Estudante foi interrogada pela Polícia da Moralidade por não usar o hijab (véu islâmico) de forma adequada e empurrada contra o chão, afirmou ONG ao Correio. Autoridades reforçaram segurança no hospital, em Teerã

Armita Garawand em foto recente publicada nas redes sociais  -  (crédito: Reprodução)
Armita Garawand em foto recente publicada nas redes sociais - (crédito: Reprodução)

 

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Rodrigo Craveiro - Correio Braziliense
postado em 04/10/2023 06:00 / atualizado em 04/10/2023 07:47

Armita Garawand, 16 anos, luta pela própria vida na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Fajr, em Teerã. A estudante está em coma profundo desde domingo (1º/10), quando foi abordada pela chamada "Polícia da Moralidade" por não utilizar o hijab (véu islâmico) de forma adequada, na estação de metrô de Shohada, em Teerã. Membro da diretoria da Organização de Direitos Humanos Hengaw, Kamaran Taimori afirmou ao Correio que recebeu relatos de testemunhas e de familiares de Armita.

"De acordo com eles, Armita e duas amigas queriam usar o metrô para irem à escola. Na entrada da estação, Armita foi interrogada pela Polícia da Moralidade — ou Patrulha da Orientação — pelo uso incompleto do hijab. Houve uma discussão entre eles. Os oficiais a empurraram e ela caiu com as costas no chão. Levantou-se e caiu repentinamente no chão, inconsciente", contou. 

Segundo Taimori, a mídia estatal do Irã divulgou um vídeo mostrando o momento que a jovem pe carregam, inconsciente, após a queda. "Armita está no hospital, e todas as câmeras estão à disposição da polícia", afirmou. A ONG Hengaw foi a primeira fonte a ser informada sobre o caso. O ativista disse que as forças de segurança imediatamente interrogaram os pais, os quais alegaram que a filha teve uma queda na pressão sanguínea. "Entramos em contato com seus familiares. Eles revelaram que o vídeo foi gravado sob pressão. Foram forçados a confessar", relatou Taimori.

A Hengaw denunciou que autoridades impediram visitas à garota, inclusive da família. A jornalista Maryam Lofti, funcionária do jornal Shargh, foi detida ao tentar preparar uma reportagem sobre o caso no Hospital Fajr. 

Mahsa Amini

A mídia estatal alega que Armita desmaiou por conta de uma queda na pressão. No entanto, a segurança reforçada no estabelecimento de saúde e a proibição de visitas põem por terra essa versão. O caso ocorre pouco mais de um ano depois da morte de Jina Mahsa Amini, uma iraniana de 21 anos que foi detida em 13 de setembro de 2022 e espancada por deixar uma mecha do cabelo aparecer. Amini não resistiu, depois de permanecer três dias em coma. A morte provocou uma onda de revolta por todo o Irã. Nas redes sociais e nas ruas, mulheres deixaram-se fotografar sem o hijab. Fogueiras acesas em Teerã e em várias cidades do país serviram para que as iranianas lançassem o véu islâmico e se deixassem fotografar e serem filmadas. 

Armita Garawand na unidade de terapia intensiva do Hospital Fajr, em Teerã: segurança reforçada no hospital
A jovem na unidade de terapia intensiva do Hospital Fajr, em Teerã(foto: Hengaw,org/X)

 

Ao ser quesionado sobre a possibilidade de a agressão a Armita realimentar a revolução, Kamaran Taimori respondeu que considera prematuro fazer qualquer prognóstico sobre mais protestos. "Temos de esperar para ver como o caso se desdobra", disse. Desde domingo (1º/10), não se tem notícias sobre Bahmand Garawand e Shahin Ahmadi, respectivamente pai e mãe de Armita, o que tem fomentado rumores sobre a garota de 16 anos ter o mesmo destino de Amini. Na rede social X — o antigo Twitter —, muitos iranianos pediam: "Armita Garawand, digam o seu nome". 

"A agressão a Armita Garawand pela Polícia da Moralidade mostra que o Irã, sob a República Islâmica, continua a ser o inferno na Terra para as mulheres iranianas. O regime é mais repressor e brutal do que nunca", desabafou ao Correio Alireza Nader, analista iraniano-americano baseado em Washington. "A comunidade internacional deve isolar e sancionar esse regime, e ajudar o povo iraniano na sua busca pela liberdade." Taimori rejeita o anúncio feito por autoridades de Teerã, em 5 de dezembro de 2022, sobre a desmobilização da Polícia da Moralidade. "Tratava-se apenas de uma propagada. Na prática, a Polícia da Moralidade continua. Ela apenas mudou alguns de seus métodos."

Uma das ativistas mais conhecidas do Irã e cotada para receber o Prêmio Nobel da Paz na sexta-feira (6), Masih Alinejad (leia Entrevista abaixo), 46 anos, também qualificou a notícia como "uma grande mentira". "A República Islâmica vendeu essa desinformação à mídia ocidental. Desde a morte brutal de Mahsa Amini, o regime tem estado sob muita pressão. A Polícia da Moralidade nunca acabou. Ela está em todos os lugares", admitiu ao Correio. Ela revelou que mantém contato com jovens, garotas, estudantes e mulheres no Irã. "Disseram-se que essa polícia está em lojas e em shoppings. As mulheres têm sido rejeitadas no serviço público, apenas pelo crime de não usarem o véu. Professoras são demitidas de escolas e universidades pelo crime de apoiarem mulheres sem o véu", denunciou.

 

ENTREVISTA / MASIH ALINEJAD, jornalista e ativista iraniana

"Somos o verdadeiro inimigo da República Islâmica"

"As mulheres não existem no Irã." O desabafo é da jornalista e ativista iraniana Masih Alinejad, 46 anos, exilada em Nova York desde 2009 e um dos nomes cotados para ganhar o Nobel da Paz, na próxima sexta-feira (6/10). Escolhida recentemente pela revista Time como "a mulher do ano", Masih lançou, em 2014, uma campanha em que pedia às mulheres que se filmassem sem o hijab (véu islâmico). Uma das mulheres mais temidas pelo regime teocrático islâmico admitiu ao Correio, por telefone: "As mulheres do Irã são o motor de uma revolução feminista chamada 'liberdade'. Estamos testemunhando uma revolução feminista no século 21". Masih também comparou os casos envolvendo Armita e Mahsa Amini. Ela fez questão de enviar à reportagem uma foto em que segura o hijab, com os cabelos ao vento.

 

Masih Alinejad, jornalista e ativista iraniana
Masih Alinejad, jornalista e ativista iraniana(foto: Arquivo pessoal)

 

Que repercussões o caso envolvendo Armita terá no Irã, na sua opinião?

Armita é uma garota inocente. Seus amigos e seus colegas expuseram a brutalidade da Polícia da Moralidade. Imediatamente, as autoridades levaram sua família à televisão para negarem a perseguição. Eu acredito fortemente que as pessoas no Irã não aceitarão essa história trágica que tem se perpetuado no país. O Irã está farto de que mulheres e garotas sejam perseguidas, torturadas, estupradas ou assassinadas pela Polícia da Moralidade. Armita tem apenas 16 anos e merece ter uma vida normal. Todos os seus amigos nos contaram que, por mostrar um pouco de seu cabelo, ela foi atacada pela Polícia da Moralidade. Isso foi exatamente o que ocorreu com Mahsa Amini. O povo iraniano jamais compra as fake news e a tentativa de acobertamento da República Islâmica, ao tentar dizer que ela sofre de uma doença e que sua pressão arterial caiu. É exatamente o mesmo cenário que usaram para Mahsa Amini.

As autoridades iranianas dizem que a Polícia da Moralidade foi extinta...

É uma grande mentira anunciada pela República Islâmica, que vendeu essa desinformação à mídia ocidental. A República Islâmica tem estado sob muita pressão, desde a morte brutal de Mahsa Amini. A Polícia da Moralidade nunca acabou. Ela está em todos os lugares. Câmeras estão espalhadas por todos os locais públicos, como estações de metrô, trens, lojas, tentando identficar as mulheres que não usam o véu para puni-las. Para milhões de mulheres iranianas, a Polícia da Moralidade nunca foi para lugar nenhum. Foi uma notícia falsa disseminada pela mídia ocidental. A República Islâmica e sua ditadura se mostram boas o suficiente para espalhar informações falsas, usam a liberdade de expressão para vender sua própria narrativa.

Como a senhora analisa o impacto da morte de Mahsa Amini?

Quando Mahsa foi morta, muitos jovens, pais e mães se associaram à história dela. Isso porque poderia acontecer com suas próprias filhas. Poderia acontecer com qualquer adolescente ou estudante. Quando as pessoas tomaram as ruas, suas demandas foram além do hijab. Elas pediram pelo fim do regime de apartheid de gênero. Para milhões de iranianas, a composição do hjijab não é um simples pedaço de tecido. Ele é o principal pilar da ditadura religiosa, de um regime de apartheid de gênero. É por isso que acreditamos que, logo depois da morte brutal de Mahsa Amini, as pessoas saíram às ruas para claramente exigir o fim da República Islâmica. Foi por essa causa que a República islâmica matou 700 manifestantes inocentes e deteve mais de 22 mil. Eles estupraram muitos garotos e garotas na prisão. Eles cegaram muitos manifestantes para instilar o medo entre eles. A morte brutal de Mahsa Amini se tornou um ponto de guinada para a República Islâmica e um início para os iranianos. O começo do fim dessa República Islâmica.

Que condições de vida as mulheres iranianas têm sob o atual regime?

Está muito claro para mim. A República Islâmica vê as mulheres, especialmente as iranianas livres, como um grande inimigo do regime. O Irã tentou vender a narrativa de que os EUA são o inimigo do regime. Acredite em mim: nós, mulheres, somos a maior ameaça para o regime islâmico. Por que eu digo isso? Porque, a partir dos sete anos, as mulheres têm que ser chamadas de "servas". Mulheres não podem ter uma vida normal. A partir dos sete anos, garotas são cidadãs de segunda classe, caso não cubram os cabelos. Mulheres não têm permissão para irem ao estádio. Não têm permissão para cantar ou para viajar ao exterior sem a autorização do marido. Mulheres não podem ter passaporte, sem a permissão de um parente do sexo masculino. Claramente, mulheres são cidadãs de segunda classe. É exatamente como as mulheres da série The handmaid's Tale ("O conto da aia"). Mulheres não podem existir. A Revolução Islâmica, ocorrida 45 anos atrás, tornou-se uma revolução contra as mulheres. Somos a maior ameaça para a existência do regime islâmico porque nada temos a perder. Temos sido oprimidas desde os sete anos de idade. A República Islâmica coloca nós, mulheres, no mesmo uniforme, faz com que sigamos a lei do hijab compulsório. Agora, quando mulheres e garotas de todo o país removem o hijab, enviam uma simples mensagem: "Não queremos ser escravas, não queremos seguir a sharia (lei islâmica), não queremos obedecer à tirania clerical do Irã; queremos ter uma democracia secular". As mulheres do Irã são o motor de uma revolução feminista chamada "liberdade". Estamos testemunhando uma revolução feminista no século 21. Por isso, o aiatolá Ali Khamenei, em seus pronunciamentos, tenta desqualificar as mulheres, ao afirmar que aquelas que removem o hijab são agentes dos EUA. Ele sabe que, se liderarem qualquer revolução, as mulheres vencerão.

Como as mulheres iranianas devem responder à opressão?

As mulheres no Irã nada têm a perder. Alguns agentes da polícia da moralidade têm filmado mulheres caminhando sem o véu. Elas têm encarado a câmera e afirmado: "Nada temos a temer. Somos corajosas o suficiente para levantarmos por nossos direitos". Isso mostra que existe uma guerra no Irã. Uma guerra injusta: o regime tem armas e balas, poder, prisão e dinheiro. Mas a pessoa tem as redes sociais e uma câmera. As redes sociais são uma voz poderosa para responder às restrições. As mulheres iranianas arriscam suas vidas para proteger a democracia.

O nome da senhora é cotado como um dos favoritos para receber o Nobel da Paz...

Quero ser honesta com você. Que paz? Não existe paz no Irã, no Afeganistão, na Ucrânia. Não precisamos de prêmios para a paz. Precisamos de ação de países democráticos para ajudarem os ativistas, os defensores dos direitos humanos, os guerreiros da liberdade, que se importam com a democracia, a dignidade, a igudalde, a vencermos essa guerra contra a República Islâmica — uma ameaça às mulheres de todo o planeta. Eu não quero receber esse Nobel da Paz, mas uma forte mensagem dos líderes democráticos de que se importam com a paz. (RC)

 

  • Desacordada, a estudante é carregada para fora do vagão, na estação Shohada, na capital iraniana
    Desacordada, a estudante é carregada para fora do vagão, na estação Shohada, na capital iranianaFoto: X/Reprodução
     

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