Laura Juanita
Membra da equipe autogestionária do Cfemea
27 de março de 2026

 

 

Por meio das experiências coletivas de organização, luta e participação popular, muitas vozes se reúnem para questionar as contradições do contexto em que vivemos, somando forças para serem ouvidas, furando o cerco dos silenciamentos e esquecimentos. Desta forma, neste mês de março, nós mulheres e todas as pessoas em luta social por direitos, fomos às ruas nas ações e mobilizações do 8 de março.

gabriela guacira laura2026 hellen gabriela isabel guacira 2026

Com bandeiras dos movimentos de mulheres, feministas e populares; com estandartes por agroecologia, reforma agrária e demarcação de territórios indígenas e quilombolas; com faixas pelo fim da escala 6x1 e pela legalização do aborto; com cartazes em solidariedade à Palestina, à Venezuela e à Cuba; com camisetas dizendo “Marielle Vive!”, “Basta de feminicídios!” e “Sem anistia para golpistas!”; com esperanças e sonhos de tantas formas e cores, ocupamos espaços públicos no mundo todo para manifestar nossa rebeldia em relação à ordem social de desumanização e de destruição ecológica e social que estamos vivendo. Caminhamos com aquele tipo de esperança sobre a qual escreve Eliane Potiguara em “Metade cara, metade máscara”:

“O que é da vida?

Se sofremos...

Se choramos...

Por que não sorrir?

E deixar o rio de mágoas

Que nos sufoca.

Secar ao sol da esperança

Da vontade de viver...

Da vontade de nossa terra.” (POTIGUARA, 2018, p. 141)

A partir da mística das mobilizações do 8 de março, também ao longo de todo este mês seguimos cultivando encontros entre mulheres, buscando multiplicar e ecoar o som da resistência e da mudança que queremos, construindo juntas nossas rodas de autocuidado, cuidado coletivo e cuidado político com o projeto feminista, antirracista e popular de sociedade que necessitamos para viver, ter saúde, acessar direitos e políticas públicas, sermos sujeitas de nossas próprias histórias, sermos livres das violências e feminicídios.

integrantes mesa assembleia laboratorio fev2026 grupos trabalho ana primavesi marco2026

 

Vemos ao nosso redor um contexto de crises socioambientais, geopolíticas e econômicas, as quais aprofundam os problemas sociais que atravessam nosso cotidiano de vida, ampliando a escassez e as barreiras de tudo que é fundamental à dignidade humana - como o direito de ser, o direito à diferença, o trabalho com direitos e todos os demais direitos humanos: terra e moradia, alimentação saudável, cultura e lazer, participação política, entre outros. Conforme disse Silvia Federici em “O patriarcado do salário”:

“No momento em que escrevo, incêndios queimam centenas de hectares de florestas (...), oceanos estão sendo transformados em lixeiras, recifes de corais estão morrendo, plantações são envenenadas, quimicamente, espécies animais são extintas, bem como culturas, línguas e populações, ao mesmo tempo em que um novo processo de colonização está em curso para obter minerais imprescindíveis à digitalização da produção, levando novamente ao deslocamento em massa, ao constante estado de guerra e a uma perda imensurável de vidas humanas.” (FEDERICI, 2021. P. 18)

E assim, os desafios estão entrelaçados e, portanto, nos desafiamos cada vez mais a nos enredar e somar forças, para com redes fortes tecer as alternativas coletivas. Na sociabilidade contemporânea as desigualdades não são temporárias, mas são históricas e estruturais, pois, a lógica hegemônica de mercantilização da vida é antagônica à democratização do acesso à terra e aos bens comuns, aos meios de produção, à riqueza socialmente produzida e aos próprios direitos humanos.

Este antagonismo decorre do fato de que o tempo e espaço da vida social são estruturados por sistemas de dominação arcaicos e cruéis, como o patriarcado cis-heteronormativo, o racismo, o capitalismo e o imperialismo, que se fundamentam nas divisões social, racial, sexual e internacional do trabalho e que se expressam em todas as dimensões da sociedade. Ou seja, se expressam: na precarização das relações de trabalho e no adoecimento das mulheres e trabalhadores do campo e da cidade; na sub-representação política dos grupos e classes sociais em situação de pobreza e desigualdades; nas relações autoritárias, conservadoras, fundamentalistas e fascistas que atravessam escolas, universidades, igrejas, mídias, redes sociais, famílias e comunidades oprimindo, controlando, fazendo guerras e impondo sofrimentos aos corpos e subjetividades das comunidades e povos, sobretudo, das mulheres e meninas negras, indígenas, periféricas, camponesas, migrantes.

Desta forma, perspectivas feministas antirracistas populares do campo e da cidade têm um compromisso ético-político com o enfrentamento de todas as desigualdades e espoliações, portanto, construímos espaços políticos para avançar a partir de nossos territórios de luta, cuidado e sustentação da vida. Em “A mulher na sociedade de classes: Mito e realidade”, Heleieth Iara Saffioti fala:

“Preconceitos de raça e sexo desempenham, pois, um papel relevante quer na conservação do domínio do homem branco, quer na acumulação do capital.” (SAFFIOTI, 2013, p. 82)

“Incentivar atitudes que discriminam certas categorias sociais significa assumir um comportamento altamente racional em relação a fins na medida em que esses contingentes humanos constituem reservas de trabalho das quais se poderá lançar mão e a bom preço. A secularização do pensamento é, pois, fenômeno subordinado aos interesses da ordem imperante nas sociedades de classes. Os preconceitos, aparentemente retardadores da implantação da ordem capitalista, funcionam, no fundo, como fatores auxiliares ponderáveis da conservação dessa mesma ordem. É limitando, através do uso cuidadoso das imagens estereotipadas o grau e a extensão da integração de certas categorias sociais no sistema de produção de bens e serviços, que este se resguarda de possíveis rupturas (...).” (SAFFIOTI, 2013, p. 89)

Daí que podemos compreender os motivos pelos quais a lógica do capital não é mera “ordem e progresso”, mas um processo dialético e contraditório de desenvolvimento imbricado nos terrores arcaicos de nossa formação sócio-histórica e econômica que é escravocrata, latifundiária, patriarcal, racista, colonial, autoritária, fundamentalista, feita de ditaduras, golpes, privatizações e grilagens. Estamos lidando com as contradições que se expressam de formas novas nos dias de hoje, mas cujos alicerces estão em uma formação social e econômica de centenas de anos, em relação à qual também existem lutas e resistências históricas: de povos originários, de quilombolas e demais comunidades tradicionais, de camponesas e camponeses, de atingidas e atingidos por barragens, de trabalhadoras e trabalhadores sem terra, de operárias, operários e sindicatos, de trabalhadoras rurais, domésticas, periféricas, da área da saúde, professoras, cuidadoras, e muitas mais. Buscamos intervir nesta formação social por meio da construção de políticas públicas para as mulheres, com orçamento adequado para que cheguem nos territórios e mudem as realidades de vida nas comunidades, mas a partir de uma estratégia que também tenha raízes profundas, ao se somar aos processos de construção de força social feminista, antirracista, popular e transformadora nos territórios.

Isto demanda das lutadoras e lutadores sociais avançar na organização popular e na construção de experiências alternativas para a autonomia das mulheres e o bem viver dos povos, construindo relações de forças favoráveis à conquista dos direitos, políticas e finanças públicas para atendimento das necessidades humanas, sobretudo, em um ano eleitoral como 2026. Este ano já vem sendo intenso, com as ruas e as datas de lutas sendo disputadas por candidatos e candidatas golpistas, fascistas, conservadores aos quais precisamos estar alertas e não nos deixar enganar. Precisamos conhecer e participar da eleição de candidaturas populares, feministas, trabalhadoras, sem terras, indígenas, negras, LGBTQIAP+, que tenham propostas comprometidas com a defesa da vida das mulheres e do povo, com a defesa da democracia e do Estado Laico, Democrático e de Direitos livre de terrorismo de Estado, livre de golpes políticos e financeiros e livre de retrocesso nas leis e direitos conquistados coletivamente. Neste sentido, as lutas das mulheres por direitos - em suas diversidades e, considerando as barreiras e privilégios que constituem também desigualdades entre si mesmas como grupo social – são para transformação estrutural da sociedade e não podem ser reduzidas às questões identitárias, conforme a perspectiva liberal sobre as mulheres. Em teoria, o liberalismo e a candidaturas liberais e de direita se apresentam como referência de liberdade, igualdade, fraternidade, cooperação, soberania e democracia, porém, a realidade concreta da vida no contexto atual em que o neoliberalismo é hegemônico, tem sido ao contrário de suas falsas promessas: despejo, fome, criminalização dos movimentos sociais, encarceramento em massa, genocídios, feminicídios, competição e individualismo, dependência e bloqueios, guerras imperialistas por minérios raros, commodities, fontes de energia.

Deste modo, a conjuntura em que vivemos é uma crise civilizatória que coloca em risco a vida da humanidade e do planeta e que requer mudanças estruturais, requer nossa participação política na construção de um projeto ético-político, crítico, popular que conquiste corações e mentes, angariando espaço na sociedade contra as bancadas conservadoras no Congresso Nacional (como as bancadas do boi, da bíblia, da bala, das bets, dos bancos...) que disseminam a cultura do ódio, da desqualificação e da violência política contra as mulheres lutadoras sociais. Precisamos reconhecer como esta lógica perversa da exploração do trabalho e da sub-representação política incide sobre o aumento das violências contra as mulheres e dos crimes hediondos de feminicídios no país, tanto nos espaços domésticos como nos lugares públicos: ruas, espaços políticos, escolas, redes sociais, entre outros.

Consoante o relatório “Retratos dos Feminicídios no Brasil”, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no ano de 2025, foram registradas 1.568 mulheres vítimas de feminicídio no Brasil. Comparado a 2024, trata-se de uma taxa crescente em 4,7%. Destarte, o mesmo relatório identifica que 62, 6% das vítimas de feminicídios são mulheres negras. Considerando a existência de leis contra a violência doméstica e o feminicídio no Brasil, estes dados apontam para necessidade de ampliar e monitorar o orçamento e a implementação de ações, programas e políticas públicas de proteção e de prevenção e enfrentamento às violências e desigualdades de gênero e raciais. Assim, é importante afirmar como as relações raciais e de classes estruturam também de forma imbricada os fenômenos sociais das violências contra mulheres, das violências de gênero e dos feminicídios, violando direitos e constituindo barreiras ainda maiores às mulheres negras, mulheres trans, quilombolas e das demais comunidades tradicionais, indígenas, dos campos, florestas e águas e das periferias urbanas. Como escreve Verônica Gago, em “A potência feminista ou o desejo de mudar tudo”, sobre uma “guerra interna” que coexiste com as guerras imperialistas bombardeando o sul global:

“Na América Latina, a realidade do feminicídio exige voltar à pergunta sobre seu significado: que mensagem é transmitida por esses crimes que, agora, parecem não mais se restringir ao âmbito doméstico, podendo acontecer no meio de um bar, em um jardim de infância ou na própria rua? O feminicídio desencadeia uma ‘pedagogia da crueldade’, indissociável de uma intensificação da ‘violência midiática’ que opera espalhando as agressões contra mulheres ao mesmo tempo que difunde a mensagem do assassino e confirma um código de cumplicidade relativo a um modo de exercício da masculinidade.” (GAGO, 2020, p. 96)

As violações de direitos e as violências atravessam nosso cotidiano de forma mais acelerada em tempos de crise, exigindo respostas a curto prazo na luta pela sobrevivência. No entanto, as mudanças estruturais requerem também construir condições para construirmos alternativas a longo prazo, também visibilizando e valorizando a participação das mulheres em todas as dimensões da vida social: na produção, na reprodução social e nos cuidados. Mas, e como fica o tempo para se indignar e transformar estas contradições que parecem cada vez mais naturalizadas? Como fica o tempo para sonhar e imaginar outras formas possíveis de se viver? Como fica o tempo para descansar, recompor forças e construir na prática as alternativas que necessitamos?

Deste modo, também precisamos reconhecer: ainda que pareça evidente que a realidade precise ser transformada, uma das armadilhas mais perversas desta ordem social de mercantilização da vida é reduzir as mulheres, trabalhadoras do campo e da cidade, povos e comunidades à situação de objetos dos projetos das elites nacionais e internacionais: fazendo parecer que as desigualdades sociais são decorrentes de falhas e culpas individuais de cada pessoa, acirrando a perspectiva individualista e competitiva como paradigma de relações, invisibilizando e criminalizando as alternativas em curso como se não existissem memórias de outras formas de se viver e nem novas experiências por onde ir, fragmentando e tentando fazer fracassar os processos de mudança social. Conforme nos ensinou Lélia González podemos desafiar a identificação com os dominadores e suas mistificações da realidade, pois, em “Racismo e sexismo na cultura brasileira” ela já dizia:

“De saída, o que se percebe é a identificação do dominado com o dominador. E isso já foi muito bem analisado por Fanon, por exemplo. Nossa tentativa aqui é a de uma indagação sobre o porquê dessa identificação.” (GONZALEZ, 2020, p. 76)

“A gente fala das noções de consciência e de memória. Como consciência a gente entende o lugar do desconhecimento, do encobrimento, da alienação, do esquecimento e até do saber. É por aí que o discurso ideológico se faz presente. Já a memória, a gente considera como o não saber que conhece, esse lugar de inscrições que restituem uma memória que não foi escrita, o lugar da emergência da verdade que se estrutura como ficção (...). Mas a memória tem suas astúcias, seu jogo de cintura; por isso, ela fala através das mancadas do discurso da consciência.” (GONZALEZ, 2020, p. 78-79)

Mas, as saídas existem e elas são coletivas. As mulheres, os povos, grupos e classes sociais são sujeitos de suas próprias histórias, têm a capacidade de ação coletiva, intervenção e transformação nas relações sociais. Estamos aqui em mais um mês de março, rebeldes, alertas e afirmando que devido a tudo isso as memórias e experiências de vida, os saberes e práticas das mulheres do campo, das florestas, das águas e das periferias urbanas são revolucionários, sobretudo, quando se encontram. As mudanças são necessárias e urgentes à vida das mulheres, de suas famílias e comunidades, de seus povos, de suas companheiras e companheiros de movimento popular e mesmo que a tendência das estruturas seja nos imobilizar, vamos percebendo cada vez mais que as saídas das encruzilhadas civilizatórias e socioambientais de nosso tempo serão coletivas.

Quando vemos as contradições do nosso tempo a partir do ponto de vista coletivo e em conexão com a natureza, recuperamos nossa memória de sujeitos protagonistas de novas histórias de bem viver. Mesmo que as contradições de nosso tempo se expressem por meio de tantas violências, violações de direitos e destruição socioambiental com o objetivo de reproduzir desigualdades barrar o fluxo do rio das mudanças necessárias “as mulheres são como as águas: crescem quando se encontram”. Estamos cultivando processos organizativos que viabilizem o florescimento de empreendimentos coletivos e autogestionários entre mulheres, assumindo um compromisso com a defesa da vida, com a resistência e a territorialização das lutas. Defesa da vida no sentido de defender o direito de ser da diversidade de vidas, culturas, tradições de fé e, também, de assumir as responsabilidades necessárias para sustentar a continuidade da vida.

plenaria laboratorio df fev2026

Estamos olhando para os territórios, compreendendo que ali estarão as alternativas à sociabilidade patriarcal, racista e capitalista em que vivemos e é importante refletir sobre qual perspectiva de território nos fundamenta. Será a continuidade de territórios a serviço dos interesses estratégicos de elites e potências econômicas e políticas, sendo degradados com o extrativismo agrário para exportação de minérios e commodities? Ou será uma perspectiva transformadora, de territórios enraizados na autonomia, visibilização e valorização dos trabalhos, saberes e práticas das mulheres, nas necessidades humanas, na agroecologia, nas soberanias dos povos, nos direitos à segurança alimentar e nutricional e à soberania alimentar, à saúde e ao bem viver? Temos nos dedicado a esperançar e seguir adiante pela perspectiva transformadora, sabendo que cada grupo de mulheres pode ser uma pequena gota de água, mas que conseguem se encontrar e constituir rios, mares e muitas ondas feministas que movimentam as estruturas trazendo as mudanças necessárias à vida.

reuniao keno go marco 2026

Na defesa deste segundo paradigma, olhamos para nós mesmas, para nossas histórias de contradições, desigualdades, privilégios e barreiras, para saber onde queremos chegar. Olhamos para nossas necessidades humanas, como a própria necessidade de autocuidado e cuidado coletivo e reinventamos o jeito de fazer política, o jeito de se unir, em um processo de cuidado que não é perfeito, mas que se propõe a avançar como elemento importante para um novo projeto popular de país, para transformação do sistema político, para transformação das formas de participar, para avançar em temas que tem sido bloqueados no Congresso Nacional: como a legalização do aborto, a erradicação do uso de agrotóxicos, a realização da reforma agrária popular, entre outros. Não estamos alheias aos desafios de nosso tempo, pois, estando atentas é que seguimos em frente com pés no chão, na terra, nos territórios e comunidades, cultivando raízes de lutas.