Além de salvar os yanomami, é preciso aprender sobre e com eles e lembrar que o Brasil tem muitas urgências antigas e arraigadas. E que não há transformação possível que não passe pela educação.

 

DW Brasil
26 de janeiro de 2023
 
 

Imagine que uma bomba de média proporção tenha destruído e matado todos os alunos e alunas de uma escola no Brasil. Uma escola de médio porte, cujo corpo discente gira em torno de 570 estudantes.

Seria uma tragédia sem precedentes.

Pois bem, foi mais ou menos essa a catástrofe que se abateu sobre os yanomami nos últimos quatro anos. No total, 570 crianças de diferentes comunidades yanomami morreram de causas evitáveis, como desnutrição e doenças facilmente curáveis – para as quais já existem vacina e remédios há muito tempo.

Uma escola inteira de yanomami foi morta.

No entanto, e infelizmente, essa foi apenas a ponta do iceberg. Essas 570 mortes apontavam para a ação que muitos consideram genocida do último governo na elaboração de políticas públicas para as populações indígenas, sobretudo aquelas que se encontram em regiões mais afastadas e isoladas. Políticas que estão alicerçadas numa ideologia fascista e também nos interesses econômicos diretamente ligados ao exercício ilegal do garimpo em terras indígenas (um problema endêmico no Brasil).

Genocídio também é deixar morrer

Muita gente pode achar o uso da palavra genocídio um exagero. Afinal, esse é o mesmo termo utilizado para tratar dos campos de concentração do Holocausto na Segunda Guerra Mundial e da política empregada pelos nazistas em diferentes partes do mundo.

Mas o genocídio também pode ser mantido em fogo brando, aplicado em doses homeopáticas, numa política de total desassistência que ignorou ao menos 21 pedidos de socorro.

Genocídio também é deixar morrer.

E esse deixar morrer foi, por muito tempo, a forma como o Estado brasileiro lidou com grande parte das questões que diziam respeito aos segmentos da população cuja humanidade era colocada em xeque por esse mesmo Estado.

 
Urgências que se sobrepõem

Por isso, junto com ações imediatas e fundamentais que garantam a sobrevivência e o tratamento digno aos yanomami (já iniciadas pelo governo Lula), é preciso lembrar que herdamos um país de muitas urgências, urgências que por vezes se sobrepõem.

E talvez esse seja o grande desafio dos próximos quatro anos: como escolher qual urgência é mais premente, mais inadiável.

Acredito que uma das saídas possíveis e necessárias passe pela criação dos ministérios dos Povos Indígenas e da Igualdade Racial, ambos dirigidos por mulheres que, além de serem indígena e negra, têm uma longa história de luta e militância nessas causas. Mas também porque são duas mulheres que, de formas distintas, sabem que essas são as causas do Brasil, a despeito da tentativa de marginalizar o racismo como um problema estrutural da nossa nação.

Por isso, volto aos discursos de posse das duas ministras, Sônia Guajajara e Anielle Franco, fazendo o pequeno adendo de que, caso não fossem os atos golpistas de 8 de janeiro, tais discursos teriam acontecido em 9 de janeiro, no dia exato em que se comemoraram os 20 anos da Lei 10.639, promulgada no primeiro mandato de Lula e que alterava a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, tornando obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira. Lei essa que foi reformulada 5 anos depois pela Lei 11.645, adicionando a obrigatoriedade do ensino da história e cultura dos povos indígenas. Gosto de pensar que a escolha do 9 de janeiro não tenha sido uma coincidência. Mas o tsunami fascista que se abateu sobre o Brasil adiou a posse de uma mulher negra e de uma mulher indígena – algo, no mínimo, sintomático.

 
Não há transformação possível que não passe pela educação

Dentre as palavras e ideias de Anielle Franco e de Sônia Guajajara fico, respectivamente, com a necessidade de pensarmos em reparações para as populações historicamente marginalizadas pelo racismo e com a imagem de que o futuro é ancestral. A reparação à qual Anielle Franco se refere significa não só um reconhecimento, mas também uma responsabilização do Estado brasileiro no que tange ao caráter estrutural do racismo. O futuro ancestral mencionado por Sônia Guajajara, por sua vez, aponta que os novos caminhos só serão possíveis, se olharmos para trás, para quem veio antes.

Não foi por acaso que ambas remeteram a tempos distintos para apresentar como vão pensar e gerir os ministérios que assumiram, apontando que tal comprometimento está alicerçado num amplo diálogo com a sociedade civil e, sobretudo, com os demais ministérios que compõem o atual governo. Porque não basta dar o diagnóstico, é preciso prescrever o tratamento adequado.

Imagino que ambas as ministras saibam bem que as urgências do Brasil são antigas e arraigadas e, ao mesmo tempo, se renovam todos os dias para manter um futuro desigual. E, pelo teor de seus discursos, imagino que elas também saibam que não há transformação possível que não passe pela educação, pela ampliação e melhor aplicação das leis 10.639 e 11.645.

Precisamos salvar os yanomami. Mas também precisamos ensinar e aprender sobre e com os yanomami, sobre e com as comunidades quilombolas, sobre e com as demais aldeias indígenas brasileiras, sobre e com as comunidades periféricas, sobre e com os movimentos sociais.

Imagine se a luta antirracista se transformasse numa escola que reinventasse os sentidos de brasilidade?

Talvez essa seja a nossa maior urgência.

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Ynaê Lopes dos Santos - Mestre e doutora em História Social pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de História das Américas na UFF. É autora dos livros Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro (Hucitec 2010), História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017), Juliano Moreira: médico negro na fundação da psiquiatria do Brasil (EDUFF, 2020) e Racismo brasileiro: Uma história da formação do país (Todavia, 2022), e também responsável pelo perfil do Instagram @nossos_passos_vem_de_longe.

 

fonte: https://www.dw.com/pt-br/um-pa%C3%ADs-de-muitas-urg%C3%AAncias/a-64518010

 


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