A troca de postos e cargos precisa ser mais que discursos e cargos sem capacidade real de intervenção. Atuar de forma incisiva para que os ministros e secretários indiquem pessoas negras para o primeiro e segundo escalão é permitir que as nossas novas gerações que subiram aquele palanque possam de fato estar representadas no governo.

 

6/01/2023


Luciane Reis (Foto: Arquivo Pessoal)

Caros amigos, a história, mais do que discursos, é feita de imagens e acima de tudo ação prática. Inicio essa escrita correndo o risco de ser apedrejada ou, ainda, de  ter o meu currículo retirado das diferentes mesas que o mesmo tem sido submetido nesta minha caminhada ao longo do tempo. Mas enquanto homens e mulheres negras, a política, a história e a democracia precisam e devem ser vistas sob outra ótica. A ótica da construção da nossa dignidade, tendo como princípio fundamental não somente a garantia de acesso a direitos fundamentais previstos na constituição. Para que possamos de fato pensar o futuro e o bem-viver, ter nossos nomes sendo colocados nos diários oficiais e não somente nos discursos e imagens belíssimas como as que vimos no dia 1 de janeiro de 2023, é central. 

Para que não passemos pelas mesmas formas de participação política enquanto coadjuvantes, subordinados a segundo plano somente para que determinados nomes não sejam visto como racistas, lembramos que se não ocorrer ações concretas de contratação, colocação de pessoas negras em diferentes espaços nestes novos governos respeitando as trajetórias, construção política e acima de tudo competência técnica e social, o antirracismo branco não passa de uma enganação. Não podemos esquecer que ações concretas nos permitem acessar não só nossa autoestima, como também a autovalorização e acima de tudo o fortalecimento de nossas comunidades enquanto alicerce de futuro. Esse é um desafio e convite a reflexão concreto que está colocado para os novos governos que se apresentam como antirracistas e dispostos a lutar por igualdade. 

Se você como eu tem mais de 40 anos, deve se lembrar como nossa contribuição ocorria nos primeiros momentos do movimento estudantil e político neste país.  Para quem é mais jovens resgato a memória de nossa participação nas atividades e manifestações, onde após os diferentes atos por um país melhor, nossos queridos amigos brancos que marchavam ao nosso lado entrava em seus carros e táxis ( Uber é uma inovação atual) e iam para suas casas ou celebrar em algum ambiente bonito, enquanto que nós, os considerados aliados desta tão celebrada revolução e democracia, ficamos no ponto de ônibus esperando o último pernoitão ( nome dado ao transporte noturno por moradores de   Salvador ) rezando pra chegar em casa sem que nada acontecesse.

Mas o que isso tem a ver com a posse de Lula e dos demais nomes que tem se apresentado como combatentes destas tão famigeradas desigualdades em um dos momentos como o que temos pela frente? Tem a ver que se a história é feita de atos e ações práticas, olhar o retrato do país que se configura a partir dos Diários Oficiais, precisa também ser um ato emocionante e histórico. Nomear pessoas negras para diferentes espaços de trabalho e posições de decisão política é parte da democracia que estamos e queremos celebrar. Observar qual Brasil tem tomado posse no Diário Oficial em nosso país, estado e municípios é um destes momentos que queremos deixar para a história. 

Adentramos as universidades, cobramos nosso direito enquanto cidadão, possuímos os mesmos títulos, competências e habilidades que os nomes apresentados à sociedade pelos ministros e secretários de estado até o momento. Então, o que tem impedido que esses, diante de discursos tão emblemáticos, tenham em suas equipes nomes negros ocupando as chefias de gabinete, assessorias e coordenações? O governo que tem nos emocionado com as simbologias, discursos e uso de imagens, precisa transferir esses seus atos de respeito à igualdade para o Diário Oficial. Precisa apresentar a sociedade nomes negros  em posições dignas alterando a realidade de  mesmos referenciais e tonalidades tão comum aos governos em todas as esferas do país.

A troca de postos e cargos precisa ser mais que discursos e cargos sem capacidade real de intervenção. Atuar de forma incisiva para que os ministros e secretários indiquem pessoas negras para o primeiro e segundo escalão é permitir que as nossas novas gerações que subiram aquele palanque possam de fato estar representadas no governo. Não queremos mais ser a banda que anima, ou a imagem que simboliza. Queremos estar no dia a dia do que se tem chamado democracia. Claro que é bacana ser a imagem que emociona o país, mas romper com a romantização das nossas batalhas diárias pela sobrevivência é mais emocionante ainda. Queremos que o hábito tão comum de ficar no ponto de ônibus ao final dos potentes atos celebrados como inclusivos, enquanto quem diz lutar pela gente entra em seus carros, deixe de ser algo tão naturalizado diante da situação de vulnerabilidade e incertezas financeiras e de trabalho que vivemos. 

De acordo com o nosso presidente, “a alma do Brasil reside na diversidade”, debater a alma deste país passa então por cobrar dos partidos aliados que seu pedido de diversidade nas indicações seja cumprido. Não temos dúvida do quanto foi lindo o discurso e as imagens que a posse de Lula deixa para história deste país, mas também queremos como se diz na Bahia pagar nossa conta de luz e de Internet, afinal caros amigos brancos e pretos que se emocionaram com tanta simbologia, em nossas casas também dá meio dia. 

Só o Governo Federal possui 84.470 mil cargos ocupados por concursos, sendo 10.344 voltados para funções de direção e assessoramento superior (DAS) em comissionamento, de acordo com os últimos dados do Ministério da Economia. Reforçar as cotas nos concursos públicos com fiscalização e obrigatoriedade de contratação é central. É inadmissível que dentro deste quantitativo de vagas de trabalho, pessoas negras representem menos de 40% dos nomes que aparecem no Diário Oficial com poder de decisão. É claro que celebro tudo que aconteceu no dia da posse. Mas como eu, acredito que muitos de nós preferem que essas lágrimas venham junto com o salário que vai cair na conta dos nomes anunciados pelos ministros até então, ao invés de chorar por não saber como pagar contas mínimas do dia a dia. 

Querer trabalho digno é um princípio básico de busca por humanidade e cidadania! Mais do que emocionar, queremos viver com a mesma dignidade de acesso que os nomes que têm sido chamados até o momento para compor os diferentes governos. Somos mais de 50 % da população de acordo com o IBGE, não fazer parte quantitativamente de qualquer gestão neste pais, é paliativo antirracista. Neste sentido, convido sua emoção, choro e toda simbologia da posse a mandar nossos nomes para o Diário Oficial, no intuito de como você, querido amigo branco antirracista, poder reconstruir o Brasil e pagar nossas contas com dignidade. E isso não acontece se só vocês forem os nomes que voltam para os lugares de sempre.

Feliz ano novo! Que esse ano comece com dignidade e trabalho para as diferentes pessoas negras deste país!

BiografiaLuciane Reis é publicitária, tem mais de 15 anos atuando como gestora pública nas três esferas de governo, em áreas como assessoria de comunicação, parlamentar e community manager. Tem especialização em educação digital pela Faculdade de Educação da UFBA e mestrado em desenvolvimento e gestão pelo CIAGS na Faculdade de Administração da UFBA. É pesquisadora da área de  Economia,  Diversidades, Desenvolvimento de Pessoas e Inclusão Racial. Head de Mercafro e líder acelerada do Programa Marielle Franco do  Fundo Baobá.

 

fonte: https://www.geledes.org.br/a-democracia-do-discurso-imagens-e-simbolos-que-ainda-faltam-ser-vistos-no-diario-oficial-desafios-postos-aos-gestores-antirracistas/

 


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