Transmitida oralmente por milênios, a cosmogonia dos Guarani Mbya chega à quinta tradução escrita. O primeiro ser, o Colibri, nutre de seiva o criador. A palavra é sinônimo de alma e sua enunciação, ato político, que semeia novos mundos

Mulher guarani mbya fumando o petyngua. Foto: Vhera Poty, obtida na página Crónicas de la Tierra sin Mal 

Por Álvaro Faleiros na coluna “Visões indígenas em tradução”. Ilustrações de Anita Ekman, extraídas do livro A terra uma só, de Timóteo Verá Tupã Popygua (Hedra, 2022)

Leia os outros textos da coluna Visões indígenas em tradução.

Cada cultura tem os seus textos fundadores nos quais são contadas a sua interpretação das origens do mundo. Em nosso mundo cristão, essa história provém da Bíblia. A sua tradução em latim, conhecida como Vulgata, foi elaborada por São Jerônimo com a ajuda de Santa Paula de Roma entre fins do século IV e o início do século V. Traduzida do hebraico, aramaico e grego, ela serviu de base por mais de mil anos para a consolidação da fé cristã. Foi só em 1534 que uma nova tradução, de Martinho Lutero, foi impressa pela primeira vez, servindo, por sua vez, de fundamento para o protestantismo e para o estabelecimento da língua alemã. Esses dois momentos-chave da história do cristianismo ilustram bem o papel central ocupado pela tradução na organização e na consolidação tanto da fé cristã quanto das línguas modernas europeias.

Entre os Guarani Mbya, nação indígena dominante no sudeste e sul brasileiros, esse testamento ancestral costuma ser nomeado Ayvu Rapyta. Guardado como um tesouro durante milhares de anos e transmitido oralmente de geração em geração, ele só começa a circular entre os brancos a partir dos anos 1950, quando foi revelado ao grande estudioso paraguaio e defensor da cultura guarani León Cadogan, que o traduziu como “El fundamento del lenguaje humano”. 

Publicado originalmente em tradução para o espanhol no Boletim da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP em 1959, esse texto sagrado só começou a ser traduzido para o português em 2001. Coube a Kaká Werá Jecupé, hoje referência entre os escritores indígenas brasileiros, a primeira tradução, intitulada Tupã Tenondé – a criação do Universo, da Terra e do Homem segundo a tradição oral Guarani. Nela, Jecupé acrescenta comentários a cada um dos quatro cantos que compõem essa rica interpretação da origem do mundo, que ele traduziu como “Os fundamentos do ser”. A essa versão de Jecupé, hoje esgotada, seguiram-se, no Brasil, duas outras traduções. Uma da grande poeta e tradutora Josely Vianna Baptista, incluída em seu Roça Barroca, publicado pela Cosac Naify em 2011; nela, Ayvu Rapta é traduzido como “A fonte da fala”.

A outra apareceu mais recentemente. É o belíssimo A terra uma só, de autoria de Timóteo Verá Tupã Popygua. Publicada originalmente em 2017, a obra desse escritor, líder e ativista guarani, ganhou uma segunda edição em 2022, ambas na fundamental Coleção Mundo Indígena da editora Hedra, coleção esta dirigida pela antropóloga Luísa Valentini. Nela, em vez de chamar esses quatro cantos de Ayvu Rapta, na esteira do que propõe Cadogan, ele prefere chamá-los de Ara Ymã, que é traduzido por ele como “Tempos primordiais”. Seu deslocamento interpretativo é revelador, pois não se trata para ele de, nos quatro cantos, descrever apenas a origem e os fundamentos da linguagem ou da fala, mas sim de evidenciar que esses quatro cantos são a gênese do próprio mundo, segundo os Guarani Mbya, como veremos a seguir.

Diferentemente das traduções anteriores de Jecupé e Vianna, que reproduzem o texto de Cadogan e traduzem o Ayvu Rapta em versos, Popygua opta por uma versão em prosa, que arriscamos resumir como segue… 

No primeiro canto, conta-se como, desde a noite originária, surge uma luz infinita Nhamandu Tenondeguá (primeiro pai divino) que, por sua vez, gera um banco (apyka), de onde surge o cocar divino de plumas enfeitado com orvalho de flores (jeguaka poty yxapy rexa). Por entre as plumagens de flores, o Colibri (Maino), pássaro originário, voa e alimenta com seu néctar o primeiro pai divino. Nesse momento, a Terra ainda não fora criada, tampouco havia sol. Nhamandu iluminava a noite com seu próprio coração. É da sabedoria de Nhamandu, que emana de seu coração, que brotam as belas palavras (ayvu porã rapta), a fonte do amor infinito (mborayu miri) e o canto divino (mborai), as três fontes divinas da sabedoria infinita.

Nota-se, claramente, que, antes de fazer brotar desde a sabedoria infinita de seu coração as belas palavras acompanhadas da fonte do amor infinito e do canto divino, Nhamandu gera um banco onde assenta sua saberia e o cocar divino enfeitado com orvalho de flores. Surge também nesse contexto, ainda na escuridão, o Colibri, que alimenta o pai criador com seu néctar. Diferentemente do que ocorre na Bíblia, ele não está só e já é alimentado pela natureza, na figura de um beija-flor.

Desde essas fontes divinas, no segundo canto, provém o Sol (Kuaray), a Neblina (Jakaura), a Chama (Karai), o Trovão (Tupã) – que representa também a chuva e o vento –, assim como os seis firmamentos, onde moram o Sol, a Neblina, a Chama, o Trovão, o Colibri e o próprio Nhamandu.

Desse modo, muito antes da própria humanidade, vemos surgir grandes forças cósmicas, o Sol, a Neblina, a Chama e o Trovão (com o vento e as águas). É a criação dos elementos primeiros que antecedem a própria criação da Terra, numa leitura simbólica não muito distante do que nos diz hoje a astrofísica sobre a própria criação do Universo.

No terceiro canto, Nhamandu cria a primeira Terra (Yvy), que se estendeu sobre o oceano primitivo. Ali Nhamandu avista a primeira árvore brotando, que se amplia em floresta. Ele vê também surgirem os primeiros animais. A serpente foi o primeiro animal que viu rastejar. Diante dessas criações, canta em agradecimento Nhakyrã pytãi (a cigarra vermelha). Surge também Yamã (o Girino), protetor das nascentes e com ele as nascentes e seus afluentes. Vendo que havia florestas, mas não planícies, Nhamandu cria então Tulu Ovy (o Gafanhoto azul), que fez brotar os campos e planícies. Em agradecimento a essas criações, começa a cantar o pássaro Ynambu pytã (o nambu vermelho). Quem fez o primeiro buraco foi Xiguyre (o Tatu). Terminado o trabalho, Nhamandu pôde descansar e cuidar de suas criações.

A sabedoria milenar guarani, uma vez mais, descreve à sua maneira a ordem de fazimento do mundo: a terra, o oceano, a árvore, os animais – o girino e a serpente primeiro. O gafanhoto (inseto) a seu modo, abre a floresta para os campos e o plantio, o pássaro agradece, o tatu cava a terra. O trabalho primeiro da criação está feito.

No quarto canto, os quatro filhos de Nhamandu – o Sol, a Neblina, o Trovão, a Chama – criam seus descentes, os humanos primeiros, dando-lhes sabedoria espiritual, o canto sagrado, as belas palavras e o cachimbo, este para que recebam as emanações dessas belas palavras. As danças rituais surgem para dar força física e mental. Assim os humanos podem acompanhar os ciclos da vida, marcados pelo Ara ymã (tempo frio, primordial) e o Ara pyau (tempo das chuvas e do calor).

Nessas condições surgem então os humanos, que adquirem, por sua relação com a natureza, a sabedoria espiritual, o canto, a palavra e o cachimbo. É sabido que o tabaco é uma das plantas mais sagradas para os indígenas e está presente em grande parte dos rituais de cura. Se a neblina serve de conexão entre céu e terra, a fumaça do tabaco liga o homem ao sagrado, claro, se fumado segundo a tradição, caso contrário, o tabaco fuma o homem (e não o contrário). Em seguida, vem a dança, imagem do próprio ritual organizador da vida em sociedade, espaço de transmissão e vivência dos próprios ciclos da vida.

A sabedoria contida nesses quatro cantos é acrescida de outras duas partes, que não se encontram nas traduções anteriores e que se intitulam Oguata porã (Desde o início do mundo) e Tataypy Rupa (Lugares renascentes em Yvyrupa). Em Oguata porã é descrita a caminhada do povo Guarani pelo que se chama hoje América do Sul. Durante a caminhada, os Guarani descobrem rios, montanhas, o oceano, vulcões, plantas, alimentos e vão povoando esse grande bioma que é a Mata Atlântica. Tataypy Rupa, que encerra o livro, é dedicada à importância das águas e ao trabalho dos homens, especificamente de Popygua. Ao descrever sua caminhada, afirma, entre outras coisas:

Nhanderu criou a Terra para que possamos todos viver nela. Apesar de os Guarani viverem na amplidão e sem fronteiras, desde os anos 1970, muito tempo depois do desaparecimento das bandeiras e dos bandeirantes, no estado de São Paulo, onde cresci, os Guarani Mbya se viram novamente obrigados a lutar pela defesa de seu território e pelo reconhecimento de suas Terras, visando à demarcação das aldeias.

Esse breve trecho ilustra a atualidade da luta desse povo originário, que segue sendo ameaçado e espoliado, muitas vezes impedido de viver sua cultura milenar, cuja sabedoria, como os cantos acima demonstram, trazem muitos ensinamentos.

O livro conta ainda com um posfácio assinado por Anita Ekman, artista visual que ilustra o livro e que convive há muitos anos com os Guarani. Intitulado “A tradução do espírito”, o posfácio contém preciosas informações, como a de que “espírito e palavra são sinônimos na língua Guarani Mbya”. Assim, complementa Ekman, “para um Guarani, a tradução de suas palavras-alma para a língua portuguesa é um desafio que transcende o literário; é em si um ato político”. 

Com efeito, toda tradução de um texto sagrado é um ato político, assim aconteceu com São Jerônimo e com Lutero ao traduzirem a Bíblia, assim acontece com Jecupé, com Baptista e com Popygua ao traduzirem o Ayvu Rapta | Ara Ymã. Nesse caso, esse ato também passa pelas lindas ilustrações do livro, uma vez que é muito comum nas culturas indígenas associar texto e imagem, linguagens complementares, para trazer a complexidade do mundo e suas cosmo-geografias. 

Enfim, num texto carregado de tão rica cosmovisão, a presença constante de intraduzíveis é inevitável. Dizer Ayvu Rapyta não soa necessariamente como “El fundamento del lenguaje humano”, pois as palavras no original guarani que aí se enunciam trazem consigo o espírito de uma cultura viva que tem muito a dizer. Em versão mais recente, ainda inédita, Adalberto Müller, em cuidadosa reflexão histórico-poético-etimológica propõe como tradução para Ayvu Rapyta, “O cerne da alma-língua”, numa prova de que textos tão fundamentais sempre pedirão para ser retraduzidos.

   

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