© Fernando Frazão/Agência Brasil
O número de vítimas de feminicídio no estado de São Paulo aumentou 96,4% em 2025, na comparação com 2021. No ano passado foram 270 mulheres mortas, ante 136 vítimas em 2021. 

Considerando os estados da Região Sudeste, 41% das mortes aconteceram em São Paulo. O levantamento é do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e foi divulgado nesta quarta-feira (4).
“O caso de São Paulo chama mais atenção pelo fato de ser um número muito grande em termos quantitativos, de 136 feminicídios para 270. Praticamente duplicou em 4 anos o número de feminicídios aqui no estado. E é um estado que já tinha uma consistência em relação à qualidade do registro da informação [no período analisado]”, disse Samira Bueno, diretora executiva do FBSP.
Diante disso, Samira afirma que há uma preocupação em relação à violência contra a mulher no estado. “Tem vários casos recentes [que ganharam visibilidade nos últimos meses], o que a gente está vendo na imprensa é, de algum modo, o que está se traduzindo nas estatísticas”, acrescentou.
Brasil
Em todo o país, no mesmo período de comparação, houve um crescimento de 14,5% nos registros de vítimas de feminicídios. Só em 2025, foram 1.568 mulheres vítimas de feminicídio no Brasil.
Em 2022, na comparação com 2021, a alta foi de 7,6%. Na sequência, em 2023 e em 2024, na comparação com o ano imediatamente anterior, o crescimento ficou na ordem de 1% ao ano. No entanto, em 2025, observou-se um novo salto, dessa vez de 4,7% em um ano.
O FBSP avalia que essa inflexão mais recente rompe a estabilidade relativa – ainda que em patamar elevado – que perdurou nos anos de 2022, 2023 e 2024 e sinaliza um agravamento que não pode ser atribuído apenas ao aprimoramento dos registros desse tipo de crime.
Violência urbana X violência doméstica
Segundo a entidade, a evolução das taxas de outros crimes contra mulheres, como ameaça, perseguição, violência psicológica, lesão corporal, estupro e tentativa de feminicídio, também vêm aumentando de forma consistente nos últimos anos, em todo país.
Os dados mostram que a redução das mortes de mulheres em contextos típicos da violência urbana (como conflitos armados, disputas em contexto de tráfico de drogas e vitimização difusa) ocorre em paralelo ao aumento da letalidade em contextos domésticos, familiares e afetivos.
“O crescimento dos feminicídios revela a persistência, e em certa medida o recrudescimento, da violência baseada em gênero no espaço privado”, diz a análise.
O fórum de segurança pública explica que, diferentemente da violência urbana, mais sensível a políticas de segurança pública tradicionais, a violência doméstica é fortemente influenciada por fatores estruturais como desigualdades de gênero, padrões culturais de dominação masculina, controle coercitivo e fragilidades na rede de proteção.
“O aumento da letalidade nesse contexto sugere dificuldades em interromper trajetórias de violência já conhecidas pelas instituições e aponta para limites na capacidade de prevenção, proteção e resposta do Estado antes que a violência alcance seu desfecho fatal”, avalia a entidade.
Medidas protetivas
Dos casos sobre os quais havia informação, 148 mulheres (13,1%) tinham Medida Protetiva de Urgência quando foram mortas. A análise desse elemento contempla 1.127 feminicídios em 16 unidades da federação.
Na avaliação do FBSP, o contingente expressivo de mulheres assassinadas mesmo após ter pedido socorro ao sistema de Justiça, mostra que a medida é insuficiente.
“A concessão da medida protetiva, embora fundamental, não tem sido suficiente para impedir a letalidade em parcela relevante dos casos, o que impõe reflexão sobre monitoramento, fiscalização e integração da rede de proteção.”
De acordo com o FBSP, atualmente o problema central não é a criação de novas leis, mas a capacidade de implementá-las de modo efetivo.
O arcabouço legal, afirma a entidade, tornou-se mais robusto, mais específico e mais atento às diferentes dimensões do problema, nos últimos anos.
Em 2026 a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Desde que foi implementada, o Brasil consolidou avanços no plano normativo de enfrentamento à violência de gênero, avalia o Fórum.
Matéria ampliada às 9h25
Expansão da rede de proteção
Duas novas Casas da Mulher Brasileira serão inauguradas em março – Macapá e Aracaju – ampliando uma rede que já conta com 11 unidades em funcionamento no país.
A Casa da Mulher Brasileira integra, em um único espaço, delegacia especializada, juizado, Ministério Público, Defensoria, atendimento psicossocial, apoio à autonomia econômica, entre outros serviços, garantindo acolhimento humanizado e atendimento integral às mulheres.
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Mais presença nos territórios
Durante o mês de março, o Ministério das Mulheres estará presente em diversos estados com a Tenda Lilás, no Governo do Brasil na Rua e nas Caravanas Federativas. Com o lema "Não passe pano para a violência. Proteja. Denuncie. Ligue 180", a iniciativa oferece escuta ativa das demandas locais, rodas de conversa e atividades culturais com foco no enfrentamento à violência contra as mulheres.
📍 Aracaju (11 e 12/03) 📍 Palmas (13/03) 📍 Natal (13 e 14/03) 📍 São Paulo (19 e 20/03) 📍 Rio de Janeiro (20 e 21/03) 📍 Belém (27 e 28/03)
Educação que previne a violência
Em março, o Ministério das Mulheres fortalece a prevenção à violência por meio da educação, com assinatura de protocolos nas universidades, regulamentação da leis e lançamento de materiais pedagógicos em parceria com o MEC, MDS e MJSP.
▶️ Protocolo de prevenção à violência nas universidades
▶️ Portaria que regulamenta a Lei nº 14.164/2021, que inclui conteúdo sobre a prevenção da violência contra a mulher nos currículos da educação básica (Lei Maria da Penha Vai à Escola)
▶️ Caderno de Orientações da Terceira Trilha do Trabalho Social com Famílias e Territórios no Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família: Prevenção da Violência Doméstica e Familiar contra as Mulheres (em parceria com o MDS).

Mais cuidotecas, menos sobrecarga de trabalho
Dez novas Cuidotecas serão inauguradas em Institutos Federais localizados em Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Rondônia e São Paulo, fortalecendo a Política e o Plano Nacional de Cuidados:
📍 Paracatu (MG) 📍 Uberaba (MG) 📍 Natal (RN) 📍 Machado, Sul de Minas (MG) 📍 Cinco unidades no IFRO 📍 Presidente Epitácio (SP)
Os novos espaços vão acolher crianças de 3 a 12 anos em horários alternativos à jornada escolar, especialmente no período noturno, permitindo que mães e demais responsáveis possam estudar, se qualificar e trabalhar sem que as responsabilidades de cuidado sejam uma barreira.
fonte: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/central-de-conteudos/campanhas/2026/marco
Combate ao feminicídio requer mudança cultural, defende Janja
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
O Brasil atingiu o recorde de 1.470 mulheres mortas no ano passado. A socióloga e primeira-dama do Brasil, Janja Lula da Silva, acredita que o fato de os homens terem projeção no Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio revela uma convergência de esforços para que as medidas contra a morte de mulheres possam avançar no país. 

O pacto é importante porque o objetivo é que as mulheres sejam protegidas, ressaltou Janja, acrescentando, no entanto, que é preciso melhorar o monitoramento do agressor.
“A gente quer que a engrenagem funcione”, sustentou, ao participar nesta terça-feira (3) do Programa Sem Censura, da TV Brasil.
Para a primeira-dama, é necessário falar sobre o tema do feminicídio, mas também agir.
“Não se pode normalizar esses crimes que acontecem no Brasil e no mundo, porque existe um discurso de ódio muito violento nas redes sociais”, alertou.
“E isso não tem limite de acesso [a esse discurso] e de idade”, destacou, ressaltando que são mais de 140 canais nas redes sociais que disseminam discursos de ódio contra as mulheres.
Janja disse se orgulhar de ter levado o tema do feminicídio para o centro do governo e fazer com que os poderes caminhem juntos para uma solução.
Ela lembrou que a ideia do pacto ter representantes dos Três Poderes é do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, algo inédito no mundo.
Na avaliação da socióloga e primeira-dama, a questão do feminicídio atinge todas as mulheres, uma vez que progressistas e conservadoras morrem do mesmo jeito.
“Da mesma bala e da mesma faca”, afirmou.
O Comitê Interinstitucional do Pacto apresentará nesta quarta-feira (4), em Brasília, as principais ações que unificam esse esforço, visando chegar a uma sociedade em que as mulheres se sintam seguras no ambiente de trabalho, na rua e em casa.
Para a primeira-dama, é preciso entender que a responsabilidade é de cada um e também do Estado brasileiro.
“Esse rumo é que a gente precisa corrigir”, defendeu.
Janja deixou claro que o principal papel do pacto é a mudança cultural, e que acredita que nas novas gerações essa mudança possa ser efetivada.
A primeira-dama destacou a insegurança vivida pelas mulheres.
"Está insuportável para nós mulheres. Eu, como primeira-dama, não tenho segurança em nenhum lugar que eu estou. Eu já fui assediada neste período duas vezes", contou. "Se eu, enquanto primeira-dama, que tenho toda uma equipe em torno, um olhar, câmeras, cuidados, sou assediada, imagina uma mulher no ponto de ônibus às 10 horas da noite. A gente não tem segurança em nenhum lugar", disse.
A apresentadora do Sem Censura, Cissa Guimarães, recebeu também no programa a diretora executiva da organização global No More Foundation, Daniela Grelin, que propõe ações de mobilização social para dar um basta à violência contra a mulher no Brasil.
A diretora de Conteúdo e Programação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Antonia Pellegrino, apresentou no programa a campanha Feminicídio Nunca Mais, realizada pela TV Brasil em parceria com a No More Foundation, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
A campanha será lançada logo mais à noite, no Santuário do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro.








