecovila Aldeia do Altiplano (Brasil). Esta última estabeleceu também, como em outros casos, uma parceria com as e os compradores diretos dos produtos, em um sistema intitulado CSA, Comunidade Sustenta a Agricultura.

Nesta regeneração dos biomas originais, as comunidades encontraram caminhos de acumular e produzir mais água e purificar as águas usadas, como em Findhorn (Escócia). Plantam, cuidam, criam lagos incríveis como em Tamera (Portugal), valetas de condução da água para que esta permaneça no terreno, constroem reservatórios, protegem as nascentes, como em Flor de Ibez (Brasil). As espécies nativas são priorizadas no reflorestamento, hortos são implantados, como no Instituto Terra (Brasil), há jardins por todo lado, como no Eco Truly Park (Peru). Como os povos ancestrais que visitamos (Mapuches, na Patagônia Argentina e Paiter Suruí, na Amazônia Brasileira) as pessoas que sustentaram esta regeneração nas ecovilas percebem que a Natureza é sagrada, que nós somos a Natureza. Esta percepção é a fonte da cura ambiental (“o futuro é ancestral, ou não será”, como diz o autor indígena brasileiro Ayrton Krenak) e é levada à prática pelas comunidades alternativas de modo consistente. Cabe à juventude que desfruta deste ambiente regenerado comprometer-se a ampliar, aprofundar este feito e espalhá-lo amplamente pelo mundo.

A segunda grande diferença do velho mundo individualista, quando nos aproximamos das comunidades alternativas, é a presença de um verdadeiro sentido de comunidade, manifestado principalmente em espaços coletivos (de convivialidade, residência, trabalho, cultura, alimentação, democracia). Em Longo Mai (França), até a economia é compartilhada e surpreende pela longevidade e profundo compromisso das e dos participantes com a partilha total de recursos. Há as infraestruturas técnicas comunitárias, na maioria das vezes realizadas de formas muito mais ecológicas que as tradicionais: instalações de energia (solar, eólica, mini usinas hidráulicas, geotermia); as vias de terra ou solo-cimento, blocos intertravados, como no complexo de Ecovilas da Cafuringa (Brasil); a gestão própria da água sem química, como muita coleta de água de chuva, captação de nascentes, reservatórios que permitem enfrentar os períodos de seca, como na ecovila do Alto Lindo (Brasil). A última novidade é a produção de combustíveis ecológicos, como processo nascente que pode livrar as comunidades do velho mundo do petróleo (Auroville – Índia, e Sítio do Futuro – Brasil).

As cozinhas comunitárias e os refeitórios são omnipresentes. A maioria esmagadora das ecovilas são vegetarianas, refletindo seu compromisso com o meio ambiente e a compaixão para com os animais. Diferentes formas de gestão das cozinhas se apresentam, mas na maioria há uma partilha de tarefas em que pessoas da comunidade se revezam na produção de uma excelente comida orgânica, como em Zegg (Alemanha), com muitos insumos autoproduzidos. Os refeitórios são pontos de encontro e convivialidade que reforçam o sentido do viver juntos e a comida partilhada de alta qualidade alimenta a alma e diminui o custo de vida de todes. É difícil destacar apenas uma cozinha comunitária, já que todas são comoventes por isto citaremos a maior de todas que vimos, a de Auroville (India), que pode chegar a servir 2000 mil refeições por dia, e a mais pitoresca, uma cozinha à céu aberto que serve no verão à comunidade de Sainte Camelle (França).

São muito comuns os espaços coletivos de produção com ferramentas, equipamentos e insumos de propriedade comunitária. A produção de bens depende da vocação econômica da ecovila: há artesanato diverso, pequena agroindústria, como por exemplo azeite, queijos e pão integral como em Los Portales (Espanha); de produção de medicamentos e cosméticos com insumos locais como em Chambalabamba (Equador), de mel, geleias, congelamento ou secagem de frutas como em Permatopia (Dinamarca), pequena indústria baseada na reciclagem de metais, como em Songai (Benin) e muita diversidade produtiva para venda externa. A produção para autoconsumo, para além dos alimentos, é muito comum, assim como a recuperação de objetos. Há marcenarias para fabricação e conserto de móveis, carpintarias, oficinas de veículos (sobretudo bicicletas), pequena metalurgia, depósito para troca de bens usados. Com esta produção coletiva as comunidades buscam ser o mais autônomas possível, gerar renda, baratear custos e manter baixo consumo.

A arte, a cultura e a formação são o terceiro destaque das ecovilas, valorizando um aspecto que o velho mundo pouco prioriza, em seu afã de consumo por bens materiais. Muitas comunidades têm sua principal fonte de renda advinda de cursos relacionados com suas formas de viver: a permacultura, as diversas técnicas de governança comunitária, a bioconstrução, as terapias alternativas e vivências que integram muitas destas técnicas. Em Glarisseg (Suiça) existe um prédio muito bem equipado para formação, com imensas salas de aulas; em Piracanga (Brasil) há um parque de hospedagem tropical muito bonito e bem construído para participantes dos cursos, no acampamento Contestado, do MST (Brasil), há uma escola internacional de Agroecologia.

A infraestrutura cultural chama a atenção para comunidades que as vezes não chegam a 100 habitantes e têm espaço para receber centenas de pessoas. É o caso da Fazenda Plenitude (Brasil), de Matavenero (Espanha), de Chambalabamba (Equador) na qual um teatro ao ar livre é o ponto central de uma comunidade originalmente constituída de artistas. As apresentações artísticas, geralmente gratuitas, atraem muita gente de fora em grandes espaços como em Auroville (India) e Findhorn (Escócia). A arte está presente em todos os ecolugares visitados e em Arca Verde (Brasil) a beleza é vista deste a bioarquitetura das residências e espaços coletivos até as placas sinalizadoras da ecovila; em Damanhur (Itália) o Templo da Humanidade subterrâneo impressiona pela beleza e grandiosidade; em El Nagual (Brasil), o conjunto de mosaicos deixa alegre marca na lembrança. A infraestrutura para festas, como em Tamera e em Zegg, mostram o desejo de celebrar a vida, dançar, dar espaço à paquera e nutrir a alegria de estar juntos. A praça musical de Crystal Waters (Austrália), com seus imensos instrumentos musicais disponíveis a quem quiser tocar, é outra memória inesquecível do Novo Mundo, assim como a organização de residências artísticas para estimular uma arte conectada com a regeneração da Natureza, oferecidas em Terra Una (Brasil).

A dimensão do baixo consumo é a quarto destaque que fazem destes espaços visitados um “Novo Mundo”. Consumir pouco não está vinculado estritamente à restrição financeira, é uma escolha ideológica de buscar uma sobriedade feliz e que se revela nos espaços, nas construções, na forma de se vestir, entre outros. Para diminuir a pegada ecológica comunitária, ou seja, a marca que as pessoas deixam no mundo por seu estilo de vida, diversas técnicas são usadas. Muitos equipamentos são de propriedade coletiva, há serviços prestados que todos usam, como as lavanderias comunitárias, os banheiros e saunas de uso público, os refeitórios já citados. As trocas de bens usados são também constantes e em muitas ecovilas há mesmo “lojas” específicas para isto onde o que se usa pouco (roupas, eletrodomésticos, móveis, utensílios) é disponibilizado em um espaço cuidado pela comunidade para que as pessoas que necessitem possam ir lá e pegar, gratuitamente.

O quinto tema que se destaca é a cultura do feminino e o desenvolvimento de uma espiritualidade laica. As formas como cada comunidade busca superar o patriarcado são variadas: políticas, artísticas, sexuais, econômicas, comportamentais, mas também espirituais. O fato é que se vive em espaços com muito mais igualdade de gênero, onde as mulheres têm seu espaço de direito e onde geralmente são maioria e têm peso político destacado. A doçura masculina está em construção nestas experiências como em poucos outros lugares na Terra e aí os homens choram, abrem seu coração, não têm necessidade de dar a última palavra, nem de falar mais alto. Estando as forças sagradas primordiais num estado de maior equilíbrio, sem domínio do Yang sobre o Yin, a multiplicidade das escolhas afetivas torna-se natural. E assim florescem os comportamentos não binários, a experimentação afetiva, emocional, sexual, como em Terramirim (Brasil). Este tema tão caro às novas gerações pode se desenvolver e ultrapassar em muito as realizações das gerações anteriores.

Desta escolha por uma vida mais interiorizada, tão natural da força Yin vinculada ao feminino, faz com que locais de cultivo do sagrado estejam sempre presentes. Geralmente imersos na Natureza, como o templo xamânico a céu aberto de Cabrum (Portugal), mas que podem ser também espaços de grande impacto visual na comunidade como o Matrimandir, em Auroville (Índia), ou os Templos em forma de “truly”, no EcoTruly Park. Esta espiritualidade não religiosa, ecumênica, integrativa, é uma expressão poderosa da mudança de mudança de visão de mundo que percebe a realidade como matéria e energia e valoriza a parte vibratória da realidade, incluindo os pensamentos, as emoções, a dimensão sutil da Vida. Esta mesma visão de mundo percebe com clareza a interdependência entre os seres humanos, entre estes e o resto da Natureza, e a unidade de tudo, aprendendo aos poucos a perceber as complementaridades dos contrários, saindo da separatividade.

O último tema a comentar, o sexto, é consequência de tudo que já foi descrito e diz respeito à busca da vida em autogestão, a conquista de uma boa governança coletiva. Em todas as comunidades que passamos presenciamos ou ouvimos falar de momentos recentes de reuniões que mostram o compromisso de manter-se e evoluir juntes. Nas comunidades sempre existem documentos co-construídos que sintetizam o projeto, que foram evoluindo às vezes por décadas, refletindo a história coletiva e que testemunham do esforço de estar juntes de forma autogestionária. Observa-se na infraestrutura material um testemunho dos investimentos coletivos bem-sucedidos que foram sendo realizados ao longo do tempo.

Para que a governança participativa exista, uma das características mais importantes das pessoas destas comunidades se faz presente: a coragem de se abrir à transformação pessoal para que se possa gerir os conflitos. Para isto é muito importante o autoconhecimento e a capacidade de perdão, a si mesmo e aos outros e outras. Esta premissa reflete o desejo de ajudar a comunidade a superar os mal-entendidos, as impulsividades que podem ferir, os movimentos egóicos…e assim apaziguar divergências aparentemente inconciliáveis e persistir no projeto. Assim, se tivéssemos que escolher apenas uma imagem para expressar o Mundo Novo que visitamos, esta seria o círculo comunitário de discussão, à céu aberto ou em auditório, em seus momentos rituais, em votações, ou na escuta profunda de outra pessoa. Ali se joga o destino comunitário, junto às milhares de ações cotidianas que constroem as realizações que tivemos o prazer de visitar. E estes lugares existem porque pessoas os sonharam e os realizaram.

Quem são as fundadoras e os fundadores destas comunidades?

Ao pensar nestas pessoas, sentimos profunda gratidão. Estes laboratórios da nova humanidade que estamos conhecendo, com sua miríade de inovações na vida cotidiana, não existiriam sem elas. Expressar nosso agradecimento à coragem que levou estas pessoas inspiradas a criarem e a darem continuidade aos seus sonhos é uma necessidade. Foi a coragem e o sonho delas, a coragem de sonhar e de realizar que permitiu que estes lugares comunitários, ecológicos, igualitários, democráticos e mais conectados com o sagrado existissem. Pessoas inquietas e corajosas que, por anos ou décadas, decidiram que poderiam criar uma nova sociedade em escala demonstrativa e se dedicam a isto persistentemente. Sem vocês, a esperança que espalham, e o exemplo do que é possível, não estaria disponível!

Estas pessoas saíram da análise crítica do mundo como ele é, da reclamação, e decidiram construir, como sugeriu o Mahatma Gandhi, o que queriam ver no mundo. Assumir a responsabilidade, arregaçar as mangas e fazer com as próprias mãos é uma rara atitude adulta neste mundo adolescente, onde a responsabilidade de mudar é sempre cobrada dos outros. Assumir construir sonhos de forma coletiva é outra escolha rara em face da sociedade do cada um por si, da busca do sucesso individual e na qual as pessoas têm cada vez mais dificuldades de conviver, em família, em casal, em grupo. As comunidades que visitamos vão cotidianamente contra a corrente do consumismo, da competição, da concentração de poder, da alienação, e por isto são admiráveis.

Estas experiências contrastam frontalmente com a posição das pessoas que criticam o “sistema”, as elites, a vida como ela é, mas se mantêm acomodadas, como se nada pudessem fazer, sequer no seu universo pessoal e familiar. O mundo está se despedaçando em muitas frentes, mas a maioria segue vivendo de velhos modos, totalmente inadequados à cura necessária. Há também quem critica e arregaça as mangas na luta política contra aquilo que discorda, e estas pessoas são valorosas. Mas aquelas que estamos conhecendo ao longo deste projeto “Visitando o Novo Mundo” vão além, sentem em suas entranhas o apelo de construir o novo, carregam em si uma energia diferente, são sementes sagradas brotando e oferecendo um futuro melhor para a humanidade inteira.

Por conhecermos tantas inciativas de mesmo tipo que ficaram pelo caminho, desistindo diante da hercúlea tarefa à qual se propuseram – fazer o mundo melhor aqui e agora – percebemos a persistência de quem se mantém construindo o sonho como uma coragem heroica. Persistir necessita honestidade e profunda humildade para enfrentar equívocos e fracassos sem negá-los. Buscando corrigi-los. Ao mesmo tempo, persistir exige imensa confiança, em si e na comunidade, para enfrentar pressões externas e internas sem desistir. Viver este paradoxo humildade/autoconfiança não é fácil nem comum, é prova de grande valor pessoal. Viemos aqui reforçar nosso profundo agradecimento por vocês se exporem, muitas vezes ao longo de toda uma vida, de coração aberto, ao desafio de se questionar no cotidiano sobre o sonho que estão construindo. E se reinventar e continuar tentando.

Algo que se destaca nas experiências que conhecemos é a autenticidade. Em contraste com o velho mundo que valoriza tanto o sucesso a ponto de falsificar realizações grandiosas, exibir falsos sorrisos, incorporar unhas e cílios postiços e falsos cabelos pretos, mostrar músculos desproporcionais e alegrias fingidas, a honestidade de vocês é um bálsamo. Em cada conversa profunda que tivemos, em cada entrevista que fizemos, sentíamos a autenticidade e podíamos comprovar em torno de nós a verdade do que nos contavam. A honestidade das comunidades na construção de seus sonhos estava sempre à altura dos impulsos de origem destes lugares: viver sem fazer de conta, olhar com coragem para si mesmo evitando as máscaras tão confortáveis. E um contínuo desejo de caminhar mais para poder ajustar, acertar, melhorar. No contraste destas escolhas com o mundo fake que nos rodeia, as realizações de vocês tomam ainda maior estatura.

Um agradecimento particular precisa ser feito a vocês pelos avanços das práticas democráticas no cotidiano. Há muita invenção, muita tentativa e erro neste campo, numa profusão de experimentos na qual a sociocracia se destaca. Enquanto no mundo que se pretende democrático a política sucumbe ao poder do dinheiro, os governos perdem-se em um imediatismo eleitoreiro e as convicções democráticas vão se perdendo no ressentimento e na xenofobia, as comunidades que visitamos se engajam por uma democracia vibrante e inclusiva. Vocês avançam no estudo de outras formas de desigualdade que dificultam a partilha de poder, para além das mais comuns, a econômica e educacional. E se perguntam: O gênero dá privilégios? A idade? A nacionalidade? A capacidade de expressar-se oralmente? Fontes de desigualdade mais sutis que se busca combater para que o poder e a responsabilidade sigam juntos e o poder seja um serviço, muito mais que um privilégio.

Para nós, vocês constroem a democracia participativa de amanhã, competente, eficaz, inclusiva, e inspiram novas comunidades e cidades que se colocam o desafio da participação cidadã. Vimos que muitas vezes este tema é também fonte de frustrações, de sentimento de impotência pelas incompetências coletivas e pessoais, mas observem, uma democracia sã é uma ambição muito grande e uma realização pendente na história humana. É preciso que o tempo tome sua estatura, que as gerações se sucedam em um aperfeiçoamento contínuo para que se atinja um estágio que deixe as pessoas realmente satisfeitas com a democracia que experimentam. Há tantos milênios de vida autoritária para serem superados, tantos empecilhos à igualdade de poder, tantas dores a serem curadas…Vocês já fazem o que podem.

Este texto foi motivado pelo desejo de agradecer e contar resumidamente um pouco do que vimos, mas também pela observação repetida de que quando vocês cotejavam o projeto original da comunidade com a realidade vivida havia sempre certa decepção. Diante do avanço de ideologias retrógradas, de projetos abusivos contra a civilidade que a extrema direita representa, celebrar as comunidades alternativas é reforçar um campo político humanista e generoso, que honra a tradição da esquerda. Imaginamos que para vocês, como diz Eduardo Galeano, a utopia está sempre à frente, é uma linha do horizonte aonde se quer chegar. E talvez por estarem sempre trabalhando e realizando e vendo a linha do desejo estar mais adiante, em alguns momentos podem ter perdido a perspectiva larga de tudo que já foi alcançado. Mesmo no caso de experiências mais recentes, a intensidade da dedicação e as imensas dificuldades enfrentadas pode fazer com que se dilua a dimensão da celebração. É por isto que dissemos onde passamos: a mais bela realização é a continuidade. É a persistência no sonho que dá esperanças concretas, é ela que mostra o caminho.

Por isto tudo propomos ver as comunidades intencionais mais do que nunca como laboratórios de pesquisas. Como foram feitas as grandes descobertas que livraram a humanidade de dores físicas, de doenças mortais, por exemplo? Em laboratórios, onde se buscava, se persistia, se enfrentava os erros com coragem e se nutria a chama da esperança com pequenos avanços que levaram, a longo prazo, a grandes realizações. Vocês são laboratórios que buscam a cura do coração e da alma humana. Com mentes saudáveis e corpos sãos por uma vida simples e com propósito, hábitos sadios e tratamentos naturais e ancestrais, vocês vão mais fundo buscando criar soluções para as dores do coração pelas problemáticas relações humanas. Para as dores da alma, vocês buscam restabelecer as conexões com o Sagrado, para além das religiões, que tanto se traíram ao longo da História. Sem dogmas, fazem apelo à ajuda da Mãe Natureza, do Mistério, pois sabem que negar esta dimensão da Vida é uma bobagem da modernidade.

Pudemos testemunhar, diante da grande diversidade do que vimos, o espírito de laboratório, de pesquisa prática, de se deixar ser cobaia do experimento coletivo. Como nos laboratórios, onde frequentemente as teorias não se comprovam completamente na prática, é sempre presente o desejo de se reinventar a cada erro, de rever o ponto de vista inicial, de buscar evoluir junto com o sonho que está sendo construído. A cada descoberta de contradições, a cada confrontação de equívocos, estas comunidades buscaram e buscam ajustar o passo. Com coragem e humildade vocês se expõem a discussões em círculo, em fóruns, em infinitos modos de confrontarem-se mutuamente, sabendo que as outras e outros são espelhos de suas próprias contradições. Desnudam-se, crispam-se, sofrem, discutem, perdoam-se e buscam novos arranjos.

Enquanto a humanidade imersa no velho mundo, mesmo as pessoas mais ricas e educadas, tratam de apontar um inimigo externo e perdem-se na insanidade última da preparação da guerra, as comunidades alternativas que visitamos sabem que o grande inimigo é interno. Ou melhor, o grande professor/professora que nos faz evoluir está dentro, e buscam primeiro no interior de si as fontes das discórdias para encontrar meios de cura e harmonização. Na filosofia holística que estas comunidades nutrem, o que está dentro está fora, e nosso único governo é sobre o que está dentro, das individualidades pessoais e comunitárias. E haja criatividade para evoluir, para permanecer juntes, sabendo que ao curar-se internamente curam o mundo, pelo menos um pouquinho.

Haja compaixão no interior de cada ecolugar para olhar o mundo se despedaçar, se autodestruir nas mudanças climáticas, no desemprego estrutural potencializado pela inteligência artificial, nas guerras por poder e dinheiro, na sedução do poder autoritário. São comunidades pacifistas, que se engajam em lutas sociais pela emancipação dos oprimidos em geral e pela grande oprimida pelo sistema: A Natureza e sua fibra feminina, doadora de vida. Entre pacificar e combater, a filosofia holística, quântica, sistêmica é amiga da complexidade, e cada pessoa que escolhe construir um novo mundo é convidada o tempo todo a sair de suas certezas e abraçar o contraditório, o complexo, o inesperado.

E este mundo lá fora por vezes olha as comunidades com desconfiança e muitas vezes as combatem ferozmente. São exemplos subversivos em todos os sentidos da palavra, quebram tabus, incomodam, fazem as pessoas se questionarem. E as comunidades alternativas defendem-se, mas buscam brechas de aproximação com o entorno. Ao construir alianças com setores mais progressistas, com setores sociais com quem têm parceria, tentam não se isolar, mesmo com tanta diferença, mesmo com tanto trabalho a fazer internamente. Nem sempre conseguem e muitas são criticadas por serem uma “bolha”. Talvez muitas sejam, mas, façamos justiça: equilibrar autenticidade e a diplomacia com o velho mundo é um desafio enorme. Atire a primeira pedra quem acha que faria isto sem dificuldades…

Muitas comunidades vivem hoje uma nova contradição, que dificilmente poderiam ter previsto: os questionamentos das novas gerações ao que foi criado pela anterior. O tempo passa, as filhas e os filhos crescem, pessoas jovens chegam nas comunidades, encantadas com a possibilidade de experimentar novos mundos. O fato destas novas gerações já viverem em um universo societal diferente – e não terem que enfrentar o mundo partindo do zero – as faz ver ainda mais claramente as contradições da velha geração. E são ainda mais agudas na cobrança de coerência, de aprofundamento da rebeldia original, no enfrentamento de novas contradições que vão aparecendo na medida em que se avança. Mas o gap entre gerações não é privilégio do velho mundo, ele sempre aconteceu e continuará acontecendo, pois cada geração tem novos desafios. E é por isto que a sabedoria ancestral dos povos originários geria a descontinuidade com rituais que honravam a ancianidade e ao mesmo tempo o impulso da Vida que quer sempre se renovar.

Nos tempos atuais as novas gerações podem ser cruéis com as mais antigas, que se sentem sem forças para avançar como querem os jovens. Quem se estruturou para ter uma confiança infinita no projeto, para persistir, sofre ao ser questionado todo o tempo. Sem a mediação da tradição ritualística dos “ritos de passagem”, o impulso do novo que precisa ser aproveitado pela comunidade para manter viva a chama do projeto inicial, pode chegar a ser destrutivo ou pelo menos causar muita tristeza. Cabe à nova geração perceber o privilégio que receberam da construção dos que vieram antes, e saber aguardar seu tempo, mantendo seu papel de impulsionar a renovação, que inexoravelmente virá, mas sempre respeitando e reverenciando a geração anterior. Cabe à geração dos fundadores entender que o sonho inicial só se manterá vivo e com élan renovado se os jovens se sentirem parte e não repelidos. E que se chamem os xamãs, os pajés, para ritualizar a transmissão sem rupturas, que exige sabedoria de ambas as gerações. E que os exemplos que testemunhamos sejam força motriz pra que muita gente boa no mundo se lance – jovens e idosos, gente de toda crença e toda cor – a fazer com as próprias forças um novo mundo, novos mundos, que este velho está precisando ser substituído urgentemente!

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fonte: https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/viagens-ao-novo-mundo-das-ecovilas/