Confesso que me colocaram a persona de ser judia depois que entrei para a universidade. Os embates, a discriminação começaram então. 

Por Eva Alterman Blay, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

https://jornal.usp.br/?p=683528

Publicado: 14/09/2023

 

 

Foi em 1961, quando ganhei uma viagem para Israel. Éramos um grupo de jovens, alguns universitários, outros desterrados por suas famílias por razões variadas, e fomos de navio. Viagem desconfortável, nada como se vê hoje nos transatlânticos. O primeiro susto que tive foi presenciar uma inacreditável recusa de um garçom de servir um passageiro que estava sentado perto de nós: o garçom era francês e branco e o passageiro, negro! Para mim, brasileira, que convivia com pessoas de todas as cores e tipos, custei para entender o que se passava. O segundo espanto se deu quando cheguei a Israel e queríamos visitar o “Muro”. O Muro simbolizava e continua a simbolizar o que resta do Segundo Templo em Jerusalém. Ora, eu, brasileira, mesmo não sendo religiosa, nunca me sentira proibida de entrar em qualquer lugar – igrejas católicas, procissões, sinagogas, templos espíritas – e, logo em Israel, não podia nem chegar perto do Muro. Subimos no telhado de uma casa e o espiamos bem longe. O Muro ficava no território da Jordânia e era proibido para os judeus. Mas eu não era brasileira? Difícil explicar o sentimento de, repentinamente, ser uma pária.

Hoje, 30 anos depois, e muitas guerras, lutas, mortes e ditaduras depois, Diogo Bercito (Folha) me lembrou que foi em 13 de setembro de 1993 que Rabin e Arafat apertaram as mãos fechando o Acordo de Oslo. Gesto corajoso, trazia esperanças. E me lembrei do jovem Beilin que conheci em Brasília em 4 de outubro de 1993. Certamente por ser judia e senadora fui convidada a recepcionar Josefh Beilin, vice-ministro das Relações Exteriores de Israel. O artífice do Acordo de Oslo visitava o Brasil acompanhado dos embaixadores de Israel em Brasília. Era um momento fantástico para o Brasil e principalmente para Israel em busca de seus parceiros. Lembro de uma discreta conversa que tivemos quando ele me perguntou sobre antissemitismo no Brasil.

Eu não era mais a ingênua jovem brasileira que pouco vivera o antissemitismo. Confesso que me colocaram a persona de ser judia depois que entrei para a universidade. Os embates, a discriminação começaram então. É claro que a concorrência, a disputa entre estudantes e entre professores, levou a que as pessoas fossem empurradas para “seus” lugares (não por acaso a sociologia explica exatamente isso). Ser chamada de judia… esclareço que há 30 anos nós nos identificávamos como “israelitas”. A palavra judeu era nome feio, não usávamos o vocábulo nem em casa, pois nossos pais também aprenderam, junto ao português, que aquela era uma palavra maldita, trazia todas as culpas ensinadas pela tradicional religião católica. Só com o Concílio Vaticano II a situação foi modificada e começamos a nos identificar como judeus.

Se os conflitos em Israel não melhoraram, penso que o quadro internacional também está muito pior. Leio no Le Monde (12/9/2023) a afirmação do psicanalista Gerard Miller: os judeus franceses perderam sua bússola moral ao apoiar a extrema direita de Marine Le Pen. Será que o quadro brasileiro é muito diferente? Os judeus brasileiros se dão conta de quanto se aproximaram da extrema direita?

Nos últimos governos, esfacelou-se a democracia. A reconstrução se dá com tímidas participações das parcelas excluídas da população. Ainda assim, as mulheres eleitas são atacadas, desrespeitadas, até expulsas dos cargos conquistados pelo voto, através de pressão de parlamentares por vezes até do próprio partido (Blay, 2023, em texto apresentado na Berlin Frei Universität). Despudoradamente se apresentam na Câmara projetos que procuram excluir ainda mais o parco apoio à presença da população negra e das mulheres nos cargos políticos. Fortalece-se a desconstrução da democracia e se reforçam as relações patriarcais e o racismo, enquanto se excluem da escola e do trabalho a maioria da população. Foi esse o mecanismo que levou à eleição de negacionistas, indivíduos que pregam o trio fascista disfarçado em nome de deus. Será que vamos ver repetir-se a antiga história: subjugam-se as mulheres, excluem-se os negros e em seguida perseguem-se os judeus?

fonte: https://jornal.usp.br/articulistas/eva-alterman-blay/dilemas-de-uma-brasileira-judia-ou-de-uma-judia-brasileira-como-queiram/

 


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