Desde a década de 1970, a atividade de produção de calçados de couro, até então predominante em Toritama, cidade do agreste de Pernambuco, foi substituída pela produção doméstica de pequenas peças de roupa.
 


Crédito: Arnaldo Sete/GN.

por Adriana Amâncio, em parceria com o site Gênero e Número

Desde a década de 1970, a atividade de produção de calçados de couro, até então predominante em Toritama, cidade do agreste de Pernambuco, foi substituída pela produção doméstica de pequenas peças de roupa.

Hoje, a base da indústria têxtil da cidade é o Ouro Azul, nome dado ao jeans. A matéria prima essencial dessa atividade econômica elevou o Produto Interno Bruto (PIB) do município de 47 mil habitantes, encravado no Semiárido, a R$ 707 milhões, em 2020 – seis vezes maior que o registrado em 2005. 

Em 2017, o setor teve um faturamento de R$ 3,5 bi, segundo a Agreste Tex. Por ano, o Império do Jeans produz 800 milhões de peças e é responsável por 15% da produção consumida no Brasil, segundo o Sebrae. 

Tudo isso ocorre com uma estrutura básica, que conta essencialmente com as facções, como são chamados os espaços onde se dá a etapa final de produção das peças e onde a força de trabalho é majoritariamente feminina. 

Em Pernambuco, de acordo com a PNAD-2015 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), 270 mil pessoas trabalham na indústria da transformação, onde se insere a atividade das costureiras do jeans de Toritama. No setor, três de cada quatro trabalhadores são homens e menos de um terço deles trabalha sem carteira assinada.

Para as mulheres, que representam um quarto da força de trabalho na indústria da transformação do estado, a informalidade predomina: mais da metade das trabalhadoras do setor não tem vínculo por regime de CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

Em 2021, Toritama registrava 2.265 trabalhadores formais na indústria da transformação, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Na capital do jeans, onde a principal atividade econômica é sustentada por mulheres, elas representam apenas um de cada quatro trabalhadores com direitos no setor.

Trabalhar doente 

Luana Silva, 33 anos, é dona de uma facção no Sítio Oncinha, área rural de Toritama. A costureira responde às solicitações de entrevista com áudios curtos, nos quais é possível ouvir o som do motor da máquina de costura ao fundo. Ela parece estar sempre com pressa e o barulho é persistente, mesmo fora do horário comercial.

“Eu já trabalhei com febre, porque se eu não trabalhar, não sai mercadoria. A gente vem trabalhar doente mesmo, que é para a meta não cair”, dispara Luana, que é mãe e única cuidadora de quatro filhos – de 19, 13, sete e quatro anos. 

“No início dos anos 2000, com a abertura econômica e o discurso neoliberal, começa a ideia de que as pessoas deveriam empreender”, analisa Marilane Teixeira, economista, professora e pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais do Instituto de Economia da Unicamp.

É sob o incentivo de organismos multilaterais nos arranjos produtivos locais, especialmente em regiões com mais dificuldades econômicas, como o Nordeste, que o Império do Jeans dá os seus primeiros passos. Esses arranjos produtivos com a embalagem de empreendimentos dão a tônica do comércio do ouro azul. 

“Quando dá bom, eu faço mil peças na semana e ganho R$1 mil”, afirma Luana Silva, que não desgruda o olho da meta lançada pelo empresário. Caso ela não consiga cumpri-la, perde o cliente. Na facção de Luana, além de seu filho de 19 anos, Isnaldo, trabalham outras três mulheres contratadas.

Quando começou a trabalhar na indústria do jeans, Luana tinha 10 anos. Em Toritama, é comum que as crianças realizem pequenas atividades de limpeza da peça de roupa. Esses trabalhos, considerados como ajuda, são a porta de entrada para uma longa jornada. 

A acessibilidade do serviço, que pode ser realizado em casa, apenas com uma máquina de costura, somada à pouca exigência quanto ao nível de formação, fez da produção do jeans a única alternativa para muitas mulheres. Para Luana, que cursou até o quarto ano do Ensino Fundamental I, a costura é a tábua de salvação.

Entre os trabalhos que as costureiras de Toritama realizam estão colocar bolsos e reatas (alças que ficam no cós da calça por onde o cinto passa), travetar (reforçar a costura da braguilha e em torno dos botões), abrir as casas (abrir os espaços onde se abotoa a calça), colocar vista (pespontar os bolsos laterais e traseiros) e embotar (abrir a ponta do cós da calça e colocar o botão logo acima do zíper). 

Por cada uma dessas tarefas paga-se entre R$0,10 e R$0,25. O salário semanal final é o resultado da soma do valor pago por esses serviços ao do valor pago pelo total de peças produzidas. Quem realiza apenas uma ou duas dessas atividades ganha centavos por cada aplicação. 

Ao longo de sete anos, Luana trabalhou em uma fábrica com carteira assinada. Há dez anos, possui a própria facção. Nesse período, ela deu à luz a três filhos. Em todos os casos, voltava à máquina alguns dias depois do parto. No trabalho informal do jeans, ter mais um filho representa a necessidade de mais trabalho para arcar com as novas despesas, o que encurta o tempo do puerpério.

Além de coordenar o espaço e negociar com os empresários, Luana também costura para compor o salário. Ela ganha, por peça, R$ 0,60 com o próprio trabalho, mais R$ 0,40 por cada peça produzida pelas costureiras que usam suas máquinas, o que totaliza R$1 mil por semana. “Eu pego das 7h às 11h, volto às 13h e fico até  17h30. Às terças, quintas e sextas faço serões até meia noite”, conta.

Essa mão de obra intensiva, que catapultou os números em uma cadeia de produção precária, fez com que Toritama se tornasse a capital do jeans. A cidade pode ser considerada um parque fabril a céu aberto. A cada esquina, praticamente em cada casa, há uma facção. 

No rio Capibaribe, que corta a cidade, e nos córregos e lagos, a água tem coloração azul. Até as pedras e a vegetação que margeia os cursos hídricos é azulada pelo resíduo da lavagem do jeans, que, em grande parte, não é tratado.

A meta a ser batida dita o ritmo da cidade. De segunda a quinta, motos, carros com carroceria transportam peças em jeans para lá e para cá. A sinfonia das máquinas de costura é entoada por horas, em cada canto da cidade, e se intercala com movimentos repetitivos de mãos e pernas. 

Às quintas-feiras, quando acontece a Feira do Jeans, no Parque das Feiras, a cidade é tomada por pessoas de diversas localidades do estado de Pernambuco e do Brasil. O frisson toma conta daqueles que veem nas horas de venda a oportunidade de escoar ao máximo a mercadoria. 

Pela cidade, moradores celebram a atividade. O agricultor Gersino Gomes, 75 anos, acredita que a indústria do jeans é um divisor de águas. “Antes, Toritama era uma cidade que o povo passava fome. Agora, homem, mulher, menino tem o seu dinheirinho. [O jeans] é o braço forte da cidade”, arremata.


Córrego poluído ao lado de uma das lavanderias localizada no centro da cidade. Foto: Arnaldo Sete/GN.

Trabalho infinito

Na visão de Marilane Teixeira, o trabalho no jeans não é empreendedorismo. “Empreendedorismo é quando você, a partir da sua  criatividade, desenvolve um trabalho e busca mercado. Essas relações não têm nada a ver com empreendedorismo, pois são marcadas pela presença de alguém, que demanda por esse trabalho e estabelece como ele deve ser realizado”, avalia a pesquisadora.

Se a fabricação do jeans se desse em uma linha de produção, as mulheres teriam uma jornada de trabalho com possibilidade de descanso adequado. Quem viveu a maior parte do tempo essa rotina foi Roseane da Silva, 46 anos, que trabalhou durante 29 anos em fábricas. Há um ano, ela possui uma facção no bairro Novo Alvorecer, no centro de Toritama. 

“Na fábrica é bom porque ganha mais, mas eu não posso trabalhar porque eu sofri um AVC [Acidente Vascular Cerebral] e não sirvo, porque não dou mais produção. Esse braço meu [aponta o braço direito] não levanta”, comenta a costureira. 

Devido a limitação do movimento no braço, um dos membros mais usados na lida com o jeans, Roseane foi descartada como uma peça que deu defeito. Muitos empresários preferem terceirizar o trabalho nas facções, porque o custo é mais barato que o de manter um profissional na linha de produção. Nas facções, os empresários impõem metas curtas para produção de milhares de peças e não precisam barganhar muito para que alguém aceite o desafio.

Hoje, com a sua facção, Roseane trabalha apenas com a produção da frente de calças, durante três dias da semana, trabalho pelo qual recebe R$ 1.300 por mês. Com esse dinheiro, ela sustenta a casa e dois filhos. Há alguns meses, sua filha Doralice Batista, 18 anos, começou a trabalhar com a mãe.

Como a facção fica em frente à casa de Roseane, ela caminha alguns passos até a cozinha, onde o almoço é preparado, enquanto avança na produção do jeans. Em geral, as facções são montadas dentro de casa ou em um local muito próximo. É aí que o trabalho doméstico e o trabalho fabril se misturam, o que torna a jornada ainda mais exaustiva. 

Para Erica Silva, diretora da Mulher de Toritama e autora do trabalho de conclusão de curso (TCC) “O descosturar da trajetória de mulheres de Toritama”, a atividade permite a conciliação com as tarefas domésticas. “Na verdade, não é uma dupla jornada, as jornadas se unificam, uma vez que acontece tudo ao mesmo tempo”. 

“Tem gente que pensa que é fácil porque tem a facção, mas não é. Com o passar do tempo, muda muito o psicológico, esse negócio de bater a meta mexe muito com a mente”, afirma Lidiane da Silva, 37 anos, que está há 27 anos na produção de jeans, três deles dedicados à própria facção.

Segundo Lidiane, ela só não vive mais agitada mentalmente porque não acumula os serviços domésticos. Ela dá uma “ajuda” – uma quantia em dinheiro – à sogra para remunerar tarefas como preparo do almoço, limpeza da casa e outros serviços domésticos. 

“Eu me acho fraca para dar conta da produção do jeans e ainda cuidar da casa, entende? Hoje, faço mais serviço doméstico durante o fim de semana”, explica Lidiane. 

A meta a ser cumprida transforma a vida das mulheres do jeans em um eterno presente, já que o mais importante é ganhar o sustento no dia a dia. É assim que o trabalho na fabricação do jeans e o serviço doméstico convergem como atividades infinitas, que têm hora para começar, mas não têm hora para acabar. 

Em Toritama, é comum que as mulheres tenham uma máquina de costura em casa para realizar pequenos reparos. A experiência anterior com a costura de peças em couro também contribuiu para a predominância delas na indústria do jeans. Tudo isso é reforçado pela falta de ofertas de outros postos de trabalho e a baixa escolaridade. “Só tem isso, por isso tem que trabalhar no jeans”, afirma Larissa Carla da Silva* (nome fictício), 58 anos, que trabalha há 28 no setor. 

A jornada de Larissa, que está prestes a se aposentar na categoria atividade agrícola, começa às 8h e vai até as 17h. Em dias de serão, ela segue até as 21h. Ela pediu para não ser identificada na reportagem por medo de que isso comprometesse o avanço do processo de concessão da sua aposentadoria. 

Luana Barbosa, 23 anos, filha de Larissa, nasceu em meio ao ruído persistente das máquinas e há um ano se rendeu à produção do jeans. Hoje, ela sustenta a filha de um ano pregando reatas. Por cada peça, ela ganha R$ 0,16. “É bom! Só tem isso para fazer, não tem emprego em outra área, então a gente se acostuma”, declara resignada, após um longo suspiro.  

Ao longo da pesquisa de campo, Erica Silva, entrevistou diversas costureiras e afirma que a frustração é um sentimento comum entre elas. “A gente encontra mulheres frustradas porque tiveram que escolher entre a família e o trabalho, nesse caso, a costura, que é o que dá para conciliar com o trabalho doméstico. Frustradas por não terem concluído os estudos, que ficou no cantinho dos sonhos”, comenta.

Elaine da Silva, 38 anos, tem três filhos e trabalha na facção de Lidiane da Silva. Vítima de depressão pós-parto e de violência psicológica em casa, ela afirma com convicção: “Eu prefiro estar aqui [na facção] do que em casa. Em casa eu não tenho paz. Na facção, o tempo passa sem eu perceber”, afirma. 


Lidiane Patrícia fundou sua própria facção, mas chega a trabaljar 14 horas por dia. Foto: Arnaldo Sete/GN.

Adoecer de trabalho

Muitas das costureiras do jeans em Toritama, com menos de 40 anos, convivem com dores na coluna, na cabeça e nas pernas que tornam o trabalho cada dia mais inviável. 

A médica e pesquisadora em Saúde Ocupacional da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), de São Paulo, Maria Maeno, alerta para a insalubridade do ambiente de trabalho dessas mulheres. 

“O trabalho com o tecido gera poeira, que as prejudica. Elas fazem muitos movimentos com as mãos e passam muito tempo sentadas, além de perseguirem a meta, o que mexe com o psicológico. Essas mulheres são extremamente sobrecarregadas física e psiquicamente”, Maeno.

“O que eu mais sinto doer é a coluna, a cabeça e as pernas. Sinto muita dor nas pernas por causa do movimento na máquina”, reclama Luana Barbosa, que começou a trabalhar na indústria do jeans aos sete anos e já acumula 16 anos de trabalho. “Eu peço para ter saúde e continuar trabalhando no jeans. E que não mude a função [atividade econômica], porque se aparecer uma coisa que tenha que ter estudo, não sei como vai ser”, afirma com temor.

Pulverização da demanda dificulta controle 

Procurado pela reportagem, o Ministério Público do Trabalho de Pernambuco (MPT-PE), afirma que realiza forças-tarefa na indústria têxtil de Toritama. Grande parte dessas ações se concentram nas lavanderias, onde já ocorreram acidentes e onde há necessidade de regularizar as condições de segurança. A reportagem visitou alguns desses espaços e viu que essa etapa é uma das que conta com menos participação das mulheres. 

Já na linha de produção, a procuradora do MPT-PE, Vanessa Patriota, afirma que foram feitos levantamentos com base em visitas realizadas a cerca de 150 facções. A ação resultou em um mapeamento que, dentre outros problemas, constatou que, além de viver em condição de trabalho intensivo, essas mulheres não possuem acesso à creche, o que torna obrigatória a montagem da facção na própria casa.

De acordo com Vanessa, há uma grande pulverização da demanda do serviço nas facções, o que dificulta ações de regulamentação. “Em Santa Catarina, as facções atendiam a lojas como Renner e Riachuelo, que inclusive já foram ajuizadas por excessos na forma de demandar o trabalho. Em Toritama, as facções atendem pessoas físicas, jurídicas e pequenos comerciantes que vendem na Feira do Jeans. É preciso fazer um mapeamento para identificar essa parte da cadeia”, explica.


Vista aérea da cidade de Toritama, sob céu azul com muitas nuvens e montanhas ao fundo no horizonte. Em primeiro plano, está a ponte sobre o rio Capibaribe no lado esquerdo da imagem e o rio à direita, com água cobrindo apenas o trecho mais perto da ponte, no centro da foto. Crédito: Arnaldo Sete/GN.

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fonte: https://marcozero.org/trabalho-precario-de-mulheres-sustenta-industria-do-jeans-em-toritama/


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