O que é essencial a um projeto pós-capitalista: os traços acidentais com que nascemos ou os princípios que prezamos e defendemos? A resposta parece óbvia, mas uma crítica mal-informda ao Iluminismo deixa parte da esquerda confusa

Por Susan Neiman | Tradução: Maurício Ayer | Imagem: Tizla Berhanu

Já se passaram 85 anos desde que o grande artista de blues Lead Belly cunhou a frase “stay waked” (“fiquem acordados”). Ela apareceu em “Scottsboro Boys”, uma canção dedicada a nove adolescentes negros, cuja execução por um estupro que não cometeram só foi impedida por anos de protestos internacionais e pela ação do Partido Comunista. Permanecer vivo diante da injustiça – o que poderia haver de errado nisso? Aparentemente, bastante. Em poucas décadas, o termo “woke” [acordado, desperto, consciente] foi transformado de um elogio em uma alusão ao abuso. Ainda assim, o fato de políticos que vão desde Ron DeSantis a Rishi Sunak1 utilizarem “woke” como grito de guerra não deve nos impedir de examinar os seus pressupostos. Não só os liberais, mas muitos esquerdistas e socialistas como eu estão cada vez mais preocupados com os sentidos que o termo assumiu.

O discurso “woke” atualmente é confuso, porque apela para emoções tradicionais da esquerda: a empatia pelos marginalizados, a indignação pela situação dos oprimidos, a convicção de que problemas históricos podem ser corrigidos. Essas emoções, no entanto, são desviadas por uma série de pressupostos teóricos – geralmente expressos como verdades autoevidentes – que, em última análise, as minam.

Tome uma frase do New York Times, publicada logo após a eleição de Joe Biden: “Apesar das raízes indianas da vice-presidente Kamala D. Harris, o governo Biden pode revelar-se menos indulgente com a agenda nacionalista hindu de Narandra Modi [o primeiro ministro indiano]”. Quem ler isso de modo rápido pode deixar passar o pressuposto teórico: as opiniões políticas são determinadas pelas origens étnicas. Se não sabemos nada sobre a Índia contemporânea, podemos não perceber que os críticos mais ferozes ao nacionalismo violento de Modi são os próprios indianos.

Bem, o New York Times não é nem o único, nem de esquerda – mas é um jornal que estabelece padrões para o discurso progressista em mais de um país. O que mais me preocupa aqui são as maneiras pelas quais as vozes contemporâneas consideradas progressistas abandonaram as ideias filosóficas que são centrais para qualquer ponto de vista de esquerda ou mesmo liberal: o compromisso com o universalismo em oposição ao tribalismo, a distinção firme entre justiça e poder, e a crença na possibilidade de progresso. Todas essas ideias estão conectadas. A direita pode ser agora mais perigosa, mas a esquerda de hoje privou-se das ideias das quais necessitamos se quisermos resistir à guinada ultraconservadora atualmente em voga.

Esta guinada à direita é internacional e organizada. A solidariedade que existe entre eles sugere que as crenças nacionalistas baseiam-se apenas marginalmente na ideia de que os húngaros, noruegueses, judeus, alemães, anglo-saxões ou hindus são, cada uma, a melhor de todas as tribos possíveis. O que os une é o próprio princípio do tribalismo: você só se conectará verdadeiramente com aqueles que pertencem à sua tribo e não precisará ter compromissos profundos com mais ninguém.

É uma amarga ironia que os tribalistas de direita de hoje achem mais fácil defender uma causa comum do que os da esquerda, cujos compromissos tradicionalmente resultavam do universalismo – quer eles o reconheçam ou não. O discurso “woke” é confuso porque muitos dos seus objetivos são de fato partilhados pelos progressistas em todo o mundo. A ideia de interseccionalidade poderia ter enfatizado a noção de que todos nós temos mais de uma identidade. Mas ao invés de fazê-lo, levou muitos a se concentrarem nas partes de suas identidades mais marginalizadas e multiplicou-as numa floresta de traumas.

A condição de “woke enfatiza as maneiras pelas quais a justiça foi negada a grupos específicos e busca retificar e reparar os danos. Mas quando se centra nas desigualdades de poder, o conceito de justiça é muitas vezes deixado de lado. A condição exige que as nações e os povos enfrentem os seus crimes históricos. Mas no processo, muitas vezes conclui-se que a história como um todo é criminosa.

O conceito de universalismo já foi definidor da esquerda; a solidariedade internacional foi a sua palavra de ordem. Isto era exatamente o que a distinguia da direita, que não reconhecia ligações profundas e via poucas obrigações reais com alguém fora do seu próprio círculo. A esquerda exigiu que o círculo abrangesse o Globo. Era isso o que significava ser de esquerda: preocupar-se com os mineiros de carvão em greve no País de Gales, ou com os voluntários republicanos na Espanha, ou com os combatentes pela liberdade na África do Sul. O que unia não era o sangue, mas a convicção – antes de mais nada, a convicção de que, por trás de todas as diferenças de tempo e espaço que nos separam, os seres humanos estão profundamente ligados de diversas maneiras. Dizer que as histórias e as geografias nos afetam é trivial. Dizer que elas nos determinam é falso.

O oposto do universalismo é muitas vezes chamado de “identitarismo”, mas a palavra é enganadora, pois sugere que as nossas identidades podem ser reduzidas a, no máximo, duas dimensões. Na verdade, todos nós temos muitas. Como Kwame Anthony Appiah nos lembra: “Até meados do século 20, ninguém que fosse questionado sobre a identidade de uma pessoa teria mencionado raça, sexo, classe, nacionalidade, região ou religião”.

A redução das múltiplas identidades que todos possuímos à raça e ao gênero não tem a ver com a aparência física. É um foco nas dimensões que sofreram o trauma mais generalizável. Isto representa uma grande mudança que começou em meados do século XX: o sujeito da história já não era o herói, mas sim a vítima. O impulso para mudar o nosso foco para as vítimas da história começou como um ato de justiça. A história foi contada pelos vencedores, enquanto as vozes das vítimas não foram ouvidas. Virar a mesa e insistir para que as histórias das vítimas fossem contempladas pela narrativa oficial era parte da correção de velhos erros. O movimento pelo reconhecimento das vítimas dos massacres e do escravismo começou com a melhor das intenções. Reconheceu que o poder e o direito muitas vezes não coincidem, que coisas muito más acontecem a todos os tipos de pessoas e que, mesmo quando não podemos mudar isso, somos obrigados a registrá-las. No entanto, algo deu errado quando reescrevemos o lugar da vítima. O impulso que começou com generosidade tornou-se totalmente perverso.

O caso limite desta tendência é a história de Binjamin Wilkomirski, o suíço cujas alegações de ter passado a infância num campo de concentração foram – descobriu-se – inventadas. Wilkomirski não estava sozinho. Nas duas décadas seguintes, houve uma onda de contemporâneos que inventaram histórias piores do que as que viveram. É uma tendência que contraria alguns dos heróis do pensamento pós-colonial, como Frantz Fanon, cujo Pele Negra, Máscaras Brancas proclama: “Não sou escravo da escravidão que desumanizou meus ancestrais”.

As políticas de identidade não apenas reduzem os múltiplos componentes das nossas identidades a um só: elas essencializam aquele componente sobre o qual temos menos controle. Prefiro a palavra “tribalismo”, uma ideia tão antiga quanto a bíblia hebraica. O tribalismo é uma descrição do colapso civil que ocorre quando as pessoas, de qualquer tipo, veem a diferença humana fundamental como aquela entre nossa triboe todos os outros.

O universalismo está agora sob ataque da esquerda porque está sendo confundido com o falso universalismo: a tentativa de impor certas culturas a outras, em nome de uma humanidade abstrata que acaba por refletir apenas o tempo, o lugar e os interesses de uma cultura dominante. Isto acontece diariamente em nome do globalismo corporativo. Mas vamos considerar o grande feito que foi chegar a essa abstração original para a humanidade. As suposições anteriores eram inerentemente particulares, assim como as ideias anteriores de direito eram religiosas. A ideia de que uma lei deveria se aplicar a protestantes e católicos, judeus e muçulmanos, senhores e camponeses, simplesmente em virtude da sua humanidade comum, é uma conquista relativamente recente. Hoje molda os nossos pressupostos de forma tão completa que não conseguimos sequer enxergá-la como uma conquista.

Consideremos também o oposto: o teórico jurídico nazista Carl Schmitt, que escreveu que “quem quer que diga a palavra ‘humanidade’ está querendo enganá-lo”. Em vez disso, poderíamos dizer: “quem diz ‘humanidade’ está fazendo uma afirmação normativa”. Reconhecer alguém como humano é reconhecer nele uma dignidade que precisaser honrada. Implica também que este reconhecimento é uma conquista: ver a humanidade em todas as formas estranhas e belas como ela aparece exige que você vá além das aparências.

O que você considera mais essencial: os traços acidentais com os quais nascemos ou os princípios que prezamos e defendemos? Tradicionalmente, foi a direita quem se concentrou nos primeiros, e a esquerda quem enfatizou os segundos. Esta tradição foi invertida. Não é surpreendente, então, que as teorias defendidas pelos “woke” minem as nossas emoções empáticas e intenções emancipatórias. Essas teorias não têm apenas fortes raízes reacionárias; alguns de seus autores eram nazistas declarados. As ideias influenciadas por Carl Schmitt e Martin Heidegger e seus epígonos ocupam muito espaço no programa progressista. O fato de ambos os homens não só terem servido os nazistas, mas também terem defendido fazê-lo muito depois da guerra, é conhecido. Mas a indignação, hoje, está reservada a passagens racistas da filosofia do Século 18.

Na verdade, muitos dos pressupostos teóricos que sustentam os impulsos mais admiráveis ​​dos que se assumem “woke” provêm do movimento intelectual que eles mais desprezam. Os melhores princípios “woke”, como a insistência em ver o mundo a partir de mais de um ponto de vista geográfico, vêm diretamente do Iluminismo. As rejeições contemporâneas a este período geralmente andam de mãos dadas com o pouco conhecimento sobre ele. Mas não espere avançar se você serrando, inocentemente, o galho onde está sentado.

Tornou-se um ato de fé afirmar que o universalismo – tal como outras ideias iluministas – é uma farsa concebida para disfarçar as visões eurocêntricas que apoiavam o colonialismo. Estas afirmações não são simplesmente infundadas: elas viram o Iluminismo de cabeça para baixo. Os pensadores iluministas inventaram a crítica ao eurocentrismo e foram os primeiros a atacar o colonialismo – com base em ideias universalistas. Quando os teóricos pós-coloniais contemporâneos insistem, acertadamente, que aprendamos a ver o mundo a partir da perspectiva dos não-europeus, estão fazendo eco a uma tradição que remonta aos pensadores do século XVIII, que arriscaram os seus meios de subsistência, e por vezes as suas vidas, para defender essas ideias.

Esta não é apenas uma questão histórica: precisamos das ideias do Iluminismo se tivermos alguma esperança de avançar contra o que é educadamente chamado de “tendências autoritárias do presente”. Mas não há tempo para polidez quando muitos líderes eleitos em todo o mundo minam abertamente a democracia.

Meu livro Left is Not Woke esboça os fundamentos teóricos de grande parte do discurso “woke” e defende um retorno a ideias iluministas que são cruciais para qualquer ponto de vista progressista: o compromisso com o universalismo em vez do tribalismo; a crença numa distinção de princípios entre justiça e poder; e a convicção de que o progresso, embora nunca inevitável, é possível. Tais ideias são um anátema para pensadores como Michel Foucault, o filósofo mais citado nos estudos pós-coloniais, ou Carl Schmitt.

Ambos rejeitaram a ideia de humanidade universal e a distinção entre poder e justiça, juntamente com um profundo ceticismo em relação a qualquer ideia de progresso. O que os torna interessantes para os pensadores progressistas de hoje é o seu compromisso em desmascarar as hipocrisias liberais. Schmitt foi especialmente ferino em relação ao imperialismo britânico e ao compromisso americano com a Doutrina Monroe. Ambos, argumentou ele, usam o sentimento piedoso pela humanidade e a civilização para disfarçar a pirataria flagrante.

Mas Land and Sea [Terra e Mar], seu livro que expande essas visões, foi publicado quando a Alemanha estava em guerra com a Grã-Bretanha e os EUA. É um velho tropos nazista. Schmitt não estava errado ao afirmar que as reivindicações universalistas de justiça destinadas a disfarçar afirmações de poder têm sido objetos de abuso ao longo dos séculos. Ele concluiu que a captura escancarad do poder, como a dos nazistas, não era apenas legal, mas legítima. Você pode pensar que isso é o melhor que se pode fazer. Ou você pode trabalhar para diminuir a distância entre os ideais de justiça e as realidades do poder.

Quanto a Michel Foucault, o seu estilo era transgressor, mas a sua visão era mais sombria do que a de qualquer conservador tradicional. Você acha que progredimos em direção a práticas que são mais gentis, mais libertadoras, mais respeitadoras da dignidade humana – todos objetivos da esquerda? Veja a história de uma ou duas instituições. O que pareciam ser passos em direção ao progresso revelaram-se formas mais sinistras de repressão. Todas são formas pelas quais o Estado estende o seu domínio sobre as nossas vidas. Depois de ver como cada passo adiante se torna um passo mais sutil e poderoso em direção à sujeição total, é provável que você conclua que o progresso é ilusório.

Os ativistas “woke” não conseguem ver que ambas as teorias subvertem os seus próprios objetivos. Sem universalismo não há argumento contra o racismo, apenas um bando de tribos disputando o poder. No outono [nórdico] de 2020, as poucas vozes que defendiam o Black Lives Matter, das quais eu era uma, eram universalistas. Se é a isso que a história política chega, não há forma de manter uma ideia robusta de justiça, muito menos de lutar de forma coerente pelo progresso.

Enquanto isso, os pensadores iluministas proclamaram que o progresso é (quase) possível. Seu envolvimento apaixonado com os males da sua época desfaz qualquer crença de que o progresso seja inevitável. Mesmo assim, eles nunca pararam de trabalhar nesse sentido. Como argumentou Kant, não podemos agir moralmente sem esperança. Para ser claro: esperança não é otimismo. Hope não faz nenhuma previsão. O otimismo é uma recusa em encarar os fatos. A esperança pretende mudá-los. Quando o mundo está realmente em perigo, o otimismo é obsceno. No entanto, uma coisa pode ser prevista com absoluta certeza: se sucumbirmos à sedução do pessimismo, o mundo tal como o conhecemos estará perdido.

Não é necessário estudar debates filosóficos sobre as relações entre teoria e prática para saber pelo menos isto: o que você pensa que é possível determina o quadro em que você age. Se você acha que é impossível distinguir a verdade da narrativa, não se preocupe em tentar. Se você acha que é impossível agir de acordo com qualquer outra coisa que não seja o interesse próprio, seja genético, individual ou tribal, você não terá escrúpulos em fazer o mesmo.

Recorda-se com frequẽncia que os nazistas chegaram ao poder através de eleições democráticas, mas nunca obtiveram a maioria até terem conquistado o poder. Se os partidos de esquerda estivessem dispostos a formar uma frente unida, como insistiram pensadores de Einstein a Trotsky, o mundo poderia ter sido poupado de sua pior guerra. As diferenças que dividiam os partidos eram reais; sangue havia até sido derramado. Mas embora o Partido Comunista estalinista não conseguisse percebê-lo, as diferenças empalideciam quando comparadas com a diferença entre os movimentos de esquerda universais e as visões tribais do fascismo.

Não podemos permitir um erro semelhante.

1Alusão ao governador da Califórnia e ao primeiro-ministro do Reino Unido, ambos conservadores e ultraliberais

   

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