Desfile em SP enaltece o protagonismo negro. Maioria dos enredos das escolas paulistanas traz referências do legado de povos e pessoas que construíram a identidade brasileira

postado em 14/02/2026 07:46 - Correio Braziliense

 

Primeira escola a desfilar no Anhembi, a Mocidade Unida da Mooca estreou na elite do carnaval paulistano com homenagem à mulher negra -  (crédito: NELSON ALMEIDA / AFP)

Primeira escola a desfilar no Anhembi, a Mocidade Unida da Mooca estreou na elite do carnaval paulistano com homenagem à mulher negra - (crédito: NELSON ALMEIDA / AFP)
 

Primeira escola a desfilar, ontem, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, a Mocidade Unida da Mooca levou ao asfalto a força da mulher negra no enredo Gèlèdés-Agbara Obinrin, uma homenagem ao Geledés – Instituto da Mulher Negra. O tema é um dos mais presentes na edição deste ano do carnaval paulistano. Hoje, a segunda noite de desfiles do Grupo Especial também será marcada por homenagens a personalidades que simbolizam fé, arte, resistência e identidade cultural. Entre referências afro-brasileiras, espiritualidade, ancestralidade indígena e visões libertárias do mundo, as escolas prometem unir tecnologia e tradição na avenida.

Quem abre a noite, às 22h30, é a Império de Casa Verde, com o enredo Império dos balangandãs: joias negras afro-brasileiras. A escola mergulha na trajetória de Dona Fulô — nome pelo qual ficou conhecida Florinda Ana do Nascimento —, mulher negra alforriada que viveu na Bahia e se tornou símbolo de resistência ao ostentar balangandãs, joias carregadas de significados religiosos, culturais e de afirmação identitária. A narrativa exalta a força das mulheres negras que, mesmo após a escravidão, afirmaram sua dignidade e ancestralidade por meio da estética e da fé.

Na sequência, a Águia de Ouro apresenta Mokum Amsterdã – o voo da Águia à cidade libertária. O enredo faz uma viagem simbólica por Amsterdã, capital dos Países Baixos, conhecida por seu perfil progressista, pela defesa das liberdades individuais e pela efervescência cultural. A escola propõe um diálogo entre São Paulo e a cidade europeia, destacando valores como diversidade, tolerânciae vanguarda.

Léa Garcia, a deusa

Na madrugada, a Mocidade Alegre levará à avenida Malunga Léa – Rapsódia de uma deusa negra, em tributo à atriz Léa Garcia. Ícone do teatro, do cinema e da televisão, Léa foi pioneira ao ocupar espaços historicamente negados a artistas negros, tornando-se referência de representatividade e talento no cenário artístico nacional. A homenagem celebra sua trajetória como símbolo de resistência cultural e excelência artística.

A Gaviões da Fiel também não foge do tema e apresenta Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã,
enredo que destaca a luta histórica dos povos indígenas como guardiões das florestas e defensores do
equilíbrio ambiental. A proposta ressalta a sabedoria ancestral como caminho para o futuro, reforçando a importância da preservação cultural e ambiental diante dos desafios contemporâneos.

A escola Estrela do Terceiro Milênio entra com o enredo Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções foi desenvolvido pelo carnavalesco
Murilo Lobo. O poeta carioca ficou conhecido por mais de 2 mil obras ao longo da sua carreira, algumas
se tornaram clássicos da MPB, como Espelho, Tô voltando, Canto das três raças, O dia em que o morro descer e não for carnaval e Leão do Norte.

A Tom Maior, campeã do Grupo de Acesso I do ano passado, chega à pista por volta das 4h, com o enredo Chico Xavier, que vai contar uma carta escrita pelo médium brasileiro e abordar a trajetória do espírita desde sua cidade natal, Uberaba (MG).

Para fechar, provavelmente sob o sol da manhã, a Camisa Verde e Branco apresentará o enredo Abre caminhos, celebrando as diferentes manifestações de Exu, orixá guardião das encruzilhadas, dos caminhos e da comunicação, por meio de uma homenagem à construção de seus cultos e assentamento na fé brasileira. No ano passado, a escola ficou em quinto lugar.

Ruas cheias no Rio e em Salvador

No Rio de Janeiro, a folia não para, e quem dá o tom são os blocos de rua, que voltam a espalhar democraticamente cor, música e alegria por diferentes bairros do Rio desde as primeiras horas da manhã. Ninguém paga nada para se divertir. Com concentrações a partir das 7h, os cortejos atravessam o dia inteiro e entram noite adentro, arrastando multidões pelos bairros da cidade, principalmente, no Centro e na Zona Sul.

Carnaval de Rua Santa Teresa no Rio de JaneiroNo Rio de Janeiro, os blocos são democráticos e dão o tom da folia(foto: Fernando Maia/Riotur)

 

Logo cedo, os blocos de rua já ocupam o asfalto com fantasias criativas e muito samba no pé. Entre os primeiros a se concentrar, hoje, estão o Amigos da Onça, no Flamengo; o animado Bloco do Forró da Taylor, no Centro; o irreverente Blocobuster, no Leme; o tradicional Céu na Terra, em Santa Teresa; o musical Multibloco, no Centro; o Exagerado, na Praça Tiradentes (Centro); e o icônico Cordão da Bola Preta, no Centro, às 9h, um dos mais populares blocos cariocas, que arrasta os foliões ao som das antigas marchinhas de carnaval que atravessam gerações.

Com o sol mais forte, a festa dos blocos de rua ganha ainda mais intensidade. A partir das 10h, os cortejos se espalham pela Zona Sul, pelo Centro e outras regiões, reunindo milhares de foliões. Entram em cena o Bloco Escangalha, no Jardim Botânico; o Blocão da Barra, na Barra da Tijuca (Zona Oeste); o Verde e Branco do Zumbi, na Ilha do Governador (Zona Norte); a Banda do Choppinho da Paula Freitas, em Copacabana; entre muitos outros. Destaque para a Banda de Ipanema, um dos mais tradicionais cordões da cidade e um dosprefiridos dos turistas.

Pelourinho

Longe dos grandes blocos que fazem a folia de milhões de pessoas nos circuitos de trios elétricos em Salvador, o Pelourinho, no Centro Histórico da capital, é palco de atrações nacionais e de várias manifestações que formam a cultura baiana. Com cerca de 150 atrações e mais de 250 horas de música, o
Pelourinho terá uma programação gratuita, até o dia 17.

Samba, axé, rap, reggae, guitarra baiana, bailes infantis e encontros colaborativos ocupam esses espaços em diferentes modalidades. Haverá apresentações de dança, orquestras, bandinhas, DJs e performances, além de microtrios e os nanotrios, que são veículos conduzidos por pessoas ou movido com uso de pedal.

Nomes consagrados e revelações da música brasileira também farão shows no Pelô: Larissa Luz, Majur, Os Garotin, Filhos de Jorge, Afrocidade, Mariene de Castro, Nelson Rufino, Chico César e Luedji Luna estão entre as atrações. 

fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2026/02/7355158-desfile-em-sp-enaltece-o-protagonismo-negro.html

Mocidade Unida da Mooca homenageia Geledés no Carnaval de São Paulo

Escola estreia no carnaval paulista com homenagem que exalta a força e a ancestralidade das mulheres negras

Redação Jornal de Brasília

13/02/2026 9h13

Foto: Reprodução

 

PAOLA FERREIRA ROSA
FOLHAPRESS

A Mocidade Unida da Mooca vai homenagear o Geledés – Instituto da Mulher Negra em sua estreia no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo nesta sexta-feira (13), no Sambódromo do Anhembi.

Vice-campeã do Grupo de Acesso em 2025 com enredo inspirado no escritor e líder indígena Ailton Krenak, a escola de samba desfila este ano com “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, uma ode à força das mulheres negras.

“Recebemos a notícia com surpresa. Embora o Carnaval e suas escolas sejam expressões centrais da cultura negra brasileira, são raras as ocasiões em que o movimento de mulheres negras ocupa espaço na avenida”, afirma a diretora do Geledés, Natália de Sena Carneiro. O anúncio do samba-enredo aconteceu no aniversário de 37 anos da organização.

Sueli Carneiro, Nilza Araci, Lilian do Santos e outras representantes da diretoria do Geledés participarão do desfile ao lado de nomes como o da escritora Conceição Evaristo, da filósofa e pedagoga Helena Theodoro e da jornalista Semayat Oliveira. “Fizemos questão de que mulheres de outras organizações compartilhassem a avenida com Geledés, reafirmando o caráter coletivo dessa história”, completa Natália.

Esta é a primeira vez que a escola da zona leste de São Paulo sobe à elite paulista. Para o presidente Rafael Falanga, isso foi consequência do trabalho da comunidade. “São eles que entram na pista e trazem o resultado. Há pessoas conosco desde os desfiles de bairro; caso do mestre-sala Jefferson Gomes, que faz parte há 10 anos”, diz.

De acordo com ele, faz parte da identidade da Mocidade Unida da Mooca apresentar enredos que provocam reflexão e criam representatividade. “Foi assim que a gente se encontrou, falando do que a gente vive. E o Geledés converge com o que acreditamos enquanto comunidade.”

O instituto realizou rodas de conversa dentro da quadra, participou da concepção do desfile e esteve no lançamento dos protótipos das fantasias na Pinacoteca. A proposta da escola de samba é dar continuidade à parceria com o Geledés no período pós-Carnaval.

O carnavalesco Renan Ribeiro conta que o processo criativo da Mocidade Unida da Mooca começa pela criação do samba, processo comum entre as escolas nas décadas de 1930 e 1940. “A partir da composição, a gente pensa como dialogar esteticamente e discursivamente com o público.

É nesse momento que entra a pesquisa, realizada por ele em conjunto com a enredista Thayssa Menezes.

A função desempenhada por ela existe no Carnaval do Rio, mas é incomum em São Paulo.

“Com base nos artigos de Sueli Carneiro e dona Helena Teodoro e estudando mitos sobre a origem do mundo a partir da visão africana, a gente chegou ao tema ‘Agbara Obirin’, que traduzido do iorubá significa a potência feminina ou a energia da mulher africana”, conta ele.

A proposta é mostrar ao longo do desfile como essa energia se manifesta na história em diferentes períodos, relacionando os cultos iorubás destinados a divindades femininas na África —caso da sociedade Geledé, que inspira o nome do Instituto Geledés, fundado por Sueli Carneiro e outras nove mulheres em 1988 em São Paulo—, passando pela diáspora africana e chegando aos dias atuais no Brasil.

“O Geledé é uma sociedade ritual feminina de origem iorubá voltada à valorização da força, da inteligência e da centralidade das mulheres na organização da vida social. Trata-se de um culto que reconhece o poder feminino como fundamento do equilíbrio coletivo e que incorpora homens em seus rituais e processos, mas sem deslocar o protagonismo das mulheres”, conta a diretora do instituto.

De acordo com a enredista Thayssa, o enredo é todo construído a partir de espelhamentos da resistência, força e luta de mulheres negras a partir da coletividade. “Quando duas mulheres negras se encontram na rua, mesmo que não se conheçam, elas se cumprimentam porque sabem que carregam algo familiar. Estamos conectadas por essa força”, afirma ela.

“Chegamos no meio do desfile com um discurso mais político, anti-patriarcal, antirracista, anti-sexista. E na alegoria 3 propomos uma exaltação às mulheres de Candomblé enquanto líderes”, conta Ribeiro.

Sob o aspecto visual, pode-se esperar formas sinuosas nas alegorias e elementos que remetam à sofisticação e à elegância da mulher negra. O carro abre-alas foi majoritariamente construído com materiais orgânicos, como palha e bambu. O carnavalesco afirma que foi um trabalho artesanal de aproximadamente três meses, cortando pedaço por pedaço, amarrando e entrelaçando as partes que compõem a alegoria.

As cores de destaque são as da escola, com predominância do vermelho e do branco. A concepção contou com inspiração e contribuição da artista plástica Rosana Paulino, que participa do desfile no segundo carro alegórico.

Embora a escola seja formada principalmente por mulheres negras, muitas desconheciam as histórias citadas no enredo, conta Ribeiro. “Foi muito legal compartilhar com elas informações sobre a participação da mulher na construção do país e vê-las se descobrindo. Nosso samba tem um apelo muito grande. A conexão com ele vai fazer com que o público também entenda nossa mensagem.”

fonte: https://jornaldebrasilia.com.br/entretenimento/mocidade-unida-da-mooca-homenageia-geledes-no-carnaval-de-sao-paulo/

Mocidade Unida da Mooca homenageia Geledés no Carnaval de São Paulo

13/02/26
  • Samba-enredo ‘Gèlèdés — Agbara Obinrin’, faz uma ode à força da mulher negra em estreia no Grupo Especial
  • Sueli Carneiro, Nilza Araci, Conceição Evaristo e Erika Hilton participam do desfile nesta sexta-feira (13), no Anhembi

 

Mocidade Unida da Mooca vai homenagear o Geledés – Instituto da Mulher Negra em sua estreia no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo nesta sexta-feira (13), no Sambódromo do Anhembi.

Vice-campeã do Grupo de Acesso em 2025 com enredo inspirado no escritor e líder indígena Ailton Krenak, a escola de samba desfila este ano com “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, uma ode à força das mulheres negras.

Grupo de pessoas em ambiente interno segurando bandeiras coloridas com símbolos e textos. Mulheres vestem roupas tradicionais e estão de perfil, com foco nas bandeiras que exibem detalhes em vermelho, verde, branco e dourado.

 Mocidade Unida da Mooca estreia no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo – Divulgação

 

“Recebemos a notícia com surpresa. Embora o Carnaval e suas escolas sejam expressões centrais da cultura negra brasileira, são raras as ocasiões em que o movimento de mulheres negras ocupa espaço na avenida”, afirma a diretora do Geledés, Natália de Sena Carneiro. O anúncio do samba-enredo aconteceu no aniversário de 37 anos da organização.

Sueli Carneiro, Nilza Araci, Lilian do Santos e outras representantes da diretoria do Geledés participarão do desfile ao lado de nomes como o da escritora Conceição Evaristo, da filósofa e pedagoga Helena Theodoro e da jornalista Semayat Oliveira. “Fizemos questão de que mulheres de outras organizações compartilhassem a avenida com Geledés, reafirmando o caráter coletivo dessa história”, completa Natália.

deputada federal Erika Hilton e a vereadora Amanda Paschoal (ambas do Psol) também se juntarão ao grupo, ao lado da empresária Eliane Dias, da ativista Lucia Xavier e da curadora de arte Rosana Paulino. As convidadas irão desfilar em diferentes carros, incorporando aspectos do enredo.

Esta é a primeira vez que a escola da zona leste de São Paulo sobe à elite paulista. Para o presidente Rafael Falanga, isso foi consequência do trabalho da comunidade. “São eles que entram na pista e trazem o resultado. Há pessoas conosco desde os desfiles de bairro; caso do mestre-sala Jefferson Gomes, que faz parte há 10 anos”, diz.

De acordo com ele, faz parte da identidade da Mocidade Unida da Mooca apresentar enredos que provocam reflexão e criam representatividade. “Foi assim que a gente se encontrou, falando do que a gente vive. E o Geledés converge com o que acreditamos enquanto comunidade.”

O instituto realizou rodas de conversa dentro da quadra, participou da concepção do desfile e esteve no lançamento dos protótipos das fantasias na Pinacoteca. A proposta da escola de samba é dar continuidade à parceria com o Geledés no período pós-Carnaval.

O carnavalesco Renan Ribeiro conta que o processo criativo da Mocidade Unida da Mooca começa pela criação do samba, processo comum entre as escolas nas décadas de 1930 e 1940. “A partir da composição, a gente pensa como dialogar esteticamente e discursivamente com o público.”

É nesse momento que entra a pesquisa, realizada por ele em conjunto com a enredista Thayssa Menezes. A função desempenhada por ela existe no Carnaval do Rio, mas é incomum em São Paulo.

“Com base nos artigos de Sueli Carneiro e dona Helena Teodoro e estudando mitos sobre a origem do mundo a partir da visão africana, a gente chegou ao tema ‘Agbara Obirin’, que traduzido do iorubá significa a potência feminina ou a energia da mulher africana”, conta ele.

A proposta é mostrar ao longo do desfile como essa energia se manifesta na história em diferentes períodos, relacionando os cultos iorubás destinados a divindades femininas na África —caso da sociedade Geledé, que inspira o nome do Instituto Geledés, fundado por Sueli Carneiro e outras nove mulheres em 1988 em São Paulo—, passando pela diáspora africana e chegando aos dias atuais no Brasil.

“O Geledé é uma sociedade ritual feminina de origem iorubá voltada à valorização da força, da inteligência e da centralidade das mulheres na organização da vida social. Trata-se de um culto que reconhece o poder feminino como fundamento do equilíbrio coletivo e que incorpora homens em seus rituais e processos, mas sem deslocar o protagonismo das mulheres”, conta a diretora do instituto.

Mulher com cabelos cacheados e longos usa turbante colorido com padrão geométrico e conchas. Seu rosto está pintado com pontos brancos em padrão simétrico. Ao fundo, pessoas desfocadas participam de evento interno.

O tema ‘Agbara Obirin’ revermncia a potência feminina e a energia da mulher africana – Grazielle Salgado Divulgação

 

De acordo com a enredista Thayssa, o enredo é todo construído a partir de espelhamentos da resistência, força e luta de mulheres negras a partir da coletividade. “Quando duas mulheres negras se encontram na rua, mesmo que não se conheçam, elas se cumprimentam porque sabem que carregam algo familiar. Estamos conectadas por essa força”, afirma ela.

“Chegamos no meio do desfile com um discurso mais político, anti-patriarcal, antirracista, anti-sexista. E na alegoria 3 propomos uma exaltação às mulheres de Candomblé enquanto líderes”, conta Ribeiro.

Sob o aspecto visual, pode-se esperar formas sinuosas nas alegorias e elementos que remetam à sofisticação e à elegância da mulher negra. O carro abre-alas foi majoritariamente construído com materiais orgânicos, como palha e bambu. O carnavalesco afirma que foi um trabalho artesanal de aproximadamente três meses, cortando pedaço por pedaço, amarrando e entrelaçando as partes que compõem a alegoria.

As cores de destaque são as da escola, com predominância do vermelho e do branco. A concepção contou com inspiração e contribuição da artista plástica Rosana Paulino, que participa do desfile no segundo carro alegórico.

Embora a escola seja formada principalmente por mulheres negras, muitas desconheciam as histórias citadas no enredo, conta Ribeiro. “Foi muito legal compartilhar com elas informações sobre a participação da mulher na construção do país e vê-las se descobrindo. Nosso samba tem um apelo muito grande. A conexão com ele vai fazer com que o público também entenda nossa mensagem.”

fonte: https://www.geledes.org.br/mocidade-unida-da-mooca-homenageia-geledes-no-carnaval-de-sao-paulo/

Geledés: quem é o instituto homenageado por escola de samba que quer fazer a “casa grande tremer” no Anhembi

Nesta sexta-feira (13), a Mocidade Unida da Mooca estreia no Grupio Especial com o enredo ‘Gèlèdés – Agbara Obìnrin’, uma celebração da força ancestral feminina que cria vida e reverbera. O enredo presta uma homenagem ao Instituto da Mulher Negra, Géledes, referência no combate antirracista e de violência de gênero

Por Lívia Maria, redação Marie Claire — de São Paulo (SP)

 

Geledés: quem é o instituto homenageado por escola de samba que quer fazer a “casa grande tremer” no Anhembi
Geledés: quem é o instituto homenageado por escola de samba que quer fazer a “casa grande tremer” no Anhembi — Foto: Woody Henrique (Liga-SP)/Grazielle Salgado
 

Em sua estreia no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, a Mocidade Unida da Mooca desfila nesta sexta-feira (13) prestando uma homenagem ao Geledés, um expoente do movimento negro brasileiro. Fundado em 1988, ele se tornou um dos mais importantes centros de referência para a população negra e periférica. Liderado por Sueli Carneiro, sua figura máxima, o grupo tem um longo histórico na tentativa de sensibilizar governos e a sociedade civil para o fim do racismo e do sexismo.

O enredo, Gèlèdés – Agbara Obìnrin, que foi desenvolvido pela enredista niteroiense Thayssa Menezes, também dialoga com a cultura do povo Iorubá e lembra outros movimentos de luta liderados por mulheres, como a Irmandade da Boa Morte e o Movimento das Marisqueiras de Sergipe. A ideia é unir ancestralidade e luta. 

“É uma responsabilidade muito grande. Ao lado do Renan Ribeiro (carnavalesco da MUM), que é um grande aliado dessas pautas, queremos que nada esteja fora do lugar. Temos o cuidado para que nossa mensagem fosse transmitida”, conta em entrevista a Marie Claire. “Agbara Obìnrin é essa força que cria e nos move. É ela que movimenta nossas lutas por justiça social da África até o Brasil. Hoje, isso reverbera em instituições como o Geledés, um espelhamento do nosso poder”, completa.

Além da exaltação da luta das mulheres negras, a Mocidade Unida da Mooca, também pretende pedir um basta – o aumento de casos de feminicídio no país (42 por dia em 2025), é um dos motivos para a escolha do tema. Menezes explica que esse grito ganha força através das “mães ancestrais” da tradição Iorubá:

“As Ìyámìs são temidas justamente por sua força, vista até mesmo como destrutiva. São figuras que podem ser vistas com medo. Nós estamos passando por todo tipo de violência possível e não há nada que uma mulher tema mais que um homem. Tê-las no enredo é dizer: ‘homens, parem de nos matar, porque temos quem nos guarda e cuida de nós”.


Thayssa Menezes, enredista da Mocidade Unida da Mooca — Foto: Reprodução/Instagram
 

‘Alegria enorme’

A homenagem para o Geledés foi escolhida por sua importância para as mulheres negras no Brasil. Muito além de um centro de pesquisa, o instituto, na visão do enredo, promove uma renovação da força das iyabás. Por isso, elas fizeram parte do processo criativo da agremiação.

“Elas estiveram nos ensaios técnicos, nas atividades da escola e no nosso barracão. Houve momentos de troca, que são muito importantes, com Sueli Carneiro e as diretoras do projeto, para alinhar aquilo que faltava. Fomos lapidando esse diamante para que todas se sintam representadas. Nos dá uma alegria enorme ver o produto final”.

Vice-presidente do Geledés, Lilian Ribeiro celebra o enredo como validação da trajetória de mulheres do Instituto em uma luta incansável: "É reconhecimento de uma trajetória construída com compromisso social e produção de conhecimento sobre equidade racial e de gênero. É simbólico ver essa história ocupar um espaço de grande visibilidade cultural", comenta.


Lilian Ribeiro, vice-presidente do Geledés — Foto: Reprodução/Instagram

 

Pilar da organização, ela também analisa a exaltação de Sueli Carneiro, fundadora do Geledés, ao lado de grandes mulheres, como Laudelina de Campos Melo e Conceição Evaristo, durante o desfile: "A homenagem é significativa e necessária. Sueli é uma das principais pensadoras do país e celebrá-la na avenida amplia o acesso do público a referências fundamentais da história brasileira".

No samba-enredo, um verso tem chamado a atenção: “casa grande vai tremer”. O trecho reforça o poder transformador de mulheres negras que lutam contra o patriarcado e o racismo. “Queremos chacoalhar esse pensamento colonial, disputar o passado, ressignificando aquilo que nos é imposto desde a infância, e projetar um futuro às mulheres”, afirma a enredista.

A pesquisadora conta que a ideia não é apenas falar de momentos dolorosos e violentos da existência negra, mas também de suas vitórias. No horizonte está um ideal de futuro. “É um ato de resistência para reconstruir a sociedade por um viés mais equânime, feminino, negro e diverso. Nossa mensagem no enredo é essa: nunca mais um país, uma sociedade e uma política sem nós”.

"Quando trajetórias historicamente invisibilizadas são celebradas, ampliamos repertórios, fortalecemos referências e contribuímos para uma sociedade mais consciente e plural", acrescenta ainda Lilian.


Geledés é instituto homenageado por enredo da Mocidade Unida da Mooca no Carnaval de São Paulo — Foto: Reprodução/Instagram (Nathalie Rocha)

fonte: https://revistamarieclaire.globo.com/cultura/noticia/2026/02/geledes-quem-e-o-instituto-homenageado-por-escola-de-samba-que-quer-fazer-a-casa-grande-tremer-no-anhembi.ghtml