Intérprete da delegada Inês em Olhar indiscreto, Tulanih comenta que o set na série era muito feminino ー do elenco à contrarregragem

 

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O protagonismo feminino está em todo lugar da série nacional Olhar indiscreto (Netflix). E vai muito além da mera visão sensual e objetificada da mulher. A produção traz atrizes em papéis de destaque e empoderados, como uma hacker ou uma delegada.

Intérprete da delegada Inês, a atriz Tulanih ressalta que esse protagonismo também acontecia atrás das câmeras. “O protagonismo feminino de Olhar indiscreto está na frente e atrás das câmeras e isso é muito importante de dizer. Além de um time de maravilhosas atrizes, tivemos a presença de fortes mulheres na direção, na autoria da obra, na adaptação do texto, na direção de arte, de fotografia, no figurino, na preparação de elenco, na operação da câmera e por aí vai… Estamos ajudando a romper com uma antiga estrutura no audiovisual, com esses espaços sendo ocupados majoritariamente por homens”, reflete.

Tulanih comemora o papel e o considera um marco na carreira, “por ser diferente de tudo que eu já fiz”. A atriz conta que, por Inês ser uma mulher negra ocupando um cargo de autoridade, pode ajudar outras mulheres que assistirem a Olhar indiscreto. “Fico pensando o quanto a Inês pode inspirar outras mulheres a ocupar cada vez mais espaços como esses, em que nossas capacidades profissionais são postas em questão o tempo todo. Isso sem falar na luta contra a fetichização dos nossos corpos em quase todo ambiente de trabalho onde não se ‘autorizava’ o gênero feminino”, afirma.

Além de atriz, Tulanih é professora de teatro. A pandemia trouxe para ela o desafio de atravessar aquele momento sem sair dos palcos e das salas de aula de alguma forma. O saldo é um “aprendizado significativo e expressivo de que não sobrevivemos sem cultura e do quanto os artistas e as pessoas que dedicam seu tempo para produzir arte são fundamentais para a vida humana”.

Ela lembra o quanto foi desafiador convencer os alunos a participar de uma aula de teatro on-line, “mas durante o processo fomos entendendo juntos que o teatro e a arte de uma maneira geral, mesmo em uma configuração virtual, distanciada, era também o espaço de acolhimento dos nossos medos e, por muitas vezes, onde poderíamos criar um mundo possível e menos triste em meio a tanta dor.”

Entrevista // Tulanih


Foto: Rodrigo Lopes

 

Olhar indiscreto é um sucesso não só no Brasil, mas em muitos países. Esperava isso? A que atribui tamanha aceitação?
A gente esperava que a série fosse chamar a atenção do público, sim, por se tratar de um thriller psicológico quem tem a sensualidade e o desejo feminino como tempero poderoso da trama. Mas, com certeza não imaginávamos bater números históricos, como chegar em 4° lugar do top 10 mundial em séries de língua não inglesa e ter mais de 34 milhões de horas assistidas já na primeira semana de estreia. Ficamos no top 10 de 57 países, entre eles a Turquia.

Falas negras é um especial que acabou marcando época. Como foi participar desse projeto?
Foi como um presente dos orixás mesmo. Eu faço teatro desde criança e sempre atuei, mas só consegui me profissionalizar aos 21 anos de idade. Formei-me em teatro, vivi experiências, encontros lindos e poderosos, mas somente aos 31 anos eu consegui participar de um projeto com a magnitude e relevância que foi o Falas Negras. Mais do que isso, eu estava participando de algo em que eu verdadeiramente acreditava e sabia dos impactos grandiosos que o especial na TV aberta teria para a realidade do povo preto no Brasil. Pela primeira vez, eu teria alguma visibilidade para seguir com esperança de encontrar caminhos para trabalhar como atriz sem ter que acumular mais cinco empregos para poder viver o sonho de fazer o que se ama. Falas Negras marcou uma época e me marcará para sempre, pois ali eu renasci e aprendi juntamente com tantas outras pessoas que assistiram ao programa.

Precisamos de mais especiais como esse na TV aberta?
Sem dúvida alguma! Precisamos de mais produções que documentem a história e preservem a memória dos povos que foram obrigados a construir essa nação e hoje lutam contra o apagamento sistemático de suas narrativas e o desrespeito ao seu legado. Falo não só do povo preto, mas dos povos originários que até hoje são duramente atacados e lutam por sua existência num contexto social hostil e brutal. Mas pensar na criação de mais projetos como esse na TV só faz sentido se essas mesmas pessoas também estiverem envolvidas na produção do conteúdo. A gente já cansou de ver quem é totalmente fora do contexto enriquecendo com nossa cultura, enquanto a gente assiste a tudo silenciado. Queremos ver esses programas sendo feitos para que também se abra espaço no mercado audiovisual para pessoas que vivem cotidianamente uma realidade que para muitos só existe na ficção.


Foto: Rodrigo Lopes
 
 

Algumas novelas e séries tratam de racismo no meio das tramas. Qual a importância disso?
Infelizmente o racismo está aí em tudo que a gente possa imaginar. Não abordá-lo como tema, principalmente, de novelas que talvez seja o produto de maior alcance popular e territorial, seria representar um “cotidiano social brasileiro” que nunca existiu. Ainda mais se pensarmos que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão, motor econômico de crescimento e configuração da sociedade que vemos hoje. Falar de racismo sempre vai ser importante, fundamental e necessário, até porque tematizá-lo em produções audiovisuais não o exclui das estruturas desses ambientes também, se é que você me entende. Temos muitas mudanças para ver acontecer ainda.

Você é professora de teatro. Como o teatro sai da pandemia?
Teatro é resistência! Ele vai sobreviver nos lugares mais hostis e inóspitos. É sua essência. Acho que a pandemia lançou luz sobre muitos problemas que o próprio teatro e seus fazedores já enfrentavam, como: a necessidade de democratização de recursos e acessos; mais investimentos na cultura teatral; valorização e políticas efetivas de subsídios das companhias, artistas e trabalhadores do teatro; ampliação de mais espaços e a preservação dos que já existem… Enfim… O teatro sai da pandemia como muita sede do encontro com seu público, pois ele é vivo, mas também com uma profunda necessidade de resolver essas e tantas outras questões que se arrastam por anos e anos no nosso país.

Acha que algum aprendizado da experiência virtual ficará? Qual?
Acho que o aprendizado mais significativo e expressivo é que não sobrevivemos sem cultura e o quanto os artistas e as pessoas que dedicam seu tempo para produzir arte são fundamentais para a vida humana. Foi desafiador dar aula de teatro on-line, pois os alunos questionavam a importância desse estudo em um cenário de tanta escassez e terror. Mas durante o processo fomos entendendo juntos que o teatro e a arte de uma maneira geral, mesmo em uma configuração virtual, distanciada, era também o espaço de acolhimento dos nossos medos e, por muitas vezes, onde poderíamos criar um mundo possível e menos triste em meio a tanta dor. Somos seres com infinitas subjetividades e elas precisam desaguar, acredito que a arte é esse rio composto por muitas nascentes.

 

fonte: https://blogs.correiobraziliense.com.br/proximocapitulo/atriz-tulanih-comemora-o-protagonismo-feminino-de-olhar-indiscreto/

 


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